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16 de março de 2019

soneto a são gin





Abençoado seja o São Gin
que me entorpece a razão
e me faz esquecer o tino
deste tão covarde coração;

não fosse eu ser de fracas
carnes e inconstante alma,
terias acutilantes facas
mil e uma três vezes a fama

das que sendo inconstantes
me dão saliva na vez do amor
e, ao acordar, de cio penante
que com pressa saciam esta dor.

Pois sendo isto relativo, não vou
esconder penumbra nem frustração
por ter tido o teu corpo um dia.

E perdido resta agora a este que sou,
morto sem acreditar em redenção,
quedar renitente, maldita ignomínia!

17 de fevereiro de 2019

o trigo nas tuas mãos



Deixa-te inebriar pelo calor do toque das minhas mãos que em limpa manhã desejam procurar-te, perde as estribeiras do bom senso, cala a moralidade, contraria o estigma da boa conduta para que recebas o meu corpo em prado dourado pelo sol, trigo nas tuas mãos, o consolo de me teres a colocar a língua sobre os teus mamilos, comigo a afagar o sal da tua pele que vai explodindo de tremores, e te arrepiares na confusão dos dedos e os teus cabelos sobre os meus braços, pescoço, os ombros, tu a escaldar sob os sentidos que te avivo ateando fogo e chuva e depois mais fogo e sol, e toda a manhã numa sinfonia de toque com seda e sede e fome e apetite; as nossas bocas unas despertando e desmaiando na raiz das nossas línguas, um só músculo de desejo e frémito…

Oh meu amor, minha ninfa, minha gata de janeiro!... O que há em ti que toma posse do que sou e descontrola tudo o que o coração comanda e faz o meu corpo de tal condição refém? Eu hei-de em ti vir-me para que te venhas tu a resgatar o desejo em polpa de pêssego; deixa-me sentir o desmanchar da minha carne sobre a tua. O mundo vem, vem-te comigo e com o mundo, a sentir que é vida os corpos e duas almas numa comoção de tudo quanto quero e que me une a ti: vir-me na tua flor para deixarmos de ser apenas eu, apenas tu, e sermos plenitude de um nó de simbiose sempre eterno. Já não há existência sem ti, deixa que me venha e me renasça dentro do teu ventre, inebriante útero que há-de conseguir do vazio deixar-me limpo e, como com um vagido, recomeçar a viver.

16 de fevereiro de 2019

um adeus adiado

Kültür Tava

Adormeci com a tua ausência, ao que se seguiu um corrupio de fragmentos acumulados de tudo o que tenho arrastado como um fardo no par de horas em que 

(a julgar ser verdade )

sonhei durante o fugaz sono. Obviamente não saberei caracterizar os esgares do meu rosto nesse tormento, mas sei o quão vívidos e angustiantes foram os batimentos cardíacos e as sacudidelas do espírito enquanto eu presente nesse palco onírico. Escrevo palco para ser levada à letra. Havia uma espécie de assistência, plateia tão fragmentada quanto os pedaços que me lembro de ter vivido nesse par de horas em que 

(a julgar ser verdade)

dormi. 

Não é minha intenção discorrer sobre o sonho ou as suas camadas pois nem sempre são suficientes as palavras. Posso apenas afirmar que foi contigo com quem estava nessa quase luta emocional em cenário adverso, adensado por sombras mais escuras que o abismo. E essa plateia que nos observava entre os Ah! e os Oh! das bocas, consoante o escarninho e o gozo, o espanto e a dissimulação. O centro da acção era apenas em ti, na oscilação do teu comportamento, ora vilipendioso, ora cheio de charme e sedução, ora em derretida e delicodoce ternura. E eu, incapaz de articular discurso, sobressaltada pelo teu inconstante humor e pela reacção da assistência, apenas gesticulando os braços como naufrago e em convulsão desarticulada. E havia de estar assim o meu rosto 

(a julgar ser verdade)

num consecutivo esgar. 

