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26 de agosto de 2018

acorde



Houvesse eu na mais indecisa circunstância e teria no despertar a dureza das cascas velhas dos pinheiros. Fiz-me, porém, em ilha, e lancei-me aguçado em preliminares fotografias, entre vapores e suspiros. Veio a alvorada num pequeno incêndio sem fogo ou fumo, só a temperatura ágil da xícara, o aroma do trigo e aveia cozidos, o lento roer de um damasco. Circundar a ternura pela curva mais apertada do último sono. A manhã no hálito delicado da caruma onde vestígios solenes dos primeiros orvalhos, depois das quentes jornadas de um verão estalejante. Dispersasse a água por chamar o olhar e o esforço libidinoso dos lábios, mais um gesto pungente que o corpo não sabe disfarçar: tangentes os dedos na perpétua manhã de domingo.

18 de agosto de 2018

sábado



Espontaneamente, o teu rosto. Com um claro e evidente 

(clarividente?) 

estrondo. O amor incondicional. Esse éter que se materializa no sangue, carne e sentidos que definem a Mulher que sou. A que sempre fui e se atrasou no tempo. Viu os tempestivos humores da alma como barreiras intransponíveis, rastejou na lama como verme imundo, ascendeu no ar como pluma para variadas vezes ser assassinada por caçadores furtivos. 

Durante décadas foi logro, alternando sem nada entre a ilusão e a mentira. Sempre na espera que um ombro, que um colo, que uns dedos meigos entre os cabelos amenizassem o vazio. Sempre sem ninguém. Não havia ninguém. 

Na madrugada foi assim: fotografia instantânea, com o teu rosto dentro a fazer-se de sol redentor. A tua voz garantindo entre o fogo e os tormentos que, afinal, sempre valeu a pena. E soube assim, ali, da importância do teu sorriso resiliente. 

Se não foi isto um sonho, então entra, e sê o Homem.

12 de agosto de 2018

negação ou dissertação sobre o nada




Fiquei encalhada na lima da aresta, com suspiros de peixe a sobreviver fora de água. Coloco o chão acautelado de qualquer vibração que possa alterar este estado e me aborreça. Não quero aborrecer-me, pleonástica, uma e outra vez, como quem insiste exigindo a um cego que veja com os olhos mortos. Fui desprovida dos beijos e abraços que outrora soube colher em teu colo. Digo o teu nome e já nem o eco assoma. Estas nuvens passeiam-se a dar-me misericórdia ao corpo estendido, a metros do mar que se enrola pateticamente em métrica e sílabas dissonantes. Sobe um vento devagar, a tentar o conforto dos meus ombros e dos braços inertes. 

Não sei onde estás, e como havia de saber, para que fortuna minha contribuiria se o soubesse? O que é de incerto em ti já não se compadece com a minha sede de te saber. Não há por que te encontrar. Caule pisado, aninhado em sofrimento por tentativas vãs e repetidas de suster a flor. Há um comboio a zunir mais longe, acorde partilhado com os gritos das gaivotas. Lá no alto, e no centro, dará para ver o caminho que escolheste? 

A tarde sobe já, a moldar os ângulos da periferia, a tarde espreguiça-se toda de domingo. De areia sem deserto. De betão sem sol. De sombras sem jardins. Não consigo olhar as pessoas, doem-me punhais. Não sei nem quero (não sei se quero) dizer alguma coisa, se todas as palavras se afunilam desde que nascem, hiperbólicas, no pensamento, até à abertura poluída da língua. 

Sonho que quero sair. Divago. Divirjo. 

Entorpeceste os movimentos de que ainda era capaz, a projectar rectas ou, no mínimo, círculos mais alargados, dos que se perdem da vista do raio. Queria ver os miúdos saltando na água. Sentada em lótus, talvez beberricando cerveja. Tornar-me ciclope. Não sei se vou, se faz sentido ou se há vontade proporcional para me erguer desta aresta. Sei de mim porque o corpo pesa. Pesando mais a alma, porém. 

Fecho os olhos para contemplar a memória sobre as ervas daninhas, moribundas entre as fendas da calçada, e no horizonte perceber que a terra justifica o seu cansaço com os calores de agosto. Já se nota – sabias disto? – que a luz se recolhe antes dos relógios ainda ufanos da condição estival, a encurtar os dias devagarinho como se propaga uma doença maldita. Quando se der por ela, e as brisas cortarem mais frias, estará a sorrir-me o outono, indicando que é altura de regressar. E eu possa assim voltar a mim, a ser eu própria como são as folhas morrendo das árvores concentradas no chão. 

