irrepreensível
Não esqueci. Os teus olhos, vívidos como o sol daquela tarde. E tão deslumbrado eu estava perante um azul tão irrepreensível. Uma tarde amena e tão esplendida quanto esta. Assim notei o teu sorriso
(tu, que sabias sorrir com os olhos)
convidativo, a apelar-me com a força dos rios sulcando e saudando as suas margens.
Soube então que todo o teu rosto me transbordava. E era a tua liberdade contra a minha, tinha consciência do pesar em mim que podia desunir-nos quando só tão breves laços estávamos ainda criando. Apesar disso
(apesar de tudo)
a minha atitude foi de corresponder-te, sem me afligir pelas negras nuvens que sempre carreguei, apesar da tarde luminosa. A tentar perceber, por isso mesmo, como seriam os meus olhos escuros adentrando esse céu radiante que trazias no rosto.
Foste tu, porém, quem teve a iniciativa. Pequenos passos, cuidadosos, que deste para que um olhar mais profundo pudéssemos trocar, e os teus lábios, quase murmurando, me saudassem com o teu tímido
- Olá.
E falaste-me, atropelando o discurso porque te pareciam tão parcas as palavras para tamanha emoção que querias inequívoca
- Desculpa, sou uma tagarela… que parva! Não sei calar-me…
e eu, que nem sequer tinha conseguido responder à tua saudação, pedi:
- Podes abraçar-me?
Foi então que compreendeste. Foi assim que me conheceste. Num jorro de lágrimas sem soluço nem murmúrio. E, por teres percebido, não tentaste secar ou estancar a fonte desse choro pianíssimo. Porque
(havias de dizer uns anos mais tarde)
um rio quando nasce tem de correr, encontrar caminho entre íngremes desfiladeiros, inundar vales, deixando em seu leito uns e outros saciar a sede para, então e finalmente, chegar ao seu destino, calculando na foz outras águas desafogadas, constatando o quanto nunca se está sozinho nesse percurso.
Falámos depois, olhos com olhos, e os olhos também observando cada sílaba expirada pelos lábios. Os dedos tacteando, tão pueris os dedos com que nos tocávamos… E falámos muito. Descobri em ti um tesouro sem que me tivesse proposto a qualquer demanda. Ficaram promessas de uma outra vez que vieram a revelar-se tantas. E tantas vezes outros rios quiseram correr, tantas as palavras para dizer amor, tantos os gestos para confortar: estou aqui.
Prometias e cumprias. Eu prometia, mas esquecia. E quando me lembrava, voltava a prometer. Pedia que viesses
- Se vieres, prometo que sombra nenhuma.
E continuei a prometer, muitas vezes lamechices: ronronar comos os gatos, chilrear languidamente como os pássaros nas gaiolas. E continuava pedindo-te
- Dás-me de beber? Da tua fonte, dá-me a beber da tua fonte.
Foi assim, sempre assim, até que um dia pegaste num lenço e obrigaste-me a secar as lágrimas.
Hoje, passados estes anos todos, que outros homens foram em ti de passagem, quem mais te abraçou e quis beber-te, como eu bebi, sem saber a pureza que bebia? Foram como aquelas aves, das que partem e migram para longe, após breve repouso e saciedade? Resta-te ainda água para aliviar a permanente sede em mim?
Ainda susténs o sorriso apenas com os olhos? Ainda tens a flor da redenção no teu corpo, a limpa orquídea em líbido para a minha fome? Sem te apressares, sem teres de retocar a maquiagem, sem dares um jeito ao cabelo. Nunca tal foi necessário, és como as flores que sustentam a beleza contra os ventos, contra as chuvas, ainda contra as geadas… até contra a neve! Diz-me: poderás ainda demorar-te ao espelho por mim? Como aliviaste a fome e a sede de amor que sempre que te afligiu?
Se acaso esqueceste quem ainda és, meu brilhante ponto azul sobre o breu, vem. Vem comigo para te reencontrares, para me reencontrares. Eu não esqueci. Todos os dias venho regando o vaso das margaridas que me ofereceste, florindo de ano para o ano. Sim, rego-o ainda todos os dias. E percebo que essas flores fazem por desabrochar, nesta tarde de sol, primavera feita.
Tantas vezes sonhei com pétalas brancas caindo ao acaso. Então acordo, túmido e frustrado, lembrando o resquício da imagem que me ficou entre as remelas dos olhos e o bocejar de prostração, sabendo que, afinal, não eram ainda outra vez os teus dedos que suavemente me tocavam na delicodoce ardência do amor.
Porque, sabes? Eu não esqueci. E tu, ainda te lembras de mim? Ainda te lembras de ti, e da tarde azul? Conta-me como foi desde então. E eu contar-te-ei, vezes sem conta, sem palavras, sem murmúrios, sem soluços: como nascem os rios nas tardes de primavera. Amenas, logrando de dia para dia cada vez calor, a suscitar aquele azul imenso e irrepreensível da nossa tarde do primeiro encontro.
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foto de Aleksandr Yurin

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