Sustém a fadiga a beijar o corpo e deixa-me sair como quem se despede para destino incerto, a saber que o fogo também unge e salva, que nada espera. Censura-me se encosto o ouvido à lamúria, advertindo-me sobre as auroras prenhes de luz. Pois que estou com esse medo de todo que me quebre o corpo, e de um assombro perca os membros, e me resigne a uma inutilidade de réptil por em oco deixar-se o osso definhar onde rémiges haviam de crescer para me tornar alada e dessa forma a divina que viste em mim.
Já só dói o teu sorriso aquecendo a líbido das mulheres alheias ao teu anseio. Não sei imaginar a tamanha saudade que vou ter de ti. Hei-de procurar-te na orla do mar. Não por acreditar na redenção do pôr-do-sol idílico preliminar dos amantes em estampas românticas. Hei-de ir na madrugada mais escura, fria, se possível na porcelana branca do nevoeiro. Procurar-te e ser invisível, ou apenas vapor sem forma ou claridade. Não terás a necessidade das lágrimas então, certo que o teu regresso seria erro de feitio, insistir no fôlego quando o ar é tão rarefeito.
Fico bem. Sabes que a mim não me bastou nunca o sofrimento. Satisfaz-me sentir o cheiro do sangue, afirmando a certeza que as feridas cumprem e são concretas na dor. E fujo da morte como castigo. Se morresse, certa estou que seria para um nosso reencontro. Lá não há nada, não queiras ser nada entre os meus braços. Não venhas. Pretere o vazio, que em mim mais fundo e tenebroso é o abismo.
Sustém a fadiga a beijar o corpo e deixa-te sair como quem rende os dias, a saber que a terra é sacrilégio para quem fica. E pesa. Como pesa, ainda que as brisas e os ventos. E as árvores testemunhando, irmãs, que é em pé que se ganha a eternidade. E a solidão.
Trouxe qualquer coisa na algibeira que se abeirava
(disse para consigo)
a uma oportunidade de
– finalmente!
(repetiu)
ser feliz.
Estudou, viajou, sentiu cheiros e sabores, observou. Afinal, não: impossível a felicidade conjugada com o verbo ser. Pôde perceber na poluição dos rios, nos caminhos percorridos sem calçada ou macadame.
Triste porque inacabado enquanto homem
(concluiu),
dirigiu-se ao cume de um relevo sem perceber o abismo. Por simples curiosidade, deu conta apenas do escuro fatal das águas correndo declive abaixo, ao fim de tudo.
Tudo tão no fim, tudo tão declinado e em baixo
(lembrou de dizer para si próprio)
a vida toda feita num abissal baixo, como se o céu desmesuradamente distante das ambições humanas. Tomar a lua foi falsa promessa e conquista?, indagou ainda.
Recolheu-se num gesto de resignação a baixar os braços, e percebeu na algibeira o volume e o peso do que o levou a chegar ali: a oportunidade de se abeirar de algo que teria levado anos a concretizar. Do que foi em tempos. Foi sem tempo que concluiu:são afinal pedras, pesadas, em todas as algibeiras que vem carregando a humanidade.
Súbito, um impulso subiu corpo acima, tremesse embora das pernas e a aflição no peito: era como um sussurro – encosto do espírito da Virgínia!, suspirou, em cautela supersticiosa – a dizer-lhe que o abismo é apenas ar.
Agora, podemos anunciar, já não existe: pairamos sobre ele, como abutres que somos, a observar-lhe os escombros da queda quando soçobrou, como homem que foi, lá em baixo, a julgar os abismos.
Bom dia. Entra e fecha a porta. Vem verificar as nódoas visíveis sobre a pele. Finge-te erudita do asseio, e que zelas pelo corpo como bibliotecária em Alexandria. Não receies, que fogo algum poderá destruir o legado que herdaste e vens cuidar com precisão de luva. Aguenta-te no acidente, que os objectos frágeis são susceptíveis à perda eterna, ao cabo da extinção, ao fino fio tenso entre os picos, a tremelicar sobre o abismo da existência. Se sentires que o corpo vacila dá-lhe quarentena e deixa-o em repouso como se fosses jejuar no deserto. Ao regressares move-te com atitude felina ou cautela de pluma. Abre muito devagar cada poro e liberta o mofo, soprar para que se respire, observando se as sombras se espantam. Leva o corpo em troféu derradeiro para o teatro anatómico e faz suspender a luz. Sai e fecha a porta. Boa noite.