E agora pasma-te: por não saber mais onde estás, não quer isso significar que não saiba eu para onde vou. Sei, claro que sei, somos o destino que construímos. Não te cresçam aflições, meu amor. Sei o que me reserva, o que reservei para estar e ser. Acontece é que neste momento não quero. Só me interessa o nada inclinado numa aresta, a alimentar o domingo de bocejos enquanto não acaba.


9 de agosto de 2014

uma palavra tua com flores

pintura de Zinaida Serebriakova

Apetece-me uma palavra tua com flores, aberta e convidativa sobre o teu peito. Não fales do coração, cedendo à lamúria dos amores, pois o que venho a ti pedir é somente o leito onde as carnes, por humanas, se cercam de afectos. Apetece-me a saliva e outra húmida polpa dos dedos, revezar a paciente sede dos lábios inquietos, que sangram como corpo de deus, de ausência e medos, e de toda essa incerteza de que são feitos os amantes.

Apetece-me uma simples palavra tua com flores, que não te demore, que nunca seja como fora antes: 
essa oração ingénua, beata, oferecendo as dores dos insatisfeitos desejos apenas por serem eles  flagrantes... Sim!, o que quero é uma palavra tua, aberta, e com muitas flores!

13 de agosto de 2013

até logo

foto gentilmente cedida por Inês Borges

para a Inês Borges

Sirvo-me do teu silêncio em suaves goles de vinho, enquanto permito que o teu olhar me invada com carícias de sombra. A noite instalou-se morna rendendo-se ao predicado do teu rosto. Eu escuto o seu sibilar, canção murmurada nas ruas, nos vãos dos prédios, na margem poluta do rio.

Encorajas-me de ombro nu, onde um beijo ilustraria esta vontade tímida de te ter. É, porém, o recorte de mistério nos teus olhos que me faz transpirar, denúncia da minha falta de táctica para te envolver.

Aprendo nesse entreabrir dos lábios como uma carícia te fará sorrir e que palavras te possam provocar. Sorves a noite no mesmo vagar com que esvazio o copo de vinho, e eu de beber aflito contando que os meus movimentos não me traiam, ou que qualquer distração te liberte dessa hipnótica tensão de enganar o tempo.

Atreve-te, argumentas. De fome nos lábios, mordido, aguento-me. As tuas palavras urdem formigueiros em mim sem que a voz se comova. Os meus dedos empolgados, quentes.

Acrescentam-se verbos e substantivos. Todas as canções. As belas epopeias. O primeiro abraço e enfim o encontro.

Vibram as horas uma duas três e tantas vezes numa qualquer torre sineira. A janela aberta para a aragem, os lençóis testemunhando o quanto desta entrega, que afinal o vinho desinibindo. Sobe a pequena luz da alvorada. No teu rosto adormecido ainda o mistério: não sei ao que vieste e o que fui em ti.

Sei que entraste com a madrugada no olhar. E agora saio eu com o sol na alma.

Até logo.

31 de agosto de 2011

é isto e aquilo


Não sei o que fale o que diga o que escreva, talvez perguntas em meu redor, eu de copo de uísque numa mão e de cigarro na outra

- É isto e aquilo

e no entanto nada, eu sozinho parado perante a brancura de um papel que teima em não ser a voz

(o papel branco a voz da minha solidão)

e sei que

- É isto e aquilo

mas não sei dizer isto e aquilo, porque as palavras não fluem, atropelam-se no pensamento, sem desnivelamento como as auto-estradas. Sou um velho automóvel

a esferográfica é como um automóvel às voltas pela cidade

que não sabe o seu caminho, que não sabe se o combustível vai chegar, eu apertando a buzina para dissipar o trânsito e os outros, à minha frente,

- Passa por cima

as palavras para mim, engarrafadas no pensamento, não conseguindo chegar ao papel

- Passa por cima

e é por cima que tento passar, com uma enorme borracha sobre todo o passado que se acumula dentro de mim, mas qualquer coisa apenas se dissipa, não consigo apagar tudo, a marca está lá, eu estou aqui, e o papel sorri-me com ar de desprezo porque não

- É isto e aquilo

é qualquer outra coisa que só o meu semblante distante insinua.

