inusitado


Inusitado é teres mil livros por ler e desesperares por aquele que não está na tua estante. Também mais de mil músicas para ouvir e, tristeza tua, não conseguires encontrar aquele tema. Ultrapassando outros exemplos corriqueiros, é dizer que tantas mulheres e homens no mundo e tu a sofreres de paixão por sabes lá bem quem. Ou, se tens uma dúzia de filhos, te deixas afundar de angústia por luto exarcebado de um que se quis distante, talvez o mais velho, desejando começar a construir a sua própria vida, longe de ti.

Inusitado é fazeres jejum como quem morre de fome quando tens armários e frigorífico cheios. É teres uma grande e afortunada garrafeira, colorida de vidros e líquidos vários, e sustentares a tua embriaguez com um bagaço que apanhaste à venda na berma de uma estrada. Inusitado é padeceres de cancro e teres desejos inoportunos, como sofrer intensamente por fumar e/ou beber, ou então por comer abundantemente o que não é aconselhável, ou estares onde o médico recomendou não voltares.

Inusitado é, entretanto, passeares de carro pelas ruelas da tua aldeia por preguiça que tens nas pernas, e não entenderes o quanto o mês de março te oferece um passeio a pé, com passadas lentas, pois que dentro de um carro não percebes a caruma que alimenta a terra, nem como já floresce o tojo, predizendo o perfume e o amarelo da flor da giesta.

Inusitado é saberes que quem está ao teu lado te ama incondicionalmente e, mesmo assim, procurares duvidosas aventuras para satisfazer a rebeldia do teu corpo quando, apenas com um diálogo e consentimento/cedência de ambas as partes, bem podias conseguir o melhor dos dois mundos.

Depois… olha: depois, inusitado é também o mais mundano e contraditório em ti. Sem perceberes a contradição. Por exemplo: sofreres de insónia e, para a combateres, te iludires com os programas irrisórios que vês na tv, atormentando o comando remoto em milésimas voltas de zapping. Levares o guarda-chuva para onde quer que vás, sabendo de antemão que o dia vai ser, sem dúvida, solarengo. Achares que vais ter frio quando nenhuma neve, nuvem ou neblina sem vento ou brisa vinda do norte. Também achares que podes mergulhar no mar sem perigo apenas porque os dias se prolongam em sol pleno, não estando prevista abertura de qualquer praia vigilada.

Inusitado é ficares em tristeza quando o dinheiro que ganhas com o teu esforço não sobra para aquelas férias lá longe quando onde imaginaste. Quando, bem próximo de ti, e se tiveres vontade e curiosidade, podes encontrar sítios de sonho que fazem inveja a qualquer imaginado paraíso longe.

Tantos exemplos há para o inusitado. Exemplos que não seriam necessários, se soubesses consultar um dicionário. Aí, o adjectivo resume tudo acima dito, se tiveres discernimento para compreender: do latim inusitatus, é o que não se usa, que é raro ou desusado, mas também estranho, fora do comum. Insólito. Que não faz (ou não) sentido. E o que não faz sentido é tu seres quem és e não saberes do valor único que cada indivíduo tem e acrescenta ao que todos somos.

Portanto: larga a seringa desse derradeiro caldo, esquece as cordas em volta do pescoço, os granulados feitos para roedores e outras pragas, as lâminas fora dos instrumentos para barbear, bem como os gumes pensados para cortar alimentos, ou os inusitados instrumentos de fogo que a humanidade inusitadamente industriou. Faz algum sentido esse teu desejo de partires de entre nós quando tens tanto mundo por descobrir?

Dorme!, que o teu mal é sono.


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foto de Philipp Ebeling

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