Houvesse eu na mais indecisa circunstância e teria no despertar a dureza das cascas velhas dos pinheiros. Fiz-me, porém, em ilha, e lancei-me aguçado em preliminares fotografias, entre vapores e suspiros. Veio a alvorada num pequeno incêndio sem fogo ou fumo, só a temperatura ágil da xícara, o aroma do trigo e aveia cozidos, o lento roer de um damasco. Circundar a ternura pela curva mais apertada do último sono. A manhã no hálito delicado da caruma onde vestígios solenes dos primeiros orvalhos, depois das quentes jornadas de um verão estalejante. Dispersasse a água por chamar o olhar e o esforço libidinoso dos lábios, mais um gesto pungente que o corpo não sabe disfarçar: tangentes os dedos na perpétua manhã de domingo.
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26 de agosto de 2018
19 de junho de 2018
justaposição
antes da lógica, mandam que o coração
seja palco geocêntrico, enquanto a silva voz,
num grito,
repudia as leis da física;
e falam-nos, com ar de incorruptível alegria,
de uma praça verde, planície até ao solstício,
como se os mares fossem declives
onde só o inferno possa ser chão,
enquanto o firmamento pétalas
de flores sem fim.
vamos lá a ver:
nada fulge como parece, e acidente
é o terreno, se vos
enganam os sentidos,
pois que no crepúsculo do dia ou na efémera estação
estais lá vós e, no firmamento,
afinal,
reina heliocentricamente a
razão.
31 de agosto de 2011
é isto e aquilo
Não sei o que fale o que diga o que escreva, talvez perguntas em meu redor, eu de copo de uísque numa mão e de cigarro na outra
- É isto e aquilo
e no entanto nada, eu sozinho parado perante a brancura de um papel que teima em não ser a voz
(o papel branco a voz da minha solidão)
e sei que
- É isto e aquilo
mas não sei dizer isto e aquilo, porque as palavras não fluem, atropelam-se no pensamento, sem desnivelamento como as auto-estradas. Sou um velho automóvel
a esferográfica é como um automóvel às voltas pela cidade
que não sabe o seu caminho, que não sabe se o combustível vai chegar, eu apertando a buzina para dissipar o trânsito e os outros, à minha frente,
- Passa por cima
as palavras para mim, engarrafadas no pensamento, não conseguindo chegar ao papel
- Passa por cima
e é por cima que tento passar, com uma enorme borracha sobre todo o passado que se acumula dentro de mim, mas qualquer coisa apenas se dissipa, não consigo apagar tudo, a marca está lá, eu estou aqui, e o papel sorri-me com ar de desprezo porque não
- É isto e aquilo
é qualquer outra coisa que só o meu semblante distante insinua.
O copo de uísque num piscar de olhos vazio, o cigarro já apagado, os minutos que se esvaziam como o copo, o tempo que se apaga como o cigarro, ou seja, não se apaga, apenas queima e ao queimar deixa a sua marca, indelével, dolorosa, como se tudo que fosse ontem me saísse vomitado neste entroncamento de palavras atropeladas e engarrafando, gritando umas às outras
- Passa por cima;
tudo o que fosse ontem me fosse o presente aqui e agora, a infância, a adolescência, os primeiros dias de trabalho, eu responsável por ganhar o meu próprio dinheiro, ouvindo dos outros, atrás de computadores e papeis intensos
- É isto e aquilo;
eu aprendendo como se redige uma carta, um fax, anos mais tarde como cumprir um orçamento, ajudando ao equilíbrio financeiro, os números sem engarrafamentos, sem
- Passa por cima
os números perseguindo-me em fileiras, armados de raízes quadradas e rácios, prontos para me atacarem, cercarem as palavras mais nobres do dicionário com
- Faz um print
ou
- Calcule-me a margem
Mas qual margem, esquerda ou direita, norte ou sul, e eu preso pela primeira vez pelo papel branco, sem saber que caminho tomar com as palavras engarrafas dentro do meu pensamento, policiadas pelos números armados de raízes quadradas e rácios,
- Uma task force para acabarmos isto ainda hoje
porém não sabia como sair de certas situações, por mais prints que fizesse, por mais margens calculasse
(a oeste, a leste de que cidade, de que rio?)
Nem task force nem target para atingir, só vejo os números acirrando-me com funções lógicas e o papel transformado numa prisão de quadriculados onde as palavras sem protesto, sem
- Passa por cima
as palavras resignadas tanto quanto eu, a olhar para tudo e todos com uma raiva, balão que enche comprimido, à espera da intencional agulha no seu corpo farto: eis que explode, a raiva cavalga sobre os números, mas também sobre as palavras, passa por cima de mim, do que sou, do que quero, não me domino, e mesmo assim a insistência
- Uma task force para acabarmos isto ainda hoje.