Quando despertei, era o limbo entre o fim da abóboda da madrugada e o horizonte a leste prenhe de luz, enquanto a cidade nem sequer esboçava qualquer intenção de bocejo. Sacudi o torpor e as imagens do sonho esfregando o rosto e os olhos com as mãos e os dedos, e deixei o corpo aquietar-se na rouquidão do quarto e no ronronar da cama. Os olhos abertos para o tecto branco escuro. Sem pensamento que pudesse incomodar esse assossegar. Cobri de calma o peito, e a taquicardia abrandou, desaparecendo poucos minutos depois. 

Ergui-me da cama, pronta para o afã do dia. O fardo que tenho arrastado também, acompanhando-me à casa de banho, no café com torradas e manteiga, em cada perneira das calças que vesti, no frio da malha contra a pele do peito, fazendo-me arrepiar. E o teu nome, já só signo da tua ausência, a tentar com que sorria, nem que seja por única vez e matinal, tentando convencer-me que tu e eu 

(a julgar ser verdade)

somos ainda um adeus adiado.

10 de fevereiro de 2019

slow motion





Manhã de chuva, árvores gesticulando
no vento. Do lado de dentro,
tique
                \
                /
taque
sobre o silêncio.
Respira-se:

– Estás a adiar as palavras
– Não sei delas
– Desde que não adies as emoções
– Tenho medo.

Expressão desconcertada. Devolvo um poema:

teu olhar revela-me
suaves tentações
teu desejo é como o tímido esquilo
que se esconde do ruído

emoções:
nunca      fujas      delas.

Um abraço.
U m    b r e v e    o l h a r .  
Braços caídos,  porta  aberta:
a esperança recusa qualquer sinal de
a d e u s .

9 de fevereiro de 2019

poema simples para ti

Kültür Tava




oh!
Esses vindouros dias estivais e o apelo do feno
do teu sorriso tecendo a manhã limpa
no estuário do rio entre brisas, canaviais de onde se levantam
as asas e os gorjeios das aves pequenas,

plumas!
Não resistindo a acariciar o meu rosto
os teus cabelos que acordam da almofada
mais a polpa dos teus lábios sobre a minha
pele em solene

bom dia!
Sorriso de azul da janela ensaiando o mar,
e eu despertando sem bocejo, apenas a foz
espreguiçando sob a raiz do sorriso -
sendo tu o léxico e a terra

que mostra ao mundo o poema que és
e tanto desejo escrever.

5 de janeiro de 2019

poema da redenção


«I'm lost in your crystal mask»
The Gift, Laura
 Digital Atmosphere, 1998


O sino badala para anunciar o mundo a este quarto escuro, onde poros rejeitam a parição da aurora e o meio-dia esclarecedor. Badala vezes sem conta ou conta que não quero eu fazer, a sentir que me chama, me apela, e eu sem nada dever à manhã ou à tarde porque deixei de me interessar, finjo-me de morto, a concluir as horas que faltam para o render do dia. Não estou, não procuro saber de coisa alguma e o quarto continuará poroso e negro. Escondo-me em máscaras e tão tolo, por sabê-las que nada escondem de mim, moldadas que são em frágil cristal. Hiberno cada ano, tolhido pelas geadas e ventos frios, entorpecido com a escuridão dos dias de chuva, introvertido na existência sem preocupações futuras, apenas remoendo os acasos que têm feito a minha vida até aqui. 

Então, o teu olhar a dar-me razões. Abri os meus olhos e vislumbrei um aceso findar do dia, feito Noé ao cabo de catastróficas tempestades. Entreabriste os lábios e sussurraste: Vê! Era o pôr do sol, ao fim dos anos, dos dias, das horas. Com o teu olhar. Dás-me o pôr do sol, eu procurarei dar-te o luar, nesta madrugada em que do teu beijo me houver renascido finalmente para reaprender contigo o significado da cumplicidade e da partilha. 

Aqui, neste efeito de luz do pôr do sol que me ofereces, ponto de partida para o último anoitecer, a derradeira madrugada até me ver acolhido no teu regaço, quimera tão minha, meu afecto de sempre, meu amor.

