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24 de março de 2019

véspera

Katia Chausheva via Alternatif Fotoğraf Topluluğu.



A parede é demasiado áspera para deixar que o queixo
e as mãos lhe sintam a textura
recolhe-se o sol e este covil de letras e tons e sílabas fica mais frio
fica grave quando se esfrega a fronte
e se coloca o cabelo em desalinho
a pele arrepiada por um arrefecimento que não se espera
uma vez que a tarde feita de sol
ufano de uma promessa estival.

Ao fechar os olhos
o amanhã repudiará as palavras pretéritas
e um domingo será erguido de irrequieta solenidade
a saber que
tendo sido a véspera ébria
será a vez de retomar a sobriedade
e o silêncio.

11 de novembro de 2018

entropia



A luz imprecisa e a doçura do sono, no embalo da chuva, o vento ululando com mestria dramática, a lonjura a chorar cristais com outros sons inquietos. As mãos à luz quente do abat-jour em gestos de difusas palavras. Se evocares o ar húmido, terás a encomenda do segredo, e tudo o resto é ferimento. 

Haja ainda quem venha morrer de amor. As manhãs de novembro terão sempre este céu plúmbeo, com o adocicado humor do outono no seu aroma de lenha e caruma a arder. E os livros no lugar da esfera. A música, sempre presente, vem na vez do sol, como quem nasce para todos.

10 de novembro de 2018

transtorno


I’m getting out of here.
Where are you going?
To the other side of morning.
Please don’t chase the clouds, pagodas.

James Douglas Morrison, The Movie


Definir a paisagem além da janela aqui defronte: fotograficamente, são ângulos acentuados por sombras de um quadro de Hopper quase sem cor, ou de cores soturnas – mesmo o branco é um cinza muito pouco definido e sem luz. Movimento praticamente nenhum, excepto ramos de um arbusto que baloiçam sob um vento delicado (não é brisa nem é ventania). Não há céu que se faça destacar do resto da composição. Vários sons, no entanto. Motores de automóvel e motoreta, os vidros da janela emitem alguma vibração quando qualquer veículo mais próximo. Uma ou outra voz, de adulto e criança, sem se ver de quem, adivinha-se que femininas, por agudas e delicadas. Um avião que passa, evocando os estrondos das nuvens em horas de trovoada. E quando tudo isto se suspende, por breves momentos, aquele borburinho de distância indefinida, da rotação do mundo e das coisas que nele estão. Atmosfericamente é um dia cinzento, húmido e frio, embora não caia chuva para já.

Um espectador do outro lado da janela, virado para o interior, não pode afirmar que há grande distinção entre os ambientes de fora e de dentro. Estore levantado e, depois da vidraça, o véu pálido como que sujo de uma cortina feita de renda. Na imediação da luz que transpõe a janela, o contorno de algum mobiliário. Mais no fundo, em contraste com uma parede clara, a silhueta de alguém sentado e debruçado sobre uma mesa, ocupado com um papel branco (ou de um cinza muito pouco definido), escrevendo ou desenhando. Pelo movimento parece que a escrever. Do lado de lá não se conseguirá ouvir o som do lado de cá, mas um sonoplasta poderá conceber: o tique taque de um relógio de parede, o zunir electrónico de qualquer aparelho ligado à corrente, a fricção de um lápis rombo sobre o papel. A respiração normal de quem escreve. Algum suspiro, ou bocejo. Música, talvez, ou um televisor onde diálogos de um filme. Poderá ainda estar mais alguém engolido pela sombra, que fale com quem escreve, ou que emita apenas ruídos domésticos – adulto ou criança.

Aquele que escreve faz um gesto largo para negar o sonoplasta. Não há música, televisor, nem está mais ninguém. Após essa pausa, retoma a escrita e é perceptível o movimento da mão que vai sendo empurrada pelo braço a firmar o lápis contra o papel. Aquele ou aqueles que o lêem (lerão?) decidem: o escritor vai zangado, pela força que faz a escrever. O sonoplasta amplia o som do lápis, cada vez mais rombo, riscando o papel que, pelo ruído, sofre de enorme pressão. E agora, com a energia de conseguir alterar a disposição quieta de outros objectos menos perto de si, o quase estrondo (será altura de o sonoplasta baixar o volume) da ponta de grafite do lápis a quebrar-se, um repentino restolhar sobre o tampo da mesa, o seco tilintar do lápis atirado com força, as mãos de quem escrevia muito nervosas, agitadas, tomando o papel. Percebe-se que é rasgado e amarrotado. Agita-se uma cadeira em gonzos e arrastada. Passos pequenos sobre soalho de madeira. Tosse ligeira e pigarreio. Uma porta a abrir-se e o ruído de fora entra no ambiente com mais presença. Os motores dos carros, e um que tanto faz estremecer a janela, veículo pesado, fazendo a curva ali mesmo. A porta fecha-se, sem estrondo. Alguém passará do lado oposto e a afastar-se, pelo som dos passos sobre o cimento, cada vez mais longe, e ainda se consegue ouvir uma voz grave vociferando por um momento e depois calando-se. Nada se altera na paisagem além da janela aqui defronte. Apenas do lado de dentro se testemunhou um abandono.