O copo de uísque com uma nova dose, um outro cigarro derramando a sua etérea brancura no ar, como se a solidão não um papel branco, um cigarro inspirado e expirado no meio do da chuva de um Agosto findo sem verão, duas mulheres encolhem-se na berma, sobressaltadas na noite com os faróis furiosos de um automóvel assomando,
- Cuidado com o carro!
um automóvel furioso à voltas na cidade, sem combustível, ou seja, uma esferográfica, perdida nos becos e entroncamentos do meu pensamento, acabando por deixar as palavras engarrafadas, barafustando, não querendo saltar para o papel, negando
- Faz um print
negando
- Isto e aquilo.
Que outra coisa posso eu então fazer senão apagar novamente o cigarro, acabar-lhe com o ar de chaminé ao encontro de estrelas? Lá fora o agosto findando sem ter havido verão, com a chuva a cair, as duas mulheres fugindo dos faróis
- Cuidado com o carro!
e o papel sorrindo para mim cruelmente, dominante, irritante, mas apelativo. E desta forma acossado e inchado, como o balão, deixo-me picar pela agulha de um
- Merda para isto!
rebentando convulsivamente, sendo então que as minhas mãos amarrotam o papel zombeteiro de tão branco, numa raiva angustiada e comandada por uma voz que me obstina
- Passa por cima.
24 de outubro de 2010
post de manutenção
I was so drunk last night I didn't even undress for bed
And the pin in my hair was still stuck in my head
The Fiery Furnaces, I’m in no mood - Bitter Tea (2006)
Sem dúvida que é o outono que chove, uma vez que sombras na calçada, a velhice a amarelecer as árvores, e eu enganando a temperatura do escritório com camisolinha de meia-estação e o casaco de desporto de trazer por casa vestidos, revezando o traseiro entre a poltrona virada para as estantes dos livros e a cadeira da secretária onde um monitor de morada aberta para a rede labiríntica e casual da auto-estrada da informação,
(e dizer apenas a internet não bastaria?, para quê as fitas, a maquilhagem, o enfeite?)
mais a música estonteante dos Fiery Furnaces a apanhar o ritmo das gotas de chuva desfeitas no chão.
Por isso de novo aqui a preencher os espaços vazios do calendário que ninguém dá conta, augando (ougando?) por dois ou três pares de olhos que me leiam
(só dois ou três pares de olhos de facto, para quê mais, não sou guloso, vinde cá ler-me na diagonal com sorrisos de condescendência, umas cinco linhas basta, e podeis regressar aos outros que vos imploram mais sedentos que eu, carregados de comichão por saberem se são ou não escritores, poetas, críticos, ou que lhes der na gana… Não é necessário apontar o quanto gostastes na caixa de comentários, não é necessário citar-me em outros sítios com links mal feitos ou um copy-paste a ignorar itálicos e bolds do original; e muito menos preciso que venhais agraciar-me com as tentadoras propostas de publicação de um livro com custos à minha conta – para quê?, se eu não acredito nos outros que escrevem melhor que eu, quanto mais em mim, se o que escrevo é nada, apenas palavras seguindo outras palavras sem traço ou mestria, palavras que vou ressuscitando consoante as estações e as sombras, numa sequência que os Fiery Furnaces agora me inspiram e aproveitando a cadência da chuva caminhando pelo ar e esbatendo-se bêbeda contra o vidro das janelas e as pedras da calçada);
é só um pequeno mimo que vos peço, dois ou três pares de olhos que venham ler-me num sorriso condescendente, talvez digais “passei por aqui”, como quem decide visitar um amigo ou parente a quem não se fala e vê há anos, e ao chegar à casa onde mora a campainha não obedece, o batente enferrujado pelo tempo, as janelas corridas e a dúvida pairando: se calhar não está, se calhar já cá nem vive. Rasga-se uma folha de papel da agenda
(desculpa: agenda?! Quem usa isso nos tempos que correm? Hoje só formatos digitais, pelo que, se tiveres sorte, uma sms ou um e-mail, os dedos maiores que as teclas do aparelho, raios partam o telemóvel que é r e não s, quem inventou isto devia)
e deixar uma mensagem na caixa de correio a dizer
(caixa de correio electrónico ou de sms, entenda-se. Já agora, com tanta tecnologia, quem é que visita parentes ou amigos que não se vê há anos tendo o seu número do telemóvel, ou o endereço de e-mail… não faz sentido. Por isso, fica-te pela ultrapassada folha arrancada à agenda, ou um pedaço de papel qualquer e a sorte de teres algo que escreva para deixares um bilhete que diga simplesmente)
- Passei por aqui.
Porque é bem possível que não volte cá tão cedo, apesar do pardacento das tardes e da cadência da chuva, mais o recente livro do lobo antunes, a velhice amarela com que o outono veste as árvores, tudo isso incitando-me à escrita, e eu batendo a mesma tecla do será que sou capaz, será que ainda tenho o engenho de outros tempos, vem a idade, vêm as preocupações acumuladas, o país
(enfim, o país, nem vale a pena ires por aí, que te fica mal, bem pior do não seres capaz)
o país num compasso de espera, a exigência no trabalho, a atenção que a família te cobra, e tu sem paciência como antes, a paciência esgota-se mais rápido que o próprio tempo, certamente compreend…
(estás a dirigir-te para a segunda pessoa do singular ou do plural, decide-te)
…erão, certamente compreenderão.