15 de dezembro de 2018

requiem



Ilumino o quarto com os dois abajurs, um em cada mesinha de cabeceira, enquanto o frio lá fora principia a enrijecer os músculos e os ossos, e todo o meu corpo estremece como se de um medo se tratasse. Os automóveis passam disfarçados pelo nevoeiro que avança, todos eles oferecendo um conforto quente, um aconchego, como uma lareira crepitando e dois copos de vinho, adequados ao brilho de uma vela enquanto dois corpos avançam no seu encontro íntimo, e todo o calor do ambiente já é quase só dos corpos e pouco da lareira, nem dos carros que passam, abrindo o nevoeiro que já se adensa, e os faróis sinalizando a máquina a ameaçar nas curvas, quando duas mulheres que passam distraídas se acautelam 

- Cuidado com o carro! 

Estava eu a dizer, o meu quarto iluminado por dois abajurs, a minha cama tão enorme para um velho menino como eu, entregue à lentidão morna, quase fria, deva dizer, da solidão; eu tão pequeno, querendo o afecto da minha mãe 

- Doem-me os ossos 

querendo o afecto da minha mulher 

- Deixei de gostar de ti 

querendo o teu afecto 

- Não deixo o meu homem por nada 

e lá me meto entre os lençóis, abrigo os meus pés no conforto de um saco de água quente que todas as noites a minha velha mãe me coloca na cama como se de um beijo de boas noites se tratasse e, contudo, 

- Doem-me os ossos. 

Vejo a disposição do meu quarto, os móveis quietos presenciando a minha solidão, as roupas que atirei na cadeira, a televisão muda, o telemóvel pousado a vibrar de notificações, como se um velho resmungando de reumatismo 

- Doem-me os ossos 

e lá fora os carros de ares condicionados ligados abrindo o nevoeiro, troçando do frio que se faz no exterior, as duas mulheres passam distraídas e ao verem o farol como uma fera 

- Cuidado com o carro! 

Eu estou como se sobrasse no mundo, deitado na cama, iluminado por dois abajurs, de auscultadores enfiados nas orelhas, de chávena de leite arrefecendo na mesinha ao meu lado esquerdo e tu o pequeno papel com a tua letra lá inscrita na vez de uma fotografia; respiro fundo, ou suspiro, os suspiros que os homens de certa idade vão esquecendo; eu agora regredindo trinta e cinco anos, voltando à ansiedade da adolescência e tu a teimar, a martelar na minha cabeça, 

- Não deixo o meu homem por nada 

e eu sei lá quem o teu homem é, só sei de mim e dos teus olhos; eu sei ver todo o universo nos teus olhos, e um mar de conquistas, com bartolomeus dias, vascos da gama, dom sebastião mais quintos impérios e tudo nos teus longos cabelos; as horas passam, a minha mãe remexendo-se na cama num sussurro de 

- Doem-me os ossos 

e a mim dói-me a alegria por voltar a sentir a paixão que julgava perdida pela idade, com a realidade assinalando 

- Não deixo o meu homem por nada 

a doer-me por voltar a sentir-me feliz e tu indiferente, a suspirar de novo e tu só bocejos, a sonhar de novo e tu caída no sono. Tu, nesse verão já tão distante, a dizer-me no papel 

- As metas de hoje são barreiras ultrapassadas amanhã. 

A minha mulher que me deixou, num semblante cruel e frio, 

- Deixei de gostar de ti 

frio como o nevoeiro lá fora, a minha mulher que se julga agora dentro do automóvel que rompe o nevoeiro, julgando-se toda ela confortável devido aos ares condicionados, enquanto eu, a espreitar o farol surgindo do meio da neblina e a avisar, como duas mulheres distraídas que passam 

- Cuidado com o carro! 

E, no entanto, cá me encontro, suspirando, fingindo o teu retrato na tua letra inscrita num papel, sorvo os primeiros goles de leite e aconchego os pés no beijo de boas-noites que a minha mãe veio repousar na minha cama. Esta música que te traz de corpo inteiro aos meus ouvidos, consigo ver-te finalmente sorrindo em cada acorde, e todo o teu jeito de mulher ingénua, todo o teu corpo como uma dança mágica, imagino os teus cabelos soltos abrindo brisas de maio no meu quarto 

- Não deixo o meu homem por nada 

a recordar o beijo de despedida que te dei na face, a afagar-te o rosto como se fosses uma menina perdida, 

- Até amanhã 

quando perdido segui eu, que deveria ter recebido o beijo e o afago que te dei, de que tanto necessito, e os meus olhos a brotarem lágrimas que se sustiveram, lágrimas não sei se pelo que sinto, lágrimas não sei se por ti ou por mim que sofro por voltar a sentir-me feliz, apaixonado, sem ter que ouvir 

- Deixei de gostar de ti 

mas também sem necessidade alguma de ouvir 

- Não troco o meu homem por nada.

