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28 de julho de 2018

em pé

Kültür Tava

Sustém a fadiga a beijar o corpo e deixa-me sair como quem se despede para destino incerto, a saber que o fogo também unge e salva, que nada espera. Censura-me se encosto o ouvido à lamúria, advertindo-me sobre as auroras prenhes de luz. Pois que estou com esse medo de todo que me quebre o corpo, e de um assombro perca os membros, e me resigne a uma inutilidade de réptil por em oco deixar-se o osso definhar onde rémiges haviam de crescer para me tornar alada e dessa forma a divina que viste em mim.

Já só dói o teu sorriso aquecendo a líbido das mulheres alheias ao teu anseio. Não sei imaginar a tamanha saudade que vou ter de ti. Hei-de procurar-te na orla do mar. Não por acreditar na redenção do pôr-do-sol idílico preliminar dos amantes em estampas românticas. Hei-de ir na madrugada mais escura, fria, se possível na porcelana branca do nevoeiro. Procurar-te e ser invisível, ou apenas vapor sem forma ou claridade. Não terás a necessidade das lágrimas então, certo que o teu regresso seria erro de feitio, insistir no fôlego quando o ar é tão rarefeito.

Fico bem. Sabes que a mim não me bastou nunca o sofrimento. Satisfaz-me sentir o cheiro do sangue, afirmando a certeza que as feridas cumprem e são concretas na dor. E fujo da morte como castigo. Se morresse, certa estou que seria para um nosso reencontro. Lá não há nada, não queiras ser nada entre os meus braços. Não venhas. Pretere o vazio, que em mim mais fundo e tenebroso é o abismo.

Sustém a fadiga a beijar o corpo e deixa-te sair como quem rende os dias, a saber que a terra é sacrilégio para quem fica. E pesa. Como pesa, ainda que as brisas e os ventos. E as árvores testemunhando, irmãs, que é em pé que se ganha a eternidade. E a solidão.

22 de julho de 2018

as algibeiras de virgínia



Trouxe qualquer coisa na algibeira que se abeirava

(disse para consigo)

a uma oportunidade de

– finalmente!

(repetiu)

ser feliz.

Estudou, viajou, sentiu cheiros e sabores, observou. Afinal, não: impossível a felicidade conjugada com o verbo ser. Pôde perceber na poluição dos rios, nos caminhos percorridos sem calçada ou macadame.

Triste porque inacabado enquanto homem

(concluiu),

dirigiu-se ao cume de um relevo sem perceber o abismo. Por simples curiosidade, deu conta apenas do escuro fatal das águas correndo declive abaixo, ao fim de tudo.

Tudo tão no fim, tudo tão declinado e em baixo

(lembrou de dizer para si próprio)

a vida toda feita num abissal baixo, como se o céu desmesuradamente distante das ambições  humanas. Tomar a lua foi falsa promessa e conquista?, indagou ainda.

Recolheu-se num gesto de resignação a baixar os braços, e percebeu na algibeira o volume e o peso do que o levou a chegar ali: a oportunidade de se abeirar de algo que teria levado anos a concretizar. Do que foi em tempos. Foi sem tempo que concluiu:são afinal pedras, pesadas, em todas as algibeiras que vem carregando a humanidade.

Súbito, um impulso subiu corpo acima, tremesse embora das pernas e a aflição no peito: era como um sussurro – encosto do espírito da Virgínia!, suspirou, em cautela supersticiosa – a dizer-lhe que o abismo é apenas ar.

Agora, podemos anunciar, já não existe: pairamos sobre ele, como abutres que somos, a observar-lhe os escombros da queda quando soçobrou, como homem que foi, lá em baixo, a julgar os abismos.

13 de julho de 2018

teatro anatómico



Bom dia. Entra e fecha a porta. Vem verificar as nódoas visíveis sobre a pele. Finge-te erudita do asseio, e que zelas pelo corpo como bibliotecária em Alexandria. Não receies, que fogo algum poderá destruir o legado que herdaste e vens cuidar com precisão de luva. Aguenta-te no acidente, que os objectos frágeis são susceptíveis à perda eterna, ao cabo da extinção, ao fino fio tenso entre os picos, a tremelicar sobre o abismo da existência. Se sentires que o corpo vacila dá-lhe quarentena e deixa-o em repouso como se fosses jejuar no deserto. Ao regressares move-te com atitude felina ou cautela de pluma. Abre muito devagar cada poro e liberta o mofo, soprar para que se respire, observando se as sombras se espantam. Leva o corpo em troféu derradeiro para o teatro anatómico e faz suspender a luz. Sai e fecha a porta. Boa noite.


