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21 de junho de 2018

manifestação



Ontem toquei-me no banho
por me lembrar do teu lascivo apelo
à paz:

foi tudo certo, ergui o mastro
para desfraldar a imensa e alva
bandeira,

o punho cerrado e pulsante
por essa tão nobre causa,
mantras

para o equilíbrio dos interesses,
e a essa vontade de um cessar fogo
da carne,

lembrei o teu os nossos gritos de ordem
roucamente libertadores da tua nossa
aflita voz,

e achei-me, no final, tão realizado, ou mesmo
feliz por desta luta saber-me eu e tu cansados
vencedores.

19 de junho de 2018

justaposição



antes da lógica, mandam que o coração
seja palco geocêntrico, enquanto a silva voz,
num grito,
repudia as leis da física;
e falam-nos, com ar de incorruptível alegria,
de uma praça verde, planície até ao solstício,
como se os mares fossem declives
onde só o inferno possa ser chão,
enquanto o firmamento pétalas
de flores sem fim.

vamos lá a ver:
nada fulge como parece, e acidente
é o terreno, se vos
enganam os sentidos,
pois que no crepúsculo do dia ou na efémera estação
estais lá vós e, no firmamento,
afinal,
reina heliocentricamente a
razão.


10 de junho de 2018

escrever liberta



para a Fátima Matos

- Escrever liberta.
- Liberta o quê?
- O que te vem da alma, minha querida, tudo o que te vem da alma.
- Então muita coisa, e do coração ainda mais…
- Do coração, da alma, até do corpo – somos disso feitos.

Planta o teu sorriso, e escreve: de que é feita a terra e a sua cor. Quando é lama e pó, e as criaturas que a habitam. Das tuas unhas nela entranhadas. 

Solta o teu cabelo, e escreve: sobre o que faz soprar o vento, medonho no inverno e como uma carícia quando uma brisa no verão. Da forma como agita o mundo e ainda te faz secar as lágrimas que te lavam o rosto de amarguras ou solenes alegrias.

Esmera-te a regar as raízes, e escreve: como foi que o teu sorriso afinal medrou. Por que são tão importantes as chuvas conciliadoras ainda que seja o sol que desejes, a lamber-te a pele. Escreve sobre a planície do trigo, a forjar o pão. Por que há noite e dia, e aquela hora pequena entre a madrugada e a aurora a incentivar as flores e as copas das árvores altas, murmurando.

Abre as tuas mãos para receberes o fruto, e escreve: o que faz a carne, por que se desfaz a polpa. O que faz pulsar o sangue, e a cor leitosa do sémen. Se foram em vão ou não todos os teus sacrifícios, bem como as dores que o mundo tem. Escreve sobre o doce e também sobre o salgado. A textura da língua, e a saliva alheia que lhe sacia a sede.

Assiste da forma como se rende a tarde como virgem em furor, e escreve: de que é feita a luz e qual a razão de ser assim eterna. Como é que, sendo nós dessa condição da terra que é lama e pó, nos transformamos num brilho permanente aspirando com a morte o seguro firmamento do céu quando desce a noite.

Nessa altura, minha querida, ao repousares sentada e encostada ao tronco da árvore, a abraçar brisas de verão sob a sua sombra, lembra-te de escrever, a essa mesma árvore que te acolherá, sobre a razão de ser ela tão livre para que a natureza lhe conceda esse milagre de nos dar o seu fruto.


1 de junho de 2018

acto final

foto por Milos Korecek, via Alternatif Fotoğraf Topluluğu.


Temei mais nada, ó cães danados e feros, se a caravana já vai tão longe e tolhida de susto que do seu rastro não há-de formar-se qualquer memória! A soma dos equívocos é um pretérito de assombro, e a periferia apenas um esboço para quem tem fé num destino arquitectado. Se, ainda assim, vos atrai o abismo, saltai precipício abaixo como a vara a que o secular mestre condenou. Não tenho vocação para santuário dos infelizes e atormentados – não fosse eu, de maxilar espumoso e brilho nos caninos, esta besta inquieta entre as trevas! Sossegai, veias dilatadas, que o monstro foi solto em parte incerta e amaldiçoado; não terá mais regresso! Sustém-te, ó músculo vicioso das paixões, dos embustes, das profecias, das tragédias! O teu lugar é agora uma cadeira onde poderás assistir ao desfile perecível de toda a efemeridade – tem-te e não caias, resigna-te a bombear a vida e sê profano de toda a esperança! Também vós, ó vistosas e impacientes fêmeas, recolhei o facho entre as pernas, deixai que o vosso corpo recupere da ofegante e arfada jornada, ide deitar as tardes a dormir, num incêndio apaziguador que vos reconcilie a noite com o cio adiado! 

Uiva agora, ó sublime alma, que as valquírias sonegam Odin já senil e desprezam Freia, essa cadela perdida da sua demanda! Esquece o cálice por onde bebeste o vinho inquinado na esperança de promissoras auroras e horizontes de esplendor. Alimenta-te agora das sobras caprinas vagantes entre as pedras estéreis, nas sobranceiras colinas, nos angulares declives e precipícios. Tem força nas patas traseiras, ó alma que cursiva teimas; eleva o grito, sobrevive! 

