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28 de outubro de 2018

confidente

Flor Garduño, via Alternatif Fotoğraf Topluluğu.

Consegues perdoar o teu amigo e confidente por este quase esquecimento em que 

não 

tenho de recomeçar: não é quase, não é esquecimento. A questão é que nunca te esqueci 

(e como seria isso possível?) 

uma vez que fazes parte de mim e do meu dia a dia, e estás sempre presente no vínculo de uma hesitação, ou quando deixo a mão suspensa de um gesto que fica por realizar, ou de um sonho do qual desperto a maldizer a vida e o mundo e… bem, tu sabes como é. 

O perdão que peço é pela saudade imensa que tenho de ti, pela falta que sinto do teu olhar que sempre que eu 

- Não sei o que se passa comigo 

o teu olhar respondendo 

- Tem juízo 

e saber que não me deixarias cair, por mais asneira eu fizesse, ou actos e palavras que fossem contrários aos conselhos que sempre me deste, a saber das minhas fraquezas, mas profundamente convencida do meu desígnio. 

De maneira que sinto culpa por julgar que me falhas nos meus dias mais sombrios quando desejo não ver ou estar com ninguém e, quando risonho de convencido que o mundo afinal é bom para viver e outras tretas, julgar-te ausente para partilhar contigo também as maravilhas. 

É desse sentimento de perda que me sinto culpado. Por ter decidido, a partir de certa altura, que terás partido num qualquer momento do passado que não sei explicar e de que nunca fui informado, conformando-me gradualmente com o teu desaparecimento. Fiz de conta que me deixaste, as outras mulheres que 

- Tem juízo 

ou seja, nas outras mulheres onde te procuro sem saber, e nenhuma delas à tua altura porque nenhuma capaz de dizer-me com o olhar 

- Tem juízo 

dizem apenas, e cheias de orgulho 

- Preciso tanto de ti 

e com quem poderei eu corresponder a esse sentimento, se é de ti que preciso? 

Fiz de conta que me deixaste e, no entanto, tu aí. Sempre aí estiveste, a mim é que me faltou a coragem para entender e aceitar. Eu é que estou ausente de ti, mesmo sabendo que fazes parte dos meus dias. 

Por estranho e paradoxal que possa parecer a quem nunca soube 

(nunca saberão) 

o quanto nos dávamos um ao outro, penso que me levaste a que eu valorizasse o meu egoísmo como ninho de defesa e arma letal para os que teimam em sorver e depender da minha energia. Sim, e esse egoísmo acabou também por te afectar, ainda que dissesses, insistisses 

- Deixa para lá, que eu cá me arranjo 

e a raiva que isso me dava, como podia eu conceber tal, salvar-me e não levar-te comigo? 

Perdoa-me por te olhar nos olhos e não ver qualquer brilho. Há agora um escuro denso, muito orgânico, pesado, que me impede de ir ao mais fundo, a entender essa coisa da alma. Não lhe chego assim a olhar-te nos olhos que colocas em parte nenhuma, a tua alma acaba por aflorar tão espontaneamente nas coisas mais pequenas, no que sinto e penso no devir com o mundo que me rodeia, e nesta casa, também a tua, onde rimos e chorámos e tanto falámos. Falámos tanto até roçar o indizível. Depois era ora eu no teu ombro ora tu no meu, até que qualquer outro assunto mais mundano nos desviasse da pieguice, para voltarmos a rir. 

Nunca te disse a alegria de ver-te sorrir, o conforto de ouvir a tua voz, a segurança de sentir a tua mão agarrando a minha. Nunca te disse. Seriam necessárias as palavras? A culpa diz que sim, que são necessárias agora, enquanto há tempo. Mas tu não, revejo-te a encolheres os ombros, a encenares uma gargalhada e 

- Tem juízo 

ou 

- Deixa para lá, que eu cá me arranjo 

a fazeres-te de forte, a dar tudo aos outros, como sempre, e ficares com as migalhas. Para quê? Por que não foi diferente; e talvez, se eu 

- Amo-te 

tu também 

- Amo-te 

para ficarmos com a certeza que mais nada era deixado por dizer? 

Perdoa este teu amigo e confidente, que soube das razões das tuas lágrimas, tendo sido eu motivo de muitas delas, que soube dos motivos das tuas maiores alegrias e orgulhos, que soube das opções que tiveste na vida e ainda assim o teu altruísmo falando mais alto para dares sempre aos outros sem nada receber; perdoa este teu amigo e confidente e 

- Mãe! 

perdoa este teu filho que te abandona por egoísmo de não querer sofrer por te ver a seres quem não és, mas jamais se esquece da mulher que foste e que essa demência levou para longe.

27 de outubro de 2018

alfena



Pouco me preocupa o render do equinócio e os dias que se adivinham mais frios. A evidente e rápida inclinação da tarde para noites mais longas tornando os corpos lassos e apelando ao apetite quase verbal do sono. Vou sem ti, nesta disposição, para parte incerta 

(para lado nenhum?) 

enquanto resistem os penúltimos e tardios movimentos estivais na cidade, procurando um copo que me afaste ainda da sombra da solidão que está aí não tarda no meu encalço, presente nos meus gestos inclinados, à laia de caçador furtivo, para finalmente me emboscar quando menos esperar 

(claro que espero, já sei de cor o) 

nessa hora de maior fraqueza que há-de vir, e tomar-me, por inteiro, enjaulado ou empalhado até que o inverno se cumpra e, quando cansado ou morto, começando a soltar-me então, acordando o meu corpo para os hormonais apetites primaveris 

(já sei de cor o ciclo de sombra e luz de que sou feito, como se eu calendário ambulante das estações, apontando a lua ideal das sementeiras e o humor propício às colheitas). 

Para já resisto no meio termo de tudo, longe da cor alfena dos teus olhos, aguardando o aconchego patético da minha hibernação para o que é a vida, sempre adiando decisivas resoluções e com os anos pesando em cima, convencido que o dia há-de chegar finalmente para que tudo se concretize, e eu rejuvenescido, sem encarar os espelhos, ignorando num sacudir de ombros os sinais cada vez mais inequívocos da idade que avança. 

Sigo por esta cidade, despreocupado com o rumo que tomo, sem ti, mas com a memória no manto negro e sedoso dos teus cabelos, a sugerir-me o quente aconchego do teu colo, contra o restolhar das folhas das árvores há muito caindo na sua madura condição, arrastadas sob o vento que se levanta, cada dia mais frio, a arranhar o chão. 