31 de julho de 2013

esta paixão segundo isto

foto de Alexander Sikov

Escusa-me deste sufoco de me sentir perdido no tempo, como se, de tonto ou doente, colocasse cabeça e boca à banda a tactear o ar num desespero de náufrago. Porque me desvias agora o olhar 

(tu que quando te procurava sempre sorrias aliviando-me o peso das minhas existenciais crises depressivas) 

e me deixas à mercê desta agonia que me sobe no sangue até ao nó da garganta, revoltando o peito em taquicardias, dando aso a que a ansiedade se liberte esparvoada esbardalhando-me os sentidos, o equilíbrio, e então o pânico generalizado orgânica e emocionalmente em tudo o que é em mim, galgando os pensamentos, rosnando-me aos movimentos…? 

Pedi-te que assim não fosse, que aceitasses sem razão as palavras confidentes sem qualquer contrição ou juízo de moral; mas como poderia eu exigir assim da tua vontade? Como posso pedir-te indiferença ao perigo de te deixares também ir sem a expectativa do regresso, a animar ilusões, mesmo que te sintas, à partida, imune e contrariada de tais acidentes emotivos? 

Vou deitar as tardes a dormir para mitigar a cabeça destas incertezas, dos medos, das angústias. Nunca durmo, porém. Deitar as tardes a dormir é um queixume velho meu, arvorado nem sei já em que poema antigo da juventude, e que simplesmente dará o mesmo resultado que o enterrar a avestruz a sua cabeça na areia. Isto é: que fujo, que me aguento cobarde e inerme. 

Engole toda a luz a noite caindo, e essa escuridão que se junta à negritude da alma resume as insónias acumuladas. Sirvo-me do sono apenas quando já o dia rompe vigoroso a despertar os vivos. Que é quando, da fadiga, após a secura da boca e da luta contra a tensão dos músculos e dos nervos, o corpo se rende, como que apanhado numa doença viral, febril, acometido de tremuras e demais convulsões. 

Podes tu tanto poupar-me a estes acometimentos ridículos de que sou provocador e vítima. Salvar-me como heroína de romance oitocentista de tantos e tamanhos tormentos a que a alma apaixonada se dispõe. Que um abraço – vê lá tu, um simples abraço! – embora sem garantias promissoras nem a servir vãs esperanças, apenas apertado de ternura 

(podias mesmo justificá-lo como acto cristão de amor ao próximo… 

… mas salvo de misericórdia, por favor!) 

que um abraço assim talvez me fosse suficiente para que amparado pudesse transformar num suspiro 

(ainda que a insinuar o último exalar do corpo) 

a oportunidade concedida de respirar aliviado, desinfestando a negritude, a desilusão, os soluços da convulsão dos prantos, e voltar 

(sem pieguices) 

a sorrir interiormente. 

Diz-me, impiedosa: é esse abraço que vais continuar a recusar-me?

21 de julho de 2012

natureza viva

vestida de luz, por Elsa Mota Gomes em 1000 imagens
para a Anabela Maria


A afogar-me emocionado na flor carmesim do teu corpo: as minhas lágrimas concentradas para o desabafo leitoso da haste que te segura as pétalas, enquanto a luz anuncia o intervalo entre o fresco hálito de uma madrugada marinha e a promessa de uma alvorada ainda por trás das colinas. Os teus dedos mexem como as folhas e a seiva deste caule, a tua língua ladrilhando de orvalho a sua textura de veludo, e num suspiro as pombas esvoaçando alvoroçadas com o brilho da manhã.

Deslumbras-me com os botões a enfeitar os cumes altos e largos do teu peito, bolhões de água viva provocando o fervor das minhas mãos e saciando-me a sede impaciente dos lábios que procuram o seu desabrochar. Tens a cor do musgo nos olhos, penetrada nos meus com brilho e sombra e paixão, e o perfume do tojo e da giesta na tempestade voluta dos teus cabelos a perpetuar a primavera em mim.