Eu quedo-me de cócoras, sobre o limo, tão sujeito ao apelo da cobrição da terra por derradeira fecundação! Sirvo o ventre aos vermes, os olhos à secura do vento suão, as mãos à raiz do pó. De nariz apontado e triangular sob o céu que parece descer em trovões de riso e escarninho, devolvo o peito às rapinas ociosas e sem vocação de predação. No final, a morte será apenas signo de insolência. Pequena árvore de sujeição, onde futuros traidores terminarão sob os seus ramos a desejar piamente que as negras nuvens os levem para delírios azuis.



14 de junho de 2013

variável outro adeus



Tu já não me tomas a sério, não segues em mim, não vens para me resgatar dos lugares a que não pertenço. Perdi o teu sorriso e o colo do teu olhar em qualquer aresta da chuva que ainda há dias se fez sentir, garantidos que julgáramos estar do verão. Talvez por divagar demasiado ou não ter em conta todos os teus enfados enquanto me distendia em dúvidas. E hoje, passando por ti, sinto-me como que uma aragem que incomoda a quem ainda se previne da falibilidade climatérica, corrente de ar indesejada entre uma janela e uma porta negligentemente abertas.

É curioso falar de forma tão negativa de portas e janelas abertas, uma vez que todos os clichés sugerem o contrário, sobre as oportunidades individuais e as previdências divinas. Parece-me que isso não se passa aqui… Sabes, ouço das pessoas mais velhas que antigamente se dizia que não era de forma alguma conveniente deixar-se correntes de ar em alturas de trovoada, pois que os relâmpagos seriam atraídos nessa travessia, bastando isso para que um raio desvairado entrasse em casa e tudo destruísse. Metaforicamente, e inclinado ao lugar-comum dos escribas mais parvos e piegas, sinto-me na esperteza de referir que talvez se tenha passado assim connosco: uma artilharia pesada de raios e coriscos terão entrado pela aragem dilatada que deixei, negligente, entre nós. Implosão e explosão. Ruínas, depois.

Posto assim, se tudo desmoronado, que me importa a mim agora os dias de verão? Carregados de pólenes e fumos à mistura, de transpirações e espirros alheios, são um covil para moléstias de caixão-à-cova, essas sezões que nos entopem as vias,

(será a alma uma via que se entope?)

fazendo delirar de febrões, ou como lhe chamam – a febre dos fenos

(e com toda a razão neste contexto: então não me canso de falar do teu corpo com um prado de feno?),

e posto assim, dizia, deixo as ervas no jardim a crescer novamente daquela forma bravia entre gigantescos caules de urtiga e leituga, substantivas entre o sol e a humidade que ainda se vão revezando, apesar de meio ano se ter cumprido no calendário.

Leva o teu corpo daqui, não vás cair também de cama, ardida e ardendo destes estridentes delírios, a carpir a febre do feno que há em ti, a resfriar da aragem que, oh negligência minha!, deixei correr entre o que então éramos e o que tanto desejamos que fôssemos…

Assim, reticente: pois que é variável o nosso adeus…

26 de junho de 2011

o livro nas mãos




Tenho o livro nas mãos, mas não o leio: serve-me apenas como pretexto – um álibi, posso dizer – para olhar de soslaio as pessoas que vão chegando à praia. Com os pés remexo a areia, procurando a frescura nos grãos mais húmidos, como forma de aliviar o calor que já se sente embora sejam ainda umas nove horas da manhã.

Estou de costas voltadas para o mar, não é o que me interessa, tão pouco que o sol abrase a minha pele lavada de branco

(se nasci assim, porque quererei ter outra cor?)

a minha pele lavada de branco cuja pelugem espessa e escura atenua ou esconde a característica leitosa. O guarda-sol abre a sua sombra como árvore frondosa e acolhe ambos a mim e à minha mãe.

A mamã trouxe uma revista para se distrair. Ela vai à água, e unta-se dos óleos para o sol, e tenta arrastar-me para o mesmo, mas eu não cedo. Traz-me à praia argumentando que tenho de sair, mudar de ares, largar um pouco o teclado e o monitor do computador lá de casa com que passo a maior parte do meu tempo livre, ou quando não estou a trabalhar.

Aborrecia-me de morte se fosse uma saída às compras, no shopping da zona. Renovar o stock dos meus pólos, das minhas camisas, das calças vincadas. É um tédio: vestir, provar as peças, a troca de palavras entre a minha mãe e as meninas das lojas palpitando a subida da bainha, o ajuste de uma perneira, ou a cor da camisola que combine melhor comigo, enquanto me olho com uma expressão amarga nos múltiplos espelhos das cabines de prova, ali assim, pateticamente à mercê delas.

Nos meses quentes, quando a minha mãe me convence a sair do quarto para fazer uma manhã de praia já me agrada mais, e poupo nos resmungos, embora para mim seja sempre entediante, porque os calções já estão fora de moda, que são muito compridos, se quero a sande com fiambre ou queijo ou mista, se prefiro um sumo ou um iogurte, decide tu mamã, isso que me importa?