18 de novembro de 2018

ponto final




Eis então chegados a uma bifurcação onde sabemos que os passos de cada um confirmam o inevitável e adiado ponto final. Fomos sempre assombrados por esta ameaça que o futuro teria a imagem de cada um de costas voltadas, seguindo caminhos opostos, e sem outro aceno que não o derradeiro. E depois de tanto sonho, 

(os pés assentes no chão, a resignação, não aceitar que fosse possível) 

depois do lirismo dramático com que fomos tecendo o novelo, saímos de cena sem apoteose ou velador requiem. 

As palavras foram o mote para o encantamento, mas deixaram sempre a desejar. Gastas como no poema do Eugénio 

(O passado é inútil como um trapo. / E já te disse: as palavras estão gastas.), 

assombrando, sílaba a sílaba, letra a letra, o afã inútil de havermos concebido que eu e tu essa almejada 

(e finalmente revelada impossível) 

simbiose. 

Virá o inverno e a então consoladora certeza que cada final encerra um ciclo para outro se iniciar na luz do solstício. Nesse tempo, que será a viril tarde fecundando a mais longa noite para a madrugada em esperança de perfeitos amanhãs, o nosso nome será apenas sombra de memória, sem outro significado senão a pedra que desviámos do nosso caminho.

5 de novembro de 2018

pouco ou tanto


«Hoje é de um beijo que preciso
Sem discursos, sem porquês»



Sem curta ou longa distância, só a contar com o olhar inquieto de tantos dias vazios, deixando subir o impulso de tudo ter e, sem hesitar, esmagando por sofreguidão nos nossos lábios o que há-de ser de nós. Um beijo de fogo e ternura, ignorando tempo e lugar, naufragar os corpos de afagos, sem acenos, escusando a efemeridade. Pertencer a um amor que de tudo se ausenta, suspenso nessa liquidez das bocas comungando. Ter o espírito infalível às agruras, aos temores, os braços contestando o desequilíbrio, a mente a impugnar a auto-comiseração. Ter o apetite livre do suicídio físico ou moral. 

Estar num beijo, sem entretanto nem porém, para tudo haver o que os corpos por longo tempo desejaram contra a imaterialidade de qualquer razão propensa ao mundo que os condene, que nenhuma má fé possa nunca superar. Mãos no rosto, dedos entre os cabelos, e os olhos frente a frente desistindo de segurar a convulsão de tanta saudade, e a matar, a matar, o pouco ou tanto que somos agora, a mitigar a tristeza de não sabermos, por desconhecer o nada, o que poderá haver afinal depois do amor.


27 de outubro de 2018

alfena



Pouco me preocupa o render do equinócio e os dias que se adivinham mais frios. A evidente e rápida inclinação da tarde para noites mais longas tornando os corpos lassos e apelando ao apetite quase verbal do sono. Vou sem ti, nesta disposição, para parte incerta 

(para lado nenhum?) 

enquanto resistem os penúltimos e tardios movimentos estivais na cidade, procurando um copo que me afaste ainda da sombra da solidão que está aí não tarda no meu encalço, presente nos meus gestos inclinados, à laia de caçador furtivo, para finalmente me emboscar quando menos esperar 

(claro que espero, já sei de cor o) 

nessa hora de maior fraqueza que há-de vir, e tomar-me, por inteiro, enjaulado ou empalhado até que o inverno se cumpra e, quando cansado ou morto, começando a soltar-me então, acordando o meu corpo para os hormonais apetites primaveris 

(já sei de cor o ciclo de sombra e luz de que sou feito, como se eu calendário ambulante das estações, apontando a lua ideal das sementeiras e o humor propício às colheitas). 

