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15 de dezembro de 2018

requiem



Ilumino o quarto com os dois abajurs, um em cada mesinha de cabeceira, enquanto o frio lá fora principia a enrijecer os músculos e os ossos, e todo o meu corpo estremece como se de um medo se tratasse. Os automóveis passam disfarçados pelo nevoeiro que avança, todos eles oferecendo um conforto quente, um aconchego, como uma lareira crepitando e dois copos de vinho, adequados ao brilho de uma vela enquanto dois corpos avançam no seu encontro íntimo, e todo o calor do ambiente já é quase só dos corpos e pouco da lareira, nem dos carros que passam, abrindo o nevoeiro que já se adensa, e os faróis sinalizando a máquina a ameaçar nas curvas, quando duas mulheres que passam distraídas se acautelam 

- Cuidado com o carro! 

Estava eu a dizer, o meu quarto iluminado por dois abajurs, a minha cama tão enorme para um velho menino como eu, entregue à lentidão morna, quase fria, deva dizer, da solidão; eu tão pequeno, querendo o afecto da minha mãe 

- Doem-me os ossos 

querendo o afecto da minha mulher 

- Deixei de gostar de ti 

querendo o teu afecto 

- Não deixo o meu homem por nada 

e lá me meto entre os lençóis, abrigo os meus pés no conforto de um saco de água quente que todas as noites a minha velha mãe me coloca na cama como se de um beijo de boas noites se tratasse e, contudo, 

- Doem-me os ossos. 

Vejo a disposição do meu quarto, os móveis quietos presenciando a minha solidão, as roupas que atirei na cadeira, a televisão muda, o telemóvel pousado a vibrar de notificações, como se um velho resmungando de reumatismo 

- Doem-me os ossos 

e lá fora os carros de ares condicionados ligados abrindo o nevoeiro, troçando do frio que se faz no exterior, as duas mulheres passam distraídas e ao verem o farol como uma fera 

- Cuidado com o carro! 

Eu estou como se sobrasse no mundo, deitado na cama, iluminado por dois abajurs, de auscultadores enfiados nas orelhas, de chávena de leite arrefecendo na mesinha ao meu lado esquerdo e tu o pequeno papel com a tua letra lá inscrita na vez de uma fotografia; respiro fundo, ou suspiro, os suspiros que os homens de certa idade vão esquecendo; eu agora regredindo trinta e cinco anos, voltando à ansiedade da adolescência e tu a teimar, a martelar na minha cabeça, 

- Não deixo o meu homem por nada 

e eu sei lá quem o teu homem é, só sei de mim e dos teus olhos; eu sei ver todo o universo nos teus olhos, e um mar de conquistas, com bartolomeus dias, vascos da gama, dom sebastião mais quintos impérios e tudo nos teus longos cabelos; as horas passam, a minha mãe remexendo-se na cama num sussurro de 

- Doem-me os ossos 

e a mim dói-me a alegria por voltar a sentir a paixão que julgava perdida pela idade, com a realidade assinalando 

- Não deixo o meu homem por nada 

a doer-me por voltar a sentir-me feliz e tu indiferente, a suspirar de novo e tu só bocejos, a sonhar de novo e tu caída no sono. Tu, nesse verão já tão distante, a dizer-me no papel 

- As metas de hoje são barreiras ultrapassadas amanhã. 

A minha mulher que me deixou, num semblante cruel e frio, 

- Deixei de gostar de ti 

frio como o nevoeiro lá fora, a minha mulher que se julga agora dentro do automóvel que rompe o nevoeiro, julgando-se toda ela confortável devido aos ares condicionados, enquanto eu, a espreitar o farol surgindo do meio da neblina e a avisar, como duas mulheres distraídas que passam 

- Cuidado com o carro! 

E, no entanto, cá me encontro, suspirando, fingindo o teu retrato na tua letra inscrita num papel, sorvo os primeiros goles de leite e aconchego os pés no beijo de boas-noites que a minha mãe veio repousar na minha cama. Esta música que te traz de corpo inteiro aos meus ouvidos, consigo ver-te finalmente sorrindo em cada acorde, e todo o teu jeito de mulher ingénua, todo o teu corpo como uma dança mágica, imagino os teus cabelos soltos abrindo brisas de maio no meu quarto 

- Não deixo o meu homem por nada 

a recordar o beijo de despedida que te dei na face, a afagar-te o rosto como se fosses uma menina perdida, 

- Até amanhã 

quando perdido segui eu, que deveria ter recebido o beijo e o afago que te dei, de que tanto necessito, e os meus olhos a brotarem lágrimas que se sustiveram, lágrimas não sei se pelo que sinto, lágrimas não sei se por ti ou por mim que sofro por voltar a sentir-me feliz, apaixonado, sem ter que ouvir 

- Deixei de gostar de ti 

mas também sem necessidade alguma de ouvir 

- Não troco o meu homem por nada.

30 de dezembro de 2017

ver morrer

Kültür Tava

Serve-me no rosto a gota de sal e esquece a taciturna nuvem enovelando a tarde. Cada segundo um tambor do tempo em meu peito como um cavalo galopando pradaria fora. A chuva serve de mortalha ao ano que se finda e nós sem um gesto comiserativo, ou qualquer ansiedade para lhe velar o corpo, preocupados com a ignomínia dos pagãos.

Ver morrer não é signo de passagem. Ficamos quedos no passado, a indagar as razões dos nossos fracassos, ofendidos com esta pressa que o tempo tem de se ultrapassar, sem hesitar sobre os actos, sobre as cruzes, sobre as lágrimas de quem está aquém e não sabe o norte do futuro.

Eu e tu não provaremos deste ou de outro amanhã. Temos vindo a tactear o mundo com os olhos muito abertos na alfena escuridão e não sabemos onde estão os nossos corpos para repousar. Temos as mãos unidas para mais rápido nos afastarmos com medo. Temos os lábios em comunhão para céleres se ferirem de sangue. Ouvimos o murmúrio de uma canção mais longe mas é o silêncio que entre nós cresce. Temos a voz rouca de tanto gritar no vazio.

Serve-me o sal numa gota do teu abraço. Entro profundamente no céu dos teus olhos e são as brisas de maio, o trigo de julho na cama dos teus cabelos, o humor da terra de outubro no teu baixo ventre. Motes de uma fábula por inventar que já não sei escrever. Nada se inaugura. Levamos os livros velhos, a tinta desbotada, toda a vida já contada e sem outros planos que o caminho sobre a argila vermelha de um sul estéril.

Vai descer a noite e o novelo da chuva não se precipitou. Está nos céus em anseios de virgem. E o tempo é um touro marrando com cio. Vai preparar-te. O esquisso do que quisemos que fôssemos será diluído quando a chuva chorar de espanto ao sentir-se possuída pela virilidade do tempo que lhe semeará no ventre o alicerce do ano que já não vamos poder ver nascer.

Serve-me dessa morte no sal de uma gota que deixaste por mim.

24 de dezembro de 2017

segunda-feira

Andrea Kiss - www.facebook.com/andreakissartist

Ninguém sabe. Só eu a sinto. E senti-la é não saber exactamente quem sou, como sou, e o porquê. Não o porquê da minha existência, mas o porquê do meu sofrimento. O porquê de me sentir assim, sem nada para que possa apontar

– Sinto-me doente

e no entanto é assim que me sinto, doente, mas do quê, não sei. Creio que tudo terá começado naquela nefasta segunda-feira, como todas as segundas-feiras são nefastas, as pessoas abrem a boca de tédio e suspiram

– Amanhã é segunda-feira

como se a segunda-feira fosse o dia do suplício. Mergulham nos seus sofás coçados pela tarde mole e sonolenta de domingo, perdidos no vazio dos ridículos programas de televisão, ou dos filmes de segunda categoria repetidos ciclicamente, intervalados por enxurradas de publicidade, fazendo-os sonhar com ideias fúteis. E esperam como répteis que as horas concretizem a segunda-feira, a nova semana de lavores e irritações que se inicia.