E quando as tuas pernas, acariciadas pela flor do trigo, me prometem o pão em delicados movimentos, já eu sou todo fera faminta de carne, farejando o teu sangue, uivando em sucessivos gritos de um qualquer ritual gentio de evocar o solstício, entregue ao vinho pisado, ao mosto, mordendo os figos leitosos. De tão ébrio de ti vou que, desequilibrado de espasmo, perco-me a semear-te no ventre toda a espuma de mim ao mesmo tempo que te entregas e te estilhaças em rebentações contínuas de onda insaciável.

Esvaneceu-se então o crepúsculo, com as asas das pombas desenhando sombras chinesas na janela. Fotografo-te com a memória: tu ainda te contorces numa ternura infantil e tão delicada de carne e pele e cheiro que arredo o efémero do momento e convido-te a retomarmos pela orla do dia o nosso corso de natureza viva.


17 de julho de 2011

adágio


Vai ficar o homem de vestes rasgadas em desconsolo de pranto, esmagado ao chão de que nunca mais subirá. Os céus já só pertencem às aves, desorientadas e famintas. Está o homem de cócoras sobre os escombros daquilo que aprendeu a chamar civilização. Chora de cócoras com um corpo inerte ao colo num abraço de angústia.

As bocas em gritaria dirão: é o fim-do-mundo. Mas este mundo escaqueirado apenas recomeça sem nunca ter conhecido efemeridade. O mundo está para lá das bocas abafadas pelo assombro do seu poder, e dos medos, e das cabeças que pensam, planeiam, projectam, mandam edificar e depois destroem. O mundo nunca lhes pertenceu, apesar de terem acreditado que o dominavam, que desaparecendo eles o levavam no mesmo destino. O mundo respirou sempre à parte, sem linhas da vida traçadas nas mãos. Sim, o mundo apenas recomeça, sem acrescentar à poeira e à lama qualquer tranche de esperança que até então a humanidade julgara ser a última a perecer.

Vai ficar o homem só porque desta vez se salvam apenas os que já não podem, e palas cresceram para além das orelhas e do nariz como autênticos apêndices nas cabeças das pessoas que nunca mais lhes permitirão olhar em volta. O homem fica chorando só, com as vozes e as luzes do passado plantadas na sua memória a lembrar-lhe como tudo fora e agora afinal.

Tudo capitulou: as sombras sobre as fontes frescas de agostos quentes, o aconchego do lar nos dezembros varridos pelas neves; as crianças em algazarra nos parques e o vento lidando no alto das árvores; as esplanadas oferecendo cerveja e as salas de concertos; as lojas, os bancos, as fábricas, as escolas e as igrejas, as câmaras municipais, os palácios governativos, os ministérios. O homem não sentirá os seus semelhantes pisando-lhe os pés, nem esbofeteando-lhe as faces ou agarrando-lhe o pescoço. Tudo o que havia dele fica na memória, sempre futura porque deixa de haver passado e presente. Tudo o que havia dele está no corpo abraçado ao sal das suas lágrimas.

Não verá o homem a cor do dinheiro, os prédios altos, aviões atravessando hemisférios, pontes ligando margens, mercados e centros oferecendo o que as pessoas não pensavam procurar. Emudeceram as sofisticadas máquinas (e as menos sofisticadas por misericórdia), voltando à sua condição de objectos, meros materiais inanimados que aspiraram um dia ser vida. Inutilidade é a sua única versão, o que resta escrito nos seus manuais de instruções. Esqueceu o homem o sofá creme de napa, os quadros nas paredes, o abat-jour antigo, os comandos remotos que davam acessos às cenas da televisão. Foram-se os tapetes de asfalto, e só para abrigo das incontroladas chuvas negras servem os automóveis parqueados sem alinhamento. Morreram as modas: vestir e calçar sem preceito, gravatas aniquiladas, saltos altos que desceram à terra batida, blasers ou paletós a servir de cobertores. Foram-se os gestos ponderados, os tiques, as formosuras, os bons modos. Não se pensa em obesidade ou anorexia. Não se pensa em comer. Não se pensa no que não há e no que se não tem. Os penteados entraram em desalinho, os lábios gretaram de sede, as unhas dos dedos farpadas de arranhar o chão.