Tu ficarás quieta, sorrindo 

(tu quieta uma pessoa, tu sorrindo uma outra que não tu quando quieta) 

sorrindo ao que tens de anos pela frente, sem te preocupares que uma prega na pele, que uma articulação teimosa ao descer da cama, que um cabelo branco, que o sono rejeitando a vontade de adiar o fim dos dias, 

(tu duas pessoas, a que poderias ser se me esperasses e a que és e hás-de ser ignorando as expectativas de mim), 

tu quieta e impressionada com o que eu possa representar, que talvez a idade afinal nenhum limite, a conjecturares cenários, e os obstáculos sempre em evidência em qualquer e cada um deles, muito embora o amor 

(é o que se diz, o que se ouve falar muitas vezes) 

o amor razão principal e mais forte, e que acontece contra tudo e todos, o amor como o velho louco de la mancha aniquilando monstros de braços estendidos consoante a maré dos ventos. É verdade, o amor acontece, e parece tanto o título lamechas de um filme a que se assiste na tarde de um sábado invernoso, enquanto a chuva fustiga a paisagem para lá da janela tolhida de cinzento. 

Não me preocupa nada que os relógios venham encurtar os dias e que a escuridão avance. Bebo, por enquanto, neste copo balão algo que evite o esfriar das veias e das extremidades dos membros, sentado numa esplanada desarrumada, não totalmente deserta porque ainda o ruído da mesa no canto oposto e sei, sem fazer alarme, que a solidão me assaltou 

(afinal quando menos esperava) 

como demónio escarninho, cruz que vou carregando daqui por diante durante meses, ou 

(sendo a esperança essa que teima em ser a última a finar-se) 

que os bagos de alfena dos teus olhos, mais o misterioso manto negro dos teus longos cabelos me amenize os ombros com promessas de 

(a idade, as pregas da pele, as articulações em gritos, os cabelos esbranquiçando) 

com promessas de ter o sono velado pela tua voz jovem, rouca e quente, a assegurar-me 

- Vai passar. Tu sabes que vai passar.

20 de outubro de 2018

poema matinal

Eddie O'Bryen, via Alternatif Fotoğraf Topluluğu.

Deixei que caísse vagaroso no sono que não queria ter, sôfrego, feito de ombros resignados à completa falta de esperança que o cansaço consegue impor-me, amotinado com as tempestades mentais, a luta interior entre querer e não saber o quê. A vigília abrindo brechas para que o subconsciente se derrame, desfazendo-se como papel encharcado onde escrevi a frustração de mais não ser nem haver, amontoando todo o pensamento encurralado numa deriva que se torna lixo a entupir a alma. Fui como por uma ravina abaixo, sem galhos ou pedras que me detivessem, a entrar magoado no sono mais profundo, como abismo insondável. 

Madrugada cumprida, fui regressando deste lado de cá interior, a deslumbrar-me, já desperto, com a singular quietude do mundo na orla matutina, ainda de luz impoluta e o espreguiçar lento e demorado do ar no seu hálito líquido de caruma. Dos teus olhos colhi uma gota do orvalho purificador, signo do repouso revigorante, o pulsar da água em nascente, conduzida pelos teus lábios que começa a abrir o veio por onde há-de subir a maré dos meus beijos. Serei completo quando despertares a encarnar o dia, erguendo-se como plumas, fecundo de brisa e azul, revelando-me a ilha que desejo habitar no teu colo, a semear o amor entre o que há-de ser de mim. 

Diz-se que a esperança não morre, ou será a última a deixar-nos. E eu acrescento: regenera-se, matinal.

18 de outubro de 2018

tímpano



Endireitou a cabeça na consequência de a ter virado primeiro para a esquerda e depois para a direita, tendo observado cuidadosamente cada flanco. Com o olhar quieto no horizonte em frente, a perder a vista na ténue linha alaranjada que ainda separava o dia da noite, fez um movimento maquinal, entre ângulos, com o braço direito, levando a mão à altura da têmpora. Flectiu ao mesmo tempo os dedos mínimo, anelar e médio, esticando o polegar e o indicador em ângulo recto. Com o corpo hirto, encostou suavemente o indicador à cabeça. Numa pequena flexão da mão, a ensaiar um coice, e ajudado por um estalido palatal da boca, simulou o puxar de um gatilho. No instante, piscou instintivamente os olhos e a boca fez um ligeiro esgar. Roleta russa.

Agora deambula pela cidade sem se saber morto ou ter escapado à fatal fortuna. Desta incógnita dirá que acabou cansado quando tiver rendido todas as ironias e contradições da vida. Ou percebendo, no seu pensamento difuso, que afinal não existem coincidências, sendo estas apenas meras probabilidades matemáticas. Lembra-se, contudo, daquele estrondo: o tímpano a zunir como quem nasce vindo imediatamente a morrer sem tomar sentido do mundo que lhe havia sido prometido. 

15 de outubro de 2018

segundo e quarto andamentos

Kültür Tava

Cresce, pelo interior de mim, o inominável. Dilato o peito por me encher de comiseração, muito de hesitar, um prego invisível sobre as pálpebras a evitar que os olhos se desmanchem de inconfidência. Porventura saberás, não por to dizer ou do uso de qualquer signo extraordinário à simplicidade de haver compreensão de tudo se desmoronar num suplício chorado, embora a seco e em silêncio. Digo antes: detenho a minha finitude em mim mesmo, a roer, corroendo, como um cancro que consome. Visível nas minhas feições brancas, de pálida angústia, e sem esgares, a flagrante apatia que dita o estender do corpo sem alma ou fito de haver existência. A irreversível morte. Por mais palavras que possas ter, e dizer. Arruína-se tudo, no fundo de tão cá dentro, poço consumido, e eu, de corpo erguido e ambulante, a passear essas ruínas como cavalo de madeira a inflamar a curiosidade que veio sempre a matar o gato: os teus olhos claros, marejados de consequentes ondas de desilusão.


7 de outubro de 2018

epifania do nada



Assim, de repente, aquele silêncio. Esse que te diz 

- Estás só, irremediavelmente só. 

que te faz pensar 

- Porquê? Onde foi que isto aconteceu? 

e vês os teus pés sem chão, certo de já não existir qualquer caminho a percorrer, por mais bifurcações que te apresentem. Ou, de outra forma, tomas-te como aquele tão famoso tolo, a meio de uma ponte 

- Para que margem? 

e a única solução mais viável é a que te aparece no fundo do abismo, no escuro negro de um rio em maré de inverno, o cego chão inclinado do precipício das noites sem lua. 

Argumentas: 

- O meu mundo interior foi sendo construído com a tua ausência, sabendo perfeitamente que existias, mas ainda sem te ter encontrado. Quando te encontrei e te percebi real sem qualquer razão onírica, pude, finalmente, entender e dar sentido a esse mundo que vinha construindo: o teu nome e dele o que te define. Sem ti, agora, só resta ao meu mundo erguido a irreversível ruína. 