O copo de uísque num piscar de olhos vazio, o cigarro já apagado, os minutos que se esvaziam como o copo, o tempo que se apaga como o cigarro, ou seja, não se apaga, apenas queima e ao queimar deixa a sua marca, indelével, dolorosa, como se tudo que fosse ontem me saísse vomitado neste entroncamento de palavras atropeladas e engarrafando, gritando umas às outras

- Passa por cima;

tudo o que fosse ontem me fosse o presente aqui e agora, a infância, a adolescência, os primeiros dias de trabalho, eu responsável por ganhar o meu próprio dinheiro, ouvindo dos outros, atrás de computadores e papeis intensos

- É isto e aquilo;

eu aprendendo como se redige uma carta, um fax, anos mais tarde como cumprir um orçamento, ajudando ao equilíbrio financeiro, os números sem engarrafamentos, sem

- Passa por cima

os números perseguindo-me em fileiras, armados de raízes quadradas e rácios, prontos para me atacarem, cercarem as palavras mais nobres do dicionário com

- Faz um print

ou

- Calcule-me a margem

Mas qual margem, esquerda ou direita, norte ou sul, e eu preso pela primeira vez pelo papel branco, sem saber que caminho tomar com as palavras engarrafas dentro do meu pensamento, policiadas pelos números armados de raízes quadradas e rácios,

- Uma task force para acabarmos isto ainda hoje

porém não sabia como sair de certas situações, por mais prints que fizesse, por mais margens calculasse

(a oeste, a leste de que cidade, de que rio?)

Nem task force nem target para atingir, só vejo os números acirrando-me com funções lógicas e o papel transformado numa prisão de quadriculados onde as palavras sem protesto, sem

- Passa por cima

as palavras resignadas tanto quanto eu, a olhar para tudo e todos com uma raiva, balão que enche comprimido, à espera da intencional agulha no seu corpo farto: eis que explode, a raiva cavalga sobre os números, mas também sobre as palavras, passa por cima de mim, do que sou, do que quero, não me domino, e mesmo assim a insistência

- Uma task force para acabarmos isto ainda hoje.

O copo de uísque com uma nova dose, um outro cigarro derramando a sua etérea brancura no ar, como se a solidão não um papel branco, um cigarro inspirado e expirado no meio do da chuva de um Agosto findo sem verão, duas mulheres encolhem-se na berma, sobressaltadas na noite com os faróis furiosos de um automóvel assomando,

- Cuidado com o carro!

um automóvel furioso à voltas na cidade, sem combustível, ou seja, uma esferográfica, perdida nos becos e entroncamentos do meu pensamento, acabando por deixar as palavras engarrafadas, barafustando, não querendo saltar para o papel, negando

- Faz um print

negando

- Isto e aquilo.

Que outra coisa posso eu então fazer senão apagar novamente o cigarro, acabar-lhe com o ar de chaminé ao encontro de estrelas? Lá fora o agosto findando sem ter havido verão, com a chuva a cair, as duas mulheres fugindo dos faróis

- Cuidado com o carro!

e o papel sorrindo para mim cruelmente, dominante, irritante, mas apelativo. E desta forma acossado e inchado, como o balão, deixo-me picar pela agulha de um

- Merda para isto!

rebentando convulsivamente, sendo então que as minhas mãos amarrotam o papel zombeteiro de tão branco, numa raiva angustiada e comandada por uma voz que me obstina

- Passa por cima.

16 de agosto de 2010

«a saudade é o revés de um parto»


un coup d'oeil, por Emanuel Priolli em 1000 imagens


Dizem as árvores altas que o vento murmura tanto que nos pode levantar alados, lembrando essas espécies místicas de homens híbridos do que quer que seja, e não estou para acreditar em tais devaneios. O ar circula umas vezes com a leveza das asas de um pardal, outras como um rugido de fera, mas sem qualquer qualidade assombrosa se não nos detivermos a observar a agitação das árvores que mexem porque gesticulam alardes dentro dos sonhos os presságios, os avisos, crentes do seu poder temeroso e de discernimento. Eu fugi dos locais onde o ar corre com medo do teu olhar tímido a procurar-me ao mesmo tempo que o espanto te ocupa a temer os assobios do vento nas frinchas das janelas e nas sombras dos ramos altos. Isto foi o sonho da primeira noite, do corpo extenuado das tremuras e do coração como um cavalo cansado de correr sem acertar o rumo, com latejos nas fontes e os olhos raiados de sono.

Pela manhã seguinte, sol alto e quente e sem sinais de que o vento e as árvores tivessem sido tão ameaçadores, os teus olhos tímidos voltam a procurar-me num sorriso enquanto as tuas mãos te ocupam de tarefas que não interessa agora referir. Corre no teu corpo essa seiva tão fresca e jovem de que a tua idade é feita que não pude resistir desde o momento que te soube presente. De tantas mulheres no mundo onde vivo e por onde passo, mais velhas ou mais novas, anónimas e conhecidas, formosas e outras menos bonitas, tu foste iluminada como bailarina, actriz ou solista destacada num espectáculo promissor. Sempre estiveste presente, mas passaste a estar em mim sem que o infinitivo do verbo se desvie para outras conjugações: foi desde que soube de ti e te vi sorrir tão espontânea que nem percebi se era um teu gesto de natural simpatia ou se havíamos, nesse instante, encarnado duas dessas personagens de comédia romântica que passam nos filmes. Descartando o cliché e o tom lamechas que tal imagem possa dar, a verdade é que o que aconteceu entre nós foi essa coisa da faísca, dessa química, de “pintar um clima” que ouvimos dizer dos brasileiros nas novelas.