São agora os Pink Floyd numa sua fase sorumbática que vieram ao acaso nos ficheiros mp3 depois dos Fiery Furnaces, a chuva abrandou
(terá parado?),
e ainda que as sombras se tenham acentuado, o copo de uísque
(elemento que não tinha acrescentado no princípio, mas ainda a tempo de ser entendido como um dos mobiles para este post de manutenção)
já vazio, a vontade de escrever começa enfim esmorecendo, e vou deixar ficar isto a acumular espaços vazios no calendário que ninguém dá conta.
Hoje é domingo. Podia dizer que o princípio de outro mundo para mim em alguns aspectos, mas nem é isso. Apenas manutenção. Ou melhor, é apenas rotina, como dizem os médicos quando tu cheio de medo
- Tantos exames para quê doutor?
ou os agentes da autoridade que te mandam parar o automóvel na berma da estrada para uma breve inspecção:
- Tudo em ordem, pode seguir.
Eu sigo. Nisso podeis crer: sigo sempre, mesmo não sabendo bem para onde.
1 de agosto de 2010
silenciosite crónica

Sofre-se muito nesta luta abstracta com o papel em branco que se porta como uma virgem hesitante em concretizar o casamento. Podem ser dias, semanas, meses, ou um tempo indefinido sem que o nubente perceba que, ao fim ao cabo, cometeu um erro ao enganar-se com o seu puritanismo ou que ser ovelha tresmalhada pode dar em má sentença. Os obstáculos são em tudo irreais e, ainda assim, quase intransponíveis. Só refiro o advérbio quase porque afinal sempre se pode escrever qualquer patetice sem interesse que muitos não hesitarão em julgar com o seu cliché moda do «isto é bastante profundo!».
Quem sofre do mal da silenciosite crónica não deixa sinais como os que padecem de males gástricos: a estes dá-se-lhes pela presença devido aos seus estertores sulfurosos, pelos queixumes de um abdómen dilatado que os produtos bífidus de L. Casei activos não podem remediar. A brancura febril e obstinada do papel pode, no máximo, fazer o paciente deitar as tardes a dormir invariavelmente, predispô-lo à penumbra e dar ares de ser socialmente um chato do caraças. De dissolver em total indiferença os gestos e os movimentos intestinais de um mundo que o apela. E assim que acorda, insiste, insiste, insiste, e volta a insistir para depois desistir como se apenas uma vontade de urinar o despertasse e, aliviada a pressão da bexiga, o sono lhe dissesse que ainda não é o momento oportuno de se erguer para o dia.
O pior, porém, são as verborreias, atacando a meio da noite, antecedidas de febris delírios após leituras sonâmbulas desarticuladas, insuflando de flatulência o pensamento. Apesar da alegria desmedida de tantas ideias em ebulição e que poderiam resultar, o paciente apenas se transforma num objecto sentado penitente numa sanita metafórica, indiferente ao sono de terceiros que o não ouvem, não lhe dão atenção. De suores frios ao vómito sob dois dedos enfiados até meio da garganta desintegram-se facilmente os projectos mais ou menos ambiciosos de um livro fora de série com a promessa de uma ressaca pastosa ao despertar com os pardais chilreando sobre a janela onde o sol penosamente bate para poder entrar.
Às vezes apetece-me uma entrevista terapêutica como se valesse a pena saber o que vai passando na infeliz cabeça do aprendiz a escritor. Dar conta das dificuldades, do porquê de tanta mediocridade, dos desânimos constantes, das euforias repentinas de génio, e por que se desiste no preciso momento em que tudo e todos barafustam para contrariar-nos a preguiçosa e fácil atitude de estarmos calados.
No que refere a mim podem ser mil e uma maleitas. Se não vou bem cá dentro, cago uma boa dose de mil palavras sem que alguma pareça ser coerente e diga realmente qualquer coisa em concreto. Devia haver hospitais que internassem escritores ou escrevinhadores doentes de silenciosite crónica: ministravam-se umas potentes gramas de literatura clássica para resolver dúvidas, intercalando com injecções periódicas de textos contemporâneos e, à noite, uns supositórios de poesia épica para, no mínimo, reduzir os efeitos nauseabundos dos ataques verborreicos da madrugada. Com uns bons dois meses (ou o tempo que fosse necessário) de tratamento intenso, mesmo residindo a dúvida se o doente sairia como um escritor novo, com certeza muita boa gente – como eu – daria alvíssaras por ficar finalmente curado deste mal do papel em branco.
26 de abril de 2010
circunstância
Deixou de ter importância o que escrevo, por quê e se escrevo. Adianta-se a tarde nos meus sentidos, escurecendo de nuvens as emoções e o pulso. O crepúsculo banha a redundância da tarde e eu quedo-me sem perspectiva com um livro mal amparado sobre o meu colo. O olhar segue preguiçoso a braços com o cansaço.