Não temas, então, se a vida deixou de fazer sentido: arruína-te.

6 de outubro de 2018

impreciso silêncio



A morte chega num impreciso e imprevisível silêncio do crepúsculo. Faz-se de membros, de uma difusa sombra onde pudessem estar olhos e boca, talvez uma brisa, muito fria, e movimento a simular uma aparente normalidade. Uma pequena faísca (fosse a morte brilhante para tal), que num instante aconteceu para ficar esquecida, sem se saber o fundamento de ter acontecido. E diz-se, numa resignação ao lugar-comum das palavras vazias: «é a vida!», quando não é vida alguma, é antes toda a sua negação.

E esse instante cobre-se e faz-se de total e absoluto silêncio, um singular momento que nenhum relógio ousará contar. Talvez por isso seja, afinal, a eternidade, essa coisa imensurável. Falsa, tão efémera, no entanto, pois essa partícula de tempo significa o que foi e deixa imediatamente de ser.  Não pode, sequer, conter-se em qualquer tempo verbal, nem ser falada, nem ser ouvida, nunca grafada. Não tem palavras. Não há espaço dentro ou fora ou a delinear. Não possui, não é possuída, não pertence. Impossível medir. Não cabe na existência.

E, ainda assim, assustadora: damos pela sua presença para então assistirmos a um nada que nos escapa. Fica assim, um nada que nos coloca de cabeça à banda, corpo e alma inertes, um nada varrido a silêncio sem recuo ou avanço.

Se a noite cair e o crepúsculo der lugar ao negro cego, nem nós mesmos estaremos cá para dizer que a testemunhamos.


1 de outubro de 2016

mistério da fé

ou: um poema para a Marlene



Deus é o útero. Conceição.
Ubiquidade da condição
humana.
Se fores a ver Deus,
dá-Lhe um abraço meu;
se Lhe falares,
diz-Lhe que existo.
Tudo o resto
 – que nos pregam –
são anseios.

(ou talvez o horizonte
detido
em cada um dos
 umbigos)

Não seremos ovelhas.
Antes propensos
aos erros humanos
que seguir a santa
procrastinação.
Se somos Suas criaturas
Deus é o útero
de onde viemos
a insinuar o coração.


25 de outubro de 2013

síndrome de bartleby versão 3

desenho de Leandro Lopes

The end of laughter and soft lies
The end of everything that dies
James Douglas Morrison

Não estou capaz de evadir-me para escrever. Passo avesso ao riso, ao pranto, à emoção, à apatia. Como em mim nada é. Se engenho tive um dia, ou se as palavras alguma vez me foram parentes, é absoluta a minha inadequação actual e a orfandade de que possivelmente já sou vítima há muito tempo

(ou desde sempre).

Sou obrigado a concordar com quem eu lhe seja indiferente, ou, remotamente, por motivo sórdido e sem exemplo, com quem sofra a culpa de uma pequena inveja do que já fui capaz: que não vale a pena consumir palavras se não são os actos que lhes fazem jus. Ficarei ridículo a dissertar substantivos sobre não-questões. E assim me quedo a poupar os pormenores quando o que poderia dizer não seria por maior importância.

Vou daqui mudo, a engavetar o pensamento num murmúrio quase inaudível de efemeridade.

Quando – ou se! – outros tempos chegarem, talvez que já nem seja uma esferográfica a discorrer. Provavelmente apenas ver-me-ei a mim mesmo lutando por sobreviver numa areia movediça, de cuja matéria não posso pois agora prever de que será feita

(imagino mas prefiro continuar-me calando).

Fecundo mediocridade e, nesse estado, ainda que fecundado, nenhum ovo alguma vez eclodirá.

Não venham acenar-me: não quero ver nem ouvir vossas bocas postas em “O”. Vou partir de costas voltadas, como se o 

(este)

mundo em nada

(ou alguma vez)

tivesse sido importante para mim.

29 de outubro de 2012

em que pensas quando mordes o veludo da romã?



«em que pensas quando mordes o veludo da romã?»
                                                                (Anabela Maria)

No prolongamento do que te aflige esta noite: vieram as horas a inclinar o sol muito antes que a azáfama do dia terminasse parecendo que a madrugada pudesse nascer antes que os vizinhos sossegassem. E eu ausente, parte incerta de ti numa geografia abstracta

(eu com sede),

ausente do copo, do prato, dos talheres, da cadeira e da mesa, depois do sofá, da chávena do café, da ternura da média-luz frente à televisão muda. Ausente de um cigarro partilhado na janela.

Ausente do desfolhar de um livro, da almofada, dos lençóis. Da tua boca, das gargalhadas, do olhar quieto e demorado, do toque. Ausente dos teus dedos em mim como se me descobrisses a primeira vez, de quando te deitas delicada a exalar o hálito das flores enquanto a noite se adensa de nevoeiro

(eu com sede e fome),

e um arrepiar do teu púbis pulsando de hesitação e apelo, e a fonte aberta dos teus mamilos.

E por cada semente, ooooh, por cada semente que mordo da romã: os teus lábios que se aproximam, inflamam, a maciez da pele no caminho da minha saliva, o tremer dos joelhos, o abraço das tuas pernas no meu dorso, tu implorando com gemidos Vem, e eu mergulhando em ti, numa dissolução perfeita de mim no teu mosto, muito devagarinho, a colher o suco carmim e açucarado da tua língua. O teu beijo. O teu rosto gritando sem voz, apenas o olhar implorativo, cativo de súplica

(eu com tanta sede e guloso da fome do teu corpo).

Dentro de ti. Penso-me dentro de ti quando mordo o veludo da romã.

6 de outubro de 2012

és como o tempo

[... Cláudia Sofia...] por Cláudio Pinto em 1000 imagens

Não me venhas agora com falinhas mansas, Benilde, que nada já consegues mudar. A decisão está tomada, não consegues compreender isso? Não, não implores, que não volto atrás, vou de tal maneira zangado que se torna tudo irreversível, sem remédio ou emenda.

Ouves a chuva? Como a manhã nasceu tão prenha de sol, até parecia que um dia estival se havia erguido do horizonte a prometer enxotar os corpos para as sombras mais frescas. Eis que, porém, se levantou repentinamente um vento zangado, vindo de leste, 

(ou seria uma voz, o mau feitio numa voz irritada, frustrada e desesperadamente rouca de raiva?)

trazendo estas nuvens, esta chuva carregada, deitando por terra planos de passeios à beira mar, ternuras de casais nos jardins, esplanadas nos parques e nas praças, ou de churrascadas no alpendre.

És como o tempo, não é o que se diz? Aprende, pois, que todos nós, sem excepção, sofremos dos mesmos humores climatéricos.

