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3 de março de 2019
13 de janeiro de 2019
escreve! ou: o poema do mau despertar
Disse-te dos meus rascunhos pueris. Das palavras encontradas ao acaso e plantadas em beco. Disse-te que o mundo andou de pernas para o ar no ano que passou e nada disto diverte, se diverge. Tenho no que anseio a sua contradição, ambiciono envolto de nulidade. Há pontos de mim a anos luz uns dos outros. Divirjo, eis: entre o que fui, acorrentado a outroras, e este que agora não sabe, se enche de medo. O medo é pura diversão. Divergente. Abstração? Demência.
Não.
Saber construir um poema é saber erguer pontes sobre o poente.
Não sei escrever um poema. No rascunho, tento versejar como quem se dá a novos ares. Porém, esta mão canhota: é ela quem empurra as palavras corridas umas na frente das anteriores, projectando parágrafos complicados, sintaxes complexas, semânticas a roçar o surreal. Dedo podre para a simplificação. E depois
os adjetivos sempre presentes, a anunciar o substantivo circunstancial
depois não é assim que quero, não assim que queria, tudo desapontado: escreve! De tudo quanto eu poderia fazer, nada faço. Calo-me entendendo uma ordem. Se não segue livre em linha recta, coloca-lhe uma barreira, desníveis, qualquer desafio. Calo-me por indeterminado tempo, a repetir fórmulas muito antigas. Poderá surgir a oportunidade de… até que…
Até que supere esse ano inteiro para viver.
1 de junho de 2018
acto final
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| foto por Milos Korecek, via Alternatif Fotoğraf Topluluğu. |
Temei mais nada, ó cães danados e feros, se a caravana já vai tão longe e tolhida de susto que do seu rastro não há-de formar-se qualquer memória! A soma dos equívocos é um pretérito de assombro, e a periferia apenas um esboço para quem tem fé num destino arquitectado. Se, ainda assim, vos atrai o abismo, saltai precipício abaixo como a vara a que o secular mestre condenou. Não tenho vocação para santuário dos infelizes e atormentados – não fosse eu, de maxilar espumoso e brilho nos caninos, esta besta inquieta entre as trevas! Sossegai, veias dilatadas, que o monstro foi solto em parte incerta e amaldiçoado; não terá mais regresso! Sustém-te, ó músculo vicioso das paixões, dos embustes, das profecias, das tragédias! O teu lugar é agora uma cadeira onde poderás assistir ao desfile perecível de toda a efemeridade – tem-te e não caias, resigna-te a bombear a vida e sê profano de toda a esperança! Também vós, ó vistosas e impacientes fêmeas, recolhei o facho entre as pernas, deixai que o vosso corpo recupere da ofegante e arfada jornada, ide deitar as tardes a dormir, num incêndio apaziguador que vos reconcilie a noite com o cio adiado!
Uiva agora, ó sublime alma, que as valquírias sonegam Odin já senil e desprezam Freia, essa cadela perdida da sua demanda! Esquece o cálice por onde bebeste o vinho inquinado na esperança de promissoras auroras e horizontes de esplendor. Alimenta-te agora das sobras caprinas vagantes entre as pedras estéreis, nas sobranceiras colinas, nos angulares declives e precipícios. Tem força nas patas traseiras, ó alma que cursiva teimas; eleva o grito, sobrevive!
Eu quedo-me de cócoras, sobre o limo, tão sujeito ao apelo da cobrição da terra por derradeira fecundação! Sirvo o ventre aos vermes, os olhos à secura do vento suão, as mãos à raiz do pó. De nariz apontado e triangular sob o céu que parece descer em trovões de riso e escarninho, devolvo o peito às rapinas ociosas e sem vocação de predação. No final, a morte será apenas signo de insolência. Pequena árvore de sujeição, onde futuros traidores terminarão sob os seus ramos a desejar piamente que as negras nuvens os levem para delírios azuis.
24 de dezembro de 2017
segunda-feira
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| Andrea Kiss - www.facebook.com/andreakissartist |
Ninguém sabe. Só eu a sinto. E senti-la é não saber exactamente quem sou, como sou, e o porquê. Não o porquê da minha existência, mas o porquê do meu sofrimento. O porquê de me sentir assim, sem nada para que possa apontar
– Sinto-me doente
e no entanto é assim que me sinto, doente, mas do quê, não sei. Creio que tudo terá começado naquela nefasta segunda-feira, como todas as segundas-feiras são nefastas, as pessoas abrem a boca de tédio e suspiram
– Amanhã é segunda-feira
como se a segunda-feira fosse o dia do suplício. Mergulham nos seus sofás coçados pela tarde mole e sonolenta de domingo, perdidos no vazio dos ridículos programas de televisão, ou dos filmes de segunda categoria repetidos ciclicamente, intervalados por enxurradas de publicidade, fazendo-os sonhar com ideias fúteis. E esperam como répteis que as horas concretizem a segunda-feira, a nova semana de lavores e irritações que se inicia.
Não foi isso, ou não foi por isso, que em mim tudo começou, naquela nefasta segunda-feira de Outubro. Foi a dor que não senti, da perda do meu pai, expirando eram duas da tarde o seu último sopro de vida, preso aos lençóis da cama lavada de fresco, entubado pelo nariz e enfraldado como os bebés. Para ele não havia razões para afirmar
– Sinto-me doente
pois nele tudo era visível, o soro, as aberturas no abdómen para escoar os líquidos que não retinha, a algália… o peito magro revelando as costelas, e o batimento cardíaco cada vez mais acelerado à medida que as injecções de morfina iam sendo aumentadas, para que se não prolongasse o seu sofrimento. Foram os intestinos, rebeldes, que o mataram, desfaziam-se como o papel de um guardanapo humedecido, eram enfim bocados do intestino desfeito que lhe saíam pelos drenos feitos na barriga. Eu não sabia ou não queria compreender como uma doença pode acabar repentinamente com uma vida num espaço de meses. Julguei que apenas dizendo
– Sinto-me doente
se pudesse recorrer aos médicos, aos hospitais, aos cirurgiões que dizem esforçar-se para fazer terríveis milagres quando os doentes entram, terminais, divagando
– Só se lembram de santa bárbara quando troveja
como se a questão da vida fosse uma possibilidade climática qualquer acometida pelas forças sobrenaturais. Afinal não basta anunciar-nos doentes para que possamos ser salvos, quer pelas mezinhas da avó, quer pelas curas milagrosas e esforçadas da ciência médica…
Não chorei em qualquer altura do acto fúnebre, nem antes, nem depois, estivesse só ou acompanhada, ao passo que outros familiares, a maior parte deles nem sequer muito chegados, tias irmãs do meu pai que socorriam ao cadáver, histéricas aos berros,
– Eras o mais novo e foste o primeiro a partir
familiares que nem uma única visita lhe fizeram no hospital, ou em casa enquanto o meu pai aguardava que o seu último suspiro o levasse para lá da hipocrisia terrena.
Foi assim durante muito tempo, durante anos, sofria calada para mim mesma, não querendo aceitar que a morte me tivesse afectado, desprezava-a tanto que nunca acreditei nela, apenas sentia a dor da saudade física do meu pai, da sua voz, e tentava convencer-me que nunca mais o veria, como se tivesse empreendido uma viagem longa e interminável.
Outras coisas se foram passando comigo, agruras da vida, mas nada de especial, nenhuma desgraça, nenhuma dificuldade de maior, para uma rapariga que acabava de sair da adolescência órfã de pai e com uma mãe que se encolerizava com tudo e todos, como se tudo e todos tivessem culpa da morte que os intestinos do meu pai lhe deram.
