dar a tinta por perdida
A dar a tinta por perdida
enquanto o pensamento
se dissolve na chuva que cai
sobre o granito escuro
sobre o musgo.
Não é fácil
ter-te assim disposta por argumento
e os contornos do papel enrodilhados
lamentando o pó.
Mas nada há
que possa aqui servir de lamento.
Como as minhas mãos
secas e tão rugosas
mal sobrevivem ao toque
dos teus beijos túrgidos.
No reflexo os espinhos
e os móveis na tua ausência
são monstros escuros
que escuso
não me assustam
de nada tenho medo.
Os sons repetem-se
as imagens e a medíocre glosa.
Doem-me os fragmentos
esquissos que assomam tardiamente
e não entendo
porque te têm a ti dentro.
Tinta assim gasta perdida
inodora e insonora.

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