Não leio: deixo para quando a noite cair e a penumbra resgatando-me para a companhia da solidão. Como sempre foi.
Escrevo sem pressa e por circunstância. Fiquei sem vontade de continuar. Se for o caso
(ou o ocaso permanente e irreversível)
a voz termina sem acenar quaisquer despedidas.
20 de janeiro de 2010
verborreia
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Não consigo escrever: tudo se amontoa à boca do pensamento, cheio de ruído, congestionado por preocupações e más vontades contra mim. Não encontro outra posição senão a cabeça amparada sobre a palma da mão, numa atitude de
(foda-se lá isto)
de indiferença, com a boca posta torta de cansaço. Os olhos deixam-se levar pelo peso das pálpebras e vou quase chegando aos sonhos da vigília onde a realidade se transforma em algo confuso e cada vez mais distante. Desperto com o roncar furioso de um carro para lá da janela, e não mudando de atitude, fico a observá-lo: bicho preguiçoso de focos espetados a assomar na curva, a rua sobe e o bicho barafusta com as suas ventas de pistões e escape com o declive que lhe faz perder a velocidade, o condutor reduz para segunda e o carro vai esforçado, lentamente, a subir o quanto lhe custa, até desaparecer da minha vista.
Retornando a paisagem à noite deserta e fria,
(todas a casas de estores corridos como se por dentro nunca tivessem sido habitadas)
volto a encarar a alvura do papel, o deserto vasto branco do papel que me magoa, intriga e frustra. Os cigarros são a derradeira tentação, a mão segurando uma esferográfica suspensa das palavras que teimam em não decifrar o pensamento atrapalhado por sentimentos que não sei agora exprimir.
Creio que o que digo – ou o que disser – é sobre o quanto já não sei o que foi, tudo o que é transforma-se vagaroso num ontem antecipado e descomprometido, e sigo cego de mim mesmo, com a cabeça pousada na palma da mão, a boca torta do cansaço que também se transforma, lentamente, numa irremediável irritação contra mim, contra todos. E por isso
(foda-se lá isto)
não lembro o passado, nem descodifico o presente e muito menos posso pensar qualquer nada de um futuro que honestamente nem sei que significado tem.
Crês em mim? Estou como o carro, bicho preguiçoso a subir o declive de uma rua. Se engatasse a segunda talvez viesse a produzir alguma coisa, mas temo que no fim da subida, arfando das ventas
(de pistões e escape)
me venha a faltar o combustível. Então era o papel amarrotado, o caixote do lixo boca esfomeada da minha mediocridade. Será melhor procurar outro repouso para a cabeça que não as falanges da mão, uma almofada talvez, aguardando o sono que venha a retemperar a energia para um despertar sem amuos nem resmungos. Procurando não o hoje, já transformado num ontem, mas tentar revigorar um amanhã mais promissor.
Pelos menos que escreva puro, sem esta verborreia que nada acrescenta, e apenas me ilude.
1 de dezembro de 2009
isto de escrever
Sabes, é um desespero isto de escrever, uma dor que remói, a cárie de um dente a extinguir-se na boca,
(falo na boca porque a boca instrumento para entabular conversas que tenho, umas fiadas, outras existenciais, algumas polémicas
não haver deus é um deus também)
e por isso não escrever como se fosse um abcesso, uma ferida aberta, ou aquela dor que nos fatiga a cabeça quando queremos ver televisão ou ler um livro, e o pensamento longe, nada entendemos do programa, não sabemos o que lemos, o pensamento desviado e queixando-se
- Dói-me a cabeça
ou não uma dor de cabeça, uma dor de velhos
- Dói-me os ossos
de modo que podes acreditar, não só como Alberto Caeiro dizia pensar incomoda como andar à chuva, escrever é não saber o destino que o comboio onde entramos nos vai levar; aquela velocidade a que passam as árvores, os postes de iluminação, as casas, os automóveis parados na barulheira da campainha à passagem da composição – assim se me apresentam as palavras compostas, escritas que não querem obedecer, o cigarro
- Dá-me um cigarro, Rosa
aceso porque o papel morto na sua brancura. Há quem defenda que a brancura é sinal de pureza, mas a pureza do papel é a morte das palavras abortadas na cancela esconsa do meu pensamento, e a cancela fechada, o comboio passando, levando na velocidade as árvores, os postes de iluminação, as casas, os automóveis parados na barulheira da campainha, rugindo, como rugem animais feros, acutilados pela dor que um caçador lhes inflige com a sua certeira e letal arma de trazer ao tiracolo, embrulhada em panos que se querem limpos; eu para a Rosa,
- Dá-me um cigarro
e o cigarro não afugenta as feras, o cigarro não embrulhado em panos que se querem limpos, apenas composto na boca de onde a dor
- Dói-me um dente
não
- Dói-me a cabeça
não
a dor dos velhos, dor de reumatismo, dor senil, é isso, dor senil, senil como a senilidade com que as palavras se me apresentam na cancela esconsa do meu pensamento.