Foram desilusões, que todas as pessoas normais têm, ao longo da sua vida, sem que por isso tivessem de alertar,
– Sinto-me doente
a vida empurra-nos para a frente, seja qual for a qualidade do caminho, é sempre em frente que caminhamos, sem termos tempo para olhar para trás e refazer alguma coisa que devia ter sido feita; o mundo corre e nós corremos com ele, e quando nos lembramos
– Só se lembram de santa bárbara quando troveja
o sangue pica-nos nos olhos e bate-nos nas têmporas, a alertar, devias ter feito isto, esqueceste-te daquilo. Nunca emendamos as coisas más que passam por nós e nos fazem desviar do caminho menos acidentado. Foi isso que me foi acontecendo, desde que o meu pai morreu, desde que o Luís me deixou para se dedicar aos estudos na Alemanha e ter aparecido cinco anos mais tarde, casado com um fulana alta, branca e esguia, segurando pela mão um rapazito franzino com a mesma tez e um cabelo branco que me lembro de ver nas gravuras dos contos infantis, com os traços latinos do meu ex-namorado, que, como vim a saber pouco tempo depois, nunca fora para a Alemanha estudar, mas sim trabalhar levando consigo a esguia mulher que já trazia no ventre a semente da sua então traição ao amor que me jurara.
Empreguei-me numa loja de pronto-a-vestir, certificada por uma marca multinacional, e que me fez perder lentamente o sonho de um dia me licenciar em gestão empresarial, pois o meu sonho era ter uma empresa minha, enriquecer, tomar o poder, e talvez a minha sede de começar a trabalhar fosse por isso, embora a razão principal tivesse sido esquecer o Luís e não ter que aturar todo o dia as tempestivas pragas da minha mãe contra o mundo, pendurada ela num domingo eterno, no sofá roçado lá de casa, sem razão para suspirar
– Amanhã é segunda-feira
porque para ela todos os dias eram fatídicos, todos os dias ela travava a sua luta feroz contra os seus moinhos, capaz de envergonhar qualquer dom Quixote…
Foi nesse emprego que conheci o Álvaro, gerente da loja, que engraçou comigo desde o primeiro dia, e me bajulava com almoços e jantares no shopping, entre fatias de pizza e hambúrgueres indigestos. Deixei-me levar pela conversa dele, como se o amor fosse um produto de venda, e lá me convenceu a levar-me para a cama, onde me atirou com todos os seus ossos, de tão magro que era, e tão desajeitado. Foi uma noite inesquecível, os ossos embrulhando-se no meu corpo que ele não parava de elogiar, e naquela confusão contundente em que o esqueleto dele me triturava o corpo de dores, e sem sentir algum prazer, creio ter chorado pela primeira vez desde que o meu pai partira da cama para debaixo da terra, desde que o Luís fugiu para a Alemanha com uma família nova na bagagem, desde que a minha mãe explodiu de vez e teve se ser internada num hospital psiquiátrico agravada com uma trombose que lhe tolheu a língua praguejadora.
O Álvaro convencidíssimo que eram lágrimas de alegria, lágrimas pelo amor e pelo prazer que se convencia encher-me, mas nem sequer o seu membro sumido, como se de um outro osso se tratasse, me enchia o espaço abandonado e dorido do meu colo, de modo que, talvez por pena, de mim ou dele, já nem sei bem, acabei por concordar com ele, que era o amor da minha vida e mais feliz eu não podia sentir-me.
Apenas um ano bastou para que eu deixasse de me preocupar com a canseira de todas as segundas-feiras fatídicas das gentes que trabalham, a loja não dava os lucros orçados pela empresa e fechou, ficando eu sem emprego, e o monte de ossos de malas aviadas para a capital, aceitando a gerência de uma loja que entretanto abrira, com promessas de cartas, telefonemas e de visitas… que nunca se concretizaram.
Seis meses passaram onde pelo meio aconteceu a morte da minha mãe que, para ser sincera, não me lembro como foi, porque foi e quando foi. Seria talvez motivo de me sentir desamparada de todo, mas não o senti, a minha vontade era fugir para longe, tentar ser eu outra vez num outro lugar qualquer, livrar-me da vergonha do que tinha sido até então.
Consegui novo emprego num escritório de advogados, e no meio da barafunda de processos, polícias e ladrões me tenho aguentado. No entanto, nada em mim mudou. Continuo a sentir a dor dos ossos do Álvaro, a ausência fria do Luís, atordoada com as tempestades levantadas pela minha mãe, mesmo depois de morta e enterrada há dois anos.
Sinto-me assim, e ninguém sabe. Alguém balbuciou certa vez a palavra depressão, mas quis rir-me, e não me convenci. É uma dor, que não sei de onde vem, talvez sejam os intestinos a invadir-me o cérebro, convencidos que se desfazem como papel húmido, talvez sinta a necessidade de visitar o frio da Alemanha e levar pela mão as feições latinas do Luís na tez branca e russa de um rapazito, ou ainda talvez seja algum osso do Álvaro que ele tenha deixado dentro de mim como recordação. Mas doença não é, não sei de onde vem, senão prostrava-me frente à televisão de domingo, no sofá já rasgado de tanta canseira, à espera que a segunda-feira nasça no relógio e eu esclareça a quem me possa ouvir
– Sinto-me doente.
[recuperado de um texto escrito em Outubro de 2004]
25 de outubro de 2013
síndrome de bartleby versão 3
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| desenho de Leandro Lopes |
The end of laughter and soft lies
The end of everything that dies
James Douglas Morrison
Não estou capaz de evadir-me para escrever. Passo avesso ao riso, ao pranto, à emoção, à apatia. Como em mim nada é. Se engenho tive um dia, ou se as palavras alguma vez me foram parentes, é absoluta a minha inadequação actual e a orfandade de que possivelmente já sou vítima há muito tempo
(ou desde sempre).
Sou obrigado a concordar com quem eu lhe seja indiferente, ou, remotamente, por motivo sórdido e sem exemplo, com quem sofra a culpa de uma pequena inveja do que já fui capaz: que não vale a pena consumir palavras se não são os actos que lhes fazem jus. Ficarei ridículo a dissertar substantivos sobre não-questões. E assim me quedo a poupar os pormenores quando o que poderia dizer não seria por maior importância.
Vou daqui mudo, a engavetar o pensamento num murmúrio quase inaudível de efemeridade.
Quando – ou se! – outros tempos chegarem, talvez que já nem seja uma esferográfica a discorrer. Provavelmente apenas ver-me-ei a mim mesmo lutando por sobreviver numa areia movediça, de cuja matéria não posso pois agora prever de que será feita
(imagino mas prefiro continuar-me calando).
Fecundo mediocridade e, nesse estado, ainda que fecundado, nenhum ovo alguma vez eclodirá.
Não venham acenar-me: não quero ver nem ouvir vossas bocas postas em “O”. Vou partir de costas voltadas, como se o
(este)
mundo em nada
(ou alguma vez)
tivesse sido importante para mim.