Já muito depois, quando a escuridão tiver engolido o que é paisagem diurna e todo o ruído, o estore cerrado e nada para se observar depois da janela, o tique taque do relógio da parede será a única companhia de quem irá regressar sentando-se à mesa, tirando do lixo o papel amarrotado na tentativa de alisá-lo e alinhar os seus pedaços como um puzzle. Embora com menor frequência, os motores na estrada continuarão a ser ouvidos, conseguindo ainda fazer vibrar a janela. A luz fraca de um candeeiro iluminará o que lhe está próximo, mas transformando as paredes em sombras disformes. Um isqueiro acenderá um cigarro. Outros papéis sobre a mesa farão a diferença. Não estão cá neste momento, serão trazidos no regresso. Não vamos precisar do sonoplasta, vamos assumir que nenhum outro ruído poderá ser escutado para além do relógio da parede, a brasa do cigarro consumindo o tabaco, o sopro do fumo, e o som dos papéis manuseados. Num deles, com a luz trémula da lâmpada quase a fundir, poder-se-á ler, grafado em caracteres oficiais de diagnóstico, «perturbação obsessiva compulsiva». Será insone a próxima noite.

18 de agosto de 2018

sábado



Espontaneamente, o teu rosto. Com um claro e evidente 

(clarividente?) 

estrondo. O amor incondicional. Esse éter que se materializa no sangue, carne e sentidos que definem a Mulher que sou. A que sempre fui e se atrasou no tempo. Viu os tempestivos humores da alma como barreiras intransponíveis, rastejou na lama como verme imundo, ascendeu no ar como pluma para variadas vezes ser assassinada por caçadores furtivos. 

Durante décadas foi logro, alternando sem nada entre a ilusão e a mentira. Sempre na espera que um ombro, que um colo, que uns dedos meigos entre os cabelos amenizassem o vazio. Sempre sem ninguém. Não havia ninguém. 

Na madrugada foi assim: fotografia instantânea, com o teu rosto dentro a fazer-se de sol redentor. A tua voz garantindo entre o fogo e os tormentos que, afinal, sempre valeu a pena. E soube assim, ali, da importância do teu sorriso resiliente. 

Se não foi isto um sonho, então entra, e sê o Homem.

12 de agosto de 2018

negação ou dissertação sobre o nada




Fiquei encalhada na lima da aresta, com suspiros de peixe a sobreviver fora de água. Coloco o chão acautelado de qualquer vibração que possa alterar este estado e me aborreça. Não quero aborrecer-me, pleonástica, uma e outra vez, como quem insiste exigindo a um cego que veja com os olhos mortos. Fui desprovida dos beijos e abraços que outrora soube colher em teu colo. Digo o teu nome e já nem o eco assoma. Estas nuvens passeiam-se a dar-me misericórdia ao corpo estendido, a metros do mar que se enrola pateticamente em métrica e sílabas dissonantes. Sobe um vento devagar, a tentar o conforto dos meus ombros e dos braços inertes. 

Não sei onde estás, e como havia de saber, para que fortuna minha contribuiria se o soubesse? O que é de incerto em ti já não se compadece com a minha sede de te saber. Não há por que te encontrar. Caule pisado, aninhado em sofrimento por tentativas vãs e repetidas de suster a flor. Há um comboio a zunir mais longe, acorde partilhado com os gritos das gaivotas. Lá no alto, e no centro, dará para ver o caminho que escolheste? 

A tarde sobe já, a moldar os ângulos da periferia, a tarde espreguiça-se toda de domingo. De areia sem deserto. De betão sem sol. De sombras sem jardins. Não consigo olhar as pessoas, doem-me punhais. Não sei nem quero (não sei se quero) dizer alguma coisa, se todas as palavras se afunilam desde que nascem, hiperbólicas, no pensamento, até à abertura poluída da língua. 

Sonho que quero sair. Divago. Divirjo. 

Entorpeceste os movimentos de que ainda era capaz, a projectar rectas ou, no mínimo, círculos mais alargados, dos que se perdem da vista do raio. Queria ver os miúdos saltando na água. Sentada em lótus, talvez beberricando cerveja. Tornar-me ciclope. Não sei se vou, se faz sentido ou se há vontade proporcional para me erguer desta aresta. Sei de mim porque o corpo pesa. Pesando mais a alma, porém. 

Fecho os olhos para contemplar a memória sobre as ervas daninhas, moribundas entre as fendas da calçada, e no horizonte perceber que a terra justifica o seu cansaço com os calores de agosto. Já se nota – sabias disto? – que a luz se recolhe antes dos relógios ainda ufanos da condição estival, a encurtar os dias devagarinho como se propaga uma doença maldita. Quando se der por ela, e as brisas cortarem mais frias, estará a sorrir-me o outono, indicando que é altura de regressar. E eu possa assim voltar a mim, a ser eu própria como são as folhas morrendo das árvores concentradas no chão. 