Não é poesia, tão pouco um conto, de longe será romance que um dia escreverei e entalado na garganta como a espinha de peixe que se espeta na laringe e já depois de engolida ainda a sensação
- Tenho uma espinha atravessada na garganta
e não há espinha alguma, apenas a sensação, a sensação de que as palavras ficam entaladas, espetadas como espinhos de um cato torto abandonado nos confins de uma varanda só visitada nos dias de verão; olho para baixo e vejo a linha escura, os carris cansados, o comboio ao longe, apitando, assomando, rugindo como animal acutilado pela dor que o caçador lhe inflige, e o cigarro que me dás apenas uma mortalha de folhas secas dentro que não exorciza de modo algum esta dor de cabeça
de dentes
de velhos
- Dói-me os ossos
o cigarro não exorciza, o cigarro não é a arma que traria ao tiracolo para acutilar as palavras teimosas,
ou melhor,
as palavras já mortas, abortadas na cancela esconsa do pensamento, e por isso para quê uma arma, para quê um cigarro, porquê
- Dói-me a cabeça
se já não é a cabeça que me dói?,
nem os dentes
apenas
- Dói-me os ossos
um saco de água quente nos pés ao deitar porque a velhice
(senilidade das palavras)
assim obriga, queremo-nos quentes e confortáveis, assistindo à televisão ou lendo um livro de que nada entendemos porque longe o pensamento, à espera que o comboio abrande a velocidade das árvores, dos postes de iluminação, das casas, dos automóveis rugindo à espera para assaltar o outro lado da estrada, convulsos
- Deixai-me passar
quando no mesmo momento atravessa convicta e distraída essa pessoa idosa, por sinal, a palavra que precisava para começar aquela poesia,
não, o conto,
não, não, o romance
que não consigo escrever, e o rugido de um automóvel onde viaja um caçador que acutila as feras com a sua arma letal, embrulhada em panos que se querem limpos, leva em reviravoltas dignas de estrela de circo esta velha, esta dor de cabeça,
perdão,
esta dor de ossos, ou para ser mais simples, esta dor de dentes, esta cárie de um dente destruído que é querer escrever algo conciso não me ser possível, e por isso
- Dá-me um cigarro, Rosa
mas o cigarro não exorciza, muito menos ressuscitará o corpo que jaz sob uma poça de sangue, o automóvel sem rugir, amolgado como se
- Dói-me os ossos
nada poderá remediar o facto de ter perdido atropelada a palavra que me iniciaria num discurso mais longo, de modo que, sabes, escrever dói. Dói, mais do que pensar incomoda como andar à chuva, como diria O Guardador de Rebanhos.
4 de julho de 2009
variante da síndrome de Bartleby

Resistir à facilidade: é este o trabalho árduo que labuto dia após dia nas faldas da vontade e da vaidade. Não sucumbir à ludibriante tentação, com a mesma euforia religiosa de um crente.
Sopram-me aos ouvidos falinhas e falácias. Estudo-lhes o olhar, redesenho-lhes a ambição: sou espécimen com garantias de produzir. Produzir o lucro fácil, para mentes fáceis.
Monto o cenário possível: eu agradecendo de esferográfica sobre uma mesa de sorriso bonacheirão, diante de uma plateia de amigos e familiares e conhecidos
(grande parte tidos sem paradeiro e de repente ressuscitando),
a transpirar de orgulho bacoco. Agradado com a ninharia. Eu em todos os olhos em todas as mãos, mas a um fio fragilíssimo do esquecimento precoce. Mãos estendidas e sobre o ombro com a tal amizade, sacudindo o veneno de algumas invejas compreensíveis
- Como conseguiu? Qual foi a cunha?
e eu nada, indiferente, ostentando ainda o sorriso que deambula de bonacheirão para inocente. Talvez ingénuo, porventura ignorante.
Não é certamente o meu caminho, se trilho algum me abrirá o acaso e as circunstâncias do mundo para tamanha façanha que transformaria (ou não) toda uma vida futura.
Receio, seja o futuro incerto maligno ou benigno, de perder a minha liberdade individual. Bartleby até que a morte me separe?
25 de junho de 2009
cansar de dores o papel

Cansar de dores o papel amarrotado de ninharias e mediocridades. Não fosse a crise e o desgoverno,
(e enfim, para poupar energias e sintetizando)
não fosse o planeta plantado de gumes traiçoeiros com que a humanidade semeia o seu próprio futuro, talvez pudesse eu renascer num sorriso feliz a vender banha da cobra nas palavras e papeis densamente iluminados.
Ou que o verão não desdenhasse na nossa cara o escarninho destino a que nos propomos na negligência: cada dia é angular e decisivo se não forem tomadas em conjunto todas as medidas preventivas e calculadas.