Uma empatia simplesmente natural entre dois seres que se encontram e sabem que tudo será diferente a partir desse momento. E a tua alegria tudo dizia a esse respeito: não me tiraste os olhos desde que o espaço entre nós fosse o mínimo suficiente para que me pudesses seduzir com o teu gesto, o teu pescoço inclinado a mostrar-me a ligeira penugem e as tuas mãos delicadas manejando os objectos. Os teus lábios rubros da sede de um beijo furtivo, desses em que os dedos e as mãos tímidas e fervorosas poisando brisas ligeiras sobre o rosto um do outro, as bocas que mal se tocando se afastam no segundo seguinte como adão e eva descobrindo-se nus e mirando-se apaixonados mas cheios de vergonha e pecado perante o olhar intrigado do senhor do éden.

Teria preferido, porém, que tudo não tivesse sido apenas o sonho daquela primeira noite de ventania. Que as árvores tivessem continuado agitando os ramos a assombrar a simples ideia de que pudéssemos vir a apaixonar-nos assim. Eis que o teu olhar desenha uma dor em mim, primeiro como um esboço suspirado, depois um alerta qualquer de perigo, e por fim a realidade latejando o malogro da nossa atitude. Só dói a saudade e a frustração de nunca nos tocarmos como se morrêssemos nesse caminho entre a dúvida e a felicidade. A única realidade é a minha partida, mais dura e manifestamente mais imprevisível para ti do que a minha chegada que tanto te perturbou. Não é possível porque nasceste tarde para mim e chegamos um ao outro como se o tempo fosse um castigo. As circunstâncias nunca serão favoráveis para alimentarmos este fogo. Viemos um ao outro com a saudade doendo e tu nunca poderias prever que assim fosse.

Então sou eu que te vejo hoje partir depois de uma jornada, tu convencida do até já, e eu acenando-te adeus sem que percebas e sem que um gesto do meu corpo te diga a verdade. Esta tua partida, o teu até já soprado em voz trémula de virgem que se abre para o seu primeiro amante, é o mais sofrido adeus que alguma vez concretizei. Mais tarde pressentirás a minha ausência e amanhã perceberás que é definitiva, assim que o teu olhar me procurar nos mesmos espaços onde restará apenas o pó da minha imagem. O que parecia um sonho afinal não foi: o vento veio alar-me, fazendo-me desaparecer de ti como se tivesse ascendido a um céu qualquer das mitologias pagãs. Ficarás tu eva só e abandonada, crendo que o senhor do éden é bom e de uma costela tua – onde a dor te fustigar mais forte – te fará o pedaço de ti que se esvaneceu, agora híbrido de um qualquer astro que teimosamente ainda procurarás no firmamento.

Esquece. Sente o vento e escuta o que desde o primeiro momento quiseram alertar as árvores com os seus ramos agitados. Deixarás, aos poucos, de te lembrares de me procurar nos mesmos locais onde em noites quentes de agosto me namoravas. Sacudirás o pó, os fragmentos da minha imagem será um leve devaneio. Esquece, porque a dor levo-a eu: não de remorso, nem tanto de desgosto. É desta saudade que dói, e de tanta raiva por o tempo continuar fluindo sempre contra mim.

1 de agosto de 2010

silenciosite crónica



Sofre-se muito nesta luta abstracta com o papel em branco que se porta como uma virgem hesitante em concretizar o casamento. Podem ser dias, semanas, meses, ou um tempo indefinido sem que o nubente perceba que, ao fim ao cabo, cometeu um erro ao enganar-se com o seu puritanismo ou que ser ovelha tresmalhada pode dar em má sentença. Os obstáculos são em tudo irreais e, ainda assim, quase intransponíveis. Só refiro o advérbio quase porque afinal sempre se pode escrever qualquer patetice sem interesse que muitos não hesitarão em julgar com o seu cliché moda do «isto é bastante profundo!».

Quem sofre do mal da silenciosite crónica não deixa sinais como os que padecem de males gástricos: a estes dá-se-lhes pela presença devido aos seus estertores sulfurosos, pelos queixumes de um abdómen dilatado que os produtos bífidus de L. Casei activos não podem remediar. A brancura febril e obstinada do papel pode, no máximo, fazer o paciente deitar as tardes a dormir invariavelmente, predispô-lo à penumbra e dar ares de ser socialmente um chato do caraças. De dissolver em total indiferença os gestos e os movimentos intestinais de um mundo que o apela. E assim que acorda, insiste, insiste, insiste, e volta a insistir para depois desistir como se apenas uma vontade de urinar o despertasse e, aliviada a pressão da bexiga, o sono lhe dissesse que ainda não é o momento oportuno de se erguer para o dia.