E agora pasma-te: por não saber mais onde estás, não quer isso significar que não saiba eu para onde vou. Sei, claro que sei, somos o destino que construímos. Não te cresçam aflições, meu amor. Sei o que me reserva, o que reservei para estar e ser. Acontece é que neste momento não quero. Só me interessa o nada inclinado numa aresta, a alimentar o domingo de bocejos enquanto não acaba.


28 de julho de 2018

em pé

Kültür Tava

Sustém a fadiga a beijar o corpo e deixa-me sair como quem se despede para destino incerto, a saber que o fogo também unge e salva, que nada espera. Censura-me se encosto o ouvido à lamúria, advertindo-me sobre as auroras prenhes de luz. Pois que estou com esse medo de todo que me quebre o corpo, e de um assombro perca os membros, e me resigne a uma inutilidade de réptil por em oco deixar-se o osso definhar onde rémiges haviam de crescer para me tornar alada e dessa forma a divina que viste em mim.

Já só dói o teu sorriso aquecendo a líbido das mulheres alheias ao teu anseio. Não sei imaginar a tamanha saudade que vou ter de ti. Hei-de procurar-te na orla do mar. Não por acreditar na redenção do pôr-do-sol idílico preliminar dos amantes em estampas românticas. Hei-de ir na madrugada mais escura, fria, se possível na porcelana branca do nevoeiro. Procurar-te e ser invisível, ou apenas vapor sem forma ou claridade. Não terás a necessidade das lágrimas então, certo que o teu regresso seria erro de feitio, insistir no fôlego quando o ar é tão rarefeito.

Fico bem. Sabes que a mim não me bastou nunca o sofrimento. Satisfaz-me sentir o cheiro do sangue, afirmando a certeza que as feridas cumprem e são concretas na dor. E fujo da morte como castigo. Se morresse, certa estou que seria para um nosso reencontro. Lá não há nada, não queiras ser nada entre os meus braços. Não venhas. Pretere o vazio, que em mim mais fundo e tenebroso é o abismo.

Sustém a fadiga a beijar o corpo e deixa-te sair como quem rende os dias, a saber que a terra é sacrilégio para quem fica. E pesa. Como pesa, ainda que as brisas e os ventos. E as árvores testemunhando, irmãs, que é em pé que se ganha a eternidade. E a solidão.

10 de junho de 2018

escrever liberta



para a Fátima Matos

- Escrever liberta.
- Liberta o quê?
- O que te vem da alma, minha querida, tudo o que te vem da alma.
- Então muita coisa, e do coração ainda mais…
- Do coração, da alma, até do corpo – somos disso feitos.

Planta o teu sorriso, e escreve: de que é feita a terra e a sua cor. Quando é lama e pó, e as criaturas que a habitam. Das tuas unhas nela entranhadas. 

Solta o teu cabelo, e escreve: sobre o que faz soprar o vento, medonho no inverno e como uma carícia quando uma brisa no verão. Da forma como agita o mundo e ainda te faz secar as lágrimas que te lavam o rosto de amarguras ou solenes alegrias.

Esmera-te a regar as raízes, e escreve: como foi que o teu sorriso afinal medrou. Por que são tão importantes as chuvas conciliadoras ainda que seja o sol que desejes, a lamber-te a pele. Escreve sobre a planície do trigo, a forjar o pão. Por que há noite e dia, e aquela hora pequena entre a madrugada e a aurora a incentivar as flores e as copas das árvores altas, murmurando.

Abre as tuas mãos para receberes o fruto, e escreve: o que faz a carne, por que se desfaz a polpa. O que faz pulsar o sangue, e a cor leitosa do sémen. Se foram em vão ou não todos os teus sacrifícios, bem como as dores que o mundo tem. Escreve sobre o doce e também sobre o salgado. A textura da língua, e a saliva alheia que lhe sacia a sede.

Assiste da forma como se rende a tarde como virgem em furor, e escreve: de que é feita a luz e qual a razão de ser assim eterna. Como é que, sendo nós dessa condição da terra que é lama e pó, nos transformamos num brilho permanente aspirando com a morte o seguro firmamento do céu quando desce a noite.

Nessa altura, minha querida, ao repousares sentada e encostada ao tronco da árvore, a abraçar brisas de verão sob a sua sombra, lembra-te de escrever, a essa mesma árvore que te acolherá, sobre a razão de ser ela tão livre para que a natureza lhe conceda esse milagre de nos dar o seu fruto.


6 de maio de 2018

prelúdio


Kültür Tava


Suspiras como uma sinfonia e estas paredes confidentes do teu corpo. Por capricho, maldade ingénua, ou simples amuo momentâneo, o vidro da janela sustém o fulgor da claridade plena e desvia-te a luz da tarde para um ângulo isolado do quarto onde as partículas do pó se ferem por algum protagonismo. 

Dizes que escrevo inseguro, que é uma pueril falta de confiança, mas logo percebes a oscilação do tampo da mesa onde tenteio, só e incapaz de manter o rumo do navio na previsão de uma tempestade. Tudo se move contra vontade – não sentes? –, essa desconfortável vibração como se o mundo fosse ruir e já antes de nós o susto das aves na sua revoada de espanto, fugindo. 