De soslaio observo as gentes que se vão estendendo no areal, com as suas toalhas, os seus guarda-sóis, tapa-vento, lancheiras, mais os baldinhos de construções na areia que os putos tanto adoram e que até à adolescência a minha mãe sempre fez questão de me fazer acompanhar. De soslaio vou dedicando a minha atenção, roubada ao livro que só tenho como pretexto, aos corpos que se vão despindo, exibindo o que na maior parte do tempo escondem escrupulosamente durante o resto do ano. Barrigas proeminentes, traseiros abundantes e seios descaídos nas mulheres que passaram o tempo da sua formosura

(ou quando a gordura era formosura)

com a pele das coxas sombreada pelas marcas das varizes e da celulite, mas

(e cá está a razão do livro como pretexto)

são as esbeltas cinturas, os traseiros delineados como corações, as coxas torneadas, os bustos firmes e proporcionais, os cabelos doirados e a pele suave como os frutos de verão que observo com maior cuidado, surpresa e timidez. Baixo imediatamente os olhos quando uma delas me descobre a observá-la, e então o enredo do livro que finjo ler torna-se repentinamente deveras interessante, e folheio as páginas como um ávido leitor, obviamente que nunca interessado na leitura, nem sei que letras ou palavras ou frases ali estão impressas, apenas revejo a fugaz troca de olhares, o corpo tão delicado e ao mesmo tempo tão provocante, ali ao vivo diante de mim, tão diferente como quando as vejo na Internet, pela televisão ou nas fotos das revistas com que a minha mãe se distrai, está ali como que à mercê de um toque das minhas mãos, dos meus dedos longos, a curva do biquini na anca, o arredondado dos seios que saltam, quase nus, e o triangulo que me provoca as mais delirantes fantasias.

Quando já passado algum tempo retiro os olhos da falsa leitura e finjo despertado por um ruído qualquer que me obrigue a levantar a cabeça, procuro novamente os corpos, tendo o cuidado para que nem elas nem a minha mãe descubram as minhas intenções. Só por isto gosto de vir à praia. Na vizinhança ninguém se fala, ninguém se vê, embora por vezes espreite pela janela as entradas e saídas da vizinha da frente, mais nova de todas, embora casada e com um filho já. Na pequena carpintaria onde trabalho também não há mulheres, só a dona Olinda, a guarda-livros, com a idade mais ou menos da minha mãe, e muito galhofeira para o meu gosto, e nem sempre lá está. Raramente aparece acompanhada da filha, mas não me desperta qualquer interesse. Demasiado branca, magra, cabelo escorrido e comprido, os olhos esbugalhados atrás de uns óculos ridículos…

Lá vem ela da água. Se soubesse nadar e não tivesse assim tanto frio

(vou molhar os pés empurrado pela minha mãe e quase só toco na água com as pontas dos dedos dos pés, arrepio-me todo, faça o calor que fizer, nunca mergulhei)

talvez fosse muito mais excitante vê-las de mais perto, apesar da minha ridícula timidez

(diz-me a mamã que tenho o feitio de um tio meu, não me fala do meu pai, esse não sei quem ele era).

E nestes pensamentos, quase nem reparava no espectáculo que se desenvolvia bem à minha frente: ela tirou a parte de cima do biquini, deixando cair, assim suavemente, os seus seios redondinhos. Transpirando de embaraço e excitação, volto atabalhoadamente ao livro, mas com o entusiasmo deixo-o cair no chão, uma brisa folheia algumas páginas soprando a areia para dentro. A minha mãe ralha-me pelo descuido

(olha que assim estragas o livro que o teu padrinho te deu)

mas nem ligo ao que me diz. Sacudo a areia, abro numa página qualquer e finjo-me uma vez mais numa leitura cuidada, com breves e curtas olhadelas à rapariga semi-nua que se vai virando na sua toalha de praia, procurando a melhor posição. Cresço dentro de mim. Mais uma vez a minha mãe vai estranhar a minha demora na casa de banho, logo, quando regressarmos a casa, do estranho silêncio quando digo que fui para o duche.

(estás bem, filho? despacha-te, vá, que também quero ir aí)

Mas agora queria muito que a manhã não acabasse tão depressa.

21 de junho de 2011

violência doméstica


Estendeu-se na cama, completamente nua sobre os lençóis, com a cara fechada e as palmas das mãos abertas como que oferecida a um sacrifício:

- Se me queres aqui me tens,

assim, taxativamente, toda à minha mercê, como se eu fosse um bicho de grunhir e me plantasse nela apenas para satisfazer a necessidade animal. Fechou os olhos esperando, enquanto eu desenvolvia silêncios de espanto e sofria o punhal espetado no peito; afinal era isso o que ela queria, enfiar-me um punhal no peito. Uma provocação como todas as outras anteriores.

- Não é assim que te quero, se fosse para isso pagava.

E como uma provocação leva a outra, depois das minhas palavras, lembrei-me de lhe retribuir o mesmo punhal, abrindo a carteira que estava na cómoda. Soltei três notas pequenas e atirei-as sobre o corpo exposto e oferecido.