Não foi isso, ou não foi por isso, que em mim tudo começou, naquela nefasta segunda-feira de Outubro. Foi a dor que não senti, da perda do meu pai, expirando eram duas da tarde o seu último sopro de vida, preso aos lençóis da cama lavada de fresco, entubado pelo nariz e enfraldado como os bebés. Para ele não havia razões para afirmar

– Sinto-me doente

pois nele tudo era visível, o soro, as aberturas no abdómen para escoar os líquidos que não retinha, a algália… o peito magro revelando as costelas, e o batimento cardíaco cada vez mais acelerado à medida que as injecções de morfina iam sendo aumentadas, para que se não prolongasse o seu sofrimento. Foram os intestinos, rebeldes, que o mataram, desfaziam-se como o papel de um guardanapo humedecido, eram enfim bocados do intestino desfeito que lhe saíam pelos drenos feitos na barriga. Eu não sabia ou não queria compreender como uma doença pode acabar repentinamente com uma vida num espaço de meses. Julguei que apenas dizendo

– Sinto-me doente

se pudesse recorrer aos médicos, aos hospitais, aos cirurgiões que dizem esforçar-se para fazer terríveis milagres quando os doentes entram, terminais, divagando

– Só se lembram de santa bárbara quando troveja

como se a questão da vida fosse uma possibilidade climática qualquer acometida pelas forças sobrenaturais. Afinal não basta anunciar-nos doentes para que possamos ser salvos, quer pelas mezinhas da avó, quer pelas curas milagrosas e esforçadas da ciência médica…
Não chorei em qualquer altura do acto fúnebre, nem antes, nem depois, estivesse só ou acompanhada, ao passo que outros familiares, a maior parte deles nem sequer muito chegados, tias irmãs do meu pai que socorriam ao cadáver, histéricas aos berros,

– Eras o mais novo e foste o primeiro a partir

familiares que nem uma única visita lhe fizeram no hospital, ou em casa enquanto o meu pai aguardava que o seu último suspiro o levasse para lá da hipocrisia terrena.

Foi assim durante muito tempo, durante anos, sofria calada para mim mesma, não querendo aceitar que a morte me tivesse afectado, desprezava-a tanto que nunca acreditei nela, apenas sentia a dor da saudade física do meu pai, da sua voz, e tentava convencer-me que nunca mais o veria, como se tivesse empreendido uma viagem longa e interminável.

Outras coisas se foram passando comigo, agruras da vida, mas nada de especial, nenhuma desgraça, nenhuma dificuldade de maior, para uma rapariga que acabava de sair da adolescência órfã de pai e com uma mãe que se encolerizava com tudo e todos, como se tudo e todos tivessem culpa da morte que os intestinos do meu pai lhe deram.

Foram desilusões, que todas as pessoas normais têm, ao longo da sua vida, sem que por isso tivessem de alertar,

– Sinto-me doente

a vida empurra-nos para a frente, seja qual for a qualidade do caminho, é sempre em frente que caminhamos, sem termos tempo para olhar para trás e refazer alguma coisa que devia ter sido feita; o mundo corre e nós corremos com ele, e quando nos lembramos

– Só se lembram de santa bárbara quando troveja

o sangue pica-nos nos olhos e bate-nos nas têmporas, a alertar, devias ter feito isto, esqueceste-te daquilo. Nunca emendamos as coisas más que passam por nós e nos fazem desviar do caminho menos acidentado. Foi isso que me foi acontecendo, desde que o meu pai morreu, desde que o Luís me deixou para se dedicar aos estudos na Alemanha e ter aparecido cinco anos mais tarde, casado com um fulana alta, branca e esguia, segurando pela mão um rapazito franzino com a mesma tez e um cabelo branco que me lembro de ver nas gravuras dos contos infantis, com os traços latinos do meu ex-namorado, que, como vim a saber pouco tempo depois, nunca fora para a Alemanha estudar, mas sim trabalhar levando consigo a esguia mulher que já trazia no ventre a semente da sua então traição ao amor que me jurara.

Empreguei-me numa loja de pronto-a-vestir, certificada por uma marca multinacional, e que me fez perder lentamente o sonho de um dia me licenciar em gestão empresarial, pois o meu sonho era ter uma empresa minha, enriquecer, tomar o poder, e talvez a minha sede de começar a trabalhar fosse por isso, embora a razão principal tivesse sido esquecer o Luís e não ter que aturar todo o dia as tempestivas pragas da minha mãe contra o mundo, pendurada ela num domingo eterno, no sofá roçado lá de casa, sem razão para suspirar

– Amanhã é segunda-feira

porque para ela todos os dias eram fatídicos, todos os dias ela travava a sua luta feroz contra os seus moinhos, capaz de envergonhar qualquer dom Quixote…

Foi nesse emprego que conheci o Álvaro, gerente da loja, que engraçou comigo desde o primeiro dia, e me bajulava com almoços e jantares no shopping, entre fatias de pizza e hambúrgueres indigestos. Deixei-me levar pela conversa dele, como se o amor fosse um produto de venda, e lá me convenceu a levar-me para a cama, onde me atirou com todos os seus ossos, de tão magro que era, e tão desajeitado. Foi uma noite inesquecível, os ossos embrulhando-se no meu corpo que ele não parava de elogiar, e naquela confusão contundente em que o esqueleto dele me triturava o corpo de dores, e sem sentir algum prazer, creio ter chorado pela primeira vez desde que o meu pai partira da cama para debaixo da terra, desde que o Luís fugiu para a Alemanha com uma família nova na bagagem, desde que a minha mãe explodiu de vez e teve se ser internada num hospital psiquiátrico agravada com uma trombose que lhe tolheu a língua praguejadora.

O Álvaro convencidíssimo que eram lágrimas de alegria, lágrimas pelo amor e pelo prazer que se convencia encher-me, mas nem sequer o seu membro sumido, como se de um outro osso se tratasse, me enchia o espaço abandonado e dorido do meu colo, de modo que, talvez por pena, de mim ou dele, já nem sei bem, acabei por concordar com ele, que era o amor da minha vida e mais feliz eu não podia sentir-me.

Apenas um ano bastou para que eu deixasse de me preocupar com a canseira de todas as segundas-feiras fatídicas das gentes que trabalham, a loja não dava os lucros orçados pela empresa e fechou, ficando eu sem emprego, e o monte de ossos de malas aviadas para a capital, aceitando a gerência de uma loja que entretanto abrira, com promessas de cartas, telefonemas e de visitas… que nunca se concretizaram.

Seis meses passaram onde pelo meio aconteceu a morte da minha mãe que, para ser sincera, não me lembro como foi, porque foi e quando foi. Seria talvez motivo de me sentir desamparada de todo, mas não o senti, a minha vontade era fugir para longe, tentar ser eu outra vez num outro lugar qualquer, livrar-me da vergonha do que tinha sido até então.

Consegui novo emprego num escritório de advogados, e no meio da barafunda de processos, polícias e ladrões me tenho aguentado. No entanto, nada em mim mudou. Continuo a sentir a dor dos ossos do Álvaro, a ausência fria do Luís, atordoada com as tempestades levantadas pela minha mãe, mesmo depois de morta e enterrada há dois anos.

Sinto-me assim, e ninguém sabe. Alguém balbuciou certa vez a palavra depressão, mas quis rir-me, e não me convenci. É uma dor, que não sei de onde vem, talvez sejam os intestinos a invadir-me o cérebro, convencidos que se desfazem como papel húmido, talvez sinta a necessidade de visitar o frio da Alemanha e levar pela mão as feições latinas do Luís na tez branca e russa de um rapazito, ou ainda talvez seja algum osso do Álvaro que ele tenha deixado dentro de mim como recordação. Mas doença não é, não sei de onde vem, senão prostrava-me frente à televisão de domingo, no sofá já rasgado de tanta canseira, à espera que a segunda-feira nasça no relógio e eu esclareça a quem me possa ouvir

– Sinto-me doente.

*

[recuperado de um texto escrito em Outubro de 2004]

9 de dezembro de 2017

nós


Sandra Geinsweid

Por favor não te enfades por insistir desta forma. Tens que acreditar na possibilidade entre nós, e digo nós porque a palavra parece que se impõe, podia dizer eu e tu, mas não, é nós que aparece, eu a tentar corrigir e o teclado obstinado num tom meio amuado, não me deixa traçar as letras do eu e tu, quer apenas nós, quer-nos.