19 de dezembro de 2011
para um santo natal
Ligaram a televisão num daqueles programas ridículos de variedades, em o que varia são os nomes dos artistas
- Vanessa, Xuxas e Picadelas, Maria Cândida, Os Anfitriões, o Grande Mágico Godofredo, e o conceituado humorista Ferdinando
e aquilo que fazem é sempre a mesma coisa, cantando melodias melosas de amores traídos ou sucedâneos de amor à mãe e ao pai e aos filhos, e às estrelas que há no céu, o mágico atrapalhadíssimo com o monte de lenços que lhe sai da algibeira mais o comediante com piadas soltas sobre personagens da política e da tv, enquanto eu, e outros como eu, estendidos sobre camas articuladas, entubados pelas veias e pelo nariz, com um olhar como que pedindo
- Alguém desliga a televisão?
e no entanto,
- Senhoras e senhores convosco a cantora Vanessa
e salta para o palco inundado de cor e luz uma rapariga com as coxas quase nuas, um enorme decote ao peito, e nisto uma máquina apita, há um corrupio de batas brancas e amarelas, ordens para aqui e acolá, as enfermeiras tontas
- O doente da cama trinta e um
correndo na vã intenção de salvar o velho que agoniza com a cantora Vanessa; e momentos depois um lençol sobre o rosto do velho, as enfermeiras abandonando o burburinho e sossegando os outros doentes
- Vá calma, sosseguem, nada se passou
e nós a vermos passar a maca para cá vazia, para lá com o corpo ainda quente do velho que fez a máquina apitar; de modo que eu, que nunca acreditei em magias, agonizo num impaciência implorativa
- Alguém desliga a televisão?
e no entanto,
- E agora o momento de magia com o Grande Ilusionista Godofredo, o vosso aplauso
eu com tubos enfiados nas veias e no nariz, e uma máquina ajudando-me à respiração, outra calculando a sua vez de apitar, ouvem-se as enfermeiras comentando
- Quase na hora da visita, vejam lá que espectáculo não ia ser
por isso, já não
- Alguém desliga a televisão
mas
- Alguém desliga estas máquinas, e me retira os tubos?
Chega a hora das visitas e lá vêm aos pares os meus familiares, primeiro a minha esposa com uns olhos de quem já não dorme há dias, com o meu filho mais novo a querer sorrir para mim, mas no seu sorriso murcho eu ouço
- Vais morrer, pai?
eu ouço
- Não quero que morras, pai
e a minha mulher especulando as esperanças
- Qual morrer, ninguém vai morrer, que ideia é essa?
apesar de ela também um sorriso apagado, esforçado demais, deixando escapar
- Não morras Manuel
eu ouvindo
- Ainda precisamos de ti Manuel.
É Dezembro, a alguns dias do Natal, alguns doentes cochicham com as enfermeiras qual de nós os cinco da enfermaria poderá ainda passá-lo em casa, atitude misericordiosa no regulamento do hospital para quem está na fase terminal, apesar de se não poder tocar no bacalhau, no bolo-rei, numa rabanada, nem um figo seco sequer
(afinal porquê adiar o termo disto tudo com tais prescrições?),
a televisão
- Não perca a seguir a segunda parte, estão cá as Xuxas e Picadelas, fique na nossa companhia
e eu
- Alguém desliga a televisão
a minha mulher mostrando-se animadíssima
- Hoje vocês têm cá televisão, já viste Manuel, que rico programa
e eu
- Alguém desliga a televisão
ou seja
- Alguém desliga estas máquinas, e me retira os tubos?
a minha mulher sem entender patavina do que eu digo, debruçando-se sobre os meus lábios para ouvir melhor,
- Desligar o quê?
e eu farto, ficai sabendo, eu farto de estar aqui estendido entubado só porque alguém segreda como que fazendo apostas
- Será que o Manuel pode ainda passar o Natal a casa?
rematando
- Será o último que passa, coitado
de modo que eu farto das tubagens enfiadas no nariz, incomodando-me, farto do tubinho que pinga soro e drogas minuto a minuto, hora a hora, teimando com a televisão ligada
- Cá estamos de novo para a segunda parte
e eu fartinho, fartinho de tudo, farto de ver os olhos do meu filho mais novo implorando
- Não morras pai
das visitas de duas horas que ajudam a prolongar este sofrimento pateta, só porque ligado a uma televisão,
perdão,
a uma máquina que espera a sua vez de soar um piii contínuo, alertando as enfermeiras
- O doente da cama vinte e nove, depressa.
As visitas revezam-se, entra a minha filha, mais velha, acompanhada pelo meu genro que julga que eu nunca fui com a cara dele, eu que nunca o tratei mal, eu que sempre o recebi bem lá em casa, eu que nunca coloquei qualquer entrave aos namoros da minha filha, nem ao seu casamento, nem ao aborto que fez antes de casar, mesmo que tivesse algo contra a dizer, que me importa agora isso, para quê o olhar dele desconfiado a pensar
- Ainda não morreste tu?
eu apenas quero a televisão desligada, e a minha mulher
- Vais passar o Natal a casa, Manuel.
Passar o Natal a casa para quê, se eu todo tubos, querem lá ver que me vão enfiar o bacalhau, o bolo-rei, a rabanada, o figo seco pelo tubo dentro, sem necessidade de passar pelo esófago, pelo estômago, tudo pelo tubo que me alimenta de soro e drogas, eu à mesa olhando com as órbitas a saltarem do rosto para o pinheirinho de luzes tresloucadas, com uma melodia pateta, enquanto a máquina não se chega à frente de todos os sons e melodias com o seu piiii constante, deixando toda gente apavorada
- Não entubem mais bacalhau
sem enfermeiras para acudir
- O doente da cama vinte e nove
a minha mulher intrigada
- Desligou-se o quê?
Por isso, livrai-me lá do Natal, deixai-me morrer do cancro que me consome o corpo, do cancro que não dá descanso a estes tubos e a estas máquinas que se tornam orgânicas com cada doente que sustentam, assistindo igualmente ao espectáculo ridículo onde
- E agora palmas para a fadista Maria Cândida
os tubos e as máquinas pedindo
- Alguém desliga a televisão
ou
- Alguém nos desliga deste cancro?
Mas não, eu fartinho, e eles, a minha mulher, o meu filho mais novo, a minha filha mais velha com o meu genro desconfiadíssimo
- Ainda não morreste tu?
(e eu que nunca lhe fiz mal algum)
a insistirem que as máquinas ligadas, que enquanto há vida há esperança, que vamos ter um Santo Natal, depois da missa do galo a televisão ainda vai passar Música no Coração, e o meu coração sem música qualquer, esperando apenas o monocórdico tom piiii constante da máquina teimosa quanto a televisão que ninguém desliga, como se o espectáculo
- Convosco os famosos Anfitriões
fosse o soro com as drogas que me vão agarrando a uma vida que, se nunca teve sentido, qual o sentido dela agora, senhores, vá lá, peço-vos
- Alguém desliga a televisão?
não me olhem com a vossa piedade e o vosso egoísmo, com o vosso medo de perder o marido, o pai, o sogro,
(- Medo eu de perder o meu sogro? Não!)
com o vosso medo de sofrer, abram-me esses olhos e queiram ver, senhores familiares, senhoras enfermeiras, quem sofre sou eu, porquê prolongar-me a vida com estes tubos e estas drogas?, para evitar a vossa dor, querida família?, para evitar a vossa frustração profissional e a falta do vosso código ético, cara equipa médica?, para quê tudo isto, para quê uma televisão ligada, quando eu, e outros como eu, implorando
- Alguém desliga a televisão?
E no entanto,
- Para terminar, senhores telespectadores, é momento de rir com Ferdinando, o rei das anedotas.
Não. Estou farto. Cansei-me. Não quero mais. Os tubos incomodam-me no nariz, mal posso mexer-me, que miséria esta de querer urinar e chamar uma enfermeira para nos enfiar debaixo do cu a aparadeira, ainda bem que os intestinos só gases, ou uma aguadilha que se confunde com a urina, senão que miséria maior, senhores, vá, alguém desligue a merda da televisão e aproveite o jeito para retirar-me os tubos, deixar com que a máquina enfim suspire o seu piii constante, já vão para o telejornal, pode ser que o apresentador
- O doente da cama vinte e nove
Peçam desculpa à minha mulher, digam-lhe que afinal foi tudo desligado, peçam perdão ao meu filho mais novo porque isto toca a todos e agora toca-me a mim, peçam desculpa à minha filha mais velha por não lhe ter dado mais atenção e descansem o meu genro que acha que eu nunca fui com a cara dele, apesar de eu sempre de braços abertos, peçam desculpa aos médicos por não aguentar mais o código ético, e por favor
- Alguém desliga a televisão, me tira esta tubagem e me desliga das máquinas?