Escusa-me deste sufoco de me sentir perdido no tempo, como se, de tonto ou doente, colocasse cabeça e boca à banda a tactear o ar num desespero de náufrago. Porque me desvias agora o olhar
(tu que quando te procurava sempre sorrias aliviando-me o peso das minhas existenciais crises depressivas)
e me deixas à mercê desta agonia que me sobe no sangue até ao nó da garganta, revoltando o peito em taquicardias, dando aso a que a ansiedade se liberte esparvoada esbardalhando-me os sentidos, o equilíbrio, e então o pânico generalizado orgânica e emocionalmente em tudo o que é em mim, galgando os pensamentos, rosnando-me aos movimentos…?
Pedi-te que assim não fosse, que aceitasses sem razão as palavras confidentes sem qualquer contrição ou juízo de moral; mas como poderia eu exigir assim da tua vontade? Como posso pedir-te indiferença ao perigo de te deixares também ir sem a expectativa do regresso, a animar ilusões, mesmo que te sintas, à partida, imune e contrariada de tais acidentes emotivos?
Vou deitar as tardes a dormir para mitigar a cabeça destas incertezas, dos medos, das angústias. Nunca durmo, porém. Deitar as tardes a dormir é um queixume velho meu, arvorado nem sei já em que poema antigo da juventude, e que simplesmente dará o mesmo resultado que o enterrar a avestruz a sua cabeça na areia. Isto é: que fujo, que me aguento cobarde e inerme.
Engole toda a luz a noite caindo, e essa escuridão que se junta à negritude da alma resume as insónias acumuladas. Sirvo-me do sono apenas quando já o dia rompe vigoroso a despertar os vivos. Que é quando, da fadiga, após a secura da boca e da luta contra a tensão dos músculos e dos nervos, o corpo se rende, como que apanhado numa doença viral, febril, acometido de tremuras e demais convulsões.
Podes tu tanto poupar-me a estes acometimentos ridículos de que sou provocador e vítima. Salvar-me como heroína de romance oitocentista de tantos e tamanhos tormentos a que a alma apaixonada se dispõe. Que um abraço – vê lá tu, um simples abraço! – embora sem garantias promissoras nem a servir vãs esperanças, apenas apertado de ternura
(podias mesmo justificá-lo como acto cristão de amor ao próximo…
… mas salvo de misericórdia, por favor!)
que um abraço assim talvez me fosse suficiente para que amparado pudesse transformar num suspiro
(ainda que a insinuar o último exalar do corpo)
a oportunidade concedida de respirar aliviado, desinfestando a negritude, a desilusão, os soluços da convulsão dos prantos, e voltar
(sem pieguices)
a sorrir interiormente.
Diz-me, impiedosa: é esse abraço que vais continuar a recusar-me?
vestida de luz, por Elsa Mota Gomes em 1000 imagens
para a Anabela Maria
A afogar-me emocionado na flor carmesim do teu corpo: as minhas lágrimas concentradas para o desabafo leitoso da haste que te segura as pétalas, enquanto a luz anuncia o intervalo entre o fresco hálito de uma madrugada marinha e a promessa de uma alvorada ainda por trás das colinas. Os teus dedos mexem como as folhas e a seiva deste caule, a tua língua ladrilhando de orvalho a sua textura de veludo, e num suspiro as pombas esvoaçando alvoroçadas com o brilho da manhã.
Deslumbras-me com os botões a enfeitar os cumes altos e largos do teu peito, bolhões de água viva provocando o fervor das minhas mãos e saciando-me a sede impaciente dos lábios que procuram o seu desabrochar. Tens a cor do musgo nos olhos, penetrada nos meus com brilho e sombra e paixão, e o perfume do tojo e da giesta na tempestade voluta dos teus cabelos a perpetuar a primavera em mim.