Pois assim de que nos servem as estações do ano se nenhuma agora cumpre o seu compromisso, com os seus humores climatéricos alterados? Que sentido tem desejar bom fim de semana se os patrões, alinhados como tropas de faca e queijo na mão, não o reconhecem? O que são piqueniques no campo se o círculo é de betão? Que nos vale mesmo saber que linhas imaginárias dividem o planeta em lugares de maior ou menor qualidade que vêm a ser os trópicos e os meridianos? Construímos com regozijo a aldeia global e agora pendemos o queixo e os olhos num impressionante esgar de apreensão. Como quem vai para a guerra com o nó na garganta de saber o quanto está já derrotado e condenado.
Cansar de dores o papel ou acumular cerveja no sangue num gesto de indiferença, a fazer de conta que as contas do mundo não são nossas, alguém mais capaz fará tudo por nós. Não fosse a crise e o desgoverno,
(e enfim, para poupar energias e sintetizando)
não fosse o planeta esfaqueado pelo seu próprio punhal traiçoeiro, e toda essa idiotice conspirativa que os humanos ergueram uns contra os outros, talvez pudéssemos ver o futebol e as telenovelas na tv sem nos importamos um corno para com o próximo.
26 de fevereiro de 2009
síndrome de Bartleby

Nas ideias um oco, sobeja o silêncio branco de nada dizer, apenas o princípio de qualquer coisa que nunca chega a ser coisa alguma. E os papéis acumulam-se vomitados sobre o cesto. Tantas frases mal começadas, tantos riscos, letras amontoadas como sucata reciclada. Não será por acaso: os jornais afinal são também assim, verborreias descartáveis. O que se disse ontem já não tem valor hoje. É o que se consome, o imediato. Tudo o resto fica na berma do prato, quiçá alimento para rafeiros magros de solidão. Somos como cães danados à procura de certezas, de perfeição.
Ao acabar o cigarro tudo na mesma: a esferográfica paralisa num A
(e porque será o A uma letra tão importante que paralisa assim a esferográfica, que atrofia as ideias até ao osso?)
encontrando a barreira do eco e da repetição
(estou cansado, estou cansado, estou cansado)
num novelo de desagrado, de impaciência, a desistir de tudo enrolando a bola tosca de papel que salta para o cesto do lixo, levando mais meia dúzia de letras, palavras mal escolhidas, frases por completar.
Cumpra-se a matéria urgente do amor, era o mote. Mas do amor quem daí quer ouvir ou ler o que for? Direi pois o quê? Com todos estes livros por ler e o cesto dos papéis aguentando a frustração de tantos As
(ases?)
que nem para um baralho de cartas do solitário servirão.
30 de janeiro de 2009
poesia

Cristina, por Tiago Martins em 1000 imagens
- O que é a poesia, então?, perguntou-me, com o olhar curioso de quem bebe a sabedoria nos meus lábios.
Poesia? É uma flor. A árvore crescida na vasta planície. Uma pedra perdida na calçada. É o teu rosto ruborizado com a delicadeza dos sentimentos. Poesia é o pranto das distâncias em forma de silêncio. É o fruto maduro e apetecido. É a boca do sexo que me apela. É a madeira jovem e adocicada. É a penugem do teu pescoço longo. Deitar as tardes a dormir. Reciclar as madrugadas. É beber a fonte da alvorada. E a chuva que embala. E o sol. Poesia é o sol quando dizem que nasce para todos.
Poesia é a língua do cão que te aquece num afago. É o voo livre das aves pequenas. É o mar borbulhando de cores. E a maresia que te entontece. Com o marulho na negridão, à noite. Nunca como a lua que apenas mostra uma face. Poesia é um rosto multiplicado a mil.
É toda a música que te enternece. Poesia é tudo o que queres, e sentes. E tudo o mais que não disse, e é.
29 de janeiro de 2009
no oco da boca

por Pedro Gomes em 1000 imagens
- Ensina-me a escrever,
pediste, como se quisesses aprender a falar pela primeira vez, tal era a tua vontade de pegar nas palavras e redescobri-las, saber que outros sentidos escondem, o que despertam nos outros, e o que é, afinal, esta coisa do escrever, e a língua que não só toma o sabor mas dá a outros diferentes paladares, como num beijo.
Não sei ensinar-te, querida, não sei ensinar-te. Apenas saberei indicar-te que, no oco da boca, tomamos os desejos e então dizemo-los, tão só como quando os lábios se abrem como jazidas multicolores e brilhantes, e que com as mãos se lapida o que a terra nos oferece.
- Não te posso ensinar o talento, ele está no teu interior. Busca-o, trá-lo à luz dos nossos dias.
28 de janeiro de 2009
não há como

(daqui)
- Queria escrever um poema de amor
Não o escrevas, poeta. Virá a mágoa numa maré de corpos que entre si lutam por um pedaço de metal. Abre as mãos e recolhe o trigo das searas. Constrói o pão. Tempera-o com o sal do teu suor, a suavidade das tuas lágrimas. Dá-nos de comer, a nós, infame espécie. Todos os poemas são profanados, e não há como o novo pão para que o papel retorne à sua qualidade vegetal. Quando souberes que todo o papel é virgem da ignomínia, então tenta. Bastará uma palavra para florir um novo prado onde os corpos caídos se esqueçam do vil metal e te adore como a deus. Mas aí, poeta, aí não permitas que tudo recomece: imola-te, para exemplo da maior e absoluta humildade.