Assim, ficamos todos bem, sofre quem tem ainda saúde e forças para sofrer, que eu cá me arranjo, com o lençol tapando-me o rosto, sempre menos incomodativo que os tubos no nariz. Vá lá, façam-me esse favor e não me chamem a mim egoísta. Apenas quero descansar, por isso, uma vez mais imploro, deixai-me morrer e tenhamos todos um Santo Natal.
17 de julho de 2011
adágio
Vai ficar o homem de vestes rasgadas em desconsolo de pranto, esmagado ao chão de que nunca mais subirá. Os céus já só pertencem às aves, desorientadas e famintas. Está o homem de cócoras sobre os escombros daquilo que aprendeu a chamar civilização. Chora de cócoras com um corpo inerte ao colo num abraço de angústia.
As bocas em gritaria dirão: é o fim-do-mundo. Mas este mundo escaqueirado apenas recomeça sem nunca ter conhecido efemeridade. O mundo está para lá das bocas abafadas pelo assombro do seu poder, e dos medos, e das cabeças que pensam, planeiam, projectam, mandam edificar e depois destroem. O mundo nunca lhes pertenceu, apesar de terem acreditado que o dominavam, que desaparecendo eles o levavam no mesmo destino. O mundo respirou sempre à parte, sem linhas da vida traçadas nas mãos. Sim, o mundo apenas recomeça, sem acrescentar à poeira e à lama qualquer tranche de esperança que até então a humanidade julgara ser a última a perecer.
Vai ficar o homem só porque desta vez se salvam apenas os que já não podem, e palas cresceram para além das orelhas e do nariz como autênticos apêndices nas cabeças das pessoas que nunca mais lhes permitirão olhar em volta. O homem fica chorando só, com as vozes e as luzes do passado plantadas na sua memória a lembrar-lhe como tudo fora e agora afinal.
Tudo capitulou: as sombras sobre as fontes frescas de agostos quentes, o aconchego do lar nos dezembros varridos pelas neves; as crianças em algazarra nos parques e o vento lidando no alto das árvores; as esplanadas oferecendo cerveja e as salas de concertos; as lojas, os bancos, as fábricas, as escolas e as igrejas, as câmaras municipais, os palácios governativos, os ministérios. O homem não sentirá os seus semelhantes pisando-lhe os pés, nem esbofeteando-lhe as faces ou agarrando-lhe o pescoço. Tudo o que havia dele fica na memória, sempre futura porque deixa de haver passado e presente. Tudo o que havia dele está no corpo abraçado ao sal das suas lágrimas.
Não verá o homem a cor do dinheiro, os prédios altos, aviões atravessando hemisférios, pontes ligando margens, mercados e centros oferecendo o que as pessoas não pensavam procurar. Emudeceram as sofisticadas máquinas (e as menos sofisticadas por misericórdia), voltando à sua condição de objectos, meros materiais inanimados que aspiraram um dia ser vida. Inutilidade é a sua única versão, o que resta escrito nos seus manuais de instruções. Esqueceu o homem o sofá creme de napa, os quadros nas paredes, o abat-jour antigo, os comandos remotos que davam acessos às cenas da televisão. Foram-se os tapetes de asfalto, e só para abrigo das incontroladas chuvas negras servem os automóveis parqueados sem alinhamento. Morreram as modas: vestir e calçar sem preceito, gravatas aniquiladas, saltos altos que desceram à terra batida, blasers ou paletós a servir de cobertores. Foram-se os gestos ponderados, os tiques, as formosuras, os bons modos. Não se pensa em obesidade ou anorexia. Não se pensa em comer. Não se pensa no que não há e no que se não tem. Os penteados entraram em desalinho, os lábios gretaram de sede, as unhas dos dedos farpadas de arranhar o chão.
O mundo, no longe e escuro espaço entre cada corpo celeste, permanece como planeta azul. Azul porque os mares e o sol e a luz. Porque continua a ouvir-se o planeta sussurrando a sua trajectória com os demais congéneres. E um sussurro a mais agora se pode sentir, não sei se será cósmico, mas daqui sente-se, um sussurro que suspira com o homem.
Este homem não vai ter descendência. Será só, sem poder dar filhos aos donos dos escombros. Fica só e órfão o homem que percebeu que nunca deixara de ser o menino da sua mãe.
É ela quem ainda mantém nos braços, morta de poeira e lágrimas, como se os séculos também tivessem deixado de existir.
E dizemos adeus ao homem, porque esquecemos o até já, o até logo, o até amanhã, o em breve nos veremos. Dizemos adeus sem acenar porque estamos tão cansados dos braços e das mãos e das pernas que nem sabemos se somos vivos ou se alguma vez vivemos. Dizemos adeus ao homem sem acenar pois também não é necessário. Ele não vê.
O homem dirá por fim uma oração. Vai orar pelos que foram e pelos que ficam, sós como ele agarrados a destroços, lambendo a lama de cinza e lágrimas. Dirá a última oração onde o nome de qualquer deus que seja não será lembrado.
29 de maio de 2011
tiques da inocência perdida na casa assombrada de mim
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| Analysis of Intimacy: Shadows in My House, por melonyb em RedBubble |
Perscruto o céu franzindo o olhar e nada de novo: sol de pouca dura, nuvens zangadas, as mesmas
(serão afinal eternas?)
nuvens parindo sombras na parede. Os rostos que passam por mim nos dias comuns deitam-me à indiferença como se aos poucos tivesse deixado de existir para uma quantidade considerável de outros. São os olhares das mulheres, porém, que mais me magoam. As lindas jovens mulheres, raparigas, enfim, que me passam pelo olhar e o evitam como se no meu rosto existissem dois buracos de negro e assustador abismo. Sei que não é isso, antes sentimentos de pudor misturados com o asco de um velho a tentar seduzir meninas. As meninas que eram a minha paixão e agora me condenam a deixar para trás uma inocência que nunca quis perder.
São os anos que passam, e o corpo, antes de se decompor quando vier a hora certa, começa primeiro a descompor-se. Não adianta o paleio do exercício e alimentação equilibrada que esses apelos a uma vida saudável não travam nada. Não deixam que o tempo avance, pois isso queria eu parar. Pois se aos quarenta
(- Que vem a ser isto aqui?
- Onde?
- Aqui, na tua cara… oh!, são pêlos brancos da tua barba.
- Reflexo da luz?...
- Tens também nas sobrancelhas, agora vendo melhor.
- Reflex…
- Já para não falar nas do cabelo, com essa entradas.
- ... ok.)
já nos pregueia a pele onde antes lisa, e aos cinquenta as primeiras falhas de memória quando tudo era tão ontem
(- Não bebas tanto),
que é a idade dos setenta senão o princípio de um declínio que nunca devia acontecer na vida de uma pessoa? O jeito inseguro de manter uma erecção que se veja
(- Não bebas tanto)
e ejaculações frustrantes passados poucos minutos, é o que me vai restando.
Um dia doenças a que não ligava puto, outro dia cansaço e dores nas costas, o apelo constante do cigarro e as barras do alpendre bebidas de ferrugem porque deixei de reparar nelas como não reparo no gotejar de uma torneira em falência, duas ou três telhas desajustadas deixando a água dos temporais infiltrar, rachadelas nas paredes, os vasos já tão secos de nada como se os desertos também se pudessem representar como o fazemos aos prados floridos para não nos gastarmos de tanto betão e asfalto.