O mundo, no longe e escuro espaço entre cada corpo celeste, permanece como planeta azul. Azul porque os mares e o sol e a luz. Porque continua a ouvir-se o planeta sussurrando a sua trajectória com os demais congéneres. E um sussurro a mais agora se pode sentir, não sei se será cósmico, mas daqui sente-se, um sussurro que suspira com o homem.

Este homem não vai ter descendência. Será só, sem poder dar filhos aos donos dos escombros. Fica só e órfão o homem que percebeu que nunca deixara de ser o menino da sua mãe.

É ela quem ainda mantém nos braços, morta de poeira e lágrimas, como se os séculos também tivessem deixado de existir.

E dizemos adeus ao homem, porque esquecemos o até já, o até logo, o até amanhã, o em breve nos veremos. Dizemos adeus sem acenar porque estamos tão cansados dos braços e das mãos e das pernas que nem sabemos se somos vivos ou se alguma vez vivemos. Dizemos adeus ao homem sem acenar pois também não é necessário. Ele não vê.

O homem dirá por fim uma oração. Vai orar pelos que foram e pelos que ficam, sós como ele agarrados a destroços, lambendo a lama de cinza e lágrimas. Dirá a última oração onde o nome de qualquer deus que seja não será lembrado.


24 de julho de 2009

da janela entardecendo


Paisagem da janela por Maringá em overmundo


Demora-se a tua ausência na rua deserta, nas janelas em frente sem rostos que venham espreitar sequer. Os automóveis passam escuros como objectos incógnitos, e os autocarros seguem vazios com a sua luz branca esbatida a lembrar salas de espera de urgência hospitalar madrugada dentro. Aos poucos a suspirada claridade do crepúsculo vai vestindo a penumbra que sai nascida nos recantos, nas esquinas, nos jardins desertificando. Percebe-se a agitação lenta dos ramos altos das árvores ao vento ameno anunciando um princípio de noite mais frio do usual nesta altura do ano, como se o verão se tivesse distraído ou quisesse esconder-se, a adiar o seu compromisso.

É certo que a noite vindoura será viva e animada em muitos pontos coloridos da cidade imensa e quiçá nesses pontos nem se venha a notar ponta de frio, são microclimas de calor humano que rejeito sempre penetrar, menor é ainda a vontade se não estás. E embora se sinta o cheiro desses verões muito particulares, apesar do vento, nada disso sucede nestas paragens que vão emudecendo com a noite. No mínimo nada acontece ao alcance desta janela onde testemunho os arruamentos entristecidos no latir dos cães que parecem ao ouvido tão distantes uns dos outros como se comunicassem o seu choradinho entre fronteiras intransponíveis.

Não teria dado conta desta melancolia a suspirar o desalento das sombras que crescem devagar não fosse esta tua ausência. E nada a remedeia: inflama-se este sofrimento triste de ir vendo e sentindo o dia fechando-se, guardando-se para a incerteza da próxima alvorada. Cá dentro, sobre estantes e móveis transpirando indiferença, as fotografias são folhas mortas de outono, apenas instantes retidos num passado irremediavelmente perdido. Nem a música ajuda, entoada como se a falar a espectros, como se os seus decibéis não interferissem na mesma dimensão onde estou. E os livros calam-se igualmente: afónicos e sem alma, sem carne, sem cheiro.

Tanta vida adiada quando tudo isto é sem ti, quando habito a tua ausência tão demorada.

4 de julho de 2009

variante da síndrome de Bartleby



Resistir à facilidade: é este o trabalho árduo que labuto dia após dia nas faldas da vontade e da vaidade. Não sucumbir à ludibriante tentação, com a mesma euforia religiosa de um crente.

Sopram-me aos ouvidos falinhas e falácias. Estudo-lhes o olhar, redesenho-lhes a ambição: sou espécimen com garantias de produzir. Produzir o lucro fácil, para mentes fáceis.