Não temos cidade, escaparam-se-nos as copas das árvores, e quando sopra uma brisa é um hálito tão temeroso que acabamos duvidando do sentido desta existência. Dos suspiros vem-te a ideia de uma demanda, mas não sou anjo nem cavaleiro, não vim para dar salvação, e estarei sempre numa partida inglória. As minhas palavras não produzem, apenas espigam como o joio. Seguem de igual forma temerosas, num veículo que oscila, desmedido da força da corrente, inconsciente da velocidade. 

Hás-de reparar nos semblantes de quem viaja no regresso a casa com a fadiga nos dedos e um grito incerto no olhar. Não sabem porque gritam, ou porque lhes apetece gritar. Agitam os cabelos quem os tem, fumam seus cigarros os viciosos, deambulam todos, perdidos. Aquelas cabeças dançam, abandonam-se a incertezas – sem receios, podemos notar, mas ainda assim apreensivos com a escuridão certa e irrefutável. 

Nas palavras que ainda saem de mim há também mulheres bonitas, dessas que seduzem apenas pela forma e com o gesto singelo da sua feminilidade. Navegam no mesmo tampo. Viajam no mesmo corredor. Vão também sem ninguém dentro 

(as mulheres? as palavras?) 

a sentir que a alma lhes pesa tanto quanto um acessório inútil dentro um bolso. Sorrio-lhes, com certa comiseração, e observo-as a desperdiçar o ânimo para dentro desse escuro. Respondem ao sorriso como se mais nada, mas, mesmo assim, indiferentes a uma possível tábua de salvação. 

Já não se carrega a humanidade na carne. Teme-se o amor. Todos nós o tememos, pressentindo a aflição de o perder. Já não suspiras, ou é o acto final que te deixa a desmaiar. São as pálpebras na procura da vigília conciliadora. Se me vier o sono, será norte ou será morte. Porém, das janelas, ainda persiste a tal luz angular. Questiono sobre esta demência disfarçada de entorpecimento, se hoje foi um sol tão raro. 

Perdi a parábola, era suposto falar-te e nada soube dizer. O que pode ser dito do indizível? Soltam-se as palavras do alinhamento da escrita e perdem-se entre os cantos, na subida das paredes, amedrontadas se há vibração no chão. Como bichos que rastejam. Contemplam o bailado da poeira no vértice da luz desviada e aspiram, alucinadas, ao mesmo protagonismo, furiosas, desequilibradas, tão humanas. O teu corpo dorme. O meu insone. Levo os dedos aos meus lábios, recordando que tinhas vindo para os beijar. Houve faúlha, chama e hulha quente, agora apenas cinza. 

Os dias sempre foram muito bem contados, não podemos distrair-nos. As madrugadas serão sempre imensas, quando dormes. Mesmo que haja dia, mesmo que a noite dite o fogo. Teria graça poder contar-te como foi. Quando me vires, porém, já serão as papoilas sobre a minha campa.


23 de março de 2018

dizer silêncio

Jordi, via Kültür Tava


Dizer silêncio é ouvir a distância chorar.

A noite é um corpo húmido e túrgido
afecto de distâncias e rubores,
quebranto dos meus lábios que entumecem
no calor dos afagos.

Chove numa lassidão queda
num murmúrio sereno de vegetação,
as sombras são vultos feitos de água,
fervem as minhas veias clamando o sono quieto do corpo;

e num torpor
a minha pele que sacode as gotículas da pequena chuva
sussurra sibilante na delícia do toque de veludo
da madrugada,

rendido que estou ao pranto da distância que se diz
silêncio.

30 de dezembro de 2017

ver morrer

Kültür Tava

Serve-me no rosto a gota de sal e esquece a taciturna nuvem enovelando a tarde. Cada segundo um tambor do tempo em meu peito como um cavalo galopando pradaria fora. A chuva serve de mortalha ao ano que se finda e nós sem um gesto comiserativo, ou qualquer ansiedade para lhe velar o corpo, preocupados com a ignomínia dos pagãos.

Ver morrer não é signo de passagem. Ficamos quedos no passado, a indagar as razões dos nossos fracassos, ofendidos com esta pressa que o tempo tem de se ultrapassar, sem hesitar sobre os actos, sobre as cruzes, sobre as lágrimas de quem está aquém e não sabe o norte do futuro.

Eu e tu não provaremos deste ou de outro amanhã. Temos vindo a tactear o mundo com os olhos muito abertos na alfena escuridão e não sabemos onde estão os nossos corpos para repousar. Temos as mãos unidas para mais rápido nos afastarmos com medo. Temos os lábios em comunhão para céleres se ferirem de sangue. Ouvimos o murmúrio de uma canção mais longe mas é o silêncio que entre nós cresce. Temos a voz rouca de tanto gritar no vazio.

Serve-me o sal numa gota do teu abraço. Entro profundamente no céu dos teus olhos e são as brisas de maio, o trigo de julho na cama dos teus cabelos, o humor da terra de outubro no teu baixo ventre. Motes de uma fábula por inventar que já não sei escrever. Nada se inaugura. Levamos os livros velhos, a tinta desbotada, toda a vida já contada e sem outros planos que o caminho sobre a argila vermelha de um sul estéril.