Um dia doenças a que não ligava puto, outro dia cansaço e dores nas costas, o apelo constante do cigarro e as barras do alpendre bebidas de ferrugem porque deixei de reparar nelas como não reparo no gotejar de uma torneira em falência, duas ou três telhas desajustadas deixando a água dos temporais infiltrar, rachadelas nas paredes, os vasos já tão secos de nada como se os desertos também se pudessem representar como o fazemos aos prados floridos para não nos gastarmos de tanto betão e asfalto.
Ainda mais as palavras que tardam a chegar: ao pensamento, à boca (aqui tão desarticuladas que quase sempre me apetece carpir o silêncio de mim), e aos dedos, na letra trémula de um puto que começa a desenhar as primeiras letras. Adormecer sobre os livros. Evitar outonos e invernos com mais medo. Medo constante de
(- Não fumes tanto),
o medo constante de um dia os médicos
(- Não fumes tanto),
o medo perene, agora, de tudo acontecer, quando tudo se vê acontecer aos que connosco ainda chegaram até este presente
(- Sabes quem morreu? O Moreira.
- O Moreira morreu?
- Sim, vê lá. Uma saúde de ferro, um dia chega a casa de um passeio, diz que se sente mal disposto e momentos depois morre. Assim.
- Detesto que me contes essas coisas.
- Tão novo…
- Detesto, Marília.
- É a vida…)
A vida. E onde está a minha? Ou em que fase se encontra?
Nada de novo: sempre quis fugir das sombras, mas sou eu já que eclipso o sol nas paredes desta casa assombrada de mim. Desejo tanto um amor jovem. Sentir nas mãos o vigor dos seios alvos para os afagar ofegante da descoberta. O perfume da juventude. O aroma da carne rosada, quase virgem. O útero imaculado para onde pudesse regressar. E deixar o passado acontecer num futuro ainda longínquo como quando, aos dez anos, me parecia impossível que a idade dos velhos me afectasse. Os velhos sempre teriam sido velhos.
Hoje não sei o que esperar. Apenas desejos: imorais porque se foi a inocência. Guarda o jornal, Marília, não quero saber do mundo. Mais tarde ou mais cedo ele virá para me pedir contas. E engolir-me numa imortalidade de esquecimento.
19 de março de 2011
a lua mais cheia segundo um poema para a rosa
Lua cor de cobre adensada no manto frio da noite: revelas além da luz que enalteces
(como se dissesses – eu, ufana)
outros brilhos que os meus olhos raramente alcançam.
Além andrómeda, acolá vaidosa a nebulosa de oriente, e as plêiades de luz borbulhando. Abres os braços, dominando, e levantas o véu do céu que guardas. E tantas!, ó lua, tantas verdades ficam ainda esquecidas; quanta lassidão e tristeza que tão mal se escondem nessa luz que é tua atrás de um outro lado obscuro de memória astral…
Viste a lua, Rosa? Vaidosa, escondeu a penumbra com a prata do seu brilho para te encantar com a luz de andrómeda ou aquela nebulosa chamada oriente.
E o céu inteiro ficou grande perante o teu olhar curioso
(de onde vens, e porque és).
Orgulhoso, o céu se desnuda perante ti. Pinta-lhe o retrato, que bem o merece, e mancha-o de toda esta luz que te sorri.
Viste a lua, Rosa? Se não, deixa, porque eu também não vi.
30 de dezembro de 2010
pseudo-aforismos de fim de ano (ou: mais um textinho antes que o ano acabe.)
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| Lá vem chuva, por Myriam Vilas Boas - Flickr |
A ladainha da chuva num ritmo de conta gotas teimoso a reverberar as últimas horas do ano. Chegado o inverno, as geadas, o nevoeiro e a neve anulam qualquer aroma de terra, mas eis que se renova ao fim de cada solstício, deixando devagar que medrem as ervas daninhas, mais viçosas agora que nos dias prolongados do verão. As sementes ficam no seu limbo a afastar a ideia que a morte é um acto definitivo.
No hemisfério de cá chove e faz frio, um tom plúmbeo enche as tardes como que madrugadas antecipadas, e a iluminação pública não espera, por exemplo, que se deixe os pratos limpos do almoço. Os dias mais pequenos, e o tempo que parece célere. O céu assim pardo reflecte o cansaço do mundo nesta latitude. Não são só os noticiários com as medidas de austeridade de um governo político perante uma crise financeira os únicos a contribuir para o ambiente mais pesado de uma quadra pretensiosamente feliz e iluminada. Na verdade, e pelo que nos é dado a observar, até parece que esse factor está a passar ao lado da maioria, salvo algumas misérias que já as telhas não conseguem esconder muito. E quanto a isto, fica a incerteza de colocar aqui qual dos advérbios: feliz ou infelizmente. Passe a incerteza dos bolsos dos que vivem no nosso rectângulo territorial, o que me parece é que cada vez mais, e de ano para ano, tudo se vem tornando ainda mais cinza que a pedra granítica ao norte ou mais amarelo e gasto que o purgado da desertificação a sul. As grandes cidades erguem bandeirolas de impérios de betão, vidro e tráfico conjugados com a febre consumista que muito intriga a quem se dá ao trabalho de analisar que estamos num fosso financeiro.
A minha observação constata que o peso do ar pardo das tardes invernosas se agrava no olhar das pessoas que se cruzam inquirindo aos seus botões se o seu umbigo estará mais ou menos satisfeito, colocando a boca torta que não se sabe se é prenúncio de enfermidade grave ou apenas um sorriso amargo. Sem querer fazer analogias tolas e fora do contexto sobre os acidentes graves que assolam as nossas estradas, as pessoas atropelam-se, chocam, capotam, esmagam-se, fazem enfim das tripas coração para agradar a esse semi-deus que quer soltar amarras para dominar o mundo completa e definitivamente. Descansem os crentes das fábulas supersticiosas do rei do mal, pois satanás, coitado, nada tem que ver com o assunto. Essa entidade meio divina, meio humana, mas tão velha quanto o mundo, que vem cada vez ganhando mais força e autonomia, é o umbigo que cada um carrega consigo. Para onde os olhos, encerrados entre palas como os jumentos, só conseguem enxergar.
É fim de ano, e o calendário é apenas mais um signo como tantos outros que as sociedades humanas foram inventando e adaptando aos seus interesses. De forma natural os anos completariam o seu ciclo no advento de cada primavera. Deviam ser os equinócios a cortar os anos em dois semestres e não os solstícios. Pela simples razão que, a cada solstício de verão tudo amadurece, e a cada solstício de inverno tudo apodrece. Não só as coisas as que nos habituamos de chamar da natureza como as nossas próprias cabeças. O ser humano devia hibernar como outros mamíferos, e apenas laborar nos meses em que se renasce e se retoma a viçosidade (esta palavra não existe), para que resultados mais positivos fossem apanágio da nossa espécie. E mal as acções começassem a dar sinais de amadurecimento, antes que caísse o bom fruto no apodrecimento precoce, adormeceríamos até que a neve voltasse a derreter, quatro ou cinco meses depois. No mínimo, era uma poupança efectiva de energia e dos recursos naturais.
Finda o ano, dizia, e os dias esgotam-se sem luz natural às quatro horas da tarde. E anoitecendo o frio, entristece-se a alma. Não se esgotam, porém, as longas filas de trânsito. De onde vêm, para onde vão todas estas pessoas? Esgoto-me ao entrar em casa. Tem momentos que o que gostaria de fazer era aterrar no sofá e passar por uma espécie de coma benigno, despertando para sacudir os músculos e sorver um café quando nascesse uma magnífica e esplendorosa manhã. Limpa e clara.
