glosa a cantiga do campo

dedicado a Elena Nikolaeva


mote:

Porque andas tu mal comigo
Ó minha doce trigueira
Quem me dera ser o trigo
Que andando pisas na eira

Quando entre as mais raparigas
Vais cantando entre as searas
Eu choro ao ouvir-te as cantigas
Que cantas nas noites claras

E falam com tristes vozes
Do teu amor singular
Aquela casa onde coses
Com varanda para o mar

Por isso nada me medra
Ando curvado e sombrio
Quem me dera ser a pedra
Em que tu lavas no rio


Pedro Ayres de Magalhães para Madredeus
A Cantiga do Campo
in Os Dias da MadreDeus, 1985



glosa:

Porque andas tu mal comigo, ó minha doce trigueira? Que foi que aconteceu, que foi que te fiz eu? Senão, confessa então, que outra coisa devia ter feito, dito, e não fiz e não disse? Primavera erguida, as searas mal-nascidas verdecem, crescendo ao sol, e nós dois de costas voltadas, como se as flores do tojo não fossem ambas responsáveis pelo perfume com que os montes se enfeitam, e seduzem. Vejo-te todos os dias na monda, e depois no regresso, quando o sol cai levemente para lá do rio. E, ao ver-te passar, nesse passo seguro, quem me dera ser o trigo que, andando, pisas na eira.

Quando, entre as mais raparigas, vais cantando entre as searas, sei que não é primavera em vão. As cerejeiras ensaiando, floridas, o fruto no topo dos seus ramos, e és tu a cantar; as andorinhas regressando ao ninho onde ficou esquecido o inverno, e és tu a cantar; o melro assobiando antes da alvorada e depois do sol caído, e és tu a cantar. Dizem que tu cantas de amor ofendido, alegre na melodia, triste no sentido. Porém, mais eu choro ao ouvir-te as cantigas que cantas nas noites claras.

E falam com tristes vozes do teu amor singular, ajuizando a minha perdição. Que não sei ou finjo não saber de nada, caminhando entre pedras como quem desdiz a vida. Se a desdigo não é por lhe falhar, é por me faltar o teu sorriso, os olhos com que antes me punhas, a compor o borralho com que nos aquecíamos de fantasia. É a vida que agora me desdiz, que me falha. A vida tudo me nega por perceber o teu rosto voltado, quanto te procuro n’aquela casa onde coses, com varanda para o mar.

Por isso, nada me medra. Ando curvado e sombrio. Má sorte de quem ama e sofre culpa do que não sabe. Não me incomodam as vozes, se não sabem do que falam. Quero voltar a ouvir-te cantar e piscando, na eira, o teu olho para o meu, agradecido. O que há, doce trigueira? Por que estás assim zangada? Aos sábados, pela manhã, continuo naquela ânsia de te encontrar, de te abraçar, sempre como quando a roupa ias lavar. E hoje, assim sombrio, já só quem me dera ser a pedra em que tu lavas no rio

*

versão em russo:

Посвящается Елене Николаевой

Глосса на Песнь полей

Эпиграф:

Почему ты на меня сердита, О моя смуглянка, свет очей? Стать бы мне пшеницей, что укрыта Под стопой твоей на току ночей.

Где поешь ты с девами другими, Проходя по нивам золотым, Плачу я под звуки эти, слыша Песнь твою под небом молодым.

И поют печальными голосами О твоей любви, что так чиста, В том дому, где шьешь ты под часами, Где с балкона морю нет конца.

Оттого ни в чем мне нет успеха, Я брожу, согбенный и хмурной, Стать бы мне камнем, что без эха Ты в реке кропишь водой речной.

Толкование:

Почему ты на меня сердита, о моя нежная смуглянка? Что же случилось, в чем моя вина? Если нет — признайся: что еще должен был я сделать или сказать, чего не сделал и не произнес? Весна восстала, и еще не окрепшие хлеба зеленеют, вырастая под солнцем, а мы с тобой стоим спиной к спине — будто цветы дрока не несут вместе ответственность за тот аромат, которым украшаются и соблазняют холмы. Я вижу тебя каждый день на прополке, а после — на обратном пути, когда солнце мягко опускается за реку. И, глядя, как ты проходишь мимо своей уверенной походкой, я думаю: стать бы мне пшеницей, что, проходя, ты попираешь на току.

Когда среди других девушек ты идешь, напевая в полях, я знаю: весна пришла не напрасно. Вишни, расцветая, пробуют на вкус будущий плод на вершинах своих ветвей — и это поешь ты; ласточки возвращаются в гнезда, где была забыта зима — и это поешь ты; дрозд свистит перед рассветом и после заката — и это снова ты. Говорят, ты поешь об оскорбленной любви: мелодия твоя весела, но смысл печален. Однако, еще больше плачу я, слыша твои песни, что поешь ты в светлые ночи.

И говорят печальными голосами о твоей единственной любви, судя о моей погибели. Будто я не знаю или притворяюсь, что не знаю ничего, шагая среди камней, словно отрицая саму жизнь. Если я и отрицаю ее, то не от измены ей, а оттого, что мне не хватает твоей улыбки, глаз, которыми ты прежде смотрела на меня, поправляя угли в очаге, где мы согревались нашими фантазиями. Это жизнь теперь отрицает меня, подводит меня. Жизнь во всем мне отказывает, видя твое отвернутое лицо, когда я ищу тебя в том дому, где ты шьешь, с балконом, обращенным к морю.

