pretérito presente
Não me perguntes se há amor. Minha querida, há muito amor, e tanto! Só não percebes a sua medida. Sim, a tua ainda é tão pequena, mesmo que te consideres mulher madura. Eu sou o além para o aquém que representas. Tu tens o mundo inteiro, eu já só sou uma ilha.
Não te iludas, nem desiludas o corpo que ainda és. Só amor não basta. A quimera nunca foi o forte dos homens, nem mesmo daqueles que a conceberam e lhe deram o nome. E uma ilha para ti acabaria por ser um forte onde sentirias o ferro, encurralada depois de mim passado.
Tu envelhecendo precocemente por defunto – horrível visão que repudio.
Entendes? Tens mares e toda a circunavegação, mil voltas para dares à terra enquanto a Terra apenas dá uma volta de 365 dias em torno do Sol. Não és lua, não me orbitas. Para mim és planeta prometido em sistema estelar semelhante a este em que navegamos – este pretérito presente solar. Nem te quero Némesis e contigo encontrarmos o fim.
Não quero assim. Tu não és fim, és alvorada de tudo o que é novo.
Não quero que te confundas. Mais cedo me enterro fundo na terra do que tu a aprenderes como se baixam e sobem as marés.
Precisas de entender: não te rejeito, só te liberto. Em mim morre cada poema meu que pude urdir por tua beleza. Mas são os teus poemas que mais vivem porque ainda vive o teu olhar imaginando o futuro.
Assume-me como o teu pretérito presente. Serei depois composto, entre os bichos da terra. Podes recordar-me como um pretérito perfeito que passou por ti, indicando o que já não sou. Faz-te viva e vive o que o que ainda és, e o que serás. Que ainda hás-de ser. Precisas de entender isto, meu amor.
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foto de Denis Nekrasov

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