Olho pela janela e o crepúsculo volátil gira, atordoando-me, concede-me pausas de meros minutos, e recomeça, mansinho e cada vez mais denso, dando espaço a que as sombras se amontoem entre livros, papeis, revistas. Muitas canetas, esferográficas, lápis, e um bloco de folhas em branco onde exercito uma arte de que duvido possuir, todo aflito com maneirismos e floreados e, afinal, vê lá tu, as palavras encarreiram-se tão bem perfiladas num estilo tão próprio delas, como se dissessem

- Quem manda aqui somos nós

e depois já não há aflições nem medos, apenas deixar rolar a arquitectura da escrita que parece ganhar corpo próprio; ponho o selo do meu nome por baixo, quase como que por favor, e já está. As pessoas entusiasmadas lendo aquilo que não fui eu que quis assim, as pessoas

- Escreves tão bem

e eu encolhendo os ombros, aflito também por nada mais saber dizer do que um obrigado espantado e tímido.

Talvez por não mandar nestas insinuantes palavras que me assaltam das mãos ao teclado, desrespeitando vontades e contrariando que as conduza, talvez porque as palavras formam um corpo fora de mim, e insistem abrir a minha boca onde não há voz, ou querer enxugar as lágrimas que me assomam aos olhos

- Não sejas mariquinhas

talvez por tudo isso eu não tenha dado fé, ou melhor - (lá estão elas, lá estão elas!) -, não tivesse sequer qualquer noção do quanto as mesmas baralham e transformam a leitura numa outra coisa que afasta os outros do que eu queria realmente dizer

(tantas vezes!).

Não são desculpas, querida, são elas que assim se impõem, e nem calculas o quanto cruéis são comigo

- Quem manda aqui somos nós mariquinhas

Obrigam-me a escrever entre silêncios, para que haja espaço para as leituras tortuosas, entrelinhas traiçoeiras, e depois ficam - parvas de merda! - a olhar-me com a meiguice de um cachorro desamparado. Não lhes resisto, não sei resistir-lhes, acolho-as no meu colo e deito-me com elas, amantes todas, amantes lascivas que nem nos sonhos me deixam sossegado.

O céu embrulhou-se completamente, e este escritório é uma mancha parda na janela para quem gosta de espreitar intimidades alheias. A meio surge o meu semblante mergulhado na claridade do monitor, os lábios finos, quase austeros, e o olhar raiado de cansaço. Este sou eu, o eu vulnerável que eu e t…

… que nós andamos a debater durante este tempo todo. Este que não conheces e o mais fácil de entender. O mais simples. A olhar de soslaio, borrado de vergonha, o teu ombro tão apelativo.

Queria-te aqui, para contemplar o nó dos teus dedos e compreender por que diabo as palavras

- Cala-te para aí mariquinhas

insistem que tu e eu nada, nós é que deve ser, sem nódoas, sem pedras. Só nós. Podemos tentar outra vez, estava a ser bonito e a fazer-me bem.

9 de dezembro de 2016

não!



Quem és tu, que me assombras as noites e me inventas os sonhos

(por piedade, deixa que seja eu a comandar os sonhos que tenho)

tu que me atordoas o despertar e me fazes viver o dia como se já não existisse amanhã e quaisquer esperanças de mudar, e de tudo o que vivo me pareça sombras de parede, de muros intransponíveis? Esses muros que, ciclicamente, destruo e construo, consoante o humor do sol?

Porque me fazes isto? Ou que te fiz eu, quais foram os muros que te ergui, se declamavas a tua felicidade reinventada? Diz-me que muros foram esses onde te encurralei para que me persigas tanto como se os meus dias e as minhas noites fossem

(ou sejam)

diacrónicos labirintos onde não sei quando

(ou em que lugar)

colocar o verbo ser? Ser eu: porque não sei já ser eu?

Porque não te arrancas de mim, tubérculo que sugas de mim o húmus para cumprires a tua seiva? Por quantos demónios teimas em ser uma doença?

Porquê eu, ou porquê tu e eu? Se nem sequer para o engenho da escrita me serves, e me enjeitas os rios e as ninfas, o luar e a música? Porque me queres só para ti, para esse sofrimento cardíaco e míope, para uma fatal síncope?

Quero-te longe, como Abril deseja a distância inequívoca de Dezembro; como os morangos e os amores-perfeitos receiam as geadas fora de estação; como o nardo da giesta se insurge contra a intempérie das chuvas de Maio!

Da mesma autoridade com que os cabeções dos sacerdotes cristãos impugnam as culpas do mundo ao impuro Satanás e sua fétida legião de demónios, assim eu te esconjuro para longe, 

(ao mar coalhado!)

para que me salve e possa lavar corpo e alma de tamanha imundície…

Forçarei, ainda que com as já parcas e fracas vontades das minhas carnes

(ó condição humana!),

contra o teu agrilhoamento. És apenas uma noite de Inverno, adjectiva, de era uma vez. Sai-te, desconsolo, e deixa que abra o meu caminho.

13 de dezembro de 2014

poema para a Rita, de um sábado de dezembro


Diz-me com que palavras fundamento a razão e digo amor,
tendo nos teus olhos qualquer hora da madrugada enquanto
o crepúsculo define agora as fronteiras com a jovem noite.
Eu seria acorde dedilhado pelos dedos lentos
que nas tuas mãos se havia de compor; e dos teus lábios uma melodia
havia de se ouvir, como que a instruir plateias.
Seria eu, serias tu, se fosse o mundo dos avessos, num de vez em quando
(ou num faz de conta)
que nos desligasse desta realidade que, por apartados estarmos, vivemos.
Bastava uma gota de sal, cumpridos os humores, a delicar-se entre o gin;
e uma meda dos teus cabelos
recebendo a paixão dos meus abraços.
A noite não seria sábado ou qualquer outro dia diagonal da semana,
nem madrugada de alfena escuridão.
Teria a voz tropical de Caetano, a dizer devagar a fervura do sangue.

Diz-me com que palavras, Rita, senão com que gestos
(mas em gestos lentos, isentos de qualquer tempo verbal),
poderei eu fundamentar a razão e dizer amor.
Pelo menos enquanto este mar de sábado não se finda

e tudo se esqueça, reafirmando a realidade que vivemos.

14 de dezembro de 2013

embalo



Nas vésperas, a chuva ditou sombras sobre a cidade. Porém, o sábado nascido devolveu-lhe a claridade fria e azul das manhãs solarengas de dezembro.

O vento ergeu-se a esvanecer a humidade das roupas no estendal e declarou oficialmente o óbito e o luto entre as árvores.

Foste alimentar os animais, arredar o musgo da cancela esconsa, e subiste rente o muro da hera para me acordar. Eu já te esperava de café num púcaro e com a chaminé de um cigarro, feito ritual de quem espanta o entorpecimento dos resquícios do sono.

Apetecia-me o verão... – foram os teus bom dias. Eu sorri com um nevoeiro de tabaco a encobrir-me o olhar trocista. A mim agrada-me o sol de dezembro, e a luz do outono, mas também as colinas desmaiadas de chuva miudinha. 

Entramos em casa. Preparei-te torradas com mel que foste debicando devagar. Continuava a ouvir-se o vento do lado de fora, obstinado a transformar as árvores em esqueletos pintados na paisagem, embandeirado na roupa que, entretanto e já o almoço havia sido levantado, secara no estendal.

Abraça-me, que o sábado vai terminando, arranjado pelas mesma horas dos outros dias em que quase esgotamos a ansiedade pelo fim de semana. Ao final de cada dia somos santos de exaustão, convencidos que, virando a sexta-feira, o tempo cristaliza. E afinal, é como o ditado: a vida são realmente dois dias e um já se está acabando.

Passa ligeiramente das cinco e meia da tarde e o crepúsculo está tão tímido. Dezembro não engana, espelha-se inconstante no céu a anunciar a sua irreverência climatérica. E apetece-me este pequeno final de tarde para me deixar dormir, embrulhado na manta da tua ternura, ritual de quem, depois de acordar, deseja sossegar a madrugada de lentidão enquanto o amor acontece.

Não digas nada. Aquece-te junto a mim, que no verão não temos este embalo.

28 de dezembro de 2012

doce forno, branda cozedura, pão gentio




Falar-te dos teus lábios e pecar com as tuas mãos
Anabela Maria

Acode ao gomo da minha boca, resgata-a com a saliva e o músculo de polpa da língua. Trinca-a de ternura e fervura, tempera-a de hálito ofegante. Deixa os lábios marinarem num toque leve, como se encontrando-se quisessem apartar-se com a sensação de fogo. Agita-me na voz, gutural e sussurradamente.

Perde o pudor e solta o corpo de forma a escorrer em gotas de mel sobre o meu. Aos poucos, num vagar de carícias, vou ficando em ponto rebuçado abrigado no teu doce forno. Tens o pão pronto a cozer, massa e carne e sangue que nos sacia. Com os dedos revolvo as brasas, e espreguiço o ventre sob o teu, contorcendo-se. Encontro-te. Dissolvo-me.