Monto o cenário possível: eu agradecendo de esferográfica sobre uma mesa de sorriso bonacheirão, diante de uma plateia de amigos e familiares e conhecidos

(grande parte tidos sem paradeiro e de repente ressuscitando),

a transpirar de orgulho bacoco. Agradado com a ninharia. Eu em todos os olhos em todas as mãos, mas a um fio fragilíssimo do esquecimento precoce. Mãos estendidas e sobre o ombro com a tal amizade, sacudindo o veneno de algumas invejas compreensíveis

- Como conseguiu? Qual foi a cunha?

e eu nada, indiferente, ostentando ainda o sorriso que deambula de bonacheirão para inocente. Talvez ingénuo, porventura ignorante.

Não é certamente o meu caminho, se trilho algum me abrirá o acaso e as circunstâncias do mundo para tamanha façanha que transformaria (ou não) toda uma vida futura.

Receio, seja o futuro incerto maligno ou benigno, de perder a minha liberdade individual. Bartleby até que a morte me separe?

28 de julho de 2008

aparência


(daqui)


Acontece então que já não é como tinha escrito. As palavras desintegram-se num dado momento, perdem-se as letras desamparadas na lima das tuas unhas, no retoque do teu batom, na pestana pescada do canto do olho, e tudo vem sucedendo em catadupa. São fotografias antigas as memórias que se querem repor, são de passados incolores as palavras "Lembras-te de...", e quedamo-nos mudos numa latitude paralela de tudo quanto ocupamos, de umbigo voltado para fora, a reclamar o espaço vazio das cadeiras. E nessa ocasião, as letras perdidas reencontram-se, perfilam-se como jogadores para o retrato do plantel, chega-te mais para lá, vem um pouco para a frente, dois passinhos para a esquerda, e ei-las já alinhadas formando as novas palavras que ditam o quanto crescemos, mas principalmente marcando a diferença sobre o que fomos, e que não voltaremos a ser jamais. Porque é sabido, (e eu segredo-te ao ouvido, para que ninguém se aperceba, para que possamos manter no mínimo a aparência), esta história nunca se repetirá.

27 de julho de 2008

flor de narciso




para António Lobo Antunes



Venho visitar o lugar ocupado pelos mosquitos de verão, o velho tanque repousando a fresca água da velha fonte; e acontece que me seguem os instrumentos de escrita e leitura, ferramentas confidentes do artista, para a labuta das palavras sobre um tampo de mesa mal aplainado mas marcado por gerações de escribas e leitores dos serões onde a poluição ainda não conhecia o comprimento das ondas hertzianas. Sento-me no banco tosco e vou adaptando a minha fisionomia à procura de uma posição confortável. Um carreiro de formigas atravessa na frente dos meus pés. Cauteloso como um monstro delicado, tenho o cuidado de as não pisar. Estendo a vista para o pomar em frente, reconheço umas árvores e outras não. A erva alta, rebelde. O sol deslizando para trás de uma colina. Fico por longos momentos brincado com a caneta entre os dedos. Logo faz-se noite e o papel ainda branco. Após uma pausa, que não sei dizer ter sido breve nem longa, escrevo o meu nome, de letra enviesada, à mercê dos relevos do tampo da mesa. O meu nome e mais nada. Levanto-me, estico as pernas, espreguiço os dedos. O meu nome à luz parda do entardecer. E com tanta coisa de que poderia ter dissertado. Ali, o meu nome, agora riscos até a noite engolir a brancura do papel. Não faz luar nesta latitude, e o meu nome existe, ali, depois de abandonar o local, para assistir, do outro lado, o romper de um novo dia. O meu nome. Eu. E uma flor de narciso ao lado, no tampo irregular da mesa onde escribas e leitores mais antigos.

18 de julho de 2008

trazes sorrisos


(daqui)



Trazes sorrisos contigo, a abraçar ternuras da noite. O copo nos lábios afasta-te do olhar as sombras cravadas dos objectos, ignorando por dentro a nudez das paredes, os recantos escuros que a luz não alcança e onde o pó ressona de estuque junto à cadeira onde me sento.

Vens para me chamar à sinfonia dos grilos na colina que sobe adiante, o riacho absorvido num espectro de luar e águas a encostar-se ao meu sono.

- Ouve!, ordenas-me espetando o dedo no ar, como se viesses professar a divindade da noite: a música rompeu, já se dança, o fogo no ar exibindo piscadelas atrevidas; é tempo de sacudirmos os corpos, fazer levantar a poeira.