Não o escrevas, poeta. Virá a mágoa numa maré de corpos que entre si lutam por um pedaço de metal. Abre as mãos e recolhe o trigo das searas. Constrói o pão. Tempera-o com o sal do teu suor, a suavidade das tuas lágrimas. Dá-nos de comer, a nós, infame espécie. Todos os poemas são profanados, e não há como o novo pão para que o papel retorne à sua qualidade vegetal. Quando souberes que todo o papel é virgem da ignomínia, então tenta. Bastará uma palavra para florir um novo prado onde os corpos caídos se esqueçam do vil metal e te adore como a deus. Mas aí, poeta, aí não permitas que tudo recomece: imola-te, para exemplo da maior e absoluta humildade.
15 de maio de 2008
desta mão

(daqui)
Tirai-me daqui este papel, desta mão que não escreve. Tudo é tão superficial quando encolhemos os ombros e deixamos correr o tempo dentro de uma fadiga. De uma preguiça quase sem remédio. Não interessa quantas janelas, quantas cabeças ao longo da avenida buzinada de automóveis impacientes. Tudo se escoa até que uma sombra venha resgatar todos os ruídos e todos os movimentos. Tirai-me a ansiedade tamborilando sob os meus dedos, o meu olhar na paisagem abstracta escolhendo quais os sentidos. Não tem importância a ausência das palavras, se todas as teclas estão batidas, se todo o molhado está chovido. E que as bocas se cansem de todos os diálogos, os braços de todos os protestos, os punhos de toda a raiva. Tirai-me daqui este papel e as ideias, desta incerteza monótona. Sem luz que incomode. Tirai-me daqui pois não sei o que farei quando tudo gela.
9 de maio de 2008
fabulação

(daqui)
Fico sem graça porque me apanhas tão desnudado que me assemelho a um virgem tísico em núpcias todo cheio de tiques e timidez perante a noiva. E ainda que tu – tal qual a afectuosa noiva – me abras os lençóis e me convides a entrar no leito a teu lado
(vais rejeitar que não a teu lado, que não tens o talento)
eu continuo desajeitado e hesitante, tremeliques das pernas, cheio de vulcões na pele áspera, teimando em fazer-me invisível, espreitando em que buraco me hei-de enfiar. Que noiva me quer assim? Tísico, borbulhento, coberto de tufos de pelos, desajeitado, desconfiado e hesitante?
As palavras acumulam-se a uma velocidade tonta dentro da minha cabeça e a composição acaba sempre por descarrilar. Surge um texto a espaços de dias que são as sobras de um sonho, os esboços de uma epopeia, os escombros. São principalmente os escombros e a necessidade de libertar o meu espaço interior de tantas palavras que se acumulam.
São acidentes. São as borbulhas, os tufos de pelo. Os tremeliques. E vejo ao redor que não existe buraco onde me enfiar, vejo-te multiplicada em vozes que surgem de onde não suspeitava sequer um murmúrio, seduzindo-me
- Continua escrevendo.
E eu, como o nubente tísico, vou dando passos muito curtos, assustado com a maciez dos lençóis, mas – confesso – deslumbrado com a beleza do teu rosto, os contornos do teu corpo, com uma incerta expectativa do prazer que nos teus braços
(aos teus olhos)
irei encontrar, mimando o meu umbigo, mesmo que os tufos de pelos o encubram.
Se então explodires num êxtase desenfreado
(por favor não finjas)
eu prometo olhar-me novamente ao espelho e talvez reencontre o que já dei por perdido.
15 de abril de 2008
hoje

foto de Gonçalo Esteves em 1000 imagens
Hoje apenas tenho a dizer-te que não sei escrever. Vieste numa correria de ave desconcertada a cacarejar qualquer coisa sobre uma ideia genial, segundo a tua própria expressão, suspensa num sorriso escancarado. A boca e os lábios assim sorrindo seguiram os meus gestos até os músculos esforçados começarem a esmorecer. Não achas boa ideia, perguntaste, numa clara intenção indirecta de indagares sobre o meu silêncio e a minha indiferença face à tua estridente alegria. Sentei-me num movimento cansado, apoiei desanimado o rosto entre as mãos
(quando foi que estive também assim?)