Vai descer a noite e o novelo da chuva não se precipitou. Está nos céus em anseios de virgem. E o tempo é um touro marrando com cio. Vai preparar-te. O esquisso do que quisemos que fôssemos será diluído quando a chuva chorar de espanto ao sentir-se possuída pela virilidade do tempo que lhe semeará no ventre o alicerce do ano que já não vamos poder ver nascer.

Serve-me dessa morte no sal de uma gota que deixaste por mim.

9 de dezembro de 2016

não!



Quem és tu, que me assombras as noites e me inventas os sonhos

(por piedade, deixa que seja eu a comandar os sonhos que tenho)

tu que me atordoas o despertar e me fazes viver o dia como se já não existisse amanhã e quaisquer esperanças de mudar, e de tudo o que vivo me pareça sombras de parede, de muros intransponíveis? Esses muros que, ciclicamente, destruo e construo, consoante o humor do sol?

Porque me fazes isto? Ou que te fiz eu, quais foram os muros que te ergui, se declamavas a tua felicidade reinventada? Diz-me que muros foram esses onde te encurralei para que me persigas tanto como se os meus dias e as minhas noites fossem

(ou sejam)

diacrónicos labirintos onde não sei quando

(ou em que lugar)

colocar o verbo ser? Ser eu: porque não sei já ser eu?

Porque não te arrancas de mim, tubérculo que sugas de mim o húmus para cumprires a tua seiva? Por quantos demónios teimas em ser uma doença?

Porquê eu, ou porquê tu e eu? Se nem sequer para o engenho da escrita me serves, e me enjeitas os rios e as ninfas, o luar e a música? Porque me queres só para ti, para esse sofrimento cardíaco e míope, para uma fatal síncope?

Quero-te longe, como Abril deseja a distância inequívoca de Dezembro; como os morangos e os amores-perfeitos receiam as geadas fora de estação; como o nardo da giesta se insurge contra a intempérie das chuvas de Maio!

Da mesma autoridade com que os cabeções dos sacerdotes cristãos impugnam as culpas do mundo ao impuro Satanás e sua fétida legião de demónios, assim eu te esconjuro para longe, 

(ao mar coalhado!)

para que me salve e possa lavar corpo e alma de tamanha imundície…

Forçarei, ainda que com as já parcas e fracas vontades das minhas carnes

(ó condição humana!),

contra o teu agrilhoamento. És apenas uma noite de Inverno, adjectiva, de era uma vez. Sai-te, desconsolo, e deixa que abra o meu caminho.

1 de outubro de 2016

mistério da fé

ou: um poema para a Marlene



Deus é o útero. Conceição.
Ubiquidade da condição
humana.
Se fores a ver Deus,
dá-Lhe um abraço meu;
se Lhe falares,
diz-Lhe que existo.
Tudo o resto
 – que nos pregam –
são anseios.

(ou talvez o horizonte
detido
em cada um dos
 umbigos)

Não seremos ovelhas.
Antes propensos
aos erros humanos
que seguir a santa
procrastinação.
Se somos Suas criaturas
Deus é o útero
de onde viemos
a insinuar o coração.


21 de março de 2015

poema para a miúda com a chave

Janina Steiner, fotografiia de Laura Zalenga

dedicado a Ana Cristina Chaves

Onde está a graça?
Fecundada nos teus lábios murmurados
de mosto e álcool enquanto
a noite se avoluma rendida em corcel
alimentada à luz de ti

(por que a noite nascida em teus olhos
não conhece penumbra)

Dizem que é atitude de riso fácil,
que de tontarias vai sendo feito…
Dizem assim escarninhos

(os cegos – como eu e tantos )

aqueles que preferem
permanecer incrédulos dessa habilidade
de carpir uma alma tão limpa e clara
que faz tremer de inveja
os mais puros cristais
jazidos em profundezas de admirar

Onde é o humor?
Lascivo e cândido como quem leva
o próprio corpo
num altar celebrado por rebeldia
cuja sede e fome, sangue e carne
tão bem amplia
a força de quem sabe
como sobreviver

Ah!, e dizem conhecer-te o lema
para depois escarnecer
de tão embriagados que estão dessa outra
coisa qualquer que nem alimenta suspiros
nem espanta as sombras

Podia eu ser

(se não receasse a loucura 
e a inocência
e a espuma e o ar e todos
os raios que me partam)

o cavalo imponente que montarias
levando-te aos cumes do mundo
dando a conhecer-te em todas as
latitudes humanas

Podia ser eu sim
- se tivesse eu a mesma gana,
e essa graça,
e esse humor.

22 de janeiro de 2013

crónica anoitecida

Olhares.com


Chove, o que não seria novidade se não estivéssemos propensos a uns dias de sol – ainda que frios, ao rigor de janeiro – depois do que foi o fim-de-semana devastador. A mim, o temporal levou-me as caleiras da casa, encorrilhou umas telhas, e manchou as janelas de ar pardacento como se não houvesse lugar a auroras

(é estranho escrever auroras por que sempre me lembram o levantar dos dias estivais)

e a madrugada se prolongasse carrancuda pelas horas do dia.