- Toma, deve ser isso que esperas. Pago-te o serviço sem me servir. Hoje não me apetece.

E abandonei o quarto. Ao fechar a porta ainda a ouvi vociferar. A noite passou com uma insónia sobre mim, despojado no sofá, mas a porta do quarto não se abriu. Pela manhã, quando lá entrei novamente, ferindo o joelho no escuro contra o camiseiro, encontrei os olhos verdes dela, boca a vociferar violando o silêncio que podia ainda ser conciliador.

Tudo acontecera dias antes. Acontecer é uma maneira de dizer, na realidade apenas descobri o que vinha acontecendo há uns dois meses. Tinha tudo para desconfiar: as chegadas do trabalho a horas menos habituais, os atrasos cada vez mais constantes no infantário onde se esquecia que tinha o filho, encontros com amigas cujos nomes nunca tinha ouvido falar; enfim – todos os indícios imagináveis que toda a gente se habituou a reconhecer nas situações em que alguém anda a enganar alguém e, como sempre, o corno é sempre o último a saber, o coitadinho de olhos vendados. E eu tinha-os, bem vendados por um amor sincero, e uma criança de um ano que justificaria, julgava eu, um laço inviolável.

Essa venda tinha um dia que cair. As incongruências sucediam-se. As desculpas já não eram esfarrapadas, eram como que obscenas, para uma vida dedicada à família, com trabalho árduo, à construção do lar, à economia pequena que me tirava os mundanos prazeres. Decidi segui-la.
Afinal saia à hora normal. Ao contrário do que ela dizia, a confeitaria não prolongara o seu horário. Fora fácil enganar-me quanto a isso, nunca lá tinha ido, era bastante afastada da zona onde morávamos e muito longe dos meus trajectos trabalho-casa. Era verdade no entanto o que ela dizia quanto à falta do pessoal. Quando ela saiu, na motoreta que tinha conseguido oferecer-lhe para lhe poupar aos atrasos do transporte público, e logo após uma outra motoreta ter partido do mesmo local, a confeitaria ficara apenas com uma pessoa lá dentro, atendendo os últimos clientes, e ostentava um cartaz na vitrina, pedindo duas novas empregadas de balcão. Teria sido aquele dia uma excepção, teria conseguido sair no horário normal? Estava com um carro emprestado e ela nunca suspeitaria, pelo que continuei na minha perseguição, que me soava a absurdo, um marido perseguindo sorrateiro a sua mulher.

Pude verificar logo nos primeiros metros da estrada que as duas motoretas seguiam no mesmo ritmo, viravam nas mesmas direcções em cada cruzamento, alinhavam-se nos sinais fechados. Os capacetes moviam-se ao encontro um do outro. Na outra motoreta seguia um homem, uma silhueta masculina. Mais adiante os dois motociclos dobraram uma esquina apertada, que verifiquei depois tratar-se de um atalho que o carro nunca conseguiria atravessar. Fim do meu percurso?, indaguei. Estacionei e aventurei-me a pé pelo trilho de terra batida. Logo ali, num fundo escuro que a sombra cobria à medida que a tarde ia findando, vi as motoretas no descanso. Ela estava por ali com alguém. Ela estava por ali com um homem. Era a resposta para os atrasos e para as desculpas. Ela, a mulher que me dera um filho, a que partilhava comigo o mesmo tecto, a mesma cama, estava por ali, escondida na sombra a fazer sabe-se lá o quê com alguém que eu não conhecia. Ansioso, avancei, com dificuldade em imaginar o que ia encontrar, e o que iria fazer e dizer se todas as suspeitas se confirmassem.

Cautelosamente fui chegando perto do local onde descansavam as motorizadas. Agachado. Com um medo absurdo de ser apanhado na minha intenção sorrateira, quando as circunstâncias apontavam para o contrário. Não era eu que prevaricava, eu era apenas o parvo que confiava nela. Mas se queria provar alguma coisa teria de avançar assim, convencido que só um flagrante me faria acreditar o que pudesse ser dito por outros. Havia um declive no terreno, que dava para um edifício em obras. Aliás, uma obra embargada, o esqueleto de um edifício embargado, estereótipo do covil urbano da delinquência, dos enjeitados, dos marginais, dos drogados. Vi-os por fim. Fumavam ambos. Ela que nunca fumara, e me obrigara a deixar o vício porque era um desperdício de dinheiro e saúde. Ouviam-se as gargalhadas dela. Enfureci-me. O puto no infantário à espera que o fosse buscar, e ela ali a fumar e a rir-se com um estranho. Resolvi acabar com aquilo e avançar para eles, quando os vejo a envolverem-se num longo abraço. Parei. Paralisado pelo desgosto. E fiquei ali, especado, feito estúpido a observar os avanços das mãos dele no corpo dela que era também o meu. E os avanços das duas bocas que se esmagaram sofregamente. Assim, ali à minha frente, alheios a tudo, num lugar onde tudo podia acontecer. Fui avançando devagar com as pernas tremendo como varas, tão fracas, como se um medo tivesse possuído o meu corpo. Sentia latejar-me a cabeça e o peito convulsionado por um coração enfurecido. E fui avançando sem tirar o olhos daquela cena que me enojava, e sem que eles parassem de se esfregar um no outro. Avancei até bem perto, mas ambos estavam tão excitados que não deram conta da minha presença. Chamei-a pelo nome e só tive a certeza de que a minha voz conseguiu realmente articular som quando ela, num gesto brusco, se solta dele e fica a olhar para mim estupefacta.

