entre estações


Os dias de verão vastos como um reino
Sophia de Mello Breyner Andresen

Assim me encorajo: a tua mão agarrada à minha. Esta união é a coragem que julgava inócua. Talvez seja por isso que, pela janela, venham por vezes estas ressas de sol

(a primavera querendo espreitar),

mas depois, lá surge uma sombra e o céu torna-se muito denso, de nuvens como chumbo, carregando a forte bátega que, como dizes, bendita seja, pois é precisa para manter a vegetação fértil e bem hidratada

(a primavera piscando o olho).

E eu a sentir que as minhas raízes se renovam dentro de ti, último ramo que pode uma árvore fazer verdejar e florir. Como uma árvore secular: sabendo estar perto o tempo de deixar cair as folhas no seu último outono para existir apenas como esqueleto num desolo sem fim. Esqueleto porque completamente nu a gritar os nódulos de madeira sobre as intempéries. E, finalmente, perecer de pé

(o inverno de riso abafado e escarninho).

Por isso mesmo, meu amor, sobra-me ainda a coragem por estar aqui, contigo, absorvendo a seiva que me dás com a tua mão agarrada à minha, enquanto observo com espanto o quanto cresceu a tua barriga, a última esperança da minha semente.

Quando eu perecer como a árvore no seu ciclo, conta ao meu rebento como se enamorou o meu coração com o teu. Que a sua coragem seja sempre maior do que a que tive, e da que me deste. Pode ser que assim sejam os seus dias de absoluto verão, vastos como um reino.


_
foto de Nataliya Jmerik

Comentários