acomodação

A verificar as lombadas dos livros, a música em acordes melancólicos de violino

- Por que insistes nesses clichés?
- Queres o quê? Não é o que todos fazem?
- Clichés?
- Sim.
- Clichés. Certo. Então?... Vá, avança, estou para ver.

e o intervalo entre o pouco calor de outono e esta chuva serena, a que entra pela janela, fechada, já nenhuma brisa insufla a cortina e arrasta levemente o pó das estantes, desencantando silêncios.

- Agora, nem sei.
- Não sabes o quê?
- Continuar.
- Se mal começaste, que queres continuar?
- Não concordas, então.
- Que há para concordar? Que foi uma tarde de tardio calor, depois veio chuva, que verificas os livros nas estantes enquanto ouves violinos tristes?… Até aqui nada de interesse, pelo que não é questão de concordar ou discordar. Apenas ver que desenvolvimento tem. Senão, constatar um exemplo de verborreia entre outros tantos, muitos exemplos.
- Desafecto-te.
- Não é desafectar-me. Sei que não és só isso. É que parece que já nem tem esforças.
- É sono.
- Sim, a desculpa do sono. Mas, ultimamente, é mais sono, sim. Nisso concordo. Adormeço a ler o que escreves. Não porque me embala, antes porque me aborrece.
- É sono meu, foi o que quis dizer.
- Deitas então as tardes a dormir, esse teu cliché.
- Nada disso: vou antes ver as árvores, as plantas, aquelas ervas daninhas…
- Agora está a chover…
- Não interessa. Vou para onde o que posso cuidar. Para onde, por cuidado, sou bem-vindo. Sem perder as tardes dormindo.
- Até amanhã.
- Dizes sempre isso quando não te interessa o que digo.

O que me obriga a deixar tudo aqui para regressar à mesma torre por Ary partilhada, com uma ou várias janelas. Vidraças enormes, essas que Melville não tornou possível a Bartleby, lá naquele esconso escritório, onde só havia, entre curvas de secretárias de antigo mogno, aquela única janela, sem cortinas, por onde brisas, ventos e chuvas bufavam, a desencantar o silêncio dos velhos tomos do guarda-livros.

- Está bem. Quando te decidires a sair desse conforto, avisa. Vou embora.
- Vais para onde? Chove agora.
- Vou também para onde o que posso cuidar.
- Desdizes do meu conforto
- É o meu desconforto.
- É? É assim que vais?
- É. Como te disse, quando decidires viver, avisa.

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