por teu riso
O teu riso descontraído, como se nada no mundo pesasse, confirma a felicidade desta tarde fresca, conquistada para consumir a ardência que tínhamos um do outro. Observo-te como se mirasse uma fotografia tua com saudade, num futuro ainda distante em que me resumirei à memória do que as então velhas imagens trarão. És ainda mais bela se vista sob a neblina. Como se tivesse uma ilusão do que és enquanto não posso sentir, com o toque dos meus dedos em ti, e conhecer, concreto de desejo, a curva dos teus ombros, simétrica à curva das tuas ancas, a curva dos teus olhos
como Éluard sonhando
e a terna curva dos teus lábios; enquanto não podem os meus braços sentir o volume dos teus, o teu peito no meu, o teu ventre contra o meu. As minhas coxas enroladas nas tuas. E, então, desenganado da ilusão que podias ser sob o véu da neblina, o meu corpo hirto, erecto, chama-te com o pulsar do sangue. Uma procura de perversão a insinuar-se, que me enrijece as gengivas, torna feros os meus dentes sobre os teus mamilos, ao tornear o corpo da tua vulva entre golpes de língua.
Não sendo só os do corpo, todos outros e quaisquer sentidos que inauguras em mim. Tu, nunca retraída, uma outra fera que podia ser da mesma perversão
mas é tudo tão humano em nós, natural quanto intenso, intenso quanto animal
tu, toda tu, a tua pele que te faz assim como a água pela qual, exausto de sede, cedo e na qual bebo, não me importando se me afogo, ou se depois durmo, imerso, e sonho, e morro. Gritaste, por já não saberes dizer em gemidos, quando as tuas costas e nádegas se colaram contra a parede e eu contra ti, a golpear-te cheio do que sou, cheio do que me fizeste. Depois, o mar marulhando numa lentidão inventada, o marulho das ondas lá longe e regressando então, mais perto, um bailado de areia e espuma, uma pauta com um piano ora em andante, ora em allegro.
Entregues as cortinas à mesma coreografia da brisa – quase um vento – que solta a maresia pelo quarto enquanto elas se agitam, e nós ali, vencendo o cume das mais altas montanhas. Para depois descê-las, num vagar de rapina que plana no ar, olhando na distância onde colher a caça, e descendo, saciados mesmo antes de a fome estar extinta. Devagar, muito devagar, a relaxar de tanta frenética confusão dos músculos, eu então dissolvendo o meu corpo no teu, com a mesma cor leitosa de que são feitas as neblinas em pleno verão, a dar sossego e frescura, enquanto, no odor marítimo, surge um bando de gaivotas, ainda em sobressalto, levando o chão para longe, nunca deixando de gritar, de gemer.
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foto de Robert Gorzycki

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