Para já resisto no meio termo de tudo, longe da cor alfena dos teus olhos, aguardando o aconchego patético da minha hibernação para o que é a vida, sempre adiando decisivas resoluções e com os anos pesando em cima, convencido que o dia há-de chegar finalmente para que tudo se concretize, e eu rejuvenescido, sem encarar os espelhos, ignorando num sacudir de ombros os sinais cada vez mais inequívocos da idade que avança. 

Sigo por esta cidade, despreocupado com o rumo que tomo, sem ti, mas com a memória no manto negro e sedoso dos teus cabelos, a sugerir-me o quente aconchego do teu colo, contra o restolhar das folhas das árvores há muito caindo na sua madura condição, arrastadas sob o vento que se levanta, cada dia mais frio, a arranhar o chão. 

Tu ficarás quieta, sorrindo 

(tu quieta uma pessoa, tu sorrindo uma outra que não tu quando quieta) 

sorrindo ao que tens de anos pela frente, sem te preocupares que uma prega na pele, que uma articulação teimosa ao descer da cama, que um cabelo branco, que o sono rejeitando a vontade de adiar o fim dos dias, 

(tu duas pessoas, a que poderias ser se me esperasses e a que és e hás-de ser ignorando as expectativas de mim), 

tu quieta e impressionada com o que eu possa representar, que talvez a idade afinal nenhum limite, a conjecturares cenários, e os obstáculos sempre em evidência em qualquer e cada um deles, muito embora o amor 

(é o que se diz, o que se ouve falar muitas vezes) 

o amor razão principal e mais forte, e que acontece contra tudo e todos, o amor como o velho louco de la mancha aniquilando monstros de braços estendidos consoante a maré dos ventos. É verdade, o amor acontece, e parece tanto o título lamechas de um filme a que se assiste na tarde de um sábado invernoso, enquanto a chuva fustiga a paisagem para lá da janela tolhida de cinzento. 

Não me preocupa nada que os relógios venham encurtar os dias e que a escuridão avance. Bebo, por enquanto, neste copo balão algo que evite o esfriar das veias e das extremidades dos membros, sentado numa esplanada desarrumada, não totalmente deserta porque ainda o ruído da mesa no canto oposto e sei, sem fazer alarme, que a solidão me assaltou 

(afinal quando menos esperava) 

como demónio escarninho, cruz que vou carregando daqui por diante durante meses, ou 

(sendo a esperança essa que teima em ser a última a finar-se) 

que os bagos de alfena dos teus olhos, mais o misterioso manto negro dos teus longos cabelos me amenize os ombros com promessas de 

(a idade, as pregas da pele, as articulações em gritos, os cabelos esbranquiçando) 

com promessas de ter o sono velado pela tua voz jovem, rouca e quente, a assegurar-me 

- Vai passar. Tu sabes que vai passar.

20 de outubro de 2018

poema matinal

Eddie O'Bryen, via Alternatif Fotoğraf Topluluğu.

Deixei que caísse vagaroso no sono que não queria ter, sôfrego, feito de ombros resignados à completa falta de esperança que o cansaço consegue impor-me, amotinado com as tempestades mentais, a luta interior entre querer e não saber o quê. A vigília abrindo brechas para que o subconsciente se derrame, desfazendo-se como papel encharcado onde escrevi a frustração de mais não ser nem haver, amontoando todo o pensamento encurralado numa deriva que se torna lixo a entupir a alma. Fui como por uma ravina abaixo, sem galhos ou pedras que me detivessem, a entrar magoado no sono mais profundo, como abismo insondável. 

Madrugada cumprida, fui regressando deste lado de cá interior, a deslumbrar-me, já desperto, com a singular quietude do mundo na orla matutina, ainda de luz impoluta e o espreguiçar lento e demorado do ar no seu hálito líquido de caruma. Dos teus olhos colhi uma gota do orvalho purificador, signo do repouso revigorante, o pulsar da água em nascente, conduzida pelos teus lábios que começa a abrir o veio por onde há-de subir a maré dos meus beijos. Serei completo quando despertares a encarnar o dia, erguendo-se como plumas, fecundo de brisa e azul, revelando-me a ilha que desejo habitar no teu colo, a semear o amor entre o que há-de ser de mim. 