Vens ao abraço. Vens com cuidado para não se perder o calor. Ficas sorrindo a brincar-me com o olhar, sabendo-me nos olhos o que podia dizer os meus lábios. O quanto blasfemam as minhas mãos a lamber-te os contornos dos seios. Mostras nesse sorriso que ainda o meu toque te desperta o apetite. Entreabres os lábios e murmuras com malícia:

- Cozedura pronta, amor, mas ainda há mais fornalha a servir…



15 de dezembro de 2012

desce a tarde em dezembro

foto de Susana Oliveira

para a Susana, para a Daniela


Desce a tarde em dezembro. Precipitaram-se as horas e o pardo das nuvens cedeu lugar à iluminação convulsa da cidade. Ruídos longínquos dos cães latindo, o ronronar dos automóveis sobre o asfalto molhado, uma palpitação urbana com a sensação de não haver humanidade no ruído, e por isso silêncio. Beberico um copo de uísque a propósito de um conforto pateta, sacudindo a solidão com o tilintar das pedras de gelo. Não saí, não vieste, não estás, não vou.

Ontem foram os teus olhos, secretamente guardando-me da noite e dos seus avanços imprudentes, enquanto caía a chuva como se um dilúvio, ou algo assim tão imensamente grave e tão profundamente medonho para que razões não me sobrassem de querer diminuir a distância de ti.

E fui dos teus olhos para as tuas mãos calmas, ternas, cuidadoras: um abrigo. Num murmúrio ininteligível de lábios por que o pudor, por que eles que não sabem, por que assim concordamos que seria. Tu ao meu lado com o mundo caducando à volta. Eles aflitos e nós em paz, a desenhar sorrisos com o pulsar do sangue.

Queria fugir dos lugares-comuns, dos clichés líricos, da verborreia bacoca. Queria um verso simples e amplo para dizer de ti. Porém são tão parcas, feias, dúbias, deselegantes e insignificantes as palavras contigo.

Demoras?
Se eu pudesse, escrever-te-ia um poema tão bonito como o último olhar que me lançaste, antes de fazeres aquela curva em marcha lenta.*

Por que, deste lado, é o olhar que já diz tudo. E tu sabes.

* de Teresa Coutinho

31 de dezembro de 2011

a moral, segundo o marido da Adelaide


Adelaide? Já cheguei. Está um frio que não se pode andar na rua. Toma, aqui estão os comprimidos. Agora ouve isto que se passou há pouco comigo: quando entrei na farmácia estava uma senhora, talvez com a tua idade, não sei, hoje olhamos para os rostos das pessoas, pensamos tem idade tal, mas afinal vem a saber-se e são pessoas bem mais jovens que nós; essa senhora na farmácia estava num pranto sibilante, não se lhe ouvia a voz, apenas o ar entre dentes a escapar-se numa convulsão que a pobre não podia mais conter. Queria aviar uma receita e não tinha dinheiro suficiente para pagar os medicamentos de que precisava. O senhor da farmácia dizia não poder fazer nada. E a senhora ali, a soprar as lágrimas, de porta-moedas aberto, com a mão agarrada ao saquinho dos medicamentos, enquanto o homem da farmácia, sem modos, tentava arrancá-lo da mulher. Não posso fiar, minha senhora, dizia o homem, eu apenas trabalho aqui, se lhe deixo levar os medicamentos sem os pagar habilito-me eu a ficar sem o trabalho e tenho filhos a sustentar; vá, quando tiver dinheiro regressa cá.

Sabes como é o meu feito… Se não rosnei ao farmacêutico é porque não nasci com vocação para cão, nem fero sou, como me parecera que ele estava a ser. Nem um pingo de simpatia, percebes? Vai daí que eu perguntei, Olhe lá, e ele olhou, com ar de despeitado, como se já soubesse que o ia afrontar, Então se a senhora precisa dos medicamentos e não tem dinheiro para os levar, não há qualquer forma de resolver isso, e se você diz que só trabalha aqui, chame lá alguém com responsabilidades, o dono da farmácia, o gerente, alguém que possa atravessar-se.

E nisto, um ronco de automóvel vindo da rua fez-me calar e olhar para fora. Era uma mulher que estacionava em frente um destes automóveis topo de gama, todo metalizado e estofos xpto. Outro senhor que estava já de saída tanto se admirou com aquilo que até disse Foda-se que o caralho da velha quase que se estampava contra o carro da frente. Voltei-me para o balcão e insisti, Vá homem, chame lá alguém, e entretanto é a minha vez de ser atendido, por uma rapariga bonita e simpática, e eu sempre na minha, Menina não está aí alguém que possa ajudar esta senhora?

Pois simpática como era, e perante o olhar de reprovação do colega, disse A senhora não pode pagar, não tem dinheiro nenhum?, perguntou, e a senhora não saia daquele silvo, sem largar a saquinha dos remédios de que entretanto o trombudo desistira de tentar reaver. A pobre com o porta-moedas aberto e vazio a doer-lhe na alma, com uma nota de cinco e mais uns trocos sobre o balcão. Queria falar, mas sempre que tentava, era só o silvo, talvez um nada de murmúrio, de quem chora mesmo muito baixinho. Oh menina, disse eu, veja lá o estado da senhora, só tem esse dinheiro que tirou, não está cá o responsável pela farmácia? Está mas não pode atender, se a senhora não tem dinheiro não pode levar os medicamentos, isto aqui não é uma mercearia, comentou o sujeito. Esse sim, deve ter nascido com vocação de fera, uma besta, de tal maneira que se ouvia o ranger dos dentes, como se lhe estivessem a roubar, ou algo assim.

Entra nessa altura na farmácia uma senhora ainda mais velha que eu ou tu, mas muito bem composta de roupa, cabelo arroxeado, a cheirar a pó de arroz antigo, deixando escorregar da dentadura um boa tarde altivo e arrastado. Tinha-se colocado ao lado da mulher que chorava, e quando disso se apercebeu afastou-se muito ligeira para o canto do balcão como se tivesse visto um bicho. Era a tal velha do ronco do carro. O cretino do funcionário foi logo atendê-la, todo servil, devia ser cliente habitual pois sabia-lhe o nome e perguntava Como está os netinhos, e a senhora tem passado bem?, e em que posso ajudar-lhe, dona-não-sei-quantos, não fixei o nome da criatura.

Entretanto, a menina que viera para me atender foi lá dentro chamar uma tal doutora, dona da farmácia, ou lá o que é. Regressou anunciando que a Sôtora vinha já, para esperar um pouco. A senhora que chorava acalmou, tirou um lenço da carteira e assoou-se. Eu pedi os teus comprimidos e a menina voltou novamente para dentro. O outro estava a mostrar uma gama de produtos de beleza, uns cremes quaisquer, para a velha do carro escolher. Ouvia-a a dizer, no mesmo tom arrastado, parecia que não sabia abrir a boca para falar, Ai este não, que horror, tem um cheiro péssimo, veja-me aquele ali, quanto custa? É mais caro, dona não-sei-quantos, setenta de dois euros, Olhe, respondeu a velha, mais vale dar mais do que andar a colocar porcarias na pele, andei a comer bombons no natal e veja a desgraça, tenho o rosto todo cheio de borbulhas.

Ó Adelaide, então uma velha daquelas, lá porque comeu bombons enche-se-lhe a cara de borbulhas, como se fosse uma rapariga com as hormonas a saltarem-lhe no sangue? Está bem que pode ter alguma alergia, mas não é com cremes para a cara que se cura… Demais não se lhe via nada no focinho que não fossem rugas e pó de arroz ou lá o que ela trazia na cara, os lábios sumidos com um risco de baton e os olhos todos sujos dessa coisa do rímel. Haja paciência.