Então ergo-me da cadeira, fingindo indisposição, sem dar braços a torcer, meio sorriso, meio enfado, guiado ao colo dos teus braços. Trazes sorrisos contigo, abraças-me com a ternura da noite. E com noites de verão como estas, que farei lamuriento quando tudo me parece renascer?

13 de julho de 2008

fêmea aflita



O mar ruge como fêmea aflita. Toma-me nu o corpo com uma timidez fria, tocado a medo e receios de virgem. Eu vou entrando devagar, tacteando-lhe a espuma com a polpa dos dedos, numa carícia prolongada e terna, afagando cada ondulação até sentir a humidade quente no retorno de uma suave onda de carinho.

Estende-se na praia sob o sol do desejo, torna a vir, puxa-me. Avança sobre mim rugindo mansamente e sou eu dentro, inteiramente túrgido de prazer. Repele-me. Cobre-me novamente, investindo saliva. O sal e o hálito das algas chegado ao meu olfacto. Abre-se. Investe novamente, recobrando-me a língua e os lábios como se eu peixes e caravelas, e piratas e ilhas perdidas. Abraça-me num constante vai-e-vem pela baía.

O mar esvai-se, quando saio fatigado. Torcido como se fêmea fremindo de prazer. Aflita.

30 de julho de 2007

lugares-comuns


foto de Susana Ferreira em 1000 imagens



Trocando em Miúdos, por Chico Buarque

Sabes, há dias em que é obrigatório parar e reflectir. Sei que é um cliché gasto e tu olhas-me de lado num tom de “que vem a ser isto agora?”. A vida é um perfeito cliché, meu amor, feita de todos os lugares-comuns que conheces. Atravessa-nos o corpo e a alma sem dó nem piedade. Falta-nos sempre o alguma coisa que vem afinal a ser tudo. E não alcanças, talvez nem almejes o pouco que falta, o tudo que é nada. Agora o que te peço é que me ouças, bebericando a tarde no teu copo multicolor.

Vim agora mesmo de ver o mar, e perdi-me, afogado, no turbilhão das memórias. Se as contasse teria que fazer uma canoa, ou uma jangada com as palavras. As tuas perguntas, sempre curiosas, seriam o remo e o leme. A minha mão como uma tabela das marés. E a tua boca, sem cuidado, rochedo firme e encalhado, ou talvez – se é com um bocejo que me ouves – a ponta do iceberg traiçoeiro.

De maneira que, e à semelhança do lugar-comum do desencontro, deixo-te um molho de chaves, dois passes de metro - não te vás perder por aí – e despeço-me. Como nesta canção do Chico. Tudo o resto sobra, é pano a mais. Como te disse, perdi-me. Sem fio de Ariadne. Já sei que não gostas de teias nem de aranhas. Mas foram as tuas mordeduras que me ficaram.

O resto é teu. Sem lugares-comuns.

29 de julho de 2007

do vinho


Vestida de luz, por Elsa Mota Gomes em 1000 imagens


A penumbra da tua púbis revela a floresta húmida e quente da minha perdição. Dispo-me perante a janela de sombras para a rua com o sabor do vinho na pele. Os teus seios são estátuas erguidas e o rubor da noite inventado na tempestade dos teus lábios a fervilhar por mim como espuma, mar que se esvai na garganta de todo o prazer. Vem comigo a esquecer o calor do dia, voláteis sob o néon da cidade. As ruas vibram e brilham com música em cada vão de escada suspirando frenéticas desenvolturas. Desenho a circunferência dos nossos corpos, de haste a convocar deuses pagãos. Soletra-me a esfinge da glande, torna ao chão como cadela com cio. Vens do vinho, e eu venho-me como galáxia distante, e todo o universo é aqui, por dentro a fecundar o verão virgem de sedes. Como se mortos, nos sentíssemos vivos. Sem que o dia retome. Eternizando a noite em bebedeiras de azul.

