legado
Ter voz como a tua murmurando o quase impossível e saber dos teus dedos sobre as cordas tangíveis do meu corpo. As cortinas infladas pela corrente de ar por haver janelas e portas que abrimos para que o mundo nos visite e perceba que há mais para além dele. E o mundo, seja de que forma for, está a ouvir-nos, continua soprando. Eu ouço: são ladainhas. Tu dizes: é o vento. Eu respondo: não é o vento, amor, apenas o ar do mundo e o seu cochicho entre ele e nós.
Na nossa cama, e sem esquecimento, ficaram os sulcos desse pólen que ardeu, traços de um carvão doce desenhado no mapa do ar as horas que incineramos com o corpo uno que somos e sem rotina. Desejando que as noites se confundam com as madrugadas e que outros dias sejam para além do de hoje, e ainda mais prolongados dos que a terra e o sol prometem com o solstício dos santos.
Há-de sempre existir dias grandes para nós, onde luz e penumbra se alteram e perpetuam, desiguais, em comunhão. Os copos do vinho que bebemos alteraram as clássicas intenções dionisíacas. Testemunham a nossa saliva em contraste com a de bocas distantes, sem pretensão. Respirando a tua pele estou eu enquanto olhos e dedos postos sobre os teus mamilos. E os teus dedos inquirindo o meu baixo-ventre como quem conhece sob cegueira a ternurenta composição do chão de terra feita em humor humano.
Tão húmida agora a terra mondada, livre dos daninhos destinos, mais tarde rugosa como ficam as tuas mãos e os teus lábios em sublime suplício de prazer, quando mergulhados na água da minha boca, ribeiro correndo, língua ao mesmo tempo sedenta por esses teus outros lábios sôfregos, e deles desejando o nascimento de um mundo novo.
Ou, pelo menos, todo o mundo que há em ti de mim. Para saber, simplesmente, que só existimos para este propósito: a carne, temperada pelo amor e pelo desejo, só se quer mesmo carne, sem perder gota de sangue ou alienação de qualquer nervo. Humana. Perene. Sem igual. A nossa. Carne que, ainda que venha a morrer, ainda que um dia pereça como pó, é sempre transformada no vento surgindo nas portas e janelas de outros amantes noviciando o que tivemos.
É que ele, o vento, tomado pela tua voz, contará a gerações futuras o que somos hoje, o que seremos para sempre. Porque nunca haverá, nem sequer para a história, qualquer passado que consiga terminar com o argumento de que apenas, simplesmente, fomos. Nunca fomos, sempre seremos.
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foto de Valerii Batai

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