E quando as tuas pernas, acariciadas pela flor do trigo, me prometem o pão em delicados movimentos, já eu sou todo fera faminta de carne, farejando o teu sangue, uivando em sucessivos gritos de um qualquer ritual gentio de evocar o solstício, entregue ao vinho pisado, ao mosto, mordendo os figos leitosos. De tão ébrio de ti vou que, desequilibrado de espasmo, perco-me a semear-te no ventre toda a espuma de mim ao mesmo tempo que te entregas e te estilhaças em rebentações contínuas de onda insaciável.
Esvaneceu-se então o crepúsculo, com as asas das pombas desenhando sombras chinesas na janela. Fotografo-te com a memória: tu ainda te contorces numa ternura infantil e tão delicada de carne e pele e cheiro que arredo o efémero do momento e convido-te a retomarmos pela orla do dia o nosso corso de natureza viva.
Vai ficar o homem de vestes rasgadas em desconsolo de pranto, esmagado ao chão de que nunca mais subirá. Os céus já só pertencem às aves, desorientadas e famintas. Está o homem de cócoras sobre os escombros daquilo que aprendeu a chamar civilização. Chora de cócoras com um corpo inerte ao colo num abraço de angústia.
As bocas em gritaria dirão: é o fim-do-mundo. Mas este mundo escaqueirado apenas recomeça sem nunca ter conhecido efemeridade. O mundo está para lá das bocas abafadas pelo assombro do seu poder, e dos medos, e das cabeças que pensam, planeiam, projectam, mandam edificar e depois destroem. O mundo nunca lhes pertenceu, apesar de terem acreditado que o dominavam, que desaparecendo eles o levavam no mesmo destino. O mundo respirou sempre à parte, sem linhas da vida traçadas nas mãos. Sim, o mundo apenas recomeça, sem acrescentar à poeira e à lama qualquer tranche de esperança que até então a humanidade julgara ser a última a perecer.
Vai ficar o homem só porque desta vez se salvam apenas os que já não podem, e palas cresceram para além das orelhas e do nariz como autênticos apêndices nas cabeças das pessoas que nunca mais lhes permitirão olhar em volta. O homem fica chorando só, com as vozes e as luzes do passado plantadas na sua memória a lembrar-lhe como tudo fora e agora afinal.
Tudo capitulou: as sombras sobre as fontes frescas de agostos quentes, o aconchego do lar nos dezembros varridos pelas neves; as crianças em algazarra nos parques e o vento lidando no alto das árvores; as esplanadas oferecendo cerveja e as salas de concertos; as lojas, os bancos, as fábricas, as escolas e as igrejas, as câmaras municipais, os palácios governativos, os ministérios. O homem não sentirá os seus semelhantes pisando-lhe os pés, nem esbofeteando-lhe as faces ou agarrando-lhe o pescoço. Tudo o que havia dele fica na memória, sempre futura porque deixa de haver passado e presente. Tudo o que havia dele está no corpo abraçado ao sal das suas lágrimas.
Não verá o homem a cor do dinheiro, os prédios altos, aviões atravessando hemisférios, pontes ligando margens, mercados e centros oferecendo o que as pessoas não pensavam procurar. Emudeceram as sofisticadas máquinas (e as menos sofisticadas por misericórdia), voltando à sua condição de objectos, meros materiais inanimados que aspiraram um dia ser vida. Inutilidade é a sua única versão, o que resta escrito nos seus manuais de instruções. Esqueceu o homem o sofá creme de napa, os quadros nas paredes, o abat-jour antigo, os comandos remotos que davam acessos às cenas da televisão. Foram-se os tapetes de asfalto, e só para abrigo das incontroladas chuvas negras servem os automóveis parqueados sem alinhamento. Morreram as modas: vestir e calçar sem preceito, gravatas aniquiladas, saltos altos que desceram à terra batida, blasers ou paletós a servir de cobertores. Foram-se os gestos ponderados, os tiques, as formosuras, os bons modos. Não se pensa em obesidade ou anorexia. Não se pensa em comer. Não se pensa no que não há e no que se não tem. Os penteados entraram em desalinho, os lábios gretaram de sede, as unhas dos dedos farpadas de arranhar o chão.
