a viagem de metro


Dá-me sono este clima temperado e húmido, pequenas chuvas, uma claridade sem sol. E as ruas, umas abandonadas, outras com gente tão cheia de uma pressa não sei bem de quê. Espreitam pelas janelas dos prédios mulheres nas suas lides domésticas, e eu, tão cansado, saí de casa sem resolver a pia com a loiça suja do almoço, porque não me apeteceu nada, como ninguém me apetece, a não ser a modorra, embalado que vou nesta viagem, e dá-me sono os solavancos e os ruídos do metro cheio – que diabo de evento há num sábado como hoje para encher assim duas carruagens do metropolitano? Mas, pensando bem, trata-se do último dia de novembro, as luzes

os centros comerciais enchem para as últimas oportunidades dos descontos dos blackdays, promoções a iludir o consumidor, e mesmo que já entardeça, esta claridade sem sol que insiste, já se vê bem nas estradas que a linha do metro cruza os farolins dos carros: amarelos e brancos para cá, vermelhos para lá, como que imitando as varandas, varandins e janelas dia e noite piscando a promessa da quadra natalícia que se aproxima cada vez mais cedo porque há dinheiro para gastar; eu embalado pelos solavancos escondo por momentos os olhos, o meu corpo tende a inclinar-se para a direita onde está sentada uma mulher. Pelo que, não viajo só

uma mulher, não sei discernir se mais nova ou quão velha como eu, unhas crescidas sem enfeite nem verniz, pernas semi-abertas porque um saco enorme entre os pés, e a cada inclinação da velocidade, também ela tomba, e roçamos ambos os ombros, depois as ancas e os joelhos, olho de soslaio, eu percebendo a forma da anca larga, coxas cheias, os joelhos amorosamente redondos sem qualquer ponta de osso que se veja, portanto, viaja ao meu lado direito uma mulher roliça, não sei ainda do rosto, nem do tronco, que os casacos, apesar deste clima temperado, já se vestem, amanhece e é frio, e ao entardecer igual, só não percebo esta humidade, alguma precipitação, é por isso que o velho magro e seco carrega o guarda-chuva em jeito de bengala

e se estivesse eu em casa, era mais um cigarro; não viajo só, são tantos e tantas, no metropolitano de superfície que vai cheio como se fosse dia da semana, fico entusiasmado com este banho de multidão sem ser o da rua, coisa que não esperava, pelo que observo, faminto de gente como estava, essa gente que se deixa ir, ora languidamente, ora exasperada, atravessada em pensamentos sabe-se lá quais; acolá o jovem com os jeans rotos no joelho balança também consoante os solavancos do metro, pendurado nas barras, mas de outra forma embalado com o que estará ouvindo nos auscultadores enfiados nas orelhas, os dedos tamborilando suave e silenciosamente sobre o varão onde se agarra, onde se segura também aquela miúda tão alta que a cada balanço roça o sovaco sobre a cabeça do jovem

o magricela do velho que ensaia algo como uma dança do ventre ao embalo da carruagem, todos os lugares sentados, a maioria são jovens que não lhe cedem o lugar do acento, mas não se importa o velho, se tem o seu ventre contra ventre ou o seu ventre contra o coração arredondado do traseiro das raparigas que viajam de pé; ele tão pequeno a dar ao ventre sem altura para se pendurar, dois dedos apenas entre mãos agarradas à rodela de um assento, e ninguém dá lugar ao velho?, mas ele, de facto, não se importa com a falta de civismo alheio, parece apenas um macaquito encostando-se a ventres e aos cu-rações, cheio de volúpia; acontece que a miúda mais alta está naquele meio, e ao sentir as suas coxas embatidas pelos ossos do velho magricela, reclama: Chegue-se para lá senhor, mas a realidade é não haver para onde quem quer que seja possa chegar-se; o jovem dos auscultadores, com o seu cabelo arrumado de gel amassado pelo sovaco da que reclama, desce os auscultadores para o pescoço numa atitude de quem quer perceber o que se passa; a mulher ao meu lado insinua uma leve troca de palavras

a rapariga alta muito aborrecida exclamando: Poça!, e o velho repetindo: Desculpe! a cada solavanco, porque esses não cessam enquanto a velocidade maior entre paragens, a sacudidela quando o travão aumenta o desconforto de quem vai em pé, e até os corações traseiros começam a demostrar alguma apreensão; alguém se levanta dos lugares sentados a pedir licença a cada centímetro entre os corpos para sair, e o dos auscultadores, muito subtil mas de quem entende a situação, encaminha com simpatia o velho magro para o lugar disponível onde se senta resignado, enchendo de alívio as que ao seu redor estavam como se o homem fosse um gordo a ocupar muito daquele espaço apertado

a mulher ao meu lado, observando a situação, muito divertida com o que acabara de testemunhar, comentou: Isto realmente!, em voz alta, talvez porque os seus botões fossem moucos ou quisesse partilhar o comentário comigo; contudo, o seu joelho encostado ao meu, com tanto solavanco e distração também as nossas ancas encostadas, ela sem se importar com tal, eu muito menos, que o toque e o calor humano ainda mais me embala neste sono que o clima me dá, finda a tarde, já sombras se anunciam, pelo que esboço um sorriso condescendente ao seu comentário, olhando para ela e percebendo, de soslaio, que as suas ancas, coxas e joelhos correspondem ao peito farto, um rosto redondo e um olhos que procuraram os meus, espelhando a esperança de uma empatia