O pior, porém, são as verborreias, atacando a meio da noite, antecedidas de febris delírios após leituras sonâmbulas desarticuladas, insuflando de flatulência o pensamento. Apesar da alegria desmedida de tantas ideias em ebulição e que poderiam resultar, o paciente apenas se transforma num objecto sentado penitente numa sanita metafórica, indiferente ao sono de terceiros que o não ouvem, não lhe dão atenção. De suores frios ao vómito sob dois dedos enfiados até meio da garganta desintegram-se facilmente os projectos mais ou menos ambiciosos de um livro fora de série com a promessa de uma ressaca pastosa ao despertar com os pardais chilreando sobre a janela onde o sol penosamente bate para poder entrar.

Às vezes apetece-me uma entrevista terapêutica como se valesse a pena saber o que vai passando na infeliz cabeça do aprendiz a escritor. Dar conta das dificuldades, do porquê de tanta mediocridade, dos desânimos constantes, das euforias repentinas de génio, e por que se desiste no preciso momento em que tudo e todos barafustam para contrariar-nos a preguiçosa e fácil atitude de estarmos calados.

No que refere a mim podem ser mil e uma maleitas. Se não vou bem cá dentro, cago uma boa dose de mil palavras sem que alguma pareça ser coerente e diga realmente qualquer coisa em concreto. Devia haver hospitais que internassem escritores ou escrevinhadores doentes de silenciosite crónica: ministravam-se umas potentes gramas de literatura clássica para resolver dúvidas, intercalando com injecções periódicas de textos contemporâneos e, à noite, uns supositórios de poesia épica para, no mínimo, reduzir os efeitos nauseabundos dos ataques verborreicos da madrugada. Com uns bons dois meses (ou o tempo que fosse necessário) de tratamento intenso, mesmo residindo a dúvida se o doente sairia como um escritor novo, com certeza muita boa gente – como eu – daria alvíssaras por ficar finalmente curado deste mal do papel em branco.

31 de agosto de 2009

glosa



As palavras que dizes dançam dentro do sonho
António Ramos Rosa


Deixas as palavras à mercê dos ventos
e dos sons
palavras que na tua boca arrumas
incrédula

palavras que escondes em teu olhar risonho:
mas as palavras (que não dizes)
dançam dentro do sonho.

22 de agosto de 2009

para lá das tuas mãos


folhas suspensas, por Isis em Olhares.com


à Sónia

Está para lá das tuas mãos e tem o perfume seráfico dos céus míticos. Abres os olhos e o sonho desce das harpas em plumas de Santiago que apanhas imprudente como bolas de sabão. Dizes que te recordam a infância, onde te sentes mais perto de ser feliz. E tudo acontece por um acaso, sem objectivos porque rejeitas as responsabilidades, amando acima de tudo a liberdade – a tua liberdade.

Fazes o teu caminho iluminando-o com a esfera solar que os putos desenham, pintado com a cicatriz de um sorriso e olhos pestanudos em vez das terríveis e infernais ondas de calor que os cientistas tanto falam e ilustram mas que tu ignoras: que sabem lá eles do sol?

Nunca avistaste alienígenas de má fé, esses que insistem em colocar sondas no cu das pessoas, o que vês são anjos. Anjos sem essa cor de hospital tresandando a desinfectante, e nunca alados: os teus anjos têm cabelos coloridos, talvez um ou outro com nariz de palhaço a fazer malabarismos num monociclo, e andam descalços sobre as folhas, a erva e as flores. Não vestem túnicas mas estampados floridos, com a primavera a fazer de mascote, farejando-lhes os pés.

Bebes e não te embriagas. Não do vil álcool que inspira a violência, a malcriadice, a insolência e a vaidade nos homens. Surges ébria de uma imensa alegria de te saberes eternamente menina, que o mundo nunca precisou afinal de relógios e ruas atropeladas de veículos, prédios a debitar lucros fáceis, murmúrios de gentes que sonham um dia vingar-se da vida que levam.

E ébria daquilo que estas pessoas jamais saberão ler-te nos olhos, continuas navegando sem barca nem vela nem remos, sempre na mesma posição estática com que te vêm nunca imaginando as milhas que percorreste e ainda irás percorrer. Continuas assim agarrada com os braços a ti e a teimar que é um jardim que se plantou na tua frente e não esta insone parede branca do hospital.