Diz-se que a esperança não morre, ou será a última a deixar-nos. E eu acrescento: regenera-se, matinal.

21 de junho de 2018

manifestação



Ontem toquei-me no banho
por me lembrar do teu lascivo apelo
à paz:

foi tudo certo, ergui o mastro
para desfraldar a imensa e alva
bandeira,

o punho cerrado e pulsante
por essa tão nobre causa,
mantras

para o equilíbrio dos interesses,
e a essa vontade de um cessar fogo
da carne,

lembrei o teu os nossos gritos de ordem
roucamente libertadores da tua nossa
aflita voz,

e achei-me, no final, tão realizado, ou mesmo
feliz por desta luta saber-me eu e tu cansados
vencedores.

19 de maio de 2018

do maio fecundo


Anybal Bastos photography | modelo: Ana Brito Silva


para a Fernanda



O rio dourado sempre meu confidente soube desse dia de maio em que as aves anunciaram que a cor do amor é azul. Maio criador, fecundo e maduro com as searas ainda jovens, jus à pele adocicada dos teus braços alvos com o sol predicado nos teus cabelos. Inaugurando as brisas de verão a lamber-me o rosto.

Conheci a pele de pêssego no teu peito, o perfume da giesta no teu pescoço, e o sabor da amêndoa no teu olhar.

Tudo tão inicial, como qualquer alvorada, em que pude perceber a geometria dos jardins, pegando na tua mão. Se tremias, eram os abalos em meu peito; se sorrias, era o fulgor do ouro sobre o meu corpo.

E o beijo, como cavalo selvagem à solta, faminto do feno.

Foi quando nasceram os poemas, tão puros e virgens, esse maio feliz. Nós ainda meninos, com a esperança de abarcar o mundo. A eterna juventude da qual afinal nunca parti e onde consigo sempre ouvir a tua voz.

Não será apenas memória ou cadente nostalgia. Estará no sangue de que sou, no entendimento que tenho do mundo e das mulheres.

Não foi, nem será: é a nossa sexta-feira azul.



13 de maio de 2018

queria escrever como faço amor

Robert Duval, via Photographize



Queria escrever um poema
como sei fazer amor, e eu
só sei fazer amor
– não digas
   não digas que não sabes
o que escrevo, ou que não entendes
o que escrevo
pois se
o que escrevo
é tudo e por amor, e é amor
tudo o quanto quero que sintas.


22 de abril de 2018

em cama fria

Kültür Tava



Queria a calma manhã para escrever-te o chilreio das aves pequenas ou o recolher ainda ululante das rapinas nocturnas. Dar-te o acordar do céu envolvido no mesmo halo dos teus olhos. No prado, o balanço e o friso dos fetos que se espalham, e a fauce das flores na descoberta das suas corolas. 

Queria o teu sorriso e as tuas mãos brancas assegurando que o mundo é afinal e ainda o melhor sítio para tomar a vida. A ondulação de oiro do teu cabelo num abraço para lá do todo. 

Queria os nossos gestos na vez dos fonemas ou, se necessariamente com palavras, um andamento lexical sem indicar por quais caminhos seguir ou influir sobre a nossa condição futura – apenas as dos sons chegados à terra intercalados com os assobios matutinos dos melros. 

Queria a brisa amena sustentando o voo das borboletas brancas, o aroma denso do tojo por contemplação da magnificência das montanhas desmaiadas de amarelo no horizonte. 

E queria o brilho do sol e a sua macia temperatura primaveril em auxílio do sangue que me percorre as veias. 

Tudo tão rebuscado, uma tontaria tão adjectiva, dirás. Eu sei: ao despertar percebi, sob a pressão do peito e na subida angular das lágrimas, que o meu corpo se havia resignado em cama fria.


20 de janeiro de 2018

primeira carícia


Elliott Erwitt / Magnum fotos via Fotograficamente

Quero ser a cor dos teus dias. Acredita que consigo resgatar o teu sorriso ainda que nesta tarde tolhida por nuvens pesadas tenhas receio de olhar para além do cinzento, da parda solidão.