22 de julho de 2007

abismo

Deixa-me morder as mãos com a saliva da tinta a incendiar raivas e desdéns, sem deixar convalescer misericórdias sobre as palavras enlutadas de vento. Deixa-me ser a vela amotinada, sopro de vida do punho cerrado, braços levantados, a espuma do mar enverdecendo de bílis os cálculos humanos. Que posso valer ao mundo senão grito levantado e insolente, que serei senão blasfémia de toda a conformidade imposta, arqui-inimiga dos sorrisos plastificados chafurdando nas sodas e nos apelos cor-de-rosa? Solto-me de manipulações ideológicas, verborreias demagógicas, para ser a raiz o osso a carne os dentes que mordem e ferem, língua bifurcada apedrejada amaldiçoada. Sou estridência como sol a pino, nascendo nas entranhas do mundo, comendo das entranhas do mundo, defecando as entranhas do mundo.

Foi o mundo que me concretizou, me conquistou, levedou-me em beleza servida de licores amorosos. Nasci em rosto fechado de inocência atrás de portas e janelas que doíam de luz. Sem mãos capazes para a agarrar. Depois disso uma convulsão de anos estúpidos, a dissolver o que os olhos não sabiam ainda descodificar. Então uma nesga dessa luz apanhou-me como se uma teia desalinhada. Apanhada a monte entre o ontem e o que virá. Subi até onde o medo consentiu. Guardei sombras na algibeira que me tomavam os sonhos. E na escalada mais promissora revi o mundo, como quem é apunhalado de costas: volto-me a encarar a face da traição e escancaro-me entre a angústia e a maravilha.

13 de julho de 2007

não sei


foto de Ana Cristina Sarmento em 1000 imagens


Queria dizer-te tudo, desde a alvorada das árvores ao crepúsculo dos rios. Ou começando pelos teus olhos e acabando nos meus dedos. Pousar-te na mão a cartilha da vida. Porém, enfim, só sei dizer-te que não sei.

Não sei explicar os bicos dos pássaros, as escamas dos répteis, os olhos dos peixes, o vento nas folhas das árvores, o azul do dia e o negro salpicado da noite. Não sei dizer sobre o rato e o morcego nem sobre as libelinhas ou as formigas. Não sei como explicar a cor da terra e o calor do magma, não compreendo a temperatura da chuva e a espuma do mar quando enrola. Não sei explicar a janela recortada nem a porta de entrada.

Não sei apontar a gravidade dos astros e a velocidade da luz. Não sei como falar sobre o que já não vive e muito menos dissertar sobre o que vem vivendo. Não sei explicar uma gota e uma inundação, a montanha e um grão de pó. Não sei nada sobre as rodas que circulam nem sobre as pontes unindo as margens.

Não sei explicar-te quase nada, nem mesmo dizer-te porque sorris. Do que eu tenho a certeza é eu falar-te e tu escutares-me. E dos nossos cigarros acesos em anéis azuis. Mais nada sei, tudo me é confuso.

E ainda assim, insistes em quereres que te diga quem eu sou: não sei, minha querida, nada sei.

11 de julho de 2007

lírios


fotografia de Joana Lorça (daqui)


Não

(por favor)

não acendas ainda a luz nem corras os estores, deixa marinar um pouco mais esta ressaca na sombra dos meus pesadelos mais recentes, tragados a fel de nostalgia e desespero. O dia fervilha de luz na ombreira da porta e a manhã, sabes

(a manhã que sempre me espantou com a sua boca delicada de lírios)

não iria continuar se me mostrasse plantado entre olheiras neste rosto de granito. Chovesse talvez

(essas pérolas que ainda me adoçam a alma)

e estenderia a mão afugentando o fumo dos cigarros para ver as vidraças tristes, mas bem vês que não há chuva ou correm nuvens de oeste, nem sequer nevoeiros que me ajudem a suportar devagarinho os nós e as correntes que me afligem, a levantar-me desta preguiça visceral de medo, de tudo o que já não ouso respirar. Há o sol

(perguntando duvidoso nos estores da janela)

que aguenta a manhã no brilho das flores e eu sem coragem para te oferecer um beijo, dizer que te amo como se bom dia, qualquer coisa que

(vais dizer-me que não há motivos)

pudesse fazer ou dizer para que não temas, não receies. E não te afastes. Não vejo o teu rosto, bem sei, mas sinto-te o olhar gritando e nos lábios o mesmo fervilhar do sol lá fora nesta manhã de verão. Tudo arde e grita e ama e a minha pele acinzenta-se com golpes de solidão