Não sei contar o que aconteceu depois, tal foi a cegueira da raiva e do ciúme. Lembro-me de uma azeda troca de palavras, inicialmente, depois o meu punho direito fechado contra o maxilar dele, um punhado do cabelo dela na minha mão esquerda, gritos, no meu estômago um dor súbita provocada por um pontapé, humidade na minha cara, cuspida por ela. Ele fugiu, montou a sua motoreta e desapareceu. Arrastei-a por um braço para fora da vereda. À resistência dela em entrar no automóvel, esmaguei a minha mão sobre o seu rosto, abrindo-lhe um lábio.

Então todos na família ficaram a saber, ou fingindo só agora saber o que já sabiam. Ela não queria voltar comigo. Disse que refaria sua vida de novo, que iria buscar o menino e ia viver em casa da mãe, enquanto não encontrasse uma para ela. Eu, desfeito pelo desgosto mas acreditando que o meu amor pudesse vencer, ainda implorei que voltasse, confessando-lhe o mesmo amor cego, que a queria, que a queria muito. Dois dias depois, convencida pela mãe que esgotou todos os conselhos e argumentos para que um lar não devia ser desfeito assim, que não menosprezasse o meu amor, que afinal ela até era uma grande sortuda por eu ainda a querer, voltou para casa, ao fim do dia. Perdera o trabalho, ou deixou-o. Conversámos. Quis saber por que eu ainda a amava, depois do que se passou. Dei-lhe as minhas razões, calmamente, olhando para o nosso filho como a apontar a maior razão de todas. Ela sempre de cara fechada, como que contrariada.

- Queres-me para ti, é isso?
- Quero-te para nós, quero-te sim.

Não disse mais nada. Tratou do menino, arrumou algumas coisas, enquanto eu esperava angustiado por uma palavra de ternura. Disse então que me esperava no quarto. Suspirei, mas ainda não aliviado. Quando enfim entrei no quarto, lá estava ela, deitada, nua, de pernas abertas, a carapinha do púbis molhada depois do banho, ainda se sentia o cheiro adocicado do sabonete e a ténue névoa do vapor da água quente.

- Se me queres aqui me tens.

Foi as palavras que me disse. As últimas antes da noite de insónia, as tais do punhal espetado no peito, e do dinheiro que joguei sobre o corpo dela brincando às putas. E quando de manhã entrei novamente no quarto, os seus olhos verdes faiscando-me, dou uma joelhada no escuro de encontro ao camiseiro, e sem sequer me deixar recuperar da dor, vociferou

- Seu grande corno, palerma, porque não me deixas viver a minha vida?

Depois disso nada mais disse. Cego de raiva por ela, por mim, pelo mundo, avancei sobre a cama e os socos que lhe dei calaram-na para sempre.

29 de junho de 2009

beijo



a tua boca na minha:
quem dera fosse todo o verão além da latitude dos sonhos

e por isso ardes-me
e por isso o vento norte nos teus olhos
a exaltar de desejo as cores da chama viva

só as duas bocas unidas:
suspendendo a intenção dos gestos e do corpo
ignorando o tempo na sublimação da saliva

tolhemos as vãs palavras dos sentimentos tontos

porém, a minha na tua boca
é ainda o verão virgem aquém da esfera dos sonhos

25 de junho de 2009

cansar de dores o papel




Cansar de dores o papel amarrotado de ninharias e mediocridades. Não fosse a crise e o desgoverno,

(e enfim, para poupar energias e sintetizando)

não fosse o planeta plantado de gumes traiçoeiros com que a humanidade semeia o seu próprio futuro, talvez pudesse eu renascer num sorriso feliz a vender banha da cobra nas palavras e papeis densamente iluminados.

Ou que o verão não desdenhasse na nossa cara o escarninho destino a que nos propomos na negligência: cada dia é angular e decisivo se não forem tomadas em conjunto todas as medidas preventivas e calculadas.

Pois assim de que nos servem as estações do ano se nenhuma agora cumpre o seu compromisso, com os seus humores climatéricos alterados? Que sentido tem desejar bom fim de semana se os patrões, alinhados como tropas de faca e queijo na mão, não o reconhecem? O que são piqueniques no campo se o círculo é de betão? Que nos vale mesmo saber que linhas imaginárias dividem o planeta em lugares de maior ou menor qualidade que vêm a ser os trópicos e os meridianos? Construímos com regozijo a aldeia global e agora pendemos o queixo e os olhos num impressionante esgar de apreensão. Como quem vai para a guerra com o nó na garganta de saber o quanto está já derrotado e condenado.