Basta que entreabras os lábios. Devagarinho como uma primeira carícia. Aos poucos é como que o sol a despontar. O teu sorriso brilha, Anna, enverdece os prados, aquece a semente. Acalma as marés. Como se viesses desses países distantes e encantados a dar boas novas ao mundo.

Quando sorris o teu olhar enternece. Comove-me no seu mistério, na cândida maneira de seduzir. Tens o amor dentro de ti como nascente de água a borbulhar por conhecer a terra e abrir sulcos profundos no solo.

Deixa-me ser o teu leito. Deixa que os meus dedos te conduzam como vento.

Vou estar aqui, entretanto, a velar o teu silêncio. E quando enfim abrires a janela, a primeira brisa que sentires no rosto será o beijo que os meus lábios, irrequietos, guardaram para te dar os bons dias e convidar-te


- Vens comigo?


15 de janeiro de 2018

poema do encontro

via Borboleta Rubi


Enovelo-me no teu abraço e o mundo perde-se, extinguem-se as estações do ano, faz sol quando chove, ardo em calor se são de neve a chuva e o vento, abrem-se jardins entre o betão da cidade, todas as pessoas são felizes ainda que carreguem semblantes pesados.

No teu colo regresso à infância, sem conhecer viva alma de má fé, és o meu escudo protector, o paredão contra o mar irado, a duna que me protege do vento norte.

Cada beijo teu uma flor aberta, as tuas carícias as plumas das aves pequenas. Sou em ti, perpetuado sem idade, inaugurando o mundo a cada suspiro do teu peito.

E quando mergulho no azul do teu olhar não há penumbra, porque os teus olhos brilham como candeias, ou é todo o céu estrelado nas noites frias do norte, a guiar-me a caminhada.

Sou pobre sem ti. Não tenho nome na tua ausência. 

A fome. O teu segredo. Os teus cabelos como tempestade de ouro sobre a almofada.

A canção.

Beber do teu peito a claridade da manhã.

Eu em ti. As minhas lágrimas por ti. O meu corpo por ti. O meu sangue por ti. Encontro-te: quero-te. Não sei o que fazer se tu não estás.

9 de dezembro de 2017

nós


Sandra Geinsweid

Por favor não te enfades por insistir desta forma. Tens que acreditar na possibilidade entre nós, e digo nós porque a palavra parece que se impõe, podia dizer eu e tu, mas não, é nós que aparece, eu a tentar corrigir e o teclado obstinado num tom meio amuado, não me deixa traçar as letras do eu e tu, quer apenas nós, quer-nos.

Olho pela janela e o crepúsculo volátil gira, atordoando-me, concede-me pausas de meros minutos, e recomeça, mansinho e cada vez mais denso, dando espaço a que as sombras se amontoem entre livros, papeis, revistas. Muitas canetas, esferográficas, lápis, e um bloco de folhas em branco onde exercito uma arte de que duvido possuir, todo aflito com maneirismos e floreados e, afinal, vê lá tu, as palavras encarreiram-se tão bem perfiladas num estilo tão próprio delas, como se dissessem

- Quem manda aqui somos nós

e depois já não há aflições nem medos, apenas deixar rolar a arquitectura da escrita que parece ganhar corpo próprio; ponho o selo do meu nome por baixo, quase como que por favor, e já está. As pessoas entusiasmadas lendo aquilo que não fui eu que quis assim, as pessoas

- Escreves tão bem

e eu encolhendo os ombros, aflito também por nada mais saber dizer do que um obrigado espantado e tímido.

Talvez por não mandar nestas insinuantes palavras que me assaltam das mãos ao teclado, desrespeitando vontades e contrariando que as conduza, talvez porque as palavras formam um corpo fora de mim, e insistem abrir a minha boca onde não há voz, ou querer enxugar as lágrimas que me assomam aos olhos

- Não sejas mariquinhas

talvez por tudo isso eu não tenha dado fé, ou melhor - (lá estão elas, lá estão elas!) -, não tivesse sequer qualquer noção do quanto as mesmas baralham e transformam a leitura numa outra coisa que afasta os outros do que eu queria realmente dizer

(tantas vezes!).