O mundo, no longe e escuro espaço entre cada corpo celeste, permanece como planeta azul. Azul porque os mares e o sol e a luz. Porque continua a ouvir-se o planeta sussurrando a sua trajectória com os demais congéneres. E um sussurro a mais agora se pode sentir, não sei se será cósmico, mas daqui sente-se, um sussurro que suspira com o homem.
Este homem não vai ter descendência. Será só, sem poder dar filhos aos donos dos escombros. Fica só e órfão o homem que percebeu que nunca deixara de ser o menino da sua mãe.
É ela quem ainda mantém nos braços, morta de poeira e lágrimas, como se os séculos também tivessem deixado de existir.
E dizemos adeus ao homem, porque esquecemos o até já, o até logo, o até amanhã, o em breve nos veremos. Dizemos adeus sem acenar porque estamos tão cansados dos braços e das mãos e das pernas que nem sabemos se somos vivos ou se alguma vez vivemos. Dizemos adeus ao homem sem acenar pois também não é necessário. Ele não vê.
O homem dirá por fim uma oração. Vai orar pelos que foram e pelos que ficam, sós como ele agarrados a destroços, lambendo a lama de cinza e lágrimas. Dirá a última oração onde o nome de qualquer deus que seja não será lembrado.
Demora-se a tua ausência na rua deserta, nas janelas em frente sem rostos que venham espreitar sequer. Os automóveis passam escuros como objectos incógnitos, e os autocarros seguem vazios com a sua luz branca esbatida a lembrar salas de espera de urgência hospitalar madrugada dentro. Aos poucos a suspirada claridade do crepúsculo vai vestindo a penumbra que sai nascida nos recantos, nas esquinas, nos jardins desertificando. Percebe-se a agitação lenta dos ramos altos das árvores ao vento ameno anunciando um princípio de noite mais frio do usual nesta altura do ano, como se o verão se tivesse distraído ou quisesse esconder-se, a adiar o seu compromisso.
É certo que a noite vindoura será viva e animada em muitos pontos coloridos da cidade imensa e quiçá nesses pontos nem se venha a notar ponta de frio, são microclimas de calor humano que rejeito sempre penetrar, menor é ainda a vontade se não estás. E embora se sinta o cheiro desses verões muito particulares, apesar do vento, nada disso sucede nestas paragens que vão emudecendo com a noite. No mínimo nada acontece ao alcance desta janela onde testemunho os arruamentos entristecidos no latir dos cães que parecem ao ouvido tão distantes uns dos outros como se comunicassem o seu choradinho entre fronteiras intransponíveis.
Não teria dado conta desta melancolia a suspirar o desalento das sombras que crescem devagar não fosse esta tua ausência. E nada a remedeia: inflama-se este sofrimento triste de ir vendo e sentindo o dia fechando-se, guardando-se para a incerteza da próxima alvorada. Cá dentro, sobre estantes e móveis transpirando indiferença, as fotografias são folhas mortas de outono, apenas instantes retidos num passado irremediavelmente perdido. Nem a música ajuda, entoada como se a falar a espectros, como se os seus decibéis não interferissem na mesma dimensão onde estou. E os livros calam-se igualmente: afónicos e sem alma, sem carne, sem cheiro.
Tanta vida adiada quando tudo isto é sem ti, quando habito a tua ausência tão demorada.
Resistir à facilidade: é este o trabalho árduo que labuto dia após dia nas faldas da vontade e da vaidade. Não sucumbir à ludibriante tentação, com a mesma euforia religiosa de um crente.
Sopram-me aos ouvidos falinhas e falácias. Estudo-lhes o olhar, redesenho-lhes a ambição: sou espécimen com garantias de produzir. Produzir o lucro fácil, para mentes fáceis.