o espaço apertado foi-se aliviando quando toda aquela gente pôde enfim seguir o seu destino para o shopping cujas lojas prolongam a promessa de descontos do blackweekend; já não se vê o velho magricela, já se aligeiraram as dos traseiros em forma do coração, conseguiu sentar-se o jovem dos auscultadores sem a pressão do sovaco da rapariga alta, e pareceu-me este alívio uma razão para que qualquer parte do meu corpo deixasse de tocar o da mulher que continua comigo ao meu lado, junto à vidraça; porém, parece que esse meu gesto não a agradou, pelo que mexeu no saco entre os pés, movimentando o corpo por forma a que voltasse a ficar bem encostada a mim, outra vez ombros roçando ombros, joelhos com joelhos, a quente ternura das ancas coladas como se os assentos não fossem de tamanho suficiente para caber duas pessoas lado a lado

uma empatia invulgar que se instalou entre o nosso olhar e o sorriso que trocámos. A viagem até à Póvoa de Varzim, o último destino do metro, ainda se prolonga, nem a meio do meu destino estamos, e eu tão aborrecido que estava em casa, sinceramente não esperava um banho de multidão como este, embora agora já pareça tudo normal para uma tarde sábado, temperatura amena, a claridade que não se esgotou sem haver sol, o sono que tenho, a velocidade do metro continua a embalar-me, e sinto realmente conforto, ou mais que conforto, talvez qualquer coisa mais da mulher que segue comigo, encostada a mim no trajecto que ainda me falta

a carruagem vai esvaziando, já há muitos lugares a dois e a quatro vazios para onde fogem as pessoas que querem viajar só. Novamente volto ligeiramente o olhar para o meu lado direito, e são os olhos da mulher que me encontram como se há muito estivesse à espera, e sorri tão simpática, eu esboço outro sorriso muito tímido por empatia; entretanto, ela saca do bolso o seu telemóvel, mais movimento do corpo roliço roçando o meu, flanco com flanco, espreitadelas vagas, e nenhuma palavra dizemos apesar do sorriso quando o nosso olhar se encontra. O meu sono aumenta, vou pestanejando para tentar ficar de olhos despertos, Póvoa do Varzim não é o meu destino, é bem antes, mas todo o meu esforço é em vão, acho que adormeci

confortável que estava com aquele corpo roçando o meu, os solavancos da velocidade, não sei onde estamos, apenas sinto o calor da mulher junto a mim, e entro num estado de vigília esforçando por ficar desperto, mas estava já a sonhar com não sei quê, não sei definir, apenas muito confortável, aconchegado, sentado ao lado de uma mulher que não conheço, encostados ambos flanco com flanco, será ela nova ou tão velha quanto eu, nem percebi se afinal é bonita ou feia, e que me interessa isso agora, vou quase a dormir, quase a entrar num qualquer sonho, a todo o instante procurando sair dele, não me deixar cair, mas o corpo leve, descontraído, sinto-me a tombar, acho que me mexi, acho que estou como se fosse de lado, querendo poisar a cabeça, imagino a minha cama, a almofada; a tarde saindo devagarinho esquecendo a claridade sem sol, arrefece a temperatura, e eu esquecido de onde estou, de onde vim

e só consegui abrir os olhos quando uma voz feminina anuncia pelo altifalante: Póvoa de Varzim fim de viagem, quando sinto uma mão suave acariciando-me o rosto, outra voz feminina, sussurrada, bem perto do meu ouvido, não a mesma do altifalante, dizendo: Já chegamos, numa meiguice maternal; e é então que percebo que realmente adormeci, esquecido de sair aonde era o meu destino, o metro interrompe a marcha com a última sacudidela do travão, e vou então percebendo que aquela mão carinhosa no meu rosto é a da mulher que esteve sempre aqui ao meu lado, que tinha a minha cabeça sobre o seu ombro, todo o meu corpo tombado para ela, o meu braço esquerdo sobre o seu corpo; e a mulher repete: Já chegamos, eu ainda atordoado, é noite lá fora e chove. Atrapalhado com a situação, esboço um pedido de desculpa, mas ela simplesmente responde: Não tem mal nenhum, faz trejeito para se levantar, pelo que eu me levanto num movimento repentino, deixo-a passar, e eis que me toma pela mão dizendo apenas Vamos!; eu saio do metro, mais longe do que o meu destino, levado pela mão daquela mulher, deixando-me ir como se ainda dormitasse entre sonhos da vigília em vão, dizendo tacitamente que sim à sua mão que aperta a minha.

O que se houve depois disso pertence a uma intimidade de que eu nunca me julguei cúmplice. E que me dita nunca esquecer dia como este. Mais que o namoro que se seguiu, algo como o filho único e tardio que vi nascer de uma mãe que não imaginava. A mãe, a mulher desse dia, dela apenas procurei conforto, mimo físico. Eu por ela, ela por mim. Não quaisquer pessoas: aquele e aquela que nos enchesse os olhos. E eu fui o homem que acabou por encher aquela mulher do metro com muito mais.



texto sujeito a revisão
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foto: Metro do Porto

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