17 de agosto de 2009

diluído


voa comigo, por Ramarago em 1000 imagens


há um poema
diluído na água deste verão
suspenso e nocturno
de sabor a álcool com gelo
e dos dedos polpas de carne
e segredo

levo aos lábios a ternura
transpirada do teu pescoço
e esta música líquida refrescando
a madrugada

tropeço com a cabeça na almofada
quente
os teus cabelos são águas
palavras refazendo a atmosfera
de ténues sombras
inquietas

palavras agudas colhidas sem mote
temperando a minha sede
com o orvalho substantivo
da súbita alvorada

escuto o teu corpo
estendido na areia do sono
exalando o perfume natural
da carne e do sangue

a penugem loira e suave
sobre os teus ombros
quebranta o meu olhar pescando
em lentos mergulhos de sonho

o poema que se inventa
do teu ventre
diluído na música que me
acrescenta.

6 de agosto de 2009

antes só


Auto-retrato, de José Bóia em 1000 imagens


Antes só que mal acompanhado: e assim chegaste ao teu limite. Prestas contas à janela e para com a paisagem abandonada do lado de fora, e ficas em paz interiormente. São os livros que derradeiramente te irão agora levar em ombros. Não te pedem nada, não te exigem formalidades ou cedências de última hora. Não te querem para outra coisa senão que os acarinhes com os dedos sobre as lombadas, que lhes sintas a textura das folhas e o aroma do papel, que os leias como quem desnuda de êxtase o ser amado. Eles estão para ti e não te fecharão qualquer porta.

Tens também a música com que viajas, o copo de whisky para te afastar as sombras, e uma quantidade infinita e patética de tecnologia para dispores em horas de alegria ou, se for o caso de necessidade destiladora da bílis, para te indispores, vociferares, mandar à merda.

Não pertences a ninguém nem a mais nada. Tens-te a ti. Foram-se os amigos? Antes só que mal acompanhado. Aguenta-te. Disseram-te certa vez: “as árvores morrem de pé”. Em terra firme e de pés bem assentes tenta agora permaneceres, até que asas te cresçam nos costados e possas verificar enfim se os mortos habitam o céu.

5 de agosto de 2009

canto a tua morte




Sobre que lágrima se enaltece a raiva;
sobre que morte se riem as estrelas?
Nada mais resta na seiva nas searas
só o teu olhar frio castigando as ideias.

Não me faças fugir desta alvorada;
é como se este dia que ergues
a mim pertencesse.

Sofrerei sempre a mágoa pela tua face
emanada. Sofrerei sempre como se em ti
morresse.

25 de agosto de 2008

a vez



Afundei. Deixei-me a afundar na esperança preguiçosa de ver melhores dias. Convencido com uma certeza indiferente de que alguém certamente viria para abrir-me as janelas, sacudir-me da poeira, trazendo as algibeiras transbordando esperança. Fui de livro em livro procurar o nunca achado e regressei de todas as vezes com as mão negras de nada, as mãos como pedra. Vi esvoaçar sorrisos, soavam harmoniosas vozes e gargalhadas deslocando-se da esquerda para a direita conforme passava o autocarro onde devia seguir dentro, e que perdia toda a vez que aflito tentava embarcar. E as vozes, e as gargalhadas, deixavam o tom harmonioso para um esgalhar confuso de troça e dó.

Ouvia os dias erguendo-se com esplendor, duas ou três melodias a agarrar-me os ombros

- Vem daí

e eu

- Não quero, não vou

convencidíssimo que não chegara ainda a vez de, que não havia dado o tempo suficiente para, que seria preciso aguardar mais. E depois isto e outra vez aquilo diluindo as hipóteses até que o sono me resgatasse num bocejo e a cabeça rodopiando sem eira nem beira. Noite após noite, aconchegado na minha redoma de parvalheira, a dialogar comigo mesmo, a afastar os medos com a febre das alucinações.

Agora parece-me tudo sempre e cada vez mais adiante. Os dias perderam-se, deixaram cair o esplendor, os livros foram-se calando em revoadas de folhas aninhadas no vento, e eu ensurdecendo deles, cegando das palavras. As vozes vão e vêm, como num pesadelo, ora trocistas, ora piedosas

- Anda comigo

e eu

- Não quero, não vou

apontando para as algibeiras com escárnio

- Nem sequer trazes esperança aí

com as janelas cerradas, ou talvez uma parede no lugar onde elas jamais existiram. Eu carregado pelas noites numa redoma de insónias.