Monto o cenário possível: eu agradecendo de esferográfica sobre uma mesa de sorriso bonacheirão, diante de uma plateia de amigos e familiares e conhecidos
(grande parte tidos sem paradeiro e de repente ressuscitando),
a transpirar de orgulho bacoco. Agradado com a ninharia. Eu em todos os olhos em todas as mãos, mas a um fio fragilíssimo do esquecimento precoce. Mãos estendidas e sobre o ombro com a tal amizade, sacudindo o veneno de algumas invejas compreensíveis
- Como conseguiu? Qual foi a cunha?
e eu nada, indiferente, ostentando ainda o sorriso que deambula de bonacheirão para inocente. Talvez ingénuo, porventura ignorante.
Não é certamente o meu caminho, se trilho algum me abrirá o acaso e as circunstâncias do mundo para tamanha façanha que transformaria (ou não) toda uma vida futura.
Receio, seja o futuro incerto maligno ou benigno, de perder a minha liberdade individual. Bartleby até que a morte me separe?
Acontece então que já não é como tinha escrito. As palavras desintegram-se num dado momento, perdem-se as letras desamparadas na lima das tuas unhas, no retoque do teu batom, na pestana pescada do canto do olho, e tudo vem sucedendo em catadupa. São fotografias antigas as memórias que se querem repor, são de passados incolores as palavras "Lembras-te de...", e quedamo-nos mudos numa latitude paralela de tudo quanto ocupamos, de umbigo voltado para fora, a reclamar o espaço vazio das cadeiras. E nessa ocasião, as letras perdidas reencontram-se, perfilam-se como jogadores para o retrato do plantel, chega-te mais para lá, vem um pouco para a frente, dois passinhos para a esquerda, e ei-las já alinhadas formando as novas palavras que ditam o quanto crescemos, mas principalmente marcando a diferença sobre o que fomos, e que não voltaremos a ser jamais. Porque é sabido, (e eu segredo-te ao ouvido, para que ninguém se aperceba, para que possamos manter no mínimo a aparência), esta história nunca se repetirá.
Venho visitar o lugar ocupado pelos mosquitos de verão, o velho tanque repousando a fresca água da velha fonte; e acontece que me seguem os instrumentos de escrita e leitura, ferramentas confidentes do artista, para a labuta das palavras sobre um tampo de mesa mal aplainado mas marcado por gerações de escribas e leitores dos serões onde a poluição ainda não conhecia o comprimento das ondas hertzianas. Sento-me no banco tosco e vou adaptando a minha fisionomia à procura de uma posição confortável. Um carreiro de formigas atravessa na frente dos meus pés. Cauteloso como um monstro delicado, tenho o cuidado de as não pisar. Estendo a vista para o pomar em frente, reconheço umas árvores e outras não. A erva alta, rebelde. O sol deslizando para trás de uma colina. Fico por longos momentos brincado com a caneta entre os dedos. Logo faz-se noite e o papel ainda branco. Após uma pausa, que não sei dizer ter sido breve nem longa, escrevo o meu nome, de letra enviesada, à mercê dos relevos do tampo da mesa. O meu nome e mais nada. Levanto-me, estico as pernas, espreguiço os dedos. O meu nome à luz parda do entardecer. E com tanta coisa de que poderia ter dissertado. Ali, o meu nome, agora riscos até a noite engolir a brancura do papel. Não faz luar nesta latitude, e o meu nome existe, ali, depois de abandonar o local, para assistir, do outro lado, o romper de um novo dia. O meu nome. Eu. E uma flor de narciso ao lado, no tampo irregular da mesa onde escribas e leitores mais antigos.
Trazes sorrisos contigo, a abraçar ternuras da noite. O copo nos lábios afasta-te do olhar as sombras cravadas dos objectos, ignorando por dentro a nudez das paredes, os recantos escuros que a luz não alcança e onde o pó ressona de estuque junto à cadeira onde me sento.
Vens para me chamar à sinfonia dos grilos na colina que sobe adiante, o riacho absorvido num espectro de luar e águas a encostar-se ao meu sono.