Nada disto era suposto: não a ladainha da chuva como signo – mais um – a separar ano velho de ano novo. Tudo agora é assim porque ao termos inventado o relógio já nada tem outro significado que não seja a certeza que o tempo passa, e pesa. Hoje, dezembro e inverno neste hemisfério. Que interessa, se é verão do outro lado do mundo?
Isto disse eu. Mas não sei muito bem por e para quê. É o ano que se esvai, e a cabeça e o engenho não estão nos seus melhores dias. Passem bem de um dia para o outro, com essa vantagem mágica de que a diferença de um segundo faz acontecer esquecermos um ano que passou – sempre mau – e de outro que começa, tradicionalmente cheio de esperança.
11 de dezembro de 2010
nobre besta
- Bom dia senhor Alcino, vamos a acordar? São horas da medicação…
- Acorde senhor, então? Ainda temos de mudar a fralda.
- Senhor Alcino, está a ouvir-me?
- Chiu! Já me acordaste! Olha uma parada de bestas.
- Quais bestas, senhor Alcino, olhe que não somos bestas!
- Não és tu, as que estão ali na parede.
Primeiro vem uma tontura a atrapalhar o andar, a forma de levantar da cama ou quando se sai do banho. Como se fosse uma quebra de tensão, e instantes depois a cabeça a latejar. Mas só a partir do primeiro momento em que a corrente de uma sinapse se quebra
- Alguém tem uma pilha ou uma vela?
- Foste ver o quadro?
- Acho que é geral.
- Preciso de um fósforo ou isqueiro aqui.
- Há luz na rua…
- Não te esqueceste de pagar a conta da electricidade, pois não?
- Se eu me esqueci?!
- Vá, esqueceste-te ou não?
- Não me lembro…
é que acontece que um rosto pode mudar de feições ou então feição alguma, uma silhueta negra, anónima, como quem cometeu um crime de que se envergonha e vem falar aos programas da manhã da televisão sem coragem para mostrar a cara.
Troco uma e outra vez o nome de algumas ruas, entro na padaria quando afinal queria aviar uma receita do médico
- Isso da memória é normal da idade, o senhor não vai para novo, tome estes comprimidos e vai sentir-se melhor.
As pessoas dizem-me olá e bom dia e boa noite e eu vou respondendo cheio de simpatias, mas com dó delas que, coitadas, andam a confundir-me com sei lá quem, deve ser a barba comprida, a mesma roupa, talvez seja o cabelo. Esqueço pontualmente onde deixo a chave do carro, e a conduzir mexo constantemente na caixa das velocidades, reduzo de quinta para segunda convencido que é a terceira que devo introduzir, e o carro lamentando em roncos constantes e solavancos de que vou queixar-me ao mecânico
- Parece-me tudo bem, senhor Alcino, não vejo nada de mal no carro.
Então depois de ter esquecido a hora do almoço ou que afinal hoje é sexta-feira e não sábado, atrapalhado e irritado por estar já três horas atrasado para o trabalho, surgem os bichos caminhando meticulosamente pela parede, nos cantos escuros, atravessando o chão na calçada, e no entanto a parede vazia, nos cantos só o pó, e a calçada apenas manchada pela chuva
- Preciso de usar óculos, doutor?
- Que letras vê na primeira linha?
- Aquilo ali são letras, doutor?
Perde-se a noção do tempo: sei lá que dia é hoje, em que mês estamos,
- Com esta chuva, deixa ver… abril? março?
- Dezembro, pai, estamos em dezembro.
- Como dezembro, nem está sequer frio!
e os anos então,
- Claro que sei o ano, é mil… mil novecentos… e noventa… Não é? Quê? Noventa e quatro, não?
sem dar conta que afinal o João não é o meu irmão, mas o meu filho mais novo, se tenho um irmão chamado João não sei, nunca fomos apresentados. Os meus pais há que anos morando entalhados no cemitério e eu convencido que a minha mãe sentada numa cadeira à minha frente, mentindo-me com os dentes todos:
- Sou a tua irmã Irene, lembras-te de mim, Alcino?
Isto é nada mais que bichos, insectos dia e noite, formigas, escaravelhos, aranhas, centopeias, gafanhotos, baratas,
(minto: são mais escaravelhos, são carapaças duras dentro da minha cabeça, que diabo faz um escaravelho no meu sonho?),
e os bichos atravessam-me as emoções, roem-me a alma de tão tenra e mimosa, suspendem os sons e as imagens nas minúsculas patas, e sinto que me levam arrastado com eles nas suas couraças de quitina, até que
até que
acho que deixo de despertar, ou então de adormecer
- Que tenho eu afinal?
- Sofres de Alzheimer.
- Alzheimer? Que é isso?
Penso que será nome de um insecto qualquer muito exótico a movimentar as pinças e as antenas, num bailado perfeito de paciência. Têm uma paciência enorme, estes bichos. Conseguem apodrecer-me a alma e aguentam com valentia e grande dignidade as misérias do meu corpo. Na volta nem preciso de morrer, os bichos fazem a morte por mim. Que altruísmo, para um bicho tão pequeno.
- Nobre besta, esse Alzheimer.
7 de dezembro de 2010
pessoas do mundo
«All the souls He to touch
All the millions of souls He to touch» *
Somos todos pessoas. Por humanidade nos definimos, colocando no substantivo os mais nobres valores de uma verdadeira comunhão social. Desse ideal fabricamos os deuses que a história conhece. Da ideia de nós num mui avançado estado de moral e mentalidade apenas vocacionadas para o bem.
Negamos, em teoria, a nossa imperfeição biológica porque, sendo nós capazes de chamar a razão, temos o dever de estarmos aptos para alcançar o estado mais perfeito da evolução. De tal maneira que possamos ser o exemplo entre toda a natureza como prova da matéria divina. Para isso fomos criando, ao longo da nossa existência, comunidades, leis, estados, religiões. Apoiamo-nos (bem ou mal) dos recursos do nosso ambiente de forma a prolongar a nossa sobrevivência, contribuindo para um melhor bem-estar individual e comum. Queremos erradicar a forma pura do mal, para que da sua raiz não medre frutos maus e azedos.
Em milhares de anos, não conseguimos ainda, porém, concretizar na prática tão nobre objectivo. Matamos para comer, defecamos e exalamos odores, exploramos cegamente, e fodemos como qualquer outra besta. Aplicamos no nosso dia-a-dia, na condução das nossas sociedades, a mesma lei que rege os seres não racionais: vence sempre o mais forte. Somos seres contraditórios, mas continuamos a ser as mesmas pessoas do mundo, imberbemente evoluindo. Imperfeitos.
É defeito? Sim. Mas também não, se considerarmos e aceitarmos a nossa condição. Somos assim. No entanto, se acreditamos na evolução, é nosso dever, direito e responsabilidade comum querer avançar na nossa maturação como seres espirituais, que tanto temos projectado nas noções que temos de essência divina, que pouco mais é que fruto da nossa razão. Seguir mais longe, redefinindo a moral, enaltecendo a liberdade e praticando o que de melhor possa sair de nós, seria um lema.
Assim concordaria com as religiões: sermos cada vez mais próximos dos deuses que propusemos ao longo do nosso percurso na história, senão tomando a consciência que a referida essência divina nasce em nós e não está em nenhuma entidade projectada. Que deus, na realidade, faz parte de nós, do nosso estado puro, racional e espiritual comum.
Então, acontecendo esse tão desejado encontro com deus, seremos de pleno direito a Humanidade.