Não vou demorar-me no frio e na humidade que têm sido estes dias. Até a legislação, o governo da nação e o estado dos cidadãos me parecem crespos como o mar em dias de temporal. E talvez, segundo previsões em nada meteorológicas, seja coisa a aguentar o ano inteiro… Mas que fazer, senão ir para a rua gritar?

Também não vou gritar. Apetece-me o sono e o conforto da cama

(é estranho escrever cama e conforto quando tanta gente por aí sem uma coisa nem outra)

ainda que venha a luz da manhã despertar para a corrida do trabalho.

Desta vez (só desta. Só desta?) não vou querer saber. Enrolo-me numa espiral térmica, e o mundo fora de mim irá precipitar-se como filme em avanço rápido, tarda nada entardece e a noite outra vez (outra vez um pleonasmo?) a assinalar que tenho de correr os estores da janela.

Será um dia que não se conta. A não ter existido.

A que vem isto, José? A que vem isto e a quem interessa? Repara como desperdiças papel: encarreiras a esferográfica numa espécie de beco sem saída e surgem rabiscos, arabescos, flores infantis, um qualquer desenho pseudo-qualquer-coisa-a-calhar-surrealista-parvo e não sais daí.

É noite. Não percas o tempo. Não o deixes que te engane. Desliga a internet, o facebook. Não te parece que lá esteja alguém e, no entanto, milhares, não é? Ninguém contigo. Tu com ninguém. Parece estúpido, e é. Desliga. Desliga o computador. Assim.

Surge o silêncio. Lê. Anoitece. Deixa que te anoiteça o sono. Talvez amanhã. Alguém. Por um bom dia

(e é estranho escrever bom dia quando não há ninguém que responda).

5 de outubro de 2012

do hálito das folhas caídas e quebradiças

foto de Georgina Noronha

Regresso à inclinação parda do ocaso sob o hálito velho das folhas quebradiças ao largo pelas bermas. Daqui a nada – um, dois meses – as árvores se assemelharão a ossadas erguidas, e nós com ar de espanto a rodopiar sobre um pensamento fugaz

Já é inverno…

sem que tenhamos dado conta das chuvas miudinhas, do nevoeiro denso, da iluminação das ruas e dos autocarros à última hora de ponta. Sem que tenhamos dado conta que ansiar tanto pela sexta-feira, ou pelo fim-de-semana, ou pelo próximo dia de folga é dar muitas voltas ao relógio e então

Já faço anos…

ou

Parece que ainda foi ontem que…

e isto apenas pensamentos fugazes em momentos que parecemos despertar de algo que não percebemos muito bem o que é e de onde vem, e logo a seguir continuando a ansiar pela sexta-feira, pelo fim-de-semana ou o próximo dia de folga porque trabalhar cansa para, porque temos tão pouco tempo de, porque o patrão é, porque quero estar com, porque… enfim: porque estamos insatisfeitos. Nem todos, sabemo-lo, nem todos, pois.

Vou recolhido em longas leituras. Abstenho-me de ruídos, de luz clara, e quase diria que do próprio ar se não fosse o ar necessário para respirar. Adormeço mais cedo e acordo mais tarde. Abstenho-me de ruídos não: ouço o latir dos cães, o recolher dos melros. Então depois disso, nada mais.

Ou o ruído de: a caneta pelo papel branco é um automóvel solitário pelas ruas de uma cidade deserta, como escrevi algures, mais coisa menos coisa (que importa?). Ou nem há sequer a caneta bufando: será apenas o papel branco, que já não fala e segue bocejando sempre de inutilidade. A sujar-se da penumbra. E quando eu olhar pela janela vou perceber (sem saber o que é e de onde vem)

Vê lá que já é inverno…

ou

Parece que ainda foi ontem que…

enquanto na rua, logo ali mesmo à porta, a berma a decompor em lama o quebradiço das folhas caídas. 

Regresso? Talvez nunca de cá tivesse saído.

11 de novembro de 2011

palíndromo


Me incido e desdobro-me em ti, palavra sem certeza e rápida que passa como nuvem empurrada por um vento que nos desfaz assim, nessa palavra polida pela imagem rasgada de uma tela. Na minha voz és cor, mas sem sabor porque a língua não te produz, apenas emite o que o pensamento julgou ser e luz. São aguarelas os poemas, trazes o título dessa canção que os meus ouvidos ouvem como quem mexe na estéril areia.

Perdoa-me, não sei dizer-te nem contar-te ou ver-te, apesar da cor e da sombra no meu espírito. Nascem os dias grávidos de luz e vapor das manhãs que não cansas de inventar, mas mais palavra que és não serás jamais senão a palavra que não quis ou soube. Que é como quem diz um poema que não tem título nem voz para me existir, e cantar-me. E por tudo isso, e algo mais que fica sempre por dizer ou lembrar, mereces muito mais do que feliz aniversário. É por exisitires que existo, enfim.

De mim para aqui, dentro de ti.