E reflecte, Benilde: ele há tempestades e tormentas, tufões e furacões. Uns mansos, outros furiosos. São tantos e tão diferentes que desconhecemos o quanto uns e outros poderão destruir o que julgáramos seguro, sem dar espaço a reclamações ou lamentos: toda uma vida, planos, concepções do mundo e da forma de estarmos nele.

Que adianta, Benilde? Segue outra via, abriga-te quando tiveres a certeza que o telhado não te deixará defraudada.

Já falinhas mansas não me convencem.

5 de outubro de 2012

do hálito das folhas caídas e quebradiças

foto de Georgina Noronha

Regresso à inclinação parda do ocaso sob o hálito velho das folhas quebradiças ao largo pelas bermas. Daqui a nada – um, dois meses – as árvores se assemelharão a ossadas erguidas, e nós com ar de espanto a rodopiar sobre um pensamento fugaz

Já é inverno…

sem que tenhamos dado conta das chuvas miudinhas, do nevoeiro denso, da iluminação das ruas e dos autocarros à última hora de ponta. Sem que tenhamos dado conta que ansiar tanto pela sexta-feira, ou pelo fim-de-semana, ou pelo próximo dia de folga é dar muitas voltas ao relógio e então

Já faço anos…

ou

Parece que ainda foi ontem que…

e isto apenas pensamentos fugazes em momentos que parecemos despertar de algo que não percebemos muito bem o que é e de onde vem, e logo a seguir continuando a ansiar pela sexta-feira, pelo fim-de-semana ou o próximo dia de folga porque trabalhar cansa para, porque temos tão pouco tempo de, porque o patrão é, porque quero estar com, porque… enfim: porque estamos insatisfeitos. Nem todos, sabemo-lo, nem todos, pois.

Vou recolhido em longas leituras. Abstenho-me de ruídos, de luz clara, e quase diria que do próprio ar se não fosse o ar necessário para respirar. Adormeço mais cedo e acordo mais tarde. Abstenho-me de ruídos não: ouço o latir dos cães, o recolher dos melros. Então depois disso, nada mais.

Ou o ruído de: a caneta pelo papel branco é um automóvel solitário pelas ruas de uma cidade deserta, como escrevi algures, mais coisa menos coisa (que importa?). Ou nem há sequer a caneta bufando: será apenas o papel branco, que já não fala e segue bocejando sempre de inutilidade. A sujar-se da penumbra. E quando eu olhar pela janela vou perceber (sem saber o que é e de onde vem)

Vê lá que já é inverno…

ou

Parece que ainda foi ontem que…

enquanto na rua, logo ali mesmo à porta, a berma a decompor em lama o quebradiço das folhas caídas. 

Regresso? Talvez nunca de cá tivesse saído.

9 de outubro de 2011

look at me!


                        O Outono entrou e, em vez das folhas coloridas tapeteando o chão, passeiam ainda as t-shirts apelando, em letras garrafais,
                        - Look at me!
nos peitos inchados da moda feminina para a delícia do olhar da libido masculina. A temperatura, embora já amena pela manhã e princípio da noite, é ainda abrasadora nas primeiras horas da tarde; a hora do almoço é uma barafunda de vozes cruzadas e de t-shirts nos peitos inchados correndo para os hamburgers e pizzas dos shoppings no centro e periferias da cidade.
                        Dirá um velho, de barba de três dias, grisalha como o cabelo raro, a tez morena sulcada pelos sacrifícios da vida,
                        - Já não há Outonos como antigamente…
e volvendo o olhar, atrevido e lascivo, repudiando a miséria física da velhice, apreciando o
                        - Look at me!
e escarrando para o chão na mesma atitude lasciva, e o
                        - Look at me!
a dizer
                        - Que nojo, que porcalhão
e o velho
                        - Lambia-te o que mais gostas
directa e grosseiramente para o peito que se incha ainda mais de repúdio e indignação, que responde, jogando com a mesma moeda, sem esperar troco,
                        - Ai sim?, então lambias a pila do meu namorado!
                        De modo que
                        - Já não há Outonos como antigamente…
de quando os garotos da escola recolhiam ao vento as folhas caídas e coloridas pela sua velhice,
                        - A senhora professora pediu
pesquisando nas velhas e grossas enciclopédias arrumadas no pó das bibliotecas a origem e as características da castanha, do diospiro, da romã, da uva que já foi colhida e esmagada nas prensas dos lagares que se enchem de vinho novo.
                        Está quente, isto já não é Outono, a meia-estação; ouvi dizer que já não há meia-estação, ora está calor, ora está frio, as pessoas atentas nos jornais e noticiários televisivos para saber a origem destas mudanças climatéricas, em que respeitosos senhores explicam que a camada do ozono, que o aquecimento global, que o degelo das carótidas polares, mas nada disso interessa aos peitos inchados nas t-shirts
                        - Look at me!
                        As árvores vão envelhecendo mais tarde, e aos garotos da escola nada mais lhes resta do que fazer composições sobre as aventuras da praia duas semanas antes terminadas; os mergulhos em locais inóspitos, os castelos de areia desfeitos pela fúria mansa das ondas do mar poluído, as iniciativas adolescentes para tornar as praias mais limpas, enquanto os mais velhos sujam de gorduras e ossos churrascados, caricas de cerveja e beatas de cigarros queimados, o pó dos pinhais que procuram para a sombrinha e onde encontram o espaço para as suas tendas, os seus barbecues, as suas cadeiras multi-posições onde fazem verdadeiras maratonas de sono, com direito aos mais altos ressonares da sua existência, tocados em coro, ou fazendo vozes.
                        O Outono entrou e apenas os dias se tornaram, lentamente, mais curtos, os crepúsculos são pardos aumentando as solidões dos deprimidos, o assobio nostálgico dos melros anunciando a hora do recolher.
                        Mas nos shoppings, junto aos hamburgers e pizzas, eles e elas passeiam-se como se o Verão abrasasse eternamente fora das sombras, colado aos seus corpos; os garotos vão já para a escola, mas sem folhas coloridas nem frutos da época, vão todos com os braços nus das mangas curtas, olhando com atenção os peitos inchados das novas e jovens professoras, nas suas t-shirts apelando, de letras garrafais,
                        - Look at me!

27 de outubro de 2010

coreografia dos gestos

azul pacífico, por Luis Lobo Henriques
em 1000 imagens

Fizeste-me descarrilar, Daniela. Não que me preocupe o jogo inocente do flirt, nem que venha daí quaisquer más consequências se for apenas a inocência que tome as rédeas. Sempre me encantou a sedução, seja eu o seduzido ou o sedutor, pese embora que prefira na maior parte das vezes estar na primeira posição. Gosto de ser levado, gosto que me tomem a mão. Toma-me a mão, então. Leva-me. Por onde e como preferires. Da forma como quiseres.