Gostaria muito de ter podido saltar para aquele autocarro. Fazer parte do coro. Os meus gritos, porém, já ninguém se interessa ou esforça por ouvi-los. Ninguém os percebe. Observo a luz lá em cima a diminuir e qualquer dia

(qualquer noite)

não poderei alcançar-lhe. Estreita-se o buraco onde continuo a afundar. Onde perdi alguma coisa que, por não saber o que será, imagino que possa ser o mínimo para finalmente vir a ser tudo o que se supõe querer e ter.

Se existirão homens e mulheres de braços fortes para me puxar para fora não sei, não faço a mínima ideia. De qualquer forma perdi. Sinto que perdi. Sem querer fazer dramas, apenas dando aos ombros como quem se volta resignado.

Acho que perdi a vez de ser feliz.

10 de agosto de 2008

não há porque ter título


(autor desconhecido)


Não estamos em casa, e o telefone trina durante uns vinte segundos. É um esquisito, e tem a mania do poliglotismo. O frigorífico estremece como que um arrepio, marcando a sua superioridade em relação aos restantes habitantes da cozinha. A máquina de lavar roupa abre-se num ó meio amuado, tem todos os tecidos promiscuamente compactos, que lhe pesam como dores de cabeça. O micro-ondas está adormecido numa paciência branca, refastelando-se de frescura. Haverá a hora em que padecerá de sufocante calor, colocando na torneira um olhar de inveja.

Os móveis de madeira sussurram espalhados pela casa. Não se ouvem as suas queixas matinais, de gavetas arrastadas e portas chiando. Sussurram porque gostam do silêncio. Televisores, rádios e demais família são os mais impacientes: é como se lhes ouvisse um tamborilar de dedos sobre uma mesa, ou um pezinho irrequieto sobre o chão: é um formigueiro que lhes dá nos leds dos seus stand by.

Mas quem guarda tudo isto com ar de respeito imposto é a imponente porta, mais a tagarela da fechadura, sua companhia de uma vida inteira.

7 de agosto de 2008

ramos


Why the dark, before the dawn?, por Paulo Bizarro em 1000 imagens

para José Gonçalves Ramos (1927-1993), meu Pai


Sempre fui bom ouvinte, sabes disso, apesar de nem sempre mostrar muita paciência, mas sem nunca te ter contestado. E se não te contestava era porque o que dizias parecia sair da minha boca, como se as palavras descendessem também no código genético. E depois veio aquele dia em que da tua boca não saíram mais palavras, que é o mesmo que dizer deixei de ouvir a minha voz na tua garganta. É verdade, eu não precisava de falar, tu discursavas e eu cá por dentro a confirmar as ideias que tínhamos em comum sem termos discutido sobre elas, e muitas das vezes limando o bico de uma dúvida, de um gene meio parvalhão a fazer ruído. Passaram quinze anos desde que tomei o teu lugar, ou seja, desde que a minha voz se produz agora na minha garganta e não na tua. Que já não existe. A tua garganta já não existe, Pai. Nem o teu sorriso, nem as mãos que eu admirava tanto. E depois o que então ficou por dizer, não que houvesse algo de novo a dizer um ao outro (eu ficava calado, os genes disseram tudo desde a minha concepção), mas porque a minha vida foi acontecendo sem ti. Há quem diga que os filhos são o prolongamento dos progenitores, e talvez seja isso. Eu via-me como a flor e o fruto, e a ti como a raiz e o caule que me amparava. Engraçado, o nosso nome, ramos. Eu cresci de um dos teus ramos, agora apenas a flor ou o fruto amadurecendo com o tempo, cortado sem sabedoria, aguentando o caule mas a raiz perdeu-se, extinguiu-se na terra. E ainda que eu sirva para os outros que me amam, para mim já não é a mesma coisa, como se a jarra ou a fruteira onde me colocaram me prendesse sempre ao mesmo lugar, sem lograr alcançar o topo, o mais alto, aquilo a que sempre aspiraste.

Passam os anos, e contudo cada vez dói mais a tua ausência. Talvez por ter a consciência que o adulto em que me tornei precisaria muito mais do pai que o adolescente que fui. E agora só tenho a voz interior, a palmilhar caminhos acautelado com os desvios. E isto é ser filho para sempre.

Que se lixe que seja um cliché, pai, mas ainda que tenhas deixado de existir como raiz e caule, existes cá dentro de mim e só morrerás quando eu me for também, calado, acertando no nada as dúvidas que, tenho a certeza, havias de esclarecer com a minha voz dentro da tua garganta.

E amo-te: só por isso choro. Pai.