Оттого ни в чем мне нет успеха. Я брожу, согбенный и хмурной. Горькая доля того, кто любит и страдает, винясь в том, чего не ведает. Меня не тревожат голоса, если они не знают, о чем говорят. Я хочу снова услышать твое пение и увидеть на току твой взгляд, устремленный на меня с благодарностью. Что случилось, милая смуглянка? Почему ты так разгневана? По субботам, утром, я всё так же горю желанием встретить тебя, обнять тебя — всегда так, как в те дни, когда ты шла стирать белье. И сегодня, в этой мгле, я лишь шепчу: стать бы мне тем камнем, на котором ты стираешь в реке…


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foto de Vladislav Opletaev

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a canção:


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nota sobre este texto por
Maria Clara Resende
(a quem agradeço por tão delicada atenção)

O eco das searas: uma glosa ao rigor do tempo

Glosar uma canção pode parecer fácil, mas as canções de Pedro Ayres Magalhães, ainda que aparentemente simples, nunca me pareceram lírica fácil – sou suspeita, adoro os Madredeus. A fase inaugural e quase monástica de Os Dias da Madredeus (primeiro álbum da banda, de 1985) exigiu do autor desta singela glosa mais do que entender a perícia métrica da canção glosada. A exigência de uma afinidade espiritual com a canção em si, que suscita um Portugal que já mal se avista: o das eiras, das mondas e dos sentimentos que, de tão densos, se tornam geológicos. E que o autor não viveu, nem ninguém hoje vivo, praticamente. Então, a canção dos Madredeus não só ajudou a ir lá atrás (basta saber, a exemplo, o que Júlio Dinis escreveu nos seus romances mais bucólicos); a canção suscitou esse ambiente (imaginado ou não).

Assim, na sua glosa, José Alexandre Ramos não se limita a emoldurar o mote original; ele habita-o, expandindo o lamento lacónico do jovem aldeão para uma investida metafísica sobre o desamor e a co-responsabilidade dos amantes perante a paisagem. O mote de Pedro Ayres Magalhães é de uma pureza “acústica” absoluta. Fala-nos de uma “doce trigueira” que, por razões que a canção oculta, se remete ao silêncio. A glosa em análise, contudo, recusa aceitar a mudez do destino. O narrador interpela a ausência com uma crueza que falta à canção: “Que foi que aconteceu, que foi que te fiz eu? Senão, confessa então, que outra coisa devia ter feito, dito, e não fiz e não disse?”.

O que mais impressiona nesta leitura é a integração do sentimento na ordem natural. O texto coloca-nos perante o conflito humano em desequilíbrio com a própria flora: “como se as flores do tojo não fossem ambas responsáveis pelo perfume com que os montes se enfeitam”. Há aqui um entendimento profundo de que o amor, numa aldeia predominantemente “agrícola”, não é um ato isolado, mas uma função de todo um ecossistema. Se o par está de costas voltadas, então o monte perde o seu sentido decorativo e sedutor.

Enquanto a canção original diz da trigueira como um vulto que “vai cantando entre as searas”, a glosa eleva-a a uma entidade fenomenológica. A rapariga não canta apenas; ela é a própria manifestação da estação. O autor escreve: “as cerejeiras ensaiando, floridas, o fruto no topo dos seus ramos, e és tu a cantar”. Este recurso à personificação da natureza – é ela sempre a cantar, sejam os frutos, ou as andorinhas, o melro, o sol caído, cada elemento signo dessa personificação – serve para justificar o lamento do protagonista, nesse ecossistema. A dor não nasce apenas da falta da mulher, mas da percepção de que, sem o seu sorriso, a própria vida “desdiz” o sujeito. É um lirismo de substituição: a ausência da amada torna a primavera vã e o trabalho na monda num exercício de sombras.

Onde a glosa atinge o seu auge estético é na transição da casa para o rio. A casa com “varanda para o mar”, que no mote é apenas um cenário de distância, torna-se no texto um símbolo de negação activa: não existem, nas aldeias do interior, “casas com varanda para o mar”. Nessa negação metafórica, o narrador (da canção e do texto) procura o rosto da amada e encontra apenas a arquitectura da recusa. Como se o impossível “no campo” – “casa virada para o mar” – fosse o mesmo que o enfado da amada e a impossibilidade de o amante a resgatar.

A conclusão, recorrendo à imagem da pedra – “Quem me dera ser a pedra / Em que tu lavas no rio” – é tratada com uma humildade que toca o sagrado. O autor da glosa funde a “má sorte de quem ama” com o desejo de uma utilidade bruta e silenciosa. O texto termina no mesmo tom sombrio com que começou, mas agora carregado com a memória do “borralho com que nos aquecíamos de fantasia”.

Em suma, esta “glosa a cantiga do campo” é um triunfo da sensibilidade sobre o artifício. Consegue a proeza de manter a simplicidade desses tempos idos, do isolamento das aldeias do interior e a vida simples dessas pequenas e isoladas comunidades, evitando o anacronismo, enquanto dota o lamento popular de uma profundidade psicológica contemporânea. É, sem dúvida, uma das leituras mais felizes que José Alexandre Ramos nos oferece, por ser tão simples, mas com uma vibração que, penso eu, só pôde vir da escuta da canção, essa também igualmente simbólica de um país bucólico como o nosso.

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