A senhora sem dinheiro suficiente, tendo secado as lágrimas, estava agora inquieta e murmurava, Ai meu Deus se não me dão os remédios do meu menino, ai meu Deus se não me dão os remédios do meu menino. O outro, registando a compra dos cremes da velha, ia olhando de soslaio para a que murmurava, com um ar vigilante, talvez pensasse que a pobre da mulher corresse a fugir sem pagar e ele, coitadinho, ficasse sem emprego. A menina regressa com os teus comprimidos, enfia-os numa saquinha, faz a factura e eu pago. Ao mesmo tempo ia a pagar a velha de cabelo armado e roxo, e nisto ouve-se-lhe um gritinho. Afinal sempre abria a boca. Ficou aflita porque não tinha dinheiro com ela quando o jeitoso lhe informou que não podia pagar com o cartão porque o multibanco estava com avaria. Não se preocupe, dona não-sei-quantos, amanhã ou depois quando cá passar paga, disse ele à velha. Eu então cruzo os braços de protesto e ia a falar quando a menina que me tinha atendido voltava do interior da farmácia

(foi lá dentro a meu rogo, depois de lhe ter pago a minha conta, Veja lá se a senhora doutora vem atender esta senhora, coitada. Esta continuava impaciente e a murmurar a mesma ladainha Ai meus Deus se não me dão os remédios do meu menino).

Estava a dizer o quê, Adelaide? Ah, sim, ia eu a protestar pelo facto da velha poder pagar depois os cremezinhos da cara para as borbulhas, enquanto que a senhora não podia levar os medicamentos que soube depois era para o filho, de onze anitos, vê lá, não te disse que a gente vê caras e julga tens esta idade e afinal são mais novas do que parece? Que triste que isto é… Então a menina tinha voltado com o recado da doutora da merda, a dizer que infelizmente não se podia fiar, que voltasse quando tivesse o dinheiro certo, talvez se levasse apenas um dos medicamentos, isto já era a simpatia da rapariga a falar, mas a senhora desata a chorar desta vez convulsivamente e quase gritando Mas o meu menino tem de ter os dois, um sem o outro não faz nada, oh meu Deus, oh meu Deus, eu recebo pouco, acabei de pagar a conta da luz e só me resta isto, oh meu Deus, oh meu Deus.

Então que vem a ser isto, caramba, exaltei-me eu, se aquele museu pode levar os cremes sem pagar porque não podem fazer o mesmo com esta senhora, então não se está a ver que ela precisa dos medicamentos para o miúdo? O senhor acalme-se, disse o empregado furioso, aquela senhora não pagou mas vai pagar, já é nossa cliente há anos, faz favor de ter respeito. Oh homem, atalhei eu, meta a cliente por um sítio que eu cá sei, e não me fale em respeito que tenho idade para ser seu pai, seu badameco, falta de respeito pelo próximo é que o você tem, então não vê que esta pobre senhora tem mais necessidade do que o mamarracho que você atendeu antes? Minha senhora, virei-me para a mulher que chorava, tenha calma que vai levar os remédios, ó menina, veja-me lá quanto é que isto é. Se o senhor quer pagar isso é consigo, mas advirto-o que não fala assim nesta farmácia, disse o tipo. Cale-se homem, ordenei eu, ou nem sei que faça, e nisto agarrei num boião de batons para o cieiro que ali estava à mão de semear para lhe atirar à tola. A rapariga é que acalmou os ânimos, Vá não é preciso nada disso, Ó António vai para dentro que eu trato do assunto, o senhor quer então pagar? Sim, respondi convicto, esta senhora não sai daqui sem os medicamentos. Muito bem, são sete euros e dez cêntimos.

Olha, fiquei para a minha vida. Afinal a diferença era pouco mais de um euro, com o dinheiro que a senhora tinha, era o que faltava pagar. E o badameco mais a doutorzeca de chacha não podiam fiar um euro à pobre, mas a outra, toda pintada como um palhaço, lá porque conduz uma bomba, já podia pagar setenta euros depois, vê lá tu. Abanei a cabeça em reprovação, e paguei os medicamentos da senhora, sete euros e dez cêntimos. Vá com Deus, minha senhora, e as melhoras do seu menino. Ela ainda quis dar-me o dinheiro que tinha, quase seis euros somando os troquitos, mas não aceitei. A mulher lá saiu da farmácia, entre um choradinho e obrigados constantes, sempre agarrada à saquinha com os medicamentos do filho

(contou-me por alto a história do miúdo, entre soluços, quando eu efectuava o pagamento).

Antes de sair da farmácia, que não tinha mais clientes, virei-me para a rapariga que tão amavelmente me atendeu e disse-lhe Olhe que não é por si, que sei que a menina é gentil, mas pelo seu colega e pela sua patroa, lamento muito, mas já cá não venho mais. Não é caso para tanto, ainda defendeu ela, e eu rematei, É menina, isto não se faz, desculpe o incómodo e por me ter exaltado há pouco, mas vou e não volto, sou um homem de princípios, não gosto de ver as pessoas maltratadas como vi hoje aqui, muito boa tarde e felicidades para si. E saí. Não volto lá, não.

Mas não acaba aqui. E agora não vais acreditar, Adelaide. Dez metros adiante da farmácia tem a paragem do autocarro, antes de virar aqui para a nossa rua, não é? Pois. Vou a passar, ainda remoído de indignação pelo que tinha sucedido, e vejo a senhora dos remédios para o filho. Encostada ao vidro da paragem a fumar. A fumar, repara. Enfim. Ainda olhei para ela, bem nos olhos, ela olhou para mim, e baixou o olhar, continuando a fumar.

Olha, fiquei mais uma vez para a minha vida.

19 de dezembro de 2011

para um santo natal


Ligaram a televisão num daqueles programas ridículos de variedades, em o que varia são os nomes dos artistas

- Vanessa, Xuxas e Picadelas, Maria Cândida, Os Anfitriões, o Grande Mágico Godofredo, e o conceituado humorista Ferdinando

e aquilo que fazem é sempre a mesma coisa, cantando melodias melosas de amores traídos ou sucedâneos de amor à mãe e ao pai e aos filhos, e às estrelas que há no céu, o mágico atrapalhadíssimo com o monte de lenços que lhe sai da algibeira mais o comediante com piadas soltas sobre personagens da política e da tv, enquanto eu, e outros como eu, estendidos sobre camas articuladas, entubados pelas veias e pelo nariz, com um olhar como que pedindo

- Alguém desliga a televisão?

e no entanto,

- Senhoras e senhores convosco a cantora Vanessa

e salta para o palco inundado de cor e luz uma rapariga com as coxas quase nuas, um enorme decote ao peito, e nisto uma máquina apita, há um corrupio de batas brancas e amarelas, ordens para aqui e acolá, as enfermeiras tontas

- O doente da cama trinta e um

correndo na vã intenção de salvar o velho que agoniza com a cantora Vanessa; e momentos depois um lençol sobre o rosto do velho, as enfermeiras abandonando o burburinho e sossegando os outros doentes

- Vá calma, sosseguem, nada se passou

e nós a vermos passar a maca para cá vazia, para lá com o corpo ainda quente do velho que fez a máquina apitar; de modo que eu, que nunca acreditei em magias, agonizo num impaciência implorativa

- Alguém desliga a televisão?

e no entanto,

- E agora o momento de magia com o Grande Ilusionista Godofredo, o vosso aplauso

eu com tubos enfiados nas veias e no nariz, e uma máquina ajudando-me à respiração, outra calculando a sua vez de apitar, ouvem-se as enfermeiras comentando

- Quase na hora da visita, vejam lá que espectáculo não ia ser

por isso, já não

- Alguém desliga a televisão

mas

- Alguém desliga estas máquinas, e me retira os tubos?

Chega a hora das visitas e lá vêm aos pares os meus familiares, primeiro a minha esposa com uns olhos de quem já não dorme há dias, com o meu filho mais novo a querer sorrir para mim, mas no seu sorriso murcho eu ouço

- Vais morrer, pai?

eu ouço

- Não quero que morras, pai

e a minha mulher especulando as esperanças

- Qual morrer, ninguém vai morrer, que ideia é essa?

apesar de ela também um sorriso apagado, esforçado demais, deixando escapar

- Não morras Manuel

eu ouvindo

- Ainda precisamos de ti Manuel.