3 de agosto de 2008

que o silêncio fale por nós

morte nihil certius est, nihil vero incerta quam ejus hora



para o meu mais querido amigo



É tão difícil falar sobre esta dor. Vale o silêncio nestas circunstâncias tantas vezes quantos são os grãos de areia que cabem num punhado a esvaírem-se entre os dedos. Não será mais do que isso: o silêncio esvai-se de nós com a lenta passagem do tempo até que o pudor deixe de existir ou peça grandes cuidados. Até que possamos compreender um pouco mais sobre isso da morte, e sobre o amor, e sobre a amizade. Aquela amizade que sabemos ser para sempre, que não tem floreados nem cerimónias. Onde apenas e ainda o pudor. O pudor de dizer que te amo para que os espíritos se sintam quentes, reconfortados o melhor possível dentro da ternura, da generosidade. Mais do que existe entre o sangue de irmãos, compreendes? Não interessa o que se diga, o que se pensa, o que está estabelecido. É somente importante o que se sente, o que existe verdadeiramente.

Assim, só temos que esperar que o silêncio cumpra o seu papel de curandeiro, e de nos mantermos unidos, a partilhar não só as dores agudas com que a vida nos acutila, mas também as alegrias, o que conquistamos de bom.

Deixa seguir o cadáver que já não te é nada, já não nos pertence, pouco ou nada significa. Os nossos mortos aprendemos a viver com eles cá dentro. Continuam vivos enquanto vivemos, porque o amor imenso é assim, transporta-nos todas as pessoas queridas que desejamos continuar a ver como se tudo fosse eterno. E por isso entendes o egoísmo de tão nobres sentimentos. O cadáver é apenas o pó, condição do que vive para dar lugar. Não os espantemos, não nos espantemos. Levamos os nossos mortos bem vivos dentro de nós até que surja a nossa partida, pois «morte certa, hora incerta». Que é quando realmente tudo se acaba, ou pelo menos soubemos que afinal estivemos vivos.

A tua gargalhada também é a minha gargalhada, como as lágrimas são também de ambos. Não temas: sofro sempre contigo, o que te dói, dói-me. Apenas o silêncio: deixemos que entre e se instale para que te diga, entre o pudor, o quanto te amo.

30 de agosto de 2007

serafim

Quando vier o mundo, estarei ébrio de ternura. Delicadamente obsceno, sujo e medonho como vão morrendo os inocentes na guerra.

Quase santificado, para quem se reverterão as preces e as crenças. Serei os nomes, serei o céu e a terra uniformes, água e ar e fogo, serei o signo. Adulado por babas incomensuráveis, salivas deslizando como mel, como ouro.

Trarei estridente a mais pura das vontades de viver. Contraindo poder e agindo como contra poder. Bandeira de império, rei incontestado, patriarca, o enviado. Pouco menos que Messias regressado e porém na sua vez. Ao meu sono suspirando guardiães seráficos, áureas e santos, tontearias de circunstância.

Estarei e serei sempre o futuro: quando o mundo vier, soarei profano e profeta.

28 de agosto de 2007

depressão


autor desconhecido


A linha do horizonte é recortada pelas memórias, num vai e vem instável. Recolhem-se os objectos no escuro engolidos pelas sombras pardas do entardecer, o sangue da última luz do dia repousa coalhado no solo fertilizando vãs esperanças.

O grito é uma voz impotente. Toda a força da voz é sussurrada e em surdina. Impondo silêncio.

Persegue-te a serra, entrecortando a linha do horizonte sob as crinas das nuvens fustigadas pelo vento, vindo escuras e agoirentas. Empurram-te para o mar, diluindo o ocidente na luz fosca que cai agora enquanto recolhes o olhar.

Guardas-te pelo crepúsculo e esperas que escureça definitivamente. Vais mergulhar no medo orgânico e retirarás das tuas lágrimas pesadas mágoas que abafam o mundo. Para mais nada, para um nunca mais. Sem que ninguém te perceba, sem que uma mão, um braço, um ombro. Ao abrires palidamente os olhos, choverá em teu redor.

Não saberão resgatar-te.

22 de agosto de 2007

solidão morta

No princípio ainda vinhas beber do meu olhar vazio a sede das noites com que os teus sonhos te inquietavam. Depois a tua imagem deixou de ser material, fantasma colhido do espelho adormecido na sombra. Acabaste como uma memória vaga, solta pelas palavras que partiram da tua boca violeta tingida de indiferença quando disseste que não podia mais ser.

Ainda hoje equaciono: não podia ser mais o quê, quando nem quê nem mais para prosseguir?

Poderá este meu olhar vazio amar-te na dor concebida para lá das margens do meu leito tolhido de doença? Fugiste de mim e deixaste um deserto frio. Morro aqui, como navio encalhado entre rochas e sei, não virás ver-me como o fenómeno que partiu.

Morro imunodeficiente. A única ideia que quero com que fiques é que o frio é uma solidão morta.