Cansar de dores o papel ou acumular cerveja no sangue num gesto de indiferença, a fazer de conta que as contas do mundo não são nossas, alguém mais capaz fará tudo por nós. Não fosse a crise e o desgoverno,

(e enfim, para poupar energias e sintetizando)

não fosse o planeta esfaqueado pelo seu próprio punhal traiçoeiro, e toda essa idiotice conspirativa que os humanos ergueram uns contra os outros, talvez pudéssemos ver o futebol e as telenovelas na tv sem nos importamos um corno para com o próximo.


21 de junho de 2009

não sei quantos anos ainda




não sei quantos anos ainda…
ou se as varandas se cobrirão de pó
e humidade e insectos e os anos esbatendo-se
sobre a claridade dos dias e as sombras das noites
enquanto as flores já não suspiram para as bocas incrédulas…

sei que um ranger de dentes
e um punho fechado
e tudo quanto te aflige
enquanto a fome for

ainda e só
um homem de cócoras
ou de braços cruzados

sobre a vida
que já não o espera.

3 de junho de 2009

rosário



Das tuas mãos tatuando o medo: trouxeste um rosário e dedilhavas cada conta como se a abrir um livro novo. Com os olhos caídos num chão de nadas, um chão de invisíveis, enquanto o noticiário avançava numa cavalgada alarmista. Não era a ti que competia dominar a besta, as ventas furiosas arfando. Por isso pedias contas a um domador e multiplicaste o rosário com o mesmo silêncio do chão onde ainda se encontrava o teu olhar. Os teus lábios febris, ininteligíveis, sem soprarem qualquer som da tua voz ainda que fosse sussurrada. Não vias, mas ouvias os relinchos constantes dos jornalistas. E tu redobrando as contas, os teus dedos como aranhas tecendo o medo. Até que outro som se ouviu, obrigando-te a um alvoroço pavloviano, deixaste o rosário estendido no nada do chão e as tuas pernas retesaram. Levaste o auscultador ao ouvido e o olhar contra uma parede de nadas, uma parede também de invisíveis, apesar dos quadros, das fotografias do teu filho, ele que te diz, do outro lado da linha

- Descansa, eu não embarquei e está tudo bem.

e tu

- Louvado seja o domador! 

27 de junho de 2008

a meus pés




Brisas que ardem a meus pés enquanto o sal da água se espraia preguiçosa a sul de mim, e o regaço suave da areia acolhe-me o sono inquieto e vago. Se abro os olhos é imenso o azul que me cobre, longitude de voos perdidos e ilusórios, transportando o leve equilíbrio e etéreo de uma incerta liberdade do corpo. E então sou gaivota de luz planando sobranceira às minhas pálpebras.

O marulho entoa encantos de profundezas, garras e ventas feras resfolgando. Respiro o ar e os ouvidos vão dissolvendo os risos, vozes a vários coros sob os girassóis dos chapéus-de-sol e toalhas estendidas como bandeiras sem país.

Quedo-me como um embriagado alegre. Soletro espaçadamente os sonhos, amolecido e torpe, entregue ao esquecimento quase perpétuo do mundo. Em asas que giram, em asas que voltam.

O mundo que arde a meus pés.

23 de junho de 2008

demanda




Procura-me num outro lugar onde não venha a chuva estragar as gargalhadas das flores ao sol e tornar macambúzio o mar a rosnar ao longe. Vem com caramanchões de folhagem verde em jeito de cascata de S. João, e deixa-me que seja o eterno e expectante pescador de barro pintado, que não incomoda ninguém, não é santo nem é gente, é um olhar voltado para todos os rios imaginários a contar de cor os nadas infinitos, num pedaço fio de sediela atado a um palito.

Vem com o perfume dos cravos tardios e a frescura do manjericão, vem lambuzar-me de sardinha e pimento cozido nas chamas, dá-me a beber do vinho morangueiro e entaramelar a fala depois da quarta ou quinta tigelinha vazada. Procura-me num subúrbio qualquer pois que me amedronta a horda na cidade repimpando com martelinhos e alho-porro, essas vagas de gente que me sufocam, tão mortíferas quanto os rios fêmea que engolem todos os dias qualquer coisa viva, seduzindo com remoinhos e falsas marés.

Numa praia sem relâmpagos. Procura-me onde estarei a fugir da primavera doente de vento e frio. Fareja a véspera do verão e encontra-me. Quando ouvires as flores gargalhando, chegaste.

20 de junho de 2008

o telefonema


foto de Ana Rita Vaz Cruz em Olhares


Dá-me novos motivos para passar adiante. Não te fiques pelos mesmos argumentos, como que a driblar o meu raciocínio. A carne é fraca e o vinho do jantar não ajuda. Seguras-me no telefone com um timbre de sedução electrónica, afecta a ruídos alheios, interferências, do “que-foi-que-disse?”.

Soar-te-ia estranho se te cortasse a algaraviada dos números e das questões sem contexto com um convite fora de horas? Fazer-te pensar: que bom seria sair deste burburinho de simpatias ilusórias para tomar um copo, refrescar os olhos e os ombros, a noite até parece morna, convidativa, confortável.