É Dezembro, a alguns dias do Natal, alguns doentes cochicham com as enfermeiras qual de nós os cinco da enfermaria poderá ainda passá-lo em casa, atitude misericordiosa no regulamento do hospital para quem está na fase terminal, apesar de se não poder tocar no bacalhau, no bolo-rei, numa rabanada, nem um figo seco sequer

(afinal porquê adiar o termo disto tudo com tais prescrições?),

a televisão

- Não perca a seguir a segunda parte, estão cá as Xuxas e Picadelas, fique na nossa companhia

e eu

- Alguém desliga a televisão

a minha mulher mostrando-se animadíssima

- Hoje vocês têm cá televisão, já viste Manuel, que rico programa

e eu

- Alguém desliga a televisão

ou seja

- Alguém desliga estas máquinas, e me retira os tubos?

a minha mulher sem entender patavina do que eu digo, debruçando-se sobre os meus lábios para ouvir melhor,

- Desligar o quê?

e eu farto, ficai sabendo, eu farto de estar aqui estendido entubado só porque alguém segreda como que fazendo apostas

- Será que o Manuel pode ainda passar o Natal a casa?

rematando

- Será o último que passa, coitado

de modo que eu farto das tubagens enfiadas no nariz, incomodando-me, farto do tubinho que pinga soro e drogas minuto a minuto, hora a hora, teimando com a televisão ligada

- Cá estamos de novo para a segunda parte

e eu fartinho, fartinho de tudo, farto de ver os olhos do meu filho mais novo implorando

- Não morras pai

das visitas de duas horas que ajudam a prolongar este sofrimento pateta, só porque ligado a uma televisão,

perdão,

a uma máquina que espera a sua vez de soar um piii contínuo, alertando as enfermeiras

- O doente da cama vinte e nove, depressa.

As visitas revezam-se, entra a minha filha, mais velha, acompanhada pelo meu genro que julga que eu nunca fui com a cara dele, eu que nunca o tratei mal, eu que sempre o recebi bem lá em casa, eu que nunca coloquei qualquer entrave aos namoros da minha filha, nem ao seu casamento, nem ao aborto que fez antes de casar, mesmo que tivesse algo contra a dizer, que me importa agora isso, para quê o olhar dele desconfiado a pensar

- Ainda não morreste tu?

eu apenas quero a televisão desligada, e a minha mulher

- Vais passar o Natal a casa, Manuel.

Passar o Natal a casa para quê, se eu todo tubos, querem lá ver que me vão enfiar o bacalhau, o bolo-rei, a rabanada, o figo seco pelo tubo dentro, sem necessidade de passar pelo esófago, pelo estômago, tudo pelo tubo que me alimenta de soro e drogas, eu à mesa olhando com as órbitas a saltarem do rosto para o pinheirinho de luzes tresloucadas, com uma melodia pateta, enquanto a máquina não se chega à frente de todos os sons e melodias com o seu piiii constante, deixando toda gente apavorada

- Não entubem mais bacalhau

sem enfermeiras para acudir

- O doente da cama vinte e nove

a minha mulher intrigada

- Desligou-se o quê?

Por isso, livrai-me lá do Natal, deixai-me morrer do cancro que me consome o corpo, do cancro que não dá descanso a estes tubos e a estas máquinas que se tornam orgânicas com cada doente que sustentam, assistindo igualmente ao espectáculo ridículo onde

- E agora palmas para a fadista Maria Cândida

os tubos e as máquinas pedindo

- Alguém desliga a televisão

ou

- Alguém nos desliga deste cancro?

Mas não, eu fartinho, e eles, a minha mulher, o meu filho mais novo, a minha filha mais velha com o meu genro desconfiadíssimo

- Ainda não morreste tu?

(e eu que nunca lhe fiz mal algum)

a insistirem que as máquinas ligadas, que enquanto há vida há esperança, que vamos ter um Santo Natal, depois da missa do galo a televisão ainda vai passar Música no Coração, e o meu coração sem música qualquer, esperando apenas o monocórdico tom piiii constante da máquina teimosa quanto a televisão que ninguém desliga, como se o espectáculo

- Convosco os famosos Anfitriões

fosse o soro com as drogas que me vão agarrando a uma vida que, se nunca teve sentido, qual o sentido dela agora, senhores, vá lá, peço-vos

- Alguém desliga a televisão?

não me olhem com a vossa piedade e o vosso egoísmo, com o vosso medo de perder o marido, o pai, o sogro,

(- Medo eu de perder o meu sogro? Não!)

com o vosso medo de sofrer, abram-me esses olhos e queiram ver, senhores familiares, senhoras enfermeiras, quem sofre sou eu, porquê prolongar-me a vida com estes tubos e estas drogas?, para evitar a vossa dor, querida família?, para evitar a vossa frustração profissional e a falta do vosso código ético, cara equipa médica?, para quê tudo isto, para quê uma televisão ligada, quando eu, e outros como eu, implorando

- Alguém desliga a televisão?

E no entanto,

- Para terminar, senhores telespectadores, é momento de rir com Ferdinando, o rei das anedotas.

Não. Estou farto. Cansei-me. Não quero mais. Os tubos incomodam-me no nariz, mal posso mexer-me, que miséria esta de querer urinar e chamar uma enfermeira para nos enfiar debaixo do cu a aparadeira, ainda bem que os intestinos só gases, ou uma aguadilha que se confunde com a urina, senão que miséria maior, senhores, vá, alguém desligue a merda da televisão e aproveite o jeito para retirar-me os tubos, deixar com que a máquina enfim suspire o seu piii constante, já vão para o telejornal, pode ser que o apresentador

- O doente da cama vinte e nove

Peçam desculpa à minha mulher, digam-lhe que afinal foi tudo desligado, peçam perdão ao meu filho mais novo porque isto toca a todos e agora toca-me a mim, peçam desculpa à minha filha mais velha por não lhe ter dado mais atenção e descansem o meu genro que acha que eu nunca fui com a cara dele, apesar de eu sempre de braços abertos, peçam desculpa aos médicos por não aguentar mais o código ético, e por favor

- Alguém desliga a televisão, me tira esta tubagem e me desliga das máquinas?

Assim, ficamos todos bem, sofre quem tem ainda saúde e forças para sofrer, que eu cá me arranjo, com o lençol tapando-me o rosto, sempre menos incomodativo que os tubos no nariz. Vá lá, façam-me esse favor e não me chamem a mim egoísta. Apenas quero descansar, por isso, uma vez mais imploro, deixai-me morrer e tenhamos todos um Santo Natal.

30 de dezembro de 2010

pseudo-aforismos de fim de ano (ou: mais um textinho antes que o ano acabe.)

Lá vem chuva, por Myriam Vilas Boas - Flickr


A ladainha da chuva num ritmo de conta gotas teimoso a reverberar as últimas horas do ano. Chegado o inverno, as geadas, o nevoeiro e a neve anulam qualquer aroma de terra, mas eis que se renova ao fim de cada solstício, deixando devagar que medrem as ervas daninhas, mais viçosas agora que nos dias prolongados do verão. As sementes ficam no seu limbo a afastar a ideia que a morte é um acto definitivo.

No hemisfério de cá chove e faz frio, um tom plúmbeo enche as tardes como que madrugadas antecipadas, e a iluminação pública não espera, por exemplo, que se deixe os pratos limpos do almoço. Os dias mais pequenos, e o tempo que parece célere. O céu assim pardo reflecte o cansaço do mundo nesta latitude. Não são só os noticiários com as medidas de austeridade de um governo político perante uma crise financeira os únicos a contribuir para o ambiente mais pesado de uma quadra pretensiosamente feliz e iluminada. Na verdade, e pelo que nos é dado a observar, até parece que esse factor está a passar ao lado da maioria, salvo algumas misérias que já as telhas não conseguem esconder muito. E quanto a isto, fica a incerteza de colocar aqui qual dos advérbios: feliz ou infelizmente. Passe a incerteza dos bolsos dos que vivem no nosso rectângulo territorial, o que me parece é que cada vez mais, e de ano para ano, tudo se vem tornando ainda mais cinza que a pedra granítica ao norte ou mais amarelo e gasto que o purgado da desertificação a sul. As grandes cidades erguem bandeirolas de impérios de betão, vidro e tráfico conjugados com a febre consumista que muito intriga a quem se dá ao trabalho de analisar que estamos num fosso financeiro.

A minha observação constata que o peso do ar pardo das tardes invernosas se agrava no olhar das pessoas que se cruzam inquirindo aos seus botões se o seu umbigo estará mais ou menos satisfeito, colocando a boca torta que não se sabe se é prenúncio de enfermidade grave ou apenas um sorriso amargo. Sem querer fazer analogias tolas e fora do contexto sobre os acidentes graves que assolam as nossas estradas, as pessoas atropelam-se, chocam, capotam, esmagam-se, fazem enfim das tripas coração para agradar a esse semi-deus que quer soltar amarras para dominar o mundo completa e definitivamente. Descansem os crentes das fábulas supersticiosas do rei do mal, pois satanás, coitado, nada tem que ver com o assunto. Essa entidade meio divina, meio humana, mas tão velha quanto o mundo, que vem cada vez ganhando mais força e autonomia, é o umbigo que cada um carrega consigo. Para onde os olhos, encerrados entre palas como os jumentos, só conseguem enxergar.