23 de fevereiro de 2011

há dias



Há dias em que escrever é um terrível sacrifício. As palavras desentendem-se, exaltadas e confusas, e por isso, em vez de escrever, enrolo-me num cobertor

(talvez fume um ou dois cigarros no intuito de fazer adormecer as palavras, mas sou eu quem boceja)

e aconchegado a uma solidão pateta, construída por paredes de sombras paridas na frieza do entardecer, ligo a televisão e afundo-me na morrinha de um programa qualquer a que não presto atenção porque as palavras

desentendidas, exaltadas,

distraem-me e levam-me por becos e travessas de pensamentos, articulados e fazendo todo o sentido ao princípio, mas fragmentando-se e distribuindo-se depois pelas sombras que me vão pesando as pálpebras enquanto a retina dos olhos parece ainda fixa na claridade do televisor, de que nada entendo, e já não ouço, entrando assim numa vigília atormentada por fragmentos de sonhos. E as palavras ainda desentendidas, exaltadas, tomam corpo dentro do sono que se adensa, se aprofunda, e quando dou por mim

(sem dar realmente por mim, sou um corpo adormecido dentro do rolo do cobertor, iluminado pela claridade do televisor e embalado pelo ronronar das vozes que dali saem)

estou entre a confusão alarmada das palavras, recusando-me a tomar partido de qualquer das partes divididas entre o escrever e o não escrever, entre o querer tudo e nada dizer; e sem perceber patavina do que estas palavras divididas pretendem

– Quem vos evocou?

sinto uma aflição a espalhar-se por mim, pois entretanto algumas das palavras embuçadas pelas sombras que o fim de tarde pariu, portanto, palavras embuçadas, transformadas em vilãs, extorsionárias, impiedosas, violentas, fazem um cerco à minha volta, eu todo aflições,

– Quem vos evocou?

querendo correr e a distância, ao invés de encurtar, cada vez maior, porque maior agora a escuridão, maior a patética solidão, maior o meu desespero enrolado num cobertor de palavras vilãs,

– Quem vos evocou?

eu chorando, convulsivamente chorando, emocionado pela morte de alguém que estas palavras por má fé quiseram desde sempre esconder,

(exaltadas, impiedosas)

o meu pranto convulso rebentando uma nascente de água salgada onde, por vingança, quero afogar todas estas palavras que me cercam, me sufocam, porque não palavras, já não palavras que se desentenderam, são sombras que a televisão não soube matar com a sua claridade, é a solidão que me violou os sentidos enquanto eu pateta, questionando às palavras rebeldes

– Quem vos evocou?

(por isso é um terrível sacrifício escrever devido à pardacenta luz do entardecer, cruelmente entorpecedora).

Quando os meus soluços enfim a cessar e eu conseguindo entreabrir os olhos molhados pela dor, por essa morte encoberta que as palavras barraram, esconderam, fazendo-se desentendidas quando

– Quem vos evocou?

foi então que revelaram

– É o meu pai, é o meu pai

como que a explodirem, elas agora agonizando

– Foi o teu pai, foi o teu pai
– Foi o pai
– O pai
– Pai
– Pai!

e acordo porque está a minha filha ao meu lado, mexendo-me, chamando-me

– Pai!

desenrolando-me lentamente do cobertor parido de sombras. Uma luz do tecto acende-se e é a minha mulher com um sorriso nas mãos, que me afaga o cabelo

– Estiveste a dormir, querido?

e é assim que regresso à presença do televisor ronronando, a minha filha, na sua voz ainda frágil,

– Pai, estiveste a dormir?

e eu, afastando já as palavras

(exaltadas, desentendidas)

liberto-me da patética solidão porque já não sombras, já não aflições e desesperos, já não lágrimas e prantos, agora tudo claro: quando me ergo a sorrir para beijar a minha filha, ela, na sua voz ainda frágil do bebé que já não é,

– Pai, estiveste a chorar?

De modo que… há dias em que escrever torna-se um terrível sacrifício.

25 de janeiro de 2011

às vezes

Luar © JVieira

Apesar de tudo, a mesma melancolia. Não evoques o sol e o verde nas árvores, porque este sol ainda nada aquece e as árvores de folha caduca só não caducaram de vez porque vão continuando de pé. Não quero desiludir-te mas não importa se o faço: eu vou enrolando os cobertores na cama onde temperaturas tropicais me fazem sonhar sobre os paraísos que ainda não conheci. Vou tão cansado do vento a cortar frio o rosto e as mãos, vendo as pessoas pobres a mendigar de farrapos sobre o corpo, e por mais que enrole os cobertores não as vejo de olhar mais feliz. Vou cansado da luz troçando de mim no soalho e se um pé de fora o corpo imediatamente todo tremeliques. Que mariconço me saíste, pensarás, a aconchegar-me com mais uma mantinha sobre a cama e os infelizes sem deixar de tremer uma esmola deixada nas mãos farripas. Nem quero que subas os estores e corras as cortinas. Deixa-me nessa penumbra amiga que conheço há tantos anos, a minha concha, o meu refúgio, ficando a iludir-me que se o mundo não me vê o mundo não é assim, poderá ser diferente quando um dia quiser enfim levantar-me e deixar o clima tropical enrolado nos cobertores. Que importa haver sorte, felicidade, amor, bem-estar, se entre isso há tudo o que é o seu contrário? E porque hei-de eu importar-me com isto? E porque hei-de importunar-te com estas coisas? Não sei que dizer-te. Podes sempre sair. Dói-me, não sei se me entendes. Dói como deixar a mão regelando com o vento seco e frio de janeiro. E quando me dói, regresso à infância dos medos, dos sustos, da ansiedade. Regresso ao centro da ferida. Regrido a um leito doente, entre as febres tropicais da cama enrolada nos cobertores com milhares e milhares de pobres de farrapos no corpo. Deliro e dói. E fico na esperança tonta de, uma vez infante novamente, uma vez mais inocente a morrer, me veja tornado anjinho do senhor com ganas de entornar o mundo e encher a taça de um novo vinho. Regenerado. Mas o senhor vem castigando-me desde tempos que nem sequer conheceste. Vou estrebuchar, ranger os dentes, gritar para dentro, lutar contra uma ressaca inventada mas saberei encontrar-te quando enfim a tal janela se voltar a abrir, e entre jardins novos reencontre o sentido de cá continuar. Sai, deixa agora a penumbra entrar e sai tu, que és do mundo. Eu só o sou às vezes.