Mas não. Aguentas-me no discurso e insistes. Eu vou agradecendo a voz doce, quase terna, sem dúvida quente, ainda que com ruídos de fundo, interferências, do “pode-repetir-se-faz-favor?”. Não fosse o meu bocal confidente de amargas solidões e tristes desejos, terias ouvido precocemente, num cliché gasto, o tom seco de um

- Não estou interessado.

14 de junho de 2008

dignidade


Duas Vidas um Destino, por Vítor Nunes em 1000 imagens


Apesar de tudo portámo-nos com uma dignidade de felizes criaturas. O nosso porte elegante, sempre à altura de qualquer acontecimento, cheio de honestidade e simpatia. Eu diria mesmo que uma postura altiva, mas alegre e bonacheirona nos dias mais. Nos dias menos a roçar o sensaborão, com alguma inocuidade. Ainda que assim seja, dias mais ou menos, estamos sempre prontos. Para tudo.

Escorre o sol quente pela escadaria abaixo e no varandim prostrámo-nos como jarras de montra a exibir essa felicidade inventada. Ou não inventada: adquirida com a dignidade. Os automóveis passam indiferentes, mas as pessoas que surgem na esquina onde o carvalho ergue uma respeitável sombra de frescura, de passo estugado, viram os olhos para cima questionando-nos o porte, nós os dois sentados como príncipes de um qualquer reino de conto de fadas. As pessoas abrandam, não sabemos se pelo sol que abrasa a tarde e amolece os corpos, se pelo espanto de nos ver assim, como que surpreendidos por um qualquer espectáculo de rua espontâneo e inesperado.

Também há janelas do lado oposto, quadros de donas-de-casa esbaforidamente ocupadas com lides de limpeza. Fazem pausas inclinadas e apoiadas sobre as vassouras, a entender sorrisos e o significado do que somos aqui, com toda esta dignidade que, percebo agora, torna-se contagiante. Retiram o lenço das cabeças e parecem rejuvenescer com vontade de tanta coisa menos limpar.

Repara então no filho mais novo do vizinho do terceiro esquerdo frente do prédio plantado no outro lado da rua: depois de assomar brevemente à janela, aumentou o volume do som da música que ouve e debruça-se enfim sobre o parapeito como se quisesse acompanhar-nos neste espectáculo de jarros de montra, a demarcar um outro estilo, diferente. Repara que mexe o corpo ao ritmo da música, e as pessoas que passam,

(os automóveis serão sempre defeitos indiferentes nesta caricatura)

estugando o passo ao dobrar a esquina da sombra fresca do carvalho: também lhe acenam, ao rapaz, com o olhar indagando o que significará aquele bailado do corpo, a música berrando por dentro.

É assim mesmo, como disse: há uma dignidade feliz em tudo isto, apesar de como são e vão as coisas terrenas. Apesar do mundo. E os que nos reprovam, os que não nos entendem, e os que nos desprezam: coitadas criaturas essas, que infelizes serão.

11 de junho de 2008

doce e gentil desconhecida


Sensualidades, por Paulo Almeida em 1000 imagens


Permite-me poisar os meus lábios nos teus a experimentar a estranheza de tal acto na contracção do teu rosto fechando-se. Colocar a minha mão, ávida e atrevida, sobre os teus seios, afagá-los, mesmo por cima do tecido da camisola, e sentir-te retraindo à medida que avanço. Com a outra mão seguir mais abaixo no teu corpo, dominar a curva da tua anca e encher-me das tuas nádegas por baixo da leve saia que vestes. Curvar à frente, depois, e repousar os dedos abertos sobre o triangulo macio do teu púbis de feno, explorando, encontrando. E tudo isto para saber como recuas, como te fechas e inibes, e como te indignas: a mão aberta e espalmada sobre a minha face que ruboriza do sangue espicaçado, numa declarada e brutal recusa de mim.

Mas, (ó minha doce e gentil desconhecida!), é a tua carne que me apela e eu tenho ganas de ser o teu lobo faminto.

3 de junho de 2008

escrito e dolorido para Eunice


Ao fim do dia..., por Marco Ricca em 1000 imagens


O céu a findar a tarde e os cães latindo. É quando o silêncio se rende passivo, nunca chegando a vencer tudo, balbuciado pelos ruídos. E depois a noite, signo que nos separará.

Dizes-me para aproveitar o momento, para quê sofrer por antecipação. Porque o tempo não pára, Eunice. O tempo não me dá tréguas. O sol cai entre o chilreio dos pardais que recolhem nas árvores frondosas. Sinto-te os dedos tacteando-me a inquietude das mãos, o teu olhar muito meigo e muito sereno, sempre cada vez mais sereno como se o céu te findasse a ti também dentro da sua bocarra escancarada de penumbra. Vagarosa. Mansinha. Traiçoeira.

E eu aflito com a exactidão dos ponteiros nos relógios, os ponteiros demarcando fronteiras. A nossa partilha tem fronteiras, Eunice. É um país em estado de sítio, com recolher obrigatório e sob a lei marcial. Porque dizem-nos – apesar de nos dizerem na cara sem que ainda tivessem verdadeiramente percebido –, dizem-nos que somos proibidos.