Não são desculpas, querida, são elas que assim se impõem, e nem calculas o quanto cruéis são comigo

- Quem manda aqui somos nós mariquinhas

Obrigam-me a escrever entre silêncios, para que haja espaço para as leituras tortuosas, entrelinhas traiçoeiras, e depois ficam - parvas de merda! - a olhar-me com a meiguice de um cachorro desamparado. Não lhes resisto, não sei resistir-lhes, acolho-as no meu colo e deito-me com elas, amantes todas, amantes lascivas que nem nos sonhos me deixam sossegado.

O céu embrulhou-se completamente, e este escritório é uma mancha parda na janela para quem gosta de espreitar intimidades alheias. A meio surge o meu semblante mergulhado na claridade do monitor, os lábios finos, quase austeros, e o olhar raiado de cansaço. Este sou eu, o eu vulnerável que eu e t…

… que nós andamos a debater durante este tempo todo. Este que não conheces e o mais fácil de entender. O mais simples. A olhar de soslaio, borrado de vergonha, o teu ombro tão apelativo.

Queria-te aqui, para contemplar o nó dos teus dedos e compreender por que diabo as palavras

- Cala-te para aí mariquinhas

insistem que tu e eu nada, nós é que deve ser, sem nódoas, sem pedras. Só nós. Podemos tentar outra vez, estava a ser bonito e a fazer-me bem.

28 de março de 2015

eu sou quando tu és


Janina Steiner, fotografia de Silvana Madamski


Tu és o meu despertar,
primavera feita em palavras
no bolhão pueril dos teus lábios
inconstantes de sono e repouso.
O primeiro e subtil acorde do dia
prometendo a semente germinada.
És tu a cor da papoila ainda tímida,
mas também o perfume do tojo
esquecido da ameaça dos seus espinhos.
O inocente abraço prometido
de sorrir sem razão, apenas
porque a presença, e o olhar.
Esse abraço aquecido, enquanto
os teus cabelos propõem brisas.
Tu és a tarde inaugurada,
chilreio das aves pequenas
anunciando um mundo simples
para viver.
És a minha sede saciada
em ribeiros também agora despertados
do parir da terra rebentada
em borbotões desmaiados.
O lavor de um beijo,
a minha lágrima rendida
às pétalas abertas pela ternura.
Tu és o crepúsculo paciente
quebrantando a manhã
feita em neblinas;
e no final da tarde
inquieto render apaixonado
de fruto e ardor.
És tu quem fez o mundo
onde me vejo Adão;
enquanto o resto,
feito de finitude e orfandade,
é um ligeiro devaneio do deus
que , por parceria contigo,
prolonga ser eu sem que
nada mais reste nem tão pouco

acresça significado.

13 de dezembro de 2014

poema para a Rita, de um sábado de dezembro


Diz-me com que palavras fundamento a razão e digo amor,
tendo nos teus olhos qualquer hora da madrugada enquanto
o crepúsculo define agora as fronteiras com a jovem noite.
Eu seria acorde dedilhado pelos dedos lentos
que nas tuas mãos se havia de compor; e dos teus lábios uma melodia
havia de se ouvir, como que a instruir plateias.
Seria eu, serias tu, se fosse o mundo dos avessos, num de vez em quando
(ou num faz de conta)
que nos desligasse desta realidade que, por apartados estarmos, vivemos.
Bastava uma gota de sal, cumpridos os humores, a delicar-se entre o gin;
e uma meda dos teus cabelos
recebendo a paixão dos meus abraços.
A noite não seria sábado ou qualquer outro dia diagonal da semana,
nem madrugada de alfena escuridão.
Teria a voz tropical de Caetano, a dizer devagar a fervura do sangue.

Diz-me com que palavras, Rita, senão com que gestos
(mas em gestos lentos, isentos de qualquer tempo verbal),
poderei eu fundamentar a razão e dizer amor.
Pelo menos enquanto este mar de sábado não se finda

e tudo se esqueça, reafirmando a realidade que vivemos.