15 de janeiro de 2011

paternidade II


Dei conta de os dias terem crescido minutos uma vez que janeiro

- salto do cordeiro!

mas não foi apenas pela temperatura amena e pelo facto de as nuvens terem dado tréguas nestes últimos dias, ainda o ano a dar os seus primeiros passos, para que nestas longas horas tenha tomado o gosto à primavera por vir: foi mais um ramo que de mim brotou, antecipando-se aos botões por desabrochar nas árvores esquecidas pelas neves do inverno. Veio do quente e fecundo útero da mãe para os braços do pai que o ampara no esplendor do mundo, desse que ainda é, do qual ainda se garantem esperanças.

A felicidade tem momentos pequeninos, dos que acontecem todos os dias e a toda a hora, sem que tenhamos tempo para neles reparar. Este meu momento ao qual nunca teria sido alheio, tem o meu rosto regredindo quarenta anos, trazendo-me a segurança de uma imortalidade para além do corpo. A felicidade pode ser a alvorada anunciada num vagido ainda que acontecendo aos primeiros minutos de uma tarde bem luminosa

(que bom: agraciado pelo sol).

A felicidade leva o meu nome no mundo, por quantas gerações lhe seja concedido. São momentos breves, mas tão intensos, ternos e calorosos que a memória jamais poderá renegar. Os dias cresceram, bem os senti, com um ar fresco de alento, de reanimação do mundo, do meu mundo

(sorriu para mim: que bom, fui agraciado pelo sol).

Os dias vão crescendo e eu irei assim embalado, renascido, e a crescer devagar com eles.



12 de março de 2010

here comes the sun

Here Comes The Sun, The Beatles, Abbey Road (1969)


O sol nasce

(para todos?

- Vais filosofar a esta hora da manhã?
- Tens razão, não vou)

e quando nasce vem prometendo que se recolherá naquela hora em que se deixa já de sentir-se o inverno

(apesar dos dias de chuva, do vento e do frio que como vagabundos sem abrigo, sem destino, sem lugar ou hora certa vão dando mostras do seu mau feitio quando já tudo menos se espera deles)

e o assobio do melro entre o verde que se reaviva inverte a melancolia em sorrisos espontâneos, as pálpebras cerradas a apreciar-lhe o canto com um prazer que se pensava esquecido e os braços espreguiçam-se como se todos os minutos do dia fossem de morna alvorada.

Bicicletas limpam-se do pó e do bolor das penumbras de garagem a cortar o ar em velocidades de pardal sem levantar do chão, e os casacos saem do corpo para seguir a tiracolo ou atirados para dentro do roupeiro

- Hoje ficas aí

e em vez da camisola farta e cinzenta, a leveza do algodão colorido.

As árvores despidas vão vestir-se lentamente não porque deixaram de se sentir quentes e tenham agora frio mas porque se vão vestindo de frescura a convocar brisas, aromas, sombras graciosas que não trazem depressões no seio. Os rebentos na terra esperançando frutos novos e quando menos se dá conta, já os prados se enchem de malmequeres brancos e amarelos enquanto não amadurece o tojo e a giesta.

Bucólico o ar sem ares de tristeza. Então, os cabelos das mulheres mais belas semeiam a primavera, renovando o ciclo das estações, sempre e cada vez mais esperada com a saudade de nos sentirmos felizes, de que talvez o tempo não seja assim tão cru e nos conceda o desejo de se deixar ficar paradinho de todas as vezes que a memória o proteste.

Vem aí o sol, é certo, mesmo que lhe custe ainda adaptar-se à inclinação deste hemisfério onde tentamos todos encontrar razões para nos livrarmos

(olha, afinal sempre se filosofa)

de tantas nuvens negras – físicas ou metafóricas – que nos têm atormentado há tantos meses e em que parece que envelhecemos sem dar vazão ao próprio tempo.

(- Pára! Não estragues tudo. Não resistes mesmo, não é?
- A natureza prossegue, meu amor, e a minha é assim mesmo... não a posso travar.)