É bonito observar que os gestos de ambos conjugam como uma coreografia de cumplicidades, e a verdade é que me levas já cego com o teu olhar de pássaro sereno - um olhar macio, posso dizer, como as plumas de uma ave assim pequena e delicada. O teu corpo aveludado como o leite, tão ainda aquém das carnes maduras de outras mulheres que me abordam, encurraladas em preconceitos e complicações na cabeça. A tua boca apetece, os teus lábios borbotões de água fresca mal contida debaixo da terra, perto de jorrar num beijo de delícia e profundo ardor libidinoso. As mãos muito tácteis, donas de uma perfeição de ternuras, dedos finos, brancos, frágeis.

Sempre gostei da fragilidade ainda que as rotinas venham contrariar as primeiras impressões. E por isso o pouco encanto pela maturidade das mulheres que me abordam, querendo encurralar-me nos seus preconceitos, complicar-me a cabeça com as suas deambulações sentimentais. São frágeis e não admitem sê-lo. Mas como serás tu então depois da inocência, como vais lidar com os percalços mais espinhosos, com os confrontos de personalidade? Como ver-me-ias um dia descarrilar por outro olhar que não fosse o teu, como agora?

Medonho não é o sonho mas as expectativas que se criam. O mundo poderia ficar sempre assim, nesta ternura pura do encantamento, do enamoramento. Medonho é o que me espera, as possibilidades de quereres que volte a colocar-me nos carris da conformidade, que seja afinal tudo o mesmo de sempre: esse terrível engano que erode de azedas tribulações muitos amantes. Enfim, a normalidade, a rotina. O que destrói efectivamente os afectos quando, descansados do primeiro fogo, o flirt acaba e só nos sobre os dois, descobertos num pavor de solidões individuais.

Vou fugir, vou fazer de conta que não é nada? Fingir que não quero o teu corpo, os teus lábios, as tuas mãos apertando, apertando? Negar a paixão, essa deliciosa dor que em vez de nos afugentar ainda nos faz correr mais ansiosos ao encontro de maior intensidade? Não posso negar, não sei contradizer.

Dizem as pessoas resignadas que assim é a vida. Mas eu luto tanto contra a resignação, Daniela, os chavões que desaprovo ou antipatizo. Não vou seguir um caminho apenas porque um dedo para lá me aponta. Questionar sempre: é enfim a base do fracasso de paixões e amores que não conseguiram dar sequer o primeiro passo, mas fundamental para quem como eu descarrila e não quer que um pequeno acidente se transforme na hecatombe. Exagero na eloquência, dirás. Que coloco a fatalidade em coisas tão simples. Poderás ter razão, afinal tudo advém da condição de apaixonado. Mas não acredito na máxima de viver um dia de cada vez. Ponderar pode precaver-nos das feridas, das lágrimas, do abandono.

Perdoas-me, Daniela? Se for só um flirt, um beijo, uma noite? Para nos acalmar, para provarmo-nos e sentirmo-nos. Para que, pelo menos, toda esta coreografia bonita dos gestos não seja em vão.

24 de outubro de 2010

post de manutenção



I was so drunk last night I didn't even undress for bed
And the pin in my hair was still stuck in my head
The Fiery Furnaces, I’m in no mood - Bitter Tea (2006)

Sem dúvida que é o outono que chove, uma vez que sombras na calçada, a velhice a amarelecer as árvores, e eu enganando a temperatura do escritório com camisolinha de meia-estação e o casaco de desporto de trazer por casa vestidos, revezando o traseiro entre a poltrona virada para as estantes dos livros e a cadeira da secretária onde um monitor de morada aberta para a rede labiríntica e casual da auto-estrada da informação,

(e dizer apenas a internet não bastaria?, para quê as fitas, a maquilhagem, o enfeite?)

mais a música estonteante dos Fiery Furnaces a apanhar o ritmo das gotas de chuva desfeitas no chão.

Por isso de novo aqui a preencher os espaços vazios do calendário que ninguém dá conta, augando (ougando?) por dois ou três pares de olhos que me leiam

(só dois ou três pares de olhos de facto, para quê mais, não sou guloso, vinde cá ler-me na diagonal com sorrisos de condescendência, umas cinco linhas basta, e podeis regressar aos outros que vos imploram mais sedentos que eu, carregados de comichão por saberem se são ou não escritores, poetas, críticos, ou que lhes der na gana… Não é necessário apontar o quanto gostastes na caixa de comentários, não é necessário citar-me em outros sítios com links mal feitos ou um copy-paste a ignorar itálicos e bolds do original; e muito menos preciso que venhais agraciar-me com as tentadoras propostas de publicação de um livro com custos à minha conta – para quê?, se eu não acredito nos outros que escrevem melhor que eu, quanto mais em mim, se o que escrevo é nada, apenas palavras seguindo outras palavras sem traço ou mestria, palavras que vou ressuscitando consoante as estações e as sombras, numa sequência que os Fiery Furnaces agora me inspiram e aproveitando a cadência da chuva caminhando pelo ar e esbatendo-se bêbeda contra o vidro das janelas e as pedras da calçada);

é só um pequeno mimo que vos peço, dois ou três pares de olhos que venham ler-me num sorriso condescendente, talvez digais “passei por aqui”, como quem decide visitar um amigo ou parente a quem não se fala e vê há anos, e ao chegar à casa onde mora a campainha não obedece, o batente enferrujado pelo tempo, as janelas corridas e a dúvida pairando: se calhar não está, se calhar já cá nem vive. Rasga-se uma folha de papel da agenda

(desculpa: agenda?! Quem usa isso nos tempos que correm? Hoje só formatos digitais, pelo que, se tiveres sorte, uma sms ou um e-mail, os dedos maiores que as teclas do aparelho, raios partam o telemóvel que é r e não s, quem inventou isto devia)

e deixar uma mensagem na caixa de correio a dizer

(caixa de correio electrónico ou de sms, entenda-se. Já agora, com tanta tecnologia, quem é que visita parentes ou amigos que não se vê há anos tendo o seu número do telemóvel, ou o endereço de e-mail… não faz sentido. Por isso, fica-te pela ultrapassada folha arrancada à agenda, ou um pedaço de papel qualquer e a sorte de teres algo que escreva para deixares um bilhete que diga simplesmente)

- Passei por aqui.

Porque é bem possível que não volte cá tão cedo, apesar do pardacento das tardes e da cadência da chuva, mais o recente livro do lobo antunes, a velhice amarela com que o outono veste as árvores, tudo isso incitando-me à escrita, e eu batendo a mesma tecla do será que sou capaz, será que ainda tenho o engenho de outros tempos, vem a idade, vêm as preocupações acumuladas, o país

(enfim, o país, nem vale a pena ires por aí, que te fica mal, bem pior do não seres capaz)

o país num compasso de espera, a exigência no trabalho, a atenção que a família te cobra, e tu sem paciência como antes, a paciência esgota-se mais rápido que o próprio tempo, certamente compreend…

(estás a dirigir-te para a segunda pessoa do singular ou do plural, decide-te)

…erão, certamente compreenderão.

