entre estar e não ser
Não sei, sei lá agora o que ainda me interessa… vi nascer o sábado a prometer-me o que desejava e acabei rendido ao seu crepúsculo, desiludido por uma íntima falsa promessa… que adiantou o costumeiro pré-aviso que amanhã, domingo, vem impor. Domingo, esse cicerone antipático, que suspende as horas de gozo e descanso para precaver, inventariar e focar no que mais uma semana de trabalho, de exploração, exige. Nem a madrugada, já saturada das minhas insónias, consegue aturar-me. Silenciosos estão os cães na distância, não comunicam pelos latidos os signos sobre os quais também se cansam. Ontem, alguém partiu daqui. Foi com quem eu queria ir, foi para lá, para além destas quatro paredes sempre protegidas pela sombra, e pelo sangue, e pelo álcool, e pelo fumo subindo em espiral; partiu com a ternura que há anos me tem feito tanta falta. É por isso que, em circunstâncias como esta, me sinto menos do que os outros, esses que afirmam gozar a vida e, sem qualquer equívoco, a felicidade. Credito-me na terra, em qualquer pé de horta, ainda crescendo e florescendo. Falam comigo num particular idioma de terra tão húmido e, depois, sentindo a língua mais solta pelo pensamento, outro idioma, menos complicado, que traduz em lama a água que lhes dou em demasia numa rega desenfreada e sem razão – o orvalho já faz a rega em cada manhã de outono… mas, como hoje o sol foi muito quente – imaginando a sua sede pela minha – dei-lhes a beber o que nem a água me sacia. E se não fez assim muito quente como prometiam nos noticiários, na mesma fui procurar o gelo no copo… o gelo simplesmente parou, e liquidificou-se, acabado sob o em álcool, tornando-se em água pesada, mais difícil de tragar. O limão pouco ajudou, também gasto e velho, como um desses idosos com vontade de dormir, mal as galinhas recolham aos poleiros. Sou e somos todos meros macacos de imitação a lutar pelo seu galho, outro poleiro, onde possamos pousar o cu em descanso, borrifando no resto – que se salve quem pode. Ninguém mais se sente assim? Todos queremos protagonismo, porque não queremos perder pitada do que é a vida. Quando a vida, afinal, é uma roda da sorte a testar o tempo – horas, dias, meses e anos – como quem espera a lavagem de roupa numa máquina programada pelos cêntimos que sobraram no fundo da algibeira. Mais fácil seria a vida como um procedimento automatizado, essas tais linhas traçadas pelas quais o destino-algoritmo nos faz resignar. Aceitar o que é, resmungando quando nos cansamos, mas, se concedido algum repouso, ainda dando para retirar as ramelas dos olhos e ir pelo mesmo de sempre. Hoje não queria que fosse dessa forma, mas quem sabe vencer o tempo? Só o tempo, ele mesmo, demónio disfarçado confundindo a verdade com a mentira, afirmando que com ele tudo se cura e com ele tudo avança, só o tempo sabe vencer-se a si mesmo. O tempo teve, tem e terá sempre tudo. Porém, como se esquece muitas vezes e nas mais equívocas, a criar ilusões sobre desilusões, quedamo-nos a tentar perceber se ganhamos ou perdemos. Quando nos faz de esperança, desmancha-a com a sombra da dúvida; se nos deixa cansados e lânguidos, retira-se, faz de conta que não existe. E isso bem se vê aqui, na palma das minhas mãos, na raiz dos meus cabelos: não importa ser, só importa saber aproveitar o tempo que o tempo deixa. Mas assim eu não funciono. Há coisas que nunca devemos perder. Se as perdemos, quem somos? Eu já perdi e continuo perdendo o que era meu por direito, ainda que ajuizado pelo tempo. Chegado à bifurcação, tenho apenas dois destinos a escolher: o da resignação – o mais cómodo e fácil – ou essoutro, labiríntico, em que serei capaz de exclamar: bardamerda, vou até onde é possível.
_
foto de Andreev Stanislav

Comentários
Enviar um comentário
O seu comentário não ficará logo visível, será visto por um moderador para evitar publicação directa de comentários abusivos (spam). Obrigado.