«Our true kingdom come, higher than higher than higher than higher» *
* Jon & Vangelis – He is Sailing
(Private Collection, 1983)
25 de setembro de 2010
acentuado arrefecimento nocturno
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| Im Nebel der Nacht, por Michael Sturm em PhotoFrontal |
Irrita-me ter a consciência de que o tempo se vai esgotando, num compasso que a princípio parecia tão lento que julgara que a era que hoje vivo quase nunca seria vindoura, para depois o ritmo acelerar tanto ao ponto de eu não ter a certeza de ter dado conta das estações e dos meses, e de me admirar se já é noite quando ainda há pouco despertava bocejando o sono da madrugada anterior. É verdade que me concedeu atingir um certo grau de maturidade e com isso um maior conhecimento de mim mesmo, dos outros e das coisas de que são feitas o mundo, mas aborrece-me que tenha o tempo essa liberdade tirana de ir passando sem me dizer onde foi, onde está e para onde vai, principalmente porque me leva arrastado consigo.
Não lhe dou confiança e vou esquecendo-me da idade que tenho. É um falso pressuposto para continuar emocionalmente equilibrado, mas sinto que devo lutar minimamente contra os abusos e feridas que as crises existenciais provocam, ainda que esteja a enganar-me e tenha o subconsciente alerta nesse sentido. Na verdade, atingir o ponto exacto da metade da esperança média de vida que as estatísticas oficiais nos oferecem, e reflectir sobre tal é como acordar a meio de uma ponte sem saber para qual dos lados seguir. Em frente é o caminho, apontam-me, e vão alertando-me que recuar até seria aprazível mas as leis físicas tanto quanto as conhecemos não nos possibilitam tal aventura. E recuar ainda podia ser fatal, já que ao longo da vida nunca percorremos rectas sem desvios, bem pelo contrário, e tantas foram já as barreiras e os obstáculos que duvido se não se tornariam ainda mais difíceis de transpor num caminho feito ao revés. Porém, atingir a metade do nosso tempo e seguir em frente é tomar uma tal dose de angústia e expectativa que podemos até continuar o caminho com ânimo e força, se a saúde não faltar, mas o certo é que seguimos tão intoxicados e tão nefastos de dúvidas que o melhor é enganar as ideias e fazer de conta que não sabemos nada disso do tempo que flui.
Cruel mesmo é quando não nos deixamos enganar por nós próprios, ou seja, não nos concedermos essa boutade de ser-se humano: esquecer simplesmente o tempo, e fingir sermos, nesse campo, irracionais. Contra esse tirano do tempo ainda temos uma arma poderosa que é a tragicomédia do suicídio existencial. Tão simples: barramos o tempo na precisa altura em que queremos cristalizar a imagem do que somos, passando para o lado dos que foram. Continuará o tempo a rir-se de nós, apontando-nos infelizes, condenando-nos ao passado, mas segue já de tal modo cheio de raiva que semeia o esquecimento nas mentes dos que ficam como os únicos que nos podem preservar essa eternidade a partir do momento em que decidimos ser apenas até onde chegamos. O tempo é como uma geada, queima tudo. E esquecendo ou acabando aqueles que nos conheceram em vida, morremos então definitivamente.
Não vou pois por aí. É preferível dar o braço a torcer e ver o que lá vem, sem cuidar muito de me preocupar. O tempo tem também alguns rasgos de misericórdia e concede-nos um pouco mais do seu espaço por vezes, nós é que nunca conseguimos prevê-lo. O malvado ainda se diverte:
- Vês como valeu a pena não me teres deixado?
Por isso vou continuar, esmorecendo a irritação e, sim, sem dar muita importância a esse delírio do universo. Já basta ter entrado numa fase de declínio após ter alcançado o pico mais alto da minha existência. Na descida também há frutos para recolher. Batalhas por vencer, louros a receber. E quem sabe uma apoteótica recepção na meta. O arrefecimento vai tornar-se acentuado, vou notá-lo, como quando caminhamos nas primeiras noites de outono, mas convém não esquecer que sou eu, somos nós. Ainda que levados pelo tempo somos sempre nós, os donos de nós mesmos.
11 de abril de 2010
dois poemas estranhos

estão dois poemas estranhos
(no mínimo estranhos)
a observar o que sucede
onde são largados os pombos
levemente atordoados pela claridade
para o tiro ao alvo
ressoa o estrondo da pólvora
e sibila o vento
na velocidade do projéctil
as manchas de sangue catapultam-se no ar
tingindo a azul paz celeste
num revoar de plumas carmesim
e o grito dolente e mudo
arrancado da mais delicada laringe
que outrora rolava
cai em flecha numa certeza de terra
que por ser ainda sagrada
lhe torna a morte mais nobre
e faz do atirador um deus
2 de abril de 2010
agnus dei
Dois mil
(menos trinta e três, a conta que deus fez, ou seja)
mil novecentos e sessenta e sete anos tem a madeira que quis que apodrecesses antes dela. O teu nome perdurou na história dos homens, a madeira transformou-se em cinzas. Chamaram-lhe a cruz porque eram dois troncos toscos colocados transversalmente: um na vertical e o outro alinhado ao centro no topo do primeiro horizontalmente. Ou simplesmente porque os dois troncos se cruzavam em T, não um perfeito cruzamento mas antes uma bifurcação perversa
(o que bifurca? o teu destino? o destino dos homens? dois caminhos de deus?).
Por cima uma inscrição muito irónica, à semelhança do que se faz ainda hoje quando se quer humilhar alguém. Era assim que na lei imperial romana se castigavam os prevaricadores. A cruz em ti passou a ser sinal perverso de salvação, mas significa apenas a tua morte. Cegos os que não percebem coisa tão simples.
Foste o primeiro mártir sem pátria: aquele que combatia com a palavra e actos de bondade como dádivas os vícios instituídos em vez do gume das espadas e dos punhais sedentos de sangue. Um mártir para expiar a inveja e a mesquinhez de um povo alienado pela influência de um poder corrupto de fariseus subalternos do outro poder dominador de roma. Morreste sofrendo de uma tortura medonha, alicerce enfim de todas as vergonhosas torturas vindas depois em teu nome e do pai deus e de toda a civilização acreditando que foste o santo dos santos. Ofereceste a face ao cuspo e ao escarninho da vileza humana, raça naquela altura já tão sem vergonha dos seus actos que nunca mais viria a mudar. Depois de ti os que te seguiram na mesma pureza foram também carne oferecida a martírio para a salvação dos pecados, e depois destes aqueles que os seguiram sentindo que era a ti que seguiam, somando mártires e santos antes e depois da igreja que veio com o teu nome erguida como paródia, mártires cuja quantidade esse deus não soube nunca contabilizar. E ainda os que, mesmo renegando yahweh ou outro deus menor, da mesma sorte foram partindo deste mundo em dois mil anos depois de ti, à assimetria de outros mais ainda antes da tua anunciação.
Esta humanidade, que protegeste na tua dor
(como a leoa protege as suas inocentes crias da predação das hienas e dos chacais loucos de sangue e carne fresca – mas será que não sabias que a humanidade em vez de inocente era, como foi e será, um covil de hienas e chacais, esses animais feros e escarninhos, covardes desde o princípio do mundo, a rasgar sem remorso a carne do teu colo acolhedor?)
esta humanidade, de tanto obscena, não soube nunca compreender-te. Aceitar-te como um homem em tudo semelhante aos que habitavam a terra, mas semeando um evangelho promissor de frutos novos e esperanças. A humanidade temia que os espelhos quebrassem, não se sentia confortável que a tua imagem se lhe fosse semelhante, não era possível uma metáfora viva de carne e osso. Mesmo sabendo e apalpando a solidez da tua carne, a energia da tua voz e a ternura do teu toque. Não havia por que duvidarem, mas os homens não te aceitaram como um seu igual.