(a manhã perpetuando as horas na esperança que)

e dizem-me mais uns dias, num risco de voz trémula

(com pena?)

como se isso não fosse o bastante para contar uma eternidade, desde que te sinta as mãos a medir-me a testa e o resto sombra, para que não perceba o teu lacrimejar, gotas de mar mediterrâneo que me prende ainda mais à vida, e tenho medo, tu sabes que tenho medo e sorris

(a manhã perpetuando as horas na esperança que venha saudá-la para me deixar mais uma pequena brisa de vida, restaurar a cor da minha pele)

e tudo seria para mim tão patético e lamechas como um daqueles filmes que assistias aos domingos nos intervalos das nossas tardes de amor durante o inverno, mas agora tornou-se tão sério desde que ressacas dias e noites a contar a origem do fim.

Diz à manhã

(por favor)

que se deixe crescer, promete-lhe que os lírios levo-os comigo. E quando o corpo arrefecido, permite que o sol desfaça a sua curiosidade.

25 de julho de 2006

muralha

para António Lobo Antunes

Deixo o dia abater-se contra o muro: mil pedaços se formam no horizonte futuro, antevendo amanhãs desmoronados. E dos escombros se abrirá caminho, lentamente, até onde o chão poderá verdejar, e as feridas dos meus pés fecharão. Sílaba a sílaba és tu quem constrói o novo caminho e por vezes fico sem palavras perante o alinhamento perfeito do destino das tuas frases. É no teu trabalho sobre a pedra que as palavras te exigem, sob o cansaço dos dias te espremendo em hesitações, alegrias e angústias, que reergues a muralha onde nos pouparemos abrigados dos ataques verborreicos dessas gentes em falsos pedestais teimando

(como se qualquer um fosse capaz de construir um muro, uma casa, rasgar ruas e avenidas, alargar aldeias e cidades)

teimando em afirmar que escrevem livros.

12 de julho de 2006

fadiga

Quando implodir a tua fadiga lembra-te do mar. As vagas sucessivas mesmo que o mundo ao teu redor pare. É entrando mar dentro que te reencontras, no princípio e no fim, ao útero enfim regressando. Segredam-te as gaivotas num espanto de voo tão realizado de silêncios. A areia vai engolindo os teus pés, enquanto os olhos procuram sedentos pelo fim do horizonte. E quando só a tua cabeça e as ondas que assombram divagando os contornos do teu corpo, então mergulhas, por inteiro. Assim como no princípio o fim. Já não escutarás o segredo das gaivotas. Nem o que te diz o silêncio. Agora tudo é água, caldo de fauna e flora, sal que aos poucos te dissolverá na boca. Já sem fadigas. Já sem ti. E o mundo que desapareceu ao teu redor. Quando fores rocha ou fóssil, e a corrente te trouxer sob o voo sereno das gaivotas, chorarão as areias que te largaram os pés. E o seu luto será o céu plúmbeo na entrada do próximo Inverno.

5 de julho de 2006

deserto

Ver passar os dias e tudo sem acontecer, cá dentro. As ruas trazem rugidos de feras motoras, fumos, cheiros, e também coros de vozes que não se entende o que vão dizendo. O vento é como uma criança, soprando incauto contra os ramos das árvores estátuas, dilacerando-se na altura dos prédios, o sol erguendo-se todas as manhãs num mesmo brilho multi-milenar, sempre sem cansaço. Tudo tão naturalmente eterno, estendido entre o antes e o depois de mim, e eu assim aqui, assistindo passivamente sem nada acontecendo cá dentro.

Não é bem verdade: envelheço. Como as cortinas frágeis amarelecendo na janela que com os dias e os anos vai parecendo sempre e cada vez mais cinzenta, mais sombra que luz. Envelheço como os edifícios vão esboroando, ou como as ruas perdendo-se no solo sem nunca recuperar o fôlego. Há imenso tempo que nada ao meu redor é deserto. E, no entanto, é um deserto que sinto espalhar-se cá dentro em que os ruídos, os movimentos e a luz serão fantasias, miragens. Naufraguei imergindo em mim mesmo. Envelhecendo, porque os dias não ficam sem passar. Mas só isso: envelhecendo. Onde foi que me perdi?