pescaria


Talvez reconstrua. Mas, o que há ainda entre nós? Cisma, vontade carnal, recomeçar o que não findou, como ressurreição do que estava supostamente declarado morto entre nós? Que poema escrevo, que fácil crónica faço? Que fantasioso conto posso engendrar? Que palavras ainda esperas de mim?

Se eu não fui expressivo com o simples

- Amo-te

pudeste compreender as palavras delicadamente sussurradas

- É tão bonito o amor

após uma descarga de saudade? Confessada após o alívio de meses, infligindo a caducidade do amor em mim sobre o mundo e as mulheres? E, afinal, aquele sorriso por ti traduzindo de que sempre vale a pena esperar?

E o que esperamos? Que seja eu assim e mais dedicado? E que tu te convenças que nenhuma outra pode ser mais depois de ti? Que tudo se resolve com o desejo dos nossos corpos para partir para outas águas?

A verdade é outra, talvez. É perguntar

- Onde está o rio?

perdido nos caminhos que até ele me levam. As ruas cada vez mais pequenas, o milho dourando nas tardes de julho, o casario quase disperso entre campos cultivados e outros abandonados, o velho tanque para a lavagem das enguias porque o rio não deu mais nada; sinaletas de que “aqui há bicha” embrulhada em papel de jornal velho para os anzóis dos aficionados pescadores de cana e carril de sediela

quão longe vão as minhas memórias

verificando a mais comprida língua de areia ou rocha para alcançar um fundo do rio onde surgisse o fruto para as suas pacientes e quase mágicas canas de pescar plantadas na orla – onde está o peixe? E onde estão esses pescadores de outrora?

Na minha caminhada para o rio, transpirando a cada metro calcado pelas ruas, há estas memórias de vários pretéritos, como as dos pirilampos que observavam os nossos beijos e se reuniam como numa comunhão para iluminarem os nossos gestos de amor, dos nossos membros enlaçados. Aquelas luzes do outro lado da margem, saudando-me para lá das pontes, aqueloutra mulher, qualquer coisa confusa entre uma amizade e interesses mútuos; eu olhava a outra margem, entre as rochas onde havia mais peixe, e dizia ao meu companheiro

- Lá há praias

e ele

- Mas não é como o nosso Areinho

ele a saber de tudo, de como o peixe picava, dizendo-me quando eu devia soltar o carreto e depois puxar, puxar sempre, até que no anzol

- Um robalinho!

e a cesta tombada para receber a colheita.

Eu e o meu companheiro de pesca, dissimulando nas pequenas ondas as confissões que um e outro precisávamos desabafar; ele dizia

- Ela a dizer que namorados como eu, quem os quer, arranja-os

como se arranjar fosse, ao mesmo tempo, o tempo de os conseguir e de os consertar. E eu consegui-te, mas não sei se te consertei.

Ele a insistir

- Quem os quer arranja-os

quando ela, a mulher que mais amou, decidiu arranjar outro amor (senão concertar o que tinha num outro). Pelo que, estar atento à movimentação da cana era coisa quase científica, não se tratava apenas de ver se a cana baloiçava conforme o vento, era ver como afundava, e nisso, ele

- Puxa, aligeira o carreto, e depois puxa!

e eu, puxando,

- Força, insiste!

acabando por pescar um robalinho.

Como te encontrei a ti, foste um robalinho, sem saber o que eu podia pescar.

Eu tinha o rio, onde se aprende que a paciência vale mais do que a força. Tu tinhas o mar, onde nunca se sabe se as redes regressam cheias ou apenas salgadas. Eu cresci a medir o silêncio pela oscilação de uma cana. Tu, talvez, pela demora de um horizonte onde os barcos desaparecem até deixarem apenas uma linha entre céu e água. Encontrámo-nos algures entre essas duas margens. Nem eu abandonei o rio, nem tu trouxeste o mar contigo. Apenas aconteceu que as águas, por um tempo, deixaram de saber de onde vinham.

Agora penso nisso. Durante anos julguei que bastava saber esperar, como me ensinaram as manhãs passadas no Douro. Tu talvez acreditasses que amar era confiar no regresso dos eus homens, como tantas mulheres acostumadas ao mar aprenderam desde cedo. Afinal, esperávamos coisas diferentes da mesma palavra.

Hoje, já não procuro o rio como então, nem imagino que perscrutes o horizonte à espera de embarcações. As canas ficaram esquecidas; talvez também as redes se tenham remendado para outras marés.

E é por isso que volto ao princípio de tudo, perguntando-te o que também me questiono:

- Se eu já esqueci a cana, e se tu ignoras as redes, o que nos sobra?

Sim, talvez reconstrua. Sem rio ou mar, em terra firme, e idealizando algo entre o reconstruído e o construído de pura raiz: vais ajudar-me a erguer uma nova casa onde, definitivamente, será o lar onde estaremos um para o outro, seja a ver a orla marítima ou ver como o rio cresce enrte maré baixa e maré alta?


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texto sujeito a revisão

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fot de Douglas Ross

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