- Ouve!, ordenas-me espetando o dedo no ar, como se viesses professar a divindade da noite: a música rompeu, já se dança, o fogo no ar exibindo piscadelas atrevidas; é tempo de sacudirmos os corpos, fazer levantar a poeira.
Então ergo-me da cadeira, fingindo indisposição, sem dar braços a torcer, meio sorriso, meio enfado, guiado ao colo dos teus braços. Trazes sorrisos contigo, abraças-me com a ternura da noite. E com noites de verão como estas, que farei lamuriento quando tudo me parece renascer?
O mar ruge como fêmea aflita. Toma-me nu o corpo com uma timidez fria, tocado a medo e receios de virgem. Eu vou entrando devagar, tacteando-lhe a espuma com a polpa dos dedos, numa carícia prolongada e terna, afagando cada ondulação até sentir a humidade quente no retorno de uma suave onda de carinho.
Estende-se na praia sob o sol do desejo, torna a vir, puxa-me. Avança sobre mim rugindo mansamente e sou eu dentro, inteiramente túrgido de prazer. Repele-me. Cobre-me novamente, investindo saliva. O sal e o hálito das algas chegado ao meu olfacto. Abre-se. Investe novamente, recobrando-me a língua e os lábios como se eu peixes e caravelas, e piratas e ilhas perdidas. Abraça-me num constante vai-e-vem pela baía.
O mar esvai-se, quando saio fatigado. Torcido como se fêmea fremindo de prazer. Aflita.
Sabes, há dias em que é obrigatório parar e reflectir. Sei que é um cliché gasto e tu olhas-me de lado num tom de “que vem a ser isto agora?”. A vida é um perfeito cliché, meu amor, feita de todos os lugares-comuns que conheces. Atravessa-nos o corpo e a alma sem dó nem piedade. Falta-nos sempre o alguma coisa que vem afinal a ser tudo. E não alcanças, talvez nem almejes o pouco que falta, o tudo que é nada. Agora o que te peço é que me ouças, bebericando a tarde no teu copo multicolor.
Vim agora mesmo de ver o mar, e perdi-me, afogado, no turbilhão das memórias. Se as contasse teria que fazer uma canoa, ou uma jangada com as palavras. As tuas perguntas, sempre curiosas, seriam o remo e o leme. A minha mão como uma tabela das marés. E a tua boca, sem cuidado, rochedo firme e encalhado, ou talvez – se é com um bocejo que me ouves – a ponta do iceberg traiçoeiro.
De maneira que, e à semelhança do lugar-comum do desencontro, deixo-te um molho de chaves, dois passes de metro - não te vás perder por aí – e despeço-me. Como nesta canção do Chico. Tudo o resto sobra, é pano a mais. Como te disse, perdi-me. Sem fio de Ariadne. Já sei que não gostas de teias nem de aranhas. Mas foram as tuas mordeduras que me ficaram.
Vestida de luz, por Elsa Mota Gomes em 1000 imagens
A penumbra da tua púbis revela a floresta húmida e quente da minha perdição. Dispo-me perante a janela de sombras para a rua com o sabor do vinho na pele. Os teus seios são estátuas erguidas e o rubor da noite inventado na tempestade dos teus lábios a fervilhar por mim como espuma, mar que se esvai na garganta de todo o prazer. Vem comigo a esquecer o calor do dia, voláteis sob o néon da cidade. As ruas vibram e brilham com música em cada vão de escada suspirando frenéticas desenvolturas. Desenho a circunferência dos nossos corpos, de haste a convocar deuses pagãos. Soletra-me a esfinge da glande, torna ao chão como cadela com cio. Vens do vinho, e eu venho-me como galáxia distante, e todo o universo é aqui, por dentro a fecundar o verão virgem de sedes. Como se mortos, nos sentíssemos vivos. Sem que o dia retome. Eternizando a noite em bebedeiras de azul.