Amedrontados com o desconhecido, imitaram ancestrais: ergueram-te como o mais divino, o primeiro dos santos pregado nessa cruz que é afinal uma bifurcação
(o que bifurca? o teu destino? o destino dos homens? dois caminhos de yahweh?),
um cordeiro desse deus malvado que inventaram para justificar os seus actos. O cordeiro de deus que derramaria o seu sangue para a redenção dos pecados e da malvadez humana. É mais fácil uma hipócrita bandeira branca do que a perseverança em nos tornarmos melhores do que fomos, do que são os animais feros e escarninhos de onde viemos. E chamaram-te cristo, isto é, o ungido de deus: aquele que tudo supera, por amor aos homens fracos de carne e espírito. E se ungido de deus, símbolo da humanidade para sua aspiração ao bem.
Porém, nunca te seguiram verdadeiramente: nem com as palavras que semeaste em vez do gume das espadas e dos punhais sedentos de sangue, nem pelo que em ti projectaram, o cordeiro ungido e salvador. Continua a humanidade numa senda obscena e hipócrita, expiada por ti durante séculos até ao fim. A carregar a sua verdadeira cruz, não de madeira, não de pedra, mas de chumbo: vem carregando nos ombros o mundo por castigo, à beira da catástrofe, vítima da sua tão grande culpa e cobiça.
E assim errará pelos séculos, numa grita silenciosa de sofrimento maior que todos os infernos delirados. Até que desapareça do espaço e do tempo esmagada pela sua própria mão.
21 de fevereiro de 2010
vida má rês

A vida é um fado de gume bem afiado: fatia-nos em porções desiguais consoante a ingenuidade, a altivez, a cumplicidade, a cupidez, a sinceridade, a desfaçatez, a genialidade e a estupidez que carregamos durante os anos. E por último, a ansiedade de que a senilidade venha trazer-nos a sensatez de caminharmos
(seccionados em fatias-fiambre de vive-um-dia-de-cada-vez)
com a resignada consciência da nossa finitude.
E eu desfaço rude todo o espaço em volta na revolta por esse estado induzido de embriaguez, julgando que tudo posso e mando enquanto o mundo tão insano se dissolve nas teias dos seus porquês.
A vida é um desdém, em afiado gume: fatiados, cozinha-nos depois muito bem, de goela à gula, em brando lume.
É traiçoeira e de má rês, a servir-nos de alimento a um surdo-mudo deus, energúmeno que nunca soube se afinal nos queria, ou se desejaria aniquilar-nos de vez.
13 de janeiro de 2010
chama-me pelo nome

O ano caiu sob as suas raízes apodrecidas. Delicadamente o humor da terra prepara a vida para depois da estação velha, fendida a frio e a plumas de neve como só os céus podem oferecer.
Os calendários reiniciaram os ciclos após o solstício de inverno em que a penumbra desceu o seu peso sobre os olhares, os sorrisos e os gestos. Caminham agora os dias vagarosamente para jornadas mais abertas, compridas nos mostradores dos relógios do ano nascituro, em promessas de maiores alegrias.
E, entretanto, o mundo. Fendido pelos humores da humanidade, pela redundância da fraqueza social. O mundo que se recicla numa indiferença de tudo e tão ambígua: renascem as fontes, multiplicam-se sem se esgotarem os insaciáveis.
Todos jogam sem regras a cabeça dos outros. Jogam e perdem. Perdem e tornam a jogar, perdem novamente e oprimem.
Nunca se vencidos. Sempre por vencedores. Os que ditam a história.
Quando for a morte despenhando essa avalanche de grosseria, e as fontes recuperarem o sentido dos ciclos que se renovam, aí estende a mão na frente do teu mais virgem sorriso. Ergue a voz para inundar o mundo. Solta os cabelos para arejar o tempo.
Quando for então a vez de se abrirem os olhos, chama-me. Quando forem os vencidos. Quando os espelhos restituídos.
Quando se reescrever a história, chama-me pelo nome.
1 de janeiro de 2010
desassossego
não sei sobre que escrevo, nem sei se escrevo, tão madraço
quero deixar para trás as paredes sem sombras nem ocaso
esquecer a tarde, de janelas caladas onde nascem os rostos
com olhar amargo: as cortinas e os televisores iluminados
(tocam-se pianos
mãos, braços
olhos
sapatos)
porque o pensamento voga em branco
e o corpo sem tormenta transpira
cansaço
escuto o norte dos livros e dos cigarros
aconchego o bocejo na língua do nascente
grito de surdina ao ocidente em descuido
e desassossegado
então escolho de vendas nos olhos e o dedo esticado
- vou para o sul: nem sei se acabo.
5 de outubro de 2009
ciclo II

Não faz muito frio ainda, é verdade, mas reparaste já no aroma a vinho novo no ar? Os chorões e os plátanos vão despindo-se aos poucos das suas folhas para de árvores frondosas se transformarem em esqueletos ao vento. Veio este bocadinho de chuva quando o céu se cobriu de algodão de chumbo, a temperar as sombras onde nascem as estações feias
(é como lhes chamas sempre que rompe outubro, mal se nota as nódoas da chuva no cimento dos passeios, nas irregularidades da rua)
e resistes à ideia que o outono se vem instalar, ignorando o recolhimento da azálea desflorada, os assobios melancólicos dos melros, os domingos desocupados, os miúdos em bandos de mochila às costas, a noite descendo na hora em que sais do trabalho, e todos esses sinais que mais cedo ou mais tarde te tomarão, apesar de insistires que não, a resistires.
Resistes de braços caídos e olha que isso não é resistir, é resignares-te ao ciclo que se fechou onde outro se abre. Contrariada pelo modo como entortas os lábios e as sobrancelhas, sabendo que o calendário não te engana. Tens medo das penumbras, do choro lento dos dias e da imposição da noite
(não as noites quentes que deixaram há muito de ter a mesma vida, agora são apenas os pardos gatos farejando os contentores de lixo, a claridade triste da iluminação na rua, as janelas dos prédios corridas de bocejos e sonolências e o trânsito que ao longe de tão colorido
- Não digas isso, por favor
o trânsito compacto com os seus faróis ligados tal qual
- Não o digas
as luzes do trânsito como decorações de natal que pouco falta para lá chegarmos
- Eu pedi-te para que não o dissesses)
e tu choramingando como a chuva aos bocadinhos, embrulhada numa manta no sofá a procurares programas banais na televisão, ou abrindo um livro ao calhas exortando numa impaciência serena a hibernação do riso, a sede dos copos de cocktails, a brisa das árvores e a fresca liberdade de te estenderes sobre a erva jovem.
(Olha lá, mas não sentes o mesmo quando o sol reinando ufano a derreter os corpos, transformando o barro em pó, os corpos suados com a roupa colada à pele, as matas que se imolam, as tardes perdidas a recuperar do sono das noites abafadas e insones, afinal de que te queixas tu?)
Desconcertada atiras-me a manta, os livros, o comando da televisão, a mandares foder-me com as pategadas que escrevo, a dizeres
( - Vai embora, pira-te, chegou ao fim um ciclo, não é? Então que fazes ainda aí especado, não te quero ver mais, adeus)
a dizeres que
que
...
Sei lá já o que dizes: as nódoas da chuva alastraram e a noite trouxe as penumbras que te assustam, carregam para ti os momentos de depressão, os fins de semana encostados ao silêncio, e nada tem de ser assim. Olha-te ao espelho e aceita-te: vive em paz contigo mesma, e verás que os ciclos são circunferências, nada se fecha, tudo se renova constantemente.
31 de agosto de 2009
glosa
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