cara metade
Possa vir o sol, e eu transformar a gradação entre manhã e tarde em modorra. Continuo aqui, esperando. Inquieta, a maior parte dos dias. Lânguida quando já não quero saber. Ou fingindo já não querer saber. Resvalando para o soturno, confesso. Desço os estores das janelas ainda o dia não está predisposto à inclinação das sombras. Os dias mais longos e eu cada vez mais diminuída.
Por que espero eu ainda? Deixaste-me outra vez com as mesmas promessas, esse imaginativo não-sei-quê de futuro connosco. E como pude eu ainda acreditar nas tuas levianas promessas? Porque, eu sei, que quanto mais promessas fazes, mais tu dás largas à tua leviandade. Qualquer rabo de saia te conquista, como se cada uma delas, dessas mulheres que nem sabem bem quem és, correspondesse ao teu propósito, que cada uma sorrirá ousada, que te levará aonde o teu ego insuflado deseja ir. E, afinal, nem sempre foi assim, para desespero teu. Quiseram muitas nada com os teus intentos, e as que ainda caíram no teu paleio acabaram por se arrepender.
Que tens, por que ages assim? Que tormento te aflige?
Não há perfeição, mas sei que toda eu, física e intelectualmente, te encho as medidas. Que, recorrendo a esse cliché que tantas vezes usas, eu sou de facto a tua
(estou convencida disso)
que eu sou a tua cara-metade.
Então, por que partes, por que sais de mim? Por que me desprezas? Por que hei-de eu ficar assim, à espera? À espera de que a culpa, a má consciência sobre a almofada que te dá insónias, te faça redimir, e que regresses ao meu colo. Quantas vezes poderei suportar os teus ciclos? Diz-me!...
É sexo? Queres foder assim tanto e diversamente? Que mais posso eu oferecer, e admitir, e subjugar-me nisso? Se já me viraste de uma ponta à outra, até à exaustão dos meus espasmos? Não entendes o clamor com que te chamo, lacrimosa, após cada partida tua? Abusas do meu corpo e depois partes, afirmando, todo irreverente, que és dono de ti, que mulher nenhuma condicionará a tua liberdade…
Que liberdade tens? Se andas atrás do que não podes, se corres insaciado e nenhuma dessoutras mulheres sequer o mínimo te dá?
É que… se eu deixar entrar o sol, creio que já não estarei aqui. Deixarei a inquietação. Afastarei a modorra. Serei jamais lânguida. Sabes, tudo se suporta até um dia. Até ao dia em que deixarei de acreditar que eu e tu somos
(somos? diz-me)
almas gêmeas, caras-metades, ou o raio que parta a qualquer cliché que uses, como cansada promessa com que sempre regressas. E, nessa altura, enfim, vais dar com esta casa vazia. Que será de ti então?
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foto de Aleksey Platonov
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