e dei-te o mesmo valor que dou à secretária, às estantes, ao papel, e restantes objectos que perfilam assimetricamente nesta sala. Os livros sempre os considerei como objectos vivos, como qualquer vida vegetal, não se mexem, não se emocionam, mas crescem sempre que os leio uma e outra vez. Ainda assim, e perante o meu rosto mudo apoiado nas mãos, estão como qualquer planta que precisa de cuidado, podar umas folhas velhas, mexer a terra, regar… Mas há dias em que nada parece ter qualquer importância. Nem mesmo quando vens de sorriso escancarado, de ideias brilhantes a querer salvar o meu dia. E encho-me de ternura por ti quando compreendes que a tua saída em silêncio e em respeito pelo meu estado de espírito é a melhor atitude a tomar: hoje apenas tenho a dizer-te que não sei escrever. Volta, por favor, quando te deres conta das folhas verdes e viçosas, quem sabe venha a nascer então uma flor com que possas adornar os teus cabelos…
28 de março de 2008
vazio

autor desconhecido
A cadeira vazia e tantos livros por ler. A estante fria à espera de uma carícia, nem que apenas o toque das pontas dos dedos no correr das lombadas, como quem passa a mão no pelo do gato que ronrona um carinho. A estante vazia de afectos, e repleta de livros pedindo a minha atenção. A cadeira, de frente para a janela, evoca momentos passados, com a passagem das intempéries, a incandescência do verão, e a candura das madrugadas.
A cadeira e a estante comungam a mesma dor, enquanto o aparelho de som chora baixinho a música do pó.
Paredes. Papeis. Os quadros, as fotografias. Aqui respira-se sofregamente uma ausência notada. E por isso posso juntar-me aos objectos que se dizem inanimados de afecto: eu vazio e tantos livros por ler, tanta música por ouvir, tanta coisa por escrever.
9 de março de 2008
emancipação

Não sei se foi o silêncio que entrou cá dentro. Estava arquitectando as palavras, abstraído do movimento enquanto pela janela absorvia, inactamente, um quê de pulsar de gente, inconstâncias climatéricas, e outros ruídos que não sei já definir. Havia uma porção de vozes, isso com certeza, vozes de coisas vivas e de coisas mortas. Ou de coisas, simplesmente. Pouco me interessava o quê.
- Ouve esta que saiu no jornal.
- Ouço o quê?
- Isto que te vou ler.
- Vais ler o quê?
- O que saiu no jornal.
Pois, não sabia que coisas, e nem me interessava. Estava concentrado em estruturar o esqueleto destas ideias, ou melhor, onde assentar o alicerce das palavras certas, calculando as distâncias entre os pilares, já imaginando onde uma frase abriria uma porta, e depois
(como isto é tão engraçado)
já se vão erguendo paredes onde os sentidos nem parecem encontrar-se, e no entanto,
- Patético, não achas?
- O quê?
- O que acabei de ler.
- Acabaste o quê?
- Mas tu estás a ouvir-me ou não?
- Sim, sim…
depois de tantas voltas e reviravoltas, vai a ver-se e lá se vão reencontrando as ideias, tanto esforço e suor, e olha, cá está tudo no mesmo patamar; a gente luta e luta contra o encadeamento incerto das palavras, não lhes dá confiança, finge que não vê, esquematiza o melhor possível, rasga e fecha paredes, vai construindo alto, tão alto, e afinal são elas que se impõem, rasteirinhas
- Vai à merda.
- Vou onde?
e alinhando paredes, isto é, alinhando o esqueleto que já exige a carne o sangue os nervos, quando mesmo, quase mesmo, só faltando a epiderme os olhos a boca e a voz,
(os acabamentos, as arestas limadas)
- Vou onde, Beatriz?
nem Beatriz nem ruídos. Tudo suspenso. Eu não sei se foi o silêncio que entrou. O que sei é que quanto a escrever, tanto faz que comecemos pela base como pelo telhado. São elas, as palavras, que lideram o curso, como nascente que rebenta onde e quando menos suspeitamos.
9 de fevereiro de 2007
negras nuvens

foto de Ricardo Araújo em 1000 imagens
E então recomecei a escrever. As imagens repetiram-se incessantes no meu pensamento, apesar dos ombros encolhidos e das costas voltadas para a vontade de. Numa resignação total, carregada de dúvidas. Por vezes acordo com uma predisposição adolescente e sigo os olhares de mulheres mais novas, de comovente emoção a mergulhar no sorriso. E saltam-me dos dedos carícias leves em folhas de papel reciclado, tão serena escrita escorreita como o voo das gaivotas sob o chumbo das nuvens
(gaivotas em terra, tempestade no mar).
Consola-me saber que o ridículo exposto também tem o seu valor, e existem variantes, como as estradas principais e secundárias. Saber renascer é a quanto se deve o esforço. Ainda que encolhendo os ombros, voltando costas ao formigueiro das cidades.
Resignação total, carregado de gaivotas em terra, esperando as dúbias consequências de tão negras nuvens.
(gaivotas em terra, tempestade no mar).
Consola-me saber que o ridículo exposto também tem o seu valor, e existem variantes, como as estradas principais e secundárias. Saber renascer é a quanto se deve o esforço. Ainda que encolhendo os ombros, voltando costas ao formigueiro das cidades.
Resignação total, carregado de gaivotas em terra, esperando as dúbias consequências de tão negras nuvens.
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