Deixa-me morder as mãos com a saliva da tinta a incendiar raivas e desdéns, sem deixar convalescer misericórdias sobre as palavras enlutadas de vento. Deixa-me ser a vela amotinada, sopro de vida do punho cerrado, braços levantados, a espuma do mar enverdecendo de bílis os cálculos humanos. Que posso valer ao mundo senão grito levantado e insolente, que serei senão blasfémia de toda a conformidade imposta, arqui-inimiga dos sorrisos plastificados chafurdando nas sodas e nos apelos cor-de-rosa? Solto-me de manipulações ideológicas, verborreias demagógicas, para ser a raiz o osso a carne os dentes que mordem e ferem, língua bifurcada apedrejada amaldiçoada. Sou estridência como sol a pino, nascendo nas entranhas do mundo, comendo das entranhas do mundo, defecando as entranhas do mundo.
Foi o mundo que me concretizou, me conquistou, levedou-me em beleza servida de licores amorosos. Nasci em rosto fechado de inocência atrás de portas e janelas que doíam de luz. Sem mãos capazes para a agarrar. Depois disso uma convulsão de anos estúpidos, a dissolver o que os olhos não sabiam ainda descodificar. Então uma nesga dessa luz apanhou-me como se uma teia desalinhada. Apanhada a monte entre o ontem e o que virá. Subi até onde o medo consentiu. Guardei sombras na algibeira que me tomavam os sonhos. E na escalada mais promissora revi o mundo, como quem é apunhalado de costas: volto-me a encarar a face da traição e escancaro-me entre a angústia e a maravilha.
Queria dizer-te tudo, desde a alvorada das árvores ao crepúsculo dos rios. Ou começando pelos teus olhos e acabando nos meus dedos. Pousar-te na mão a cartilha da vida. Porém, enfim, só sei dizer-te que não sei.
Não sei explicar os bicos dos pássaros, as escamas dos répteis, os olhos dos peixes, o vento nas folhas das árvores, o azul do dia e o negro salpicado da noite. Não sei dizer sobre o rato e o morcego nem sobre as libelinhas ou as formigas. Não sei como explicar a cor da terra e o calor do magma, não compreendo a temperatura da chuva e a espuma do mar quando enrola. Não sei explicar a janela recortada nem a porta de entrada.
Não sei apontar a gravidade dos astros e a velocidade da luz. Não sei como falar sobre o que já não vive e muito menos dissertar sobre o que vem vivendo. Não sei explicar uma gota e uma inundação, a montanha e um grão de pó. Não sei nada sobre as rodas que circulam nem sobre as pontes unindo as margens.
Não sei explicar-te quase nada, nem mesmo dizer-te porque sorris. Do que eu tenho a certeza é eu falar-te e tu escutares-me. E dos nossos cigarros acesos em anéis azuis. Mais nada sei, tudo me é confuso.
E ainda assim, insistes em quereres que te diga quem eu sou: não sei, minha querida, nada sei.
não acendas ainda a luz nem corras os estores, deixa marinar um pouco mais esta ressaca na sombra dos meus pesadelos mais recentes, tragados a fel de nostalgia e desespero. O dia fervilha de luz na ombreira da porta e a manhã, sabes
(a manhã que sempre me espantou com a sua boca delicada de lírios)
não iria continuar se me mostrasse plantado entre olheiras neste rosto de granito. Chovesse talvez
(essas pérolas que ainda me adoçam a alma)
e estenderia a mão afugentando o fumo dos cigarros para ver as vidraças tristes, mas bem vês que não há chuva ou correm nuvens de oeste, nem sequer nevoeiros que me ajudem a suportar devagarinho os nós e as correntes que me afligem, a levantar-me desta preguiça visceral de medo, de tudo o que já não ouso respirar. Há o sol
(perguntando duvidoso nos estores da janela)
que aguenta a manhã no brilho das flores e eu sem coragem para te oferecer um beijo, dizer que te amo como se bom dia, qualquer coisa que
(vais dizer-me que não há motivos)
pudesse fazer ou dizer para que não temas, não receies. E não te afastes. Não vejo o teu rosto, bem sei, mas sinto-te o olhar gritando e nos lábios o mesmo fervilhar do sol lá fora nesta manhã de verão. Tudo arde e grita e ama e a minha pele acinzenta-se com golpes de solidão
(a manhã perpetuando as horas na esperança que)
e dizem-me mais uns dias, num risco de voz trémula
(com pena?)