É fim de ano, e o calendário é apenas mais um signo como tantos outros que as sociedades humanas foram inventando e adaptando aos seus interesses. De forma natural os anos completariam o seu ciclo no advento de cada primavera. Deviam ser os equinócios a cortar os anos em dois semestres e não os solstícios. Pela simples razão que, a cada solstício de verão tudo amadurece, e a cada solstício de inverno tudo apodrece. Não só as coisas as que nos habituamos de chamar da natureza como as nossas próprias cabeças. O ser humano devia hibernar como outros mamíferos, e apenas laborar nos meses em que se renasce e se retoma a viçosidade (esta palavra não existe), para que resultados mais positivos fossem apanágio da nossa espécie. E mal as acções começassem a dar sinais de amadurecimento, antes que caísse o bom fruto no apodrecimento precoce, adormeceríamos até que a neve voltasse a derreter, quatro ou cinco meses depois. No mínimo, era uma poupança efectiva de energia e dos recursos naturais.

Finda o ano, dizia, e os dias esgotam-se sem luz natural às quatro horas da tarde. E anoitecendo o frio, entristece-se a alma. Não se esgotam, porém, as longas filas de trânsito. De onde vêm, para onde vão todas estas pessoas? Esgoto-me ao entrar em casa. Tem momentos que o que gostaria de fazer era aterrar no sofá e passar por uma espécie de coma benigno, despertando para sacudir os músculos e sorver um café quando nascesse uma magnífica e esplendorosa manhã. Limpa e clara.

Nada disto era suposto: não a ladainha da chuva como signo – mais um – a separar ano velho de ano novo. Tudo agora é assim porque ao termos inventado o relógio já nada tem outro significado que não seja a certeza que o tempo passa, e pesa. Hoje, dezembro e inverno neste hemisfério. Que interessa, se é verão do outro lado do mundo?

Isto disse eu. Mas não sei muito bem por e para quê. É o ano que se esvai, e a cabeça e o engenho não estão nos seus melhores dias. Passem bem de um dia para o outro, com essa vantagem mágica de que a diferença de um segundo faz acontecer esquecermos um ano que passou – sempre mau – e de outro que começa, tradicionalmente cheio de esperança.


11 de dezembro de 2010

nobre besta




- Bom dia senhor Alcino, vamos a acordar? São horas da medicação…
- Acorde senhor, então? Ainda temos de mudar a fralda.
- Senhor Alcino, está a ouvir-me?
- Chiu! Já me acordaste! Olha uma parada de bestas.
- Quais bestas, senhor Alcino, olhe que não somos bestas!
- Não és tu, as que estão ali na parede.

Primeiro vem uma tontura a atrapalhar o andar, a forma de levantar da cama ou quando se sai do banho. Como se fosse uma quebra de tensão, e instantes depois a cabeça a latejar. Mas só a partir do primeiro momento em que a corrente de uma sinapse se quebra

- Alguém tem uma pilha ou uma vela?
- Foste ver o quadro?
- Acho que é geral.
- Preciso de um fósforo ou isqueiro aqui.
- Há luz na rua…
- Não te esqueceste de pagar a conta da electricidade, pois não?
- Se eu me esqueci?!
- Vá, esqueceste-te ou não?
- Não me lembro…

é que acontece que um rosto pode mudar de feições ou então feição alguma, uma silhueta negra, anónima, como quem cometeu um crime de que se envergonha e vem falar aos programas da manhã da televisão sem coragem para mostrar a cara.

Troco uma e outra vez o nome de algumas ruas, entro na padaria quando afinal queria aviar uma receita do médico

- Isso da memória é normal da idade, o senhor não vai para novo, tome estes comprimidos e vai sentir-se melhor.

As pessoas dizem-me olá e bom dia e boa noite e eu vou respondendo cheio de simpatias, mas com dó delas que, coitadas, andam a confundir-me com sei lá quem, deve ser a barba comprida, a mesma roupa, talvez seja o cabelo. Esqueço pontualmente onde deixo a chave do carro, e a conduzir mexo constantemente na caixa das velocidades, reduzo de quinta para segunda convencido que é a terceira que devo introduzir, e o carro lamentando em roncos constantes e solavancos de que vou queixar-me ao mecânico

- Parece-me tudo bem, senhor Alcino, não vejo nada de mal no carro.

Então depois de ter esquecido a hora do almoço ou que afinal hoje é sexta-feira e não sábado, atrapalhado e irritado por estar já três horas atrasado para o trabalho, surgem os bichos caminhando meticulosamente pela parede, nos cantos escuros, atravessando o chão na calçada, e no entanto a parede vazia, nos cantos só o pó, e a calçada apenas manchada pela chuva

- Preciso de usar óculos, doutor?
- Que letras vê na primeira linha?
- Aquilo ali são letras, doutor?

Perde-se a noção do tempo: sei lá que dia é hoje, em que mês estamos,

- Com esta chuva, deixa ver… abril? março?
- Dezembro, pai, estamos em dezembro.
- Como dezembro, nem está sequer frio!

e os anos então,

- Claro que sei o ano, é mil… mil novecentos… e noventa… Não é? Quê? Noventa e quatro, não?

sem dar conta que afinal o João não é o meu irmão, mas o meu filho mais novo, se tenho um irmão chamado João não sei, nunca fomos apresentados. Os meus pais há que anos morando entalhados no cemitério e eu convencido que a minha mãe sentada numa cadeira à minha frente, mentindo-me com os dentes todos:

- Sou a tua irmã Irene, lembras-te de mim, Alcino?

Isto é nada mais que bichos, insectos dia e noite, formigas, escaravelhos, aranhas, centopeias, gafanhotos, baratas,

(minto: são mais escaravelhos, são carapaças duras dentro da minha cabeça, que diabo faz um escaravelho no meu sonho?),

e os bichos atravessam-me as emoções, roem-me a alma de tão tenra e mimosa, suspendem os sons e as imagens nas minúsculas patas, e sinto que me levam arrastado com eles nas suas couraças de quitina, até que

até que

acho que deixo de despertar, ou então de adormecer

- Que tenho eu afinal?
- Sofres de Alzheimer.
- Alzheimer? Que é isso?

Penso que será nome de um insecto qualquer muito exótico a movimentar as pinças e as antenas, num bailado perfeito de paciência. Têm uma paciência enorme, estes bichos. Conseguem apodrecer-me a alma e aguentam com valentia e grande dignidade as misérias do meu corpo. Na volta nem preciso de morrer, os bichos fazem a morte por mim. Que altruísmo, para um bicho tão pequeno.

- Nobre besta, esse Alzheimer.

7 de dezembro de 2010

pessoas do mundo




«All the souls He to touch
All the millions of souls He to touch» *


Somos todos pessoas. Por humanidade nos definimos, colocando no substantivo os mais nobres valores de uma verdadeira comunhão social. Desse ideal fabricamos os deuses que a história conhece. Da ideia de nós num mui avançado estado de moral e mentalidade apenas vocacionadas para o bem.

Negamos, em teoria, a nossa imperfeição biológica porque, sendo nós capazes de chamar a razão, temos o dever de estarmos aptos para alcançar o estado mais perfeito da evolução. De tal maneira que possamos ser o exemplo entre toda a natureza como prova da matéria divina. Para isso fomos criando, ao longo da nossa existência, comunidades, leis, estados, religiões. Apoiamo-nos (bem ou mal) dos recursos do nosso ambiente de forma a prolongar a nossa sobrevivência, contribuindo para um melhor bem-estar individual e comum. Queremos erradicar a forma pura do mal, para que da sua raiz não medre frutos maus e azedos.

Em milhares de anos, não conseguimos ainda, porém, concretizar na prática tão nobre objectivo. Matamos para comer, defecamos e exalamos odores, exploramos cegamente, e fodemos como qualquer outra besta. Aplicamos no nosso dia-a-dia, na condução das nossas sociedades, a mesma lei que rege os seres não racionais: vence sempre o mais forte. Somos seres contraditórios, mas continuamos a ser as mesmas pessoas do mundo, imberbemente evoluindo. Imperfeitos.