São agora os Pink Floyd numa sua fase sorumbática que vieram ao acaso nos ficheiros mp3 depois dos Fiery Furnaces, a chuva abrandou

(terá parado?),

e ainda que as sombras se tenham acentuado, o copo de uísque

(elemento que não tinha acrescentado no princípio, mas ainda a tempo de ser entendido como um dos mobiles para este post de manutenção)

já vazio, a vontade de escrever começa enfim esmorecendo, e vou deixar ficar isto a acumular espaços vazios no calendário que ninguém dá conta.

Hoje é domingo. Podia dizer que o princípio de outro mundo para mim em alguns aspectos, mas nem é isso. Apenas manutenção. Ou melhor, é apenas rotina, como dizem os médicos quando tu cheio de medo

- Tantos exames para quê doutor?

ou os agentes da autoridade que te mandam parar o automóvel na berma da estrada para uma breve inspecção:

- Tudo em ordem, pode seguir.

Eu sigo. Nisso podeis crer: sigo sempre, mesmo não sabendo bem para onde.

31 de outubro de 2009

mais um cigarro



Alguém deve ter-se insurgido contra a ansiedade e a angústia: pelo chão viam-se espalhados vários cilindros esmagados de cigarros que nunca foram acesos, e eu a questionar-me olhando à minha volta sobre quem terá sido o felizardo de tão alegre proeza: matando a fome depois de morta a angústia. Não avistando ninguém pulando de contentamento por ter deixado os grilhões, louvando guinchos à sua liberdade

(na verdade as pessoas que se cruzavam ali comigo naquele sítio semeado de cigarros nunca fumados nem um sorriso de contentamento concediam, todas fechadas como o céu se fechava sobre as nuvens que ameaçam e nunca chove, as pessoas levam as negras nuvens dentro de si, não as deixam à entrada da porta de casa, sentam-se com elas no sofá, analisando as contas da frutaria, do talho, da padaria)

não vendo ninguém, dizia, atirando ipirangas ao desbarato como quem lhe calha a sorte grande, duvidei dos cigarros esmagados, e segui o meu caminho, com as contas da minha vida em nuvens que nunca chovem.

Podia ter dito

- Isto fica por aqui

mas sabia que mais tarde ou mais cedo regressaria àquele ponto em que a esperança ainda maior que todos os tormentos a tentar convencer-me que afinal se alguém tinha tido a coragem de despedir-se e ir embora de si mesmo sem olhar por cima dos ombros, não seria ninguém que fosse ou tivesse mais que eu e portanto a minha esperança também, o meu dia aproximando-se quem sabe, talvez os cigarros atirados no chão um sinal de que consegues, também és capaz

(a quantas pessoas com as nuvens carregadas dentro de si lhes é concedida a sorte grande, diz-me lá, de um momento para o outro toda a gente enriquecendo, vaporizando as contas da frutaria, do talho e da padaria agora sem qualquer significado?)

e no entanto, os meus cigarros ali em cima da mesa, apertadinhos dentro do maço, acendo um e podia ter dito

- Isto fica por aqui

mas ainda que a angústia maior porque as nuvens quase a chover dentro de casa, sobrecarregadas com as sombras dos cantos onde me encolho de lágrimas e cinzas a juntarem-se-lhes

(as pessoas quando nascem tristes e aprendem a vida entristecendo podem morrer vendo as cores de uma alegria eternamente prometida?)

ainda que a ansiedade não desse sinais de se ir embora, eu convencido de signos divinos, de dádivas ao acaso espalhadas na ruas prometendo

- Olha que ainda é possível

de cigarro pendurado nos lábios sem querer saber nada das contas da frutaria, do talho, da padaria

(da farmácia, as pessoas carrancudas ficam que horas olhando as contas da farmácia).

E vendo bem, os céus até são benevolentes com este estado de espírito surgido do nada como acontece aos náufragos ao avistar palhinhas boiando na água

- É a minha salvação

e por isso deixo as nuvens e as sombras entenderem-se como quiserem, se lhes apetecer que chovam, o que vejo são raçadas de sol inundando a varanda como um chamamento e é para lá que vou, dizem que a luz

(as pessoas na rua vão como cegos aos tropeções, caminham dentro de uma escuridão, onde está o interruptor para as fazer felizes um pouquinho, ninguém está a pedir a sorte grande, basta a terminação, qualquer coisa para que se esqueçam das contas, de alguns cigarros poupados, as pessoas juntando-se na harmonia do fim da tarde)

dizem que a luz sinal de esperança, devemos ir ao seu encontro, abandonar definitivamente a morte e crescer dentro de uma claridade vedada às nuvens negras que nunca chovem

(mas afinal as pessoas mortas sem o saberem?).

De maneira que antes que o sol se vá, é para a varanda que me dirijo na tentativa de sentir qualquer coisa diferente, apartado dos cigarros e do que eles significam

(outras nuvens que nunca chovem, estas definitivamente não chovem).

Na varanda, eu e as pessoas que vieram comigo em harmonia procurando o milagre da luz, vemos o sol a tombar no mar, e as casas tombando também, no sentido contrário, com as sombras dos telhados sobre os outros telhados, alongando as paredes e os espectros das chaminés como se viessem a crescer com a noite e depois da penumbra imposta, nada, desaparecem. O que sobra? Desconsolo, desilusão, desconforto? Frio, obviamente que frio.

Não compreendo como alguém poderá ter espalhado os cigarros pelo chão, não é sinal algum, é tudo mentira, as nuvens aproveitaram a penumbra para virem chover e nada, não pinga nada. Não pinga nada e nem um fósforo se acende para que, no mínimo, pudéssemos compreender as contas da frutaria, do talho, da padaria e da farmácia. O melhor é acender mais um cigarro, dizem

(ou digo eu apenas?)

que a ansiedade e a angústia são como as feras: têm medo do fogo.

