a tua imagem depois de mim
Sabe-me a liberdade o sol acertando a tarde sobre as pequenas folhas verdejando as árvores. É primavera e enche-se de cravo o perfume neste dia tão especial, aniversário daquele que escolhemos para o nosso primeiro encontro. Mas preferes a rosa, tão mais próxima do aroma do meu corpo. Esse dia foi inaugurado para o nosso amor, argumentavas, e agias como se tudo combinasse. Sentes-te ainda hoje agradecido e humilde por me entregar assim a ti. A rosa, enleais-ma no cabelo, enquanto me beijas com essa saudade que trazes, sempre que regressas.
Eu aguento bem as tuas ausências, na paixão e por esforço do quanto posso, para insistir que somos ainda um para o outro. Porém, quando te dizes cansado, numa desilusão tão visível que me assusta, fico tão murcha e magoada. Chorosa, procuro o mimo do teu colo, a pedir desculpa por algo de que não tenho culpa, e nem sei o que é. Fico assim, tal órfã perdida que encontraste e a quem deste guarida por teres esse instinto de amor paternal. Acolho-me no teu colo para ser cúmplice das mágoas que tens e não confessas.
E quando a tua mágoa vem de mim, eu sei que alimento esses teus fantasmas do passado. Não quero que penses que eu venha a ser mais um caso perdido na tua vida, nem que me digas adeus. Isso não é connosco, não faz parte de nós. Em todo o caso, se o infortúnio nos bater à porta, e tu venhas a partir por qualquer desilusão de mim, sabe que foi sem querer.
A imagem que terei de ti será como crucifixo pendurado na parede, como esta foto que agora observo. Não farei orações, o crucifixo por ti na parede servirá tão só para me redimir e me lembrar das circunstâncias ardentes com que me levaste a adorar-te. A tua imagem, e do que dela posso sentir, levarei sempre comigo para que esteja eu sempre contigo. Mesmo que sejas mais feliz depois de mim.
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foto de Anna Volynskaia

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