É defeito? Sim. Mas também não, se considerarmos e aceitarmos a nossa condição. Somos assim. No entanto, se acreditamos na evolução, é nosso dever, direito e responsabilidade comum querer avançar na nossa maturação como seres espirituais, que tanto temos projectado nas noções que temos de essência divina, que pouco mais é que fruto da nossa razão. Seguir mais longe, redefinindo a moral, enaltecendo a liberdade e praticando o que de melhor possa sair de nós, seria um lema.

Assim concordaria com as religiões: sermos cada vez mais próximos dos deuses que propusemos ao longo do nosso percurso na história, senão tomando a consciência que a referida essência divina nasce em nós e não está em nenhuma entidade projectada. Que deus, na realidade, faz parte de nós, do nosso estado puro, racional e espiritual comum.

Então, acontecendo esse tão desejado encontro com deus, seremos de pleno direito a Humanidade.


«Our true kingdom come, higher than higher than higher than higher» *


* Jon & Vangelis – He is Sailing
(Private Collection, 1983)

3 de dezembro de 2010

rendida

As Damas d'Avignon, por Picasso

O pai nunca soube quem foi e nem imagina a vergonha e a frustração de uma mulher que quer dar um nome ao seu filho e não sabe quem o ajudou a fazer. Diz certa canção que quem faz um filho fá-lo por gosto, mas no meu caso foi um acidente, e em pleno trabalho: o problema foi tentar saber em que dia emprenhei e quem eram os anónimos clientes que nessa noite recebi

não, não o fiz por gosto, e o problemão que me arranjou o diacho do rapaz quando nasceu! Rasgou-me toda e fiquei dois meses sem poder ganhar. Lá me safava com alguns biscates, ao mesmo tempo que servia atrás do balcão de uma tasca escura repleta de bêbedos fedorentos desde que abríamos as portas e as fechávamos... às vezes tínhamos que os empurrar para as valetas onde acabavam por dormir

a vida de uma rameira como eu fui desde sempre, talvez a partir dos doze anos, eu sei lá... que miséria quando vamos pelo mais fácil, por nos convencer que temos de vender o corpo para comer. Sim, eu sei, podia ter encontrado um trabalho como criada doméstica, ou mulher-a-dias, o que fosse! Mas nada disso... é demais para o meu feitio, não sei se me entende. Nem imagina as discussões e as bulhas de quando trabalhei nessa tasca! Quem manda em mim sou eu, mais ninguém. Naquele tempo ninguém tratava a doméstica como hoje tratam! E depois... sabe como é, a gente vicia-se nesta vida. É uma hora, ou menos, abrimos as pernas ou fazemos lá o que eles querem por mais algum, e acabou-se, lavamo-nos, e toca a enfrentar mais outro... No fim é tudo contadinho. Claro que há aquelas desgraçadas que são exploradas por esses chulecos de meia-tigela vestidos de uma fatiota pirosa e levam porrada como cadelas escorraçadas... nem lhe vêem a cor do dinheiro... Nunca fui nessas cantigas. O negócio, se assim se pode chamar, foi sempre controlado por mim, eu é que escolhia onde ia buscar os clientes e que clientes enfiava na cama daquela pensão miserável, que nem um bidé tinha para me lavar. Lá me arranjava com uma bacia e um quadrado de sabão amarelo que limpa tudo. Doenças? Não, nunca tive medo delas. Agora sim há a tal sida e muitas já vi perdidas com essa coisa... No meu tempo era a sífilis que mais temíamos. Felizmente e graças a Deus que nunca apanhei essa peste. Mas, ó senhor!, chatos e comichões apanhei eu muitas vezes!... enfim, ossos do ofício, como se costuma dizer

hoje sou dona e senhora de uma casa de meninas, compreende? Elas lá se arranjam com os conselhos que a velha aqui dá. De resto, o meu trabalho, pois sim, onde é que isso já lá vai... as carnes estão flácidas. Meia dúzia de clientes tão ou mais velhos que eu, fieis, que isto da fidelidade não é só no casamento; no putedo - ai desculpe! -, nesta vida, queria eu dizer, também existe fidelidade. Tenho um cliente que me frequenta há mais de vinte anos! Coitado, dizia que se juntava comigo e que não teria de levar com mais nenhum homem, que ele me sustentaria... pobre diabo. Mal ganhava para ele e para a mulher que já lá está, na paz do Senhor, ainda por cima sustentar uma amante com os vícios que eu tinha. Sim que eu também não era apenas uma galdéria como as outras. O que ganhava era para me vestir mais ou menos bem, e jogar nos cartõezinhos das ourivesarias, de vez em quando lá me saía qualquer coisa. Está a ver este fio de ouro? Tome-lhe o peso... é bom, ouro antigo! Quem dera a muitas finórias ter essa relíquia

mas, como lhe dizia... pois, eu tenho o meu negócio. Em vez das raparigas andarem aí ao deus-dará, com esses chulos que lhes levam o dinheiro todo, estão cá com a tia Zira e vão levando a vidinha delas. Uma coisa apenas exijo: que sejam asseadas e não tragam drogados e outra ralé. Sim, put... desculpe, mulheres da vida, mas dignas, querem lá ver... e quanto a camisinhas, temo-las cá sempre, só apanha a sida quem quer. Depois há aquelas que ganham mais juízo e conseguem sair desta vida, acabam por ir trabalhar para as fábricas, para os supermercados, lá encontram um morcãozola que as queiram e até casam. Outra coisa também não admito: que emprenhem, ou engravidem, que é mais fino dizer-se. Ou vão tirar o filho, que eu cá lhes arranjo a parteira para fazer o trabalho, ou vão ter o filho longe. Mando-as a todas ao médico, lá a essa coisa do planeamento familiar... Sabe, é muito triste passar pelo que eu passei

pois, não é por dá cá aquela palha que se deixa assim um filho. Mas a minha vida naquela altura, já lá vão trinta anos... era muito difícil. Não tinha quem me apoiasse, nem encontrei ninguém que me desfizesse a criança... Acabávamos os dois por morrer à fome. Assim, eu sozinha conseguia virar-me, e ele, coitadinho, lá ficou bem entregue... Se me arrependo? Não senhor, não me arrependo de nada, e confesso-lhe que nunca tive a intenção de ir conhecê-lo. Para quê? Atrapalhar a vida do rapaz, dizer-lhe, olha filho cá estou eu, a tua mãe, uma puta. Ai desculpe, saiu-me, não leve a mal. É linguagem feia, eu sei, mas que hei-de fazer? Aprendi a falar assim, a minha mãe era filha da curta para cima e filha da curta para baixo e veja lá, acabou por ser o contrário, ela é que virou a mãe da curta... até dá para rir, senhor, não é? Pois sim

que ele se deixe ficar onde está, que eu nem sei onde é, lá para o estrangeiro... entreguei-o a uma amiga na altura que foi viver para Aveiro e anos mais tarde é que vim a saber que ela o entregara a uma família de fora. Onde, não sei. Só sei que se ele tivesse ficado comigo hoje provavelmente seria mais um gatuno ou um chulo. Eu não saberia dar educação. Mas se eu não saberia, muito menos sabem agora essas gajas casadinhas feitas santas que andam por ai a foder ao desbarato e deixam os filhos nas creches, ou pior ainda... Ai senhor, desculpe que me lá saiu outro... Sim, essas é que são umas putas de primeira. De quem falo? Oh senhor, de tanta gente, tanta gente que tem telhado de vidro e farta-se de atirar pedras para o telhado dos outros... olhe, é a vida

sabe, se eu aparecesse, agora que estou velha, na vida desse rapaz, que deve ter os seus trinta e poucos anos, estragaria tudo, seria um estorvo, um incómodo: ora uma mãe nesta vida?... Deve chamar mãe a outra, e tem pai, até talvez já terá casado e tenha filhos, não se sabe! Seria uma estranha, uma intrusa na vida dele. Não, que fiquem as coisas como estão, como Deus mandou... eu cá não mexo uma palhinha

no entanto, sabe, confesso-lhe que muitas vezes sonhei com esse filho que esteve cá dentro de mim, e saber quem era o pai, e sermos uma família... seria bom, claro. Nunca mais tive filhos, graças a Deus, nem nunca quis homem algum. Só quase estive para ir na cantiga daquele que lhe falei há pouco. Mas é só um grande e velho amigo, a quem ainda dou o meu corpo... afinal também tiro gozo disso, sabe? Pois é assim a vida

e então, já escolheu com qual das meninas quer estar?