28 de outubro de 2009

não me entendo


Silence..., por Carlos R em 1000 imagens


Sinceramente, não me entendo. Não chego a conclusão alguma sobre isto que sinto. Batalho todas a noites com o travesseiro moído de insónias enquanto a minha mulher dorme a meu lado na sua paz inocente. Observo o seu sono, noite após noite, e encanto-me: a quietude do corpo, o cabelo espalhado, as pernas nuas espreitando dos lençóis numa lascívia ingénua, as mãos repousadas perto do rosto. Os lábios entreabertos como que à procura de um beijo, revelando a doce brancura da dentição. Orelhas pequenas, nariz atrevido, pequeníssimo. É bonita a minha mulher, e isto deveria ser maior que todas as razões para as minhas insónias, às voltas no colchão, sem me entender. Sem chegar ao porquê que isto aconteceu. Viro-me para o outro lado, talvez envergonhado porque o pensamento

- Inês

vai contra tudo o que construí até hoje; o meu filho dorme também o seu sono inocente no quarto ao lado, embarrilado pelos legos, pelos carros em miniatura, livros e puzzles, jogos, dvds e toda essa nova tralha com que os miúdos de hoje se divertem por um dia para no outro quererem outras bugigangas semelhantes. O meu filho

- Pai, queres brincar comigo?

e eu magicando-lhe no rosto outras parecenças que não as da minha mulher, eu magicando

- Inês

enquanto ele espalha um enorme saco de peças para construir um avião, uma nave espacial, brincando afinal sozinho porque eu longe, com uma peça azul na mão e o pensamento num outro espaço, numa realidade que não a minha, o meu pensamento chamando

- Inês

chamando por aquilo que não é, o meu pensamento acovarda-me chorando silencioso sobre o meu próprio ombro, de resto com imensa piedade de mim mesmo, pobre coitado de mim; isto é uma pieguice pegada, um nome, um nome apenas que me desliga do mundo em que vivo

(como se regressasse à adolescência, com as gangas roçadas e fralda solta, procurando a novidade nas raparigas que se aproximavam de mim

- Rita

explorando com a mão a descoberta de um seio imberbe, sonhando molhado com o nome

- Rita

ou seja agora

- Inês)

virado para o lado de lá da cama, virando costas ao corpo repousado da minha mulher, com vergonha, eu com vergonha de pedir

- Queres brincar comigo?

e a peça azul colocada na mão como por acaso, olhando nas feições do meu filho uma outra ascendência, não a da minha mulher, mas a de um nome

- Inês

e no entanto é a vozinha dele que me apela, desembocada numa decepção

- Pai brincas ou não comigo?

e eu virando para o outro lado, sem largar o estranho objecto azul; eu com vergonha do meu filho cujas feições as da minha mulher.

As pernas da minha mulher espreitam do lençol numa inocente lascívia, os lábios entreabertos na procura de um beijo, e se queres um beijo é um beijo que te dou, Inês, beijo-te a boca com a sofreguidão de um aflito, num sufoco de náufrago, porque se me afundo é contigo que afundo tudo, os legos, o lençol que encobre lascivo as pernas da minha mulher, as feições desfiguradas do meu filho

(acordando em sobressalto porque sonhava que o meu filho)

e agora porque me apareceste assim, vinda não sei de onde e para quê, agarra nesta peça azul com que construo o avião para o meu filho e sê tu a ver nele as feições que gostarias que um filho teu

(sonhava que o meu filho sem feições, sem rosto, desconsoladamente decepcionado porque eu de costas voltadas, o meu filho sem perceber

- Pai então já não brincas comigo?)

um filho teu ditado pelos meus genes, mas não é este, este não, vieste para mo destruíres, vieste como um vírus que se instala, ou uma droga que ferve nas minhas veias nestas noites de insónia, com o pensamento às voltas na cama, moendo o travesseiro com o teu nome

- Inês

molhando-me os sonhos com as tuas pernas de pérfida lascívia, a tua boca escancarada sobre o meu rosto arrancando-me os beijos que ainda não soube colocar em ti, colocar-me em ti

- Pai brincas ou não?

e ter um filho cujas feições morrem no azul de uma peça com que adormeço, como o náufrago se agarra a uma coisa qualquer enquanto se deixa ir para o mais profundo do abismo

- Inês

Inês o caralhinho a sete, sabes? Sinto-me tão cansado com esta luta pateta… Chegar-me-ia

(chegar-te-ia)

consumir esta coisa que me amedronta com um simples abraço? Sem que me mordas as orelhas ou afundes os teus dedos dentro das minhas calças

(a fralda de fora, e as gangas roçadas, onde estão as pernas, que é feito dos braços, Rita?)

num abraço longo para me apaziguar, libertador, sentir-me por inteiro e não dividido, um abraço que se impusesse como o derradeiro? Que posso fazer, que devo fazer? A sério que não sei, que não me entendo.

18 de outubro de 2009

o eterno lugar-comum do efémero

Le sommeil, por SaMY em Olhares


Contigo a contar as horas, e depois das horas os minutos que sobejam no tempo a dilatar-se nos nossos gestos tentando fazê-lo render e tudo porém acontece ao contrário quando dos preliminares

(poemas lidos, dois copos de vinho cúmplices, o tremelique dos olhares quando o silêncio em vez de nós, incendiando-nos de desejo)

ao êxtase, e deste à morna massagem dos corpos com picos de ternura nos sorrisos cúmplices do mesmo silencio já não incendiando, e a janela apagando devagarinho em movimentos de sombra e luz alternadas consoante a passagem do sol rente à altitude dos prédios e das árvores que o vão eclipsando, o sol por sua vez a seguir o ponteiro grande do relógio da natureza guardando-se da noite recolhido para lá do horizonte.

Percebemos então o quão efémeras foram as três horas em que nos demos, um dos copos de vinho tombado na ansiedade da roupa que despimos com o silêncio em chamas, o vinho escorreu a tingir o tapete

(perpetuando o efémero com a sua nódoa cor de rubi?)

e o cheiro adocicado foi-se evaporando à medida que a temperatura dos nossos corpos chamas, com faúlhas disparando dos sentidos, depois brasas e por fim um borralho de ternura a convidar ao sono dos corpos repousados, e com o sono uma leve angústia nascendo em mim pela ansiedade de o tempo ignorar desejos de eternidade, ignorando o desejo que as três horas voltassem ao ponto zero e recomeçassem, as três horas uma continuidade para lá das leis físicas, um nunca acabar enquanto ambas as nossas vontades permitissem repetir.

Não vou voltar a escrever a mesma ladainha de sempre, estou cansado disso, a dizer que com o descer da noite um do outro nos apartamos, é sempre assim: surge a penumbra e o mundo a dizer-me que se acaba, como se o amanhã

(segunda-feira em que cada três dos seus minutos maiores que as nossas três horas de hoje)

não pertencesse ao mesmo ritmo da vida que temos de levar até que outra oportunidade; para quê este fatalismo todo, feito de saudade antecipada, de lágrima ao canto do olho, para quê esta pieguice se amanhã (uma noite de sono faz milagres)

- Bom dia!

e tudo retomando aos seus lugares?