como se isso não fosse o bastante para contar uma eternidade, desde que te sinta as mãos a medir-me a testa e o resto sombra, para que não perceba o teu lacrimejar, gotas de mar mediterrâneo que me prende ainda mais à vida, e tenho medo, tu sabes que tenho medo e sorris
(a manhã perpetuando as horas na esperança que venha saudá-la para me deixar mais uma pequena brisa de vida, restaurar a cor da minha pele)
e tudo seria para mim tão patético e lamechas como um daqueles filmes que assistias aos domingos nos intervalos das nossas tardes de amor durante o inverno, mas agora tornou-se tão sério desde que ressacas dias e noites a contar a origem do fim.
Diz à manhã
(por favor)
que se deixe crescer, promete-lhe que os lírios levo-os comigo. E quando o corpo arrefecido, permite que o sol desfaça a sua curiosidade.
Deixo o dia abater-se contra o muro: mil pedaços se formam no horizonte futuro, antevendo amanhãs desmoronados. E dos escombros se abrirá caminho, lentamente, até onde o chão poderá verdejar, e as feridas dos meus pés fecharão. Sílaba a sílaba és tu quem constrói o novo caminho e por vezes fico sem palavras perante o alinhamento perfeito do destino das tuas frases. É no teu trabalho sobre a pedra que as palavras te exigem, sob o cansaço dos dias te espremendo em hesitações, alegrias e angústias, que reergues a muralha onde nos pouparemos abrigados dos ataques verborreicos dessas gentes em falsos pedestais teimando
(como se qualquer um fosse capaz de construir um muro, uma casa, rasgar ruas e avenidas, alargar aldeias e cidades)
Quando implodir a tua fadiga lembra-te do mar. As vagas sucessivas mesmo que o mundo ao teu redor pare. É entrando mar dentro que te reencontras, no princípio e no fim, ao útero enfim regressando. Segredam-te as gaivotas num espanto de voo tão realizado de silêncios. A areia vai engolindo os teus pés, enquanto os olhos procuram sedentos pelo fim do horizonte. E quando só a tua cabeça e as ondas que assombram divagando os contornos do teu corpo, então mergulhas, por inteiro. Assim como no princípio o fim. Já não escutarás o segredo das gaivotas. Nem o que te diz o silêncio. Agora tudo é água, caldo de fauna e flora, sal que aos poucos te dissolverá na boca. Já sem fadigas. Já sem ti. E o mundo que desapareceu ao teu redor. Quando fores rocha ou fóssil, e a corrente te trouxer sob o voo sereno das gaivotas, chorarão as areias que te largaram os pés. E o seu luto será o céu plúmbeo na entrada do próximo Inverno.
Ver passar os dias e tudo sem acontecer, cá dentro. As ruas trazem rugidos de feras motoras, fumos, cheiros, e também coros de vozes que não se entende o que vão dizendo. O vento é como uma criança, soprando incauto contra os ramos das árvores estátuas, dilacerando-se na altura dos prédios, o sol erguendo-se todas as manhãs num mesmo brilho multi-milenar, sempre sem cansaço. Tudo tão naturalmente eterno, estendido entre o antes e o depois de mim, e eu assim aqui, assistindo passivamente sem nada acontecendo cá dentro.
Não é bem verdade: envelheço. Como as cortinas frágeis amarelecendo na janela que com os dias e os anos vai parecendo sempre e cada vez mais cinzenta, mais sombra que luz. Envelheço como os edifícios vão esboroando, ou como as ruas perdendo-se no solo sem nunca recuperar o fôlego. Há imenso tempo que nada ao meu redor é deserto. E, no entanto, é um deserto que sinto espalhar-se cá dentro em que os ruídos, os movimentos e a luz serão fantasias, miragens. Naufraguei imergindo em mim mesmo. Envelhecendo, porque os dias não ficam sem passar. Mas só isso: envelhecendo. Onde foi que me perdi?