Tenho esta doentia tendência a acreditar que o mundo finda quando o outono traz a noite às sete horas da tarde e os domingos gotas de sangue em vão... Como deves perceber, já não estou a dizer coisa com coisa, que é isso de domingos gotas de sangue, porque me dói saber que o que me resta hoje é apenas o enquanto aqui estás, a ver-te abotoando a blusa, apertando a saia, retocando o batom, remexendo o cabelo enquanto procuras entre as sombras

- Onde estão os meus sapatos?

(eu nu a espreitar debaixo da cama, por trás das cortinas, onde se terão metido os teus sapatos, e isto é ridículo porque sabe-me a eterno estes fugazes momentos de abstracção em que ainda não é afinal a despedida)

e aí está o pé esquerdo, falta o direito, que vens a descobri-lo sob as minhas calças atiradas ao acaso na altura em que nem uma hora havia passado desde que o silêncio se imolou entre os poemas e os dois copos de vinho. Decido-me pelo resto da garrafa ao ver-te piscando o olho a fazer durar a ternura, abres a porta discretamente com medo de despertares os fantasmas dentro de mim, uma nesga de luz que vem de fora sacode a penumbra do que fomos e quando sais depois dela eu finalmente sozinho pendurado no escuro, ainda a tentar fazer voltar os ponteiros dos relógios nos últimos goles do vinho que agora só me amarga a boca.

5 de outubro de 2009

ciclo II


foto de Susana Ferreira em 1000 imagens


Não faz muito frio ainda, é verdade, mas reparaste já no aroma a vinho novo no ar? Os chorões e os plátanos vão despindo-se aos poucos das suas folhas para de árvores frondosas se transformarem em esqueletos ao vento. Veio este bocadinho de chuva quando o céu se cobriu de algodão de chumbo, a temperar as sombras onde nascem as estações feias

(é como lhes chamas sempre que rompe outubro, mal se nota as nódoas da chuva no cimento dos passeios, nas irregularidades da rua)

e resistes à ideia que o outono se vem instalar, ignorando o recolhimento da azálea desflorada, os assobios melancólicos dos melros, os domingos desocupados, os miúdos em bandos de mochila às costas, a noite descendo na hora em que sais do trabalho, e todos esses sinais que mais cedo ou mais tarde te tomarão, apesar de insistires que não, a resistires.

Resistes de braços caídos e olha que isso não é resistir, é resignares-te ao ciclo que se fechou onde outro se abre. Contrariada pelo modo como entortas os lábios e as sobrancelhas, sabendo que o calendário não te engana. Tens medo das penumbras, do choro lento dos dias e da imposição da noite

(não as noites quentes que deixaram há muito de ter a mesma vida, agora são apenas os pardos gatos farejando os contentores de lixo, a claridade triste da iluminação na rua, as janelas dos prédios corridas de bocejos e sonolências e o trânsito que ao longe de tão colorido

- Não digas isso, por favor

o trânsito compacto com os seus faróis ligados tal qual

- Não o digas

as luzes do trânsito como decorações de natal que pouco falta para lá chegarmos

- Eu pedi-te para que não o dissesses)

e tu choramingando como a chuva aos bocadinhos, embrulhada numa manta no sofá a procurares programas banais na televisão, ou abrindo um livro ao calhas exortando numa impaciência serena a hibernação do riso, a sede dos copos de cocktails, a brisa das árvores e a fresca liberdade de te estenderes sobre a erva jovem.

(Olha lá, mas não sentes o mesmo quando o sol reinando ufano a derreter os corpos, transformando o barro em pó, os corpos suados com a roupa colada à pele, as matas que se imolam, as tardes perdidas a recuperar do sono das noites abafadas e insones, afinal de que te queixas tu?)

Desconcertada atiras-me a manta, os livros, o comando da televisão, a mandares foder-me com as pategadas que escrevo, a dizeres

( - Vai embora, pira-te, chegou ao fim um ciclo, não é? Então que fazes ainda aí especado, não te quero ver mais, adeus)

a dizeres que

que

...

Sei lá já o que dizes: as nódoas da chuva alastraram e a noite trouxe as penumbras que te assustam, carregam para ti os momentos de depressão, os fins de semana encostados ao silêncio, e nada tem de ser assim. Olha-te ao espelho e aceita-te: vive em paz contigo mesma, e verás que os ciclos são circunferências, nada se fecha, tudo se renova constantemente.

15 de outubro de 2007

a semana




Foi a semana que nos separou, cercada de rotinas e alguns percalços sem deixar lugar para pensar bem no que nos foi acontecendo. Uma semana inteira de aborrecimentos baratos que, depois de contornados, foram afinal patetices, baboseiras

(gostar de ti?, não me recordo)

e os dias foram lentos porque um caroço que se nos atravessou na garganta, incomodativo: engolimos, tossimos, bebemos água e o caroço ainda, subindo e descendo com sabor a angústia. Víamos aos domingos os casais passeando a família, rebuscados em bicicletas, triciclos, carrinhos de bebé. E depois o seu sorriso imaculado como se nada os impedisse dessa felicidade que podemos perceber à distância. Os miúdos saltavam em mil tropelias, uns amuando birrentos, outros gargalhando a luz da tarde e o ar fresco que o outono facilita entre fulgores de sol quente.

Passou-se uma semana e a vida, ainda que por nada em vão, ficou desenxabida, voando num sentido circular, regressando ao começo de quando em ambos havia sorrisos nos dedos a apontar

- Gostar de ti?, sim gosto de ti!

ignorando que o caminho se bifurcava a partir daí, subvertendo as entrelinhas. As noites ganhando espaço sobre os dias e a solidão à escuta como caçador furtivo, camuflada nas sombras angulares das paredes, vírus adormecido que o medo desperta, devagar, tudo sem que desconfiássemos sequer. E então era adeus que dizíamos palmilhando calçadas diferentes, com a semana a abrir-se na flor dos aborrecimentos, das rotinas e dos percalços, coisinhas que depois de as contornarmos afinal não são mais que patetices, baboseiras

(gostar de ti?, não percebo, explica-te lá)

e os dias seguindo lentos, vezes sem conta isto: uma semana, duas, um mês, o semestre, acaba o ano e nós nada, não discernimos o quanto que de tudo podia haver se nos esforçássemos um pouco mais para que o entendêssemos. Não somos perfeitos mas é na imperfeição que nos vamos completando uns com os outros. Como uma soma. Mas connosco a aritmética falhou, essa equação encalhou num erro para o qual não tivemos inteligência suficiente para solucionar.

Por isso, agora assaltados por essa sensação estranha do vazio, batemos vezes sem conta com a cabeça nas paredes, à espera que por fim haja luz para que o coração e a mente não se repitam, desenxabidos como a vida,

- Gostar de ti?, não me recordo. Palavra que não.