Proibidos a partir do momento em que terás que tirar essa máscara de mulher livre e regressarás à tua condição de mãe exemplar de três filhos, da fiel esposa de um importante executivo qualquer que nunca soube bem quem é. Eu sou apenas o entretanto nas horas vagas, ou o depois nas horas em que te perturba a insónia

(a consciência, o amor, o amor-próprio, Eunice?).

O tempo no céu e nos relógios lutando contra o meu orgulho desmanchado, inerme. Porque os meus olhos para ti não trazem defeitos, não trazem preconceitos, só te trazem – tão egoístas! – a ti.

Como posso aproveitar o momento se milímetro a milímetro – como praga que alastra – vais deixando que outra vida te aparte de mim. Os teus beijos são já tardios, tombam sôfregos e remediados na inclinação do meu ombro convulsivo. O teu corpo, poucas horas atrás baluarte da minha felicidade, recolhe-se em modos sorrateiros, possuído pelo medo, pelas palavras, pelos filhos, por eles: todos eles que não cabem entre o espaço que nos vai afastando, de promessas reatadas.

Magoam-me as promessas, Eunice. Magoam-me os teus dedos tacteando as lágrimas das minhas mãos. E magoam-me as noites. As tuas, as que te pertencem sem mim.

Crê-me escrito e dolorido. Sou personagem de tragédia onde venham a caber as lamechices que te encantam, as fantasias que te orientam, que te movem, que te

(que te moveram até mim, que te moveram a conquistar-me?)

que te constroem, enfim, para mim. Eu que não gosto dos romances de amores exacerbados, das lamechices, dos lugares-comuns.

Olha para mim, Eunice: o céu apagou a tarde, a noite veio para te resgatar à norma. Vais partir? Fuzila-me, acaba comigo. Engole-me Eunice.

Para que o dia me não volte a nascer, grávido dessas mesmas e viciadas falsas promessas.


2 de junho de 2008

todas as feridas


Warriors of the Wasteland, por Paulo Franco em 1000 imagens


E todas as feridas porque todas as palavras que não disseste mas escondeste durante tanto tempo que penso tê-las esquecido numa qualquer traiçoeira teia da memória, impregnada de medos que me fazem – talvez – chorar; e por isso, quero lá saber, não vou espremer o coração para que coalhes o sangue que já não te pertence, nem sequer vou deixar enregelar ao frio as mãos que mantenho quentes no meu regaço para te estender o fantasma de uma consolação, de um ombro que não te saberá receber.

Morres, morres, morres, dentro de mim e para ti morres, para tudo o que fez o mundo à tua volta, e serás então o vapor que se ergue do chão quente depois de uma chuvada de verão e que ninguém percebe, quem percebe esta coisa da sublimação, condensação e precipitação?, é tudo palavras e acometimentos climatéricos que não interessam nem como recursos estilísticos da escrita que

enfim, que

que destruíste, admito, que destruíste, e agora que queres? Sabes muito bem que o tempo cura tudo, secará as feridas, afastará daqui a meses o frio, e tu, parte esquecida de consecutivas sublimações, condensações e precipitações, serás um resquício da água que poderei observar, de vez em quando, ainda que leve dias, semanas, meses, talvez anos a recuperar toda a escrita que

enfim, que

que roubaste, admito, que roubaste, e agora para que te servem as palavras roubadas?


28 de junho de 2007

de súbito


autor desconhecido

De súbito, a inclinação da luz. Diluindo as sombras do sono. A cabeça em desequilíbrio, atordoada da almofada por render durante três dias e três noites. O corpo abandonado a uma rodilha de lençóis fedendo. Uma garrafa tombada no chão, sobre o charco seco de vómitos sucessivos. Era tarde nos ponteiros do relógio embora as horas permanecessem inconstantes, voláteis. Porém, denunciadoras. Como a luz inclinada sobre a parede, acordando as sombras, buscando uma memória confusa.

Um vazio no estômago. Um frio de encolher as pernas. Lutou para manter as pálpebras abertas numa coragem envolta de fadiga.

- Não acredito em nada disto.

Estendeu a mão ao controlo remoto do televisor e fez-se ambiente de cor e sons dentro do quarto entorpecido de mofo e pó.

De súbito, a amontoar visões e vozes sobrepostas às que vinham do concurso da televisão. Dor: como uma morte, enlutara. Viúvo de coisa viva prometida a não regressar. Entregue ao tudo acabado. E nisto, esse tudo dos dias anteriores a romper perfilando-se na mente estalando de medo, tédio, vazio e ressaca.

Fora uma frase simples, lugar-comum de dramas e comédias românticas, a roçar o mau gosto. Dita entre os lábios desejados de carne, sob um olhar convicto de efemeridade:

- Adeus, meu amor.

O nunca mais traduzido. Conjugado em todas as pessoas singulares e plurais do presente e do futuro. Havia-se deitado com lágrimas do passado, ancorado numa garrafa a borbulhar de álcool na boca. Depois disso, afirmará, não se lembra de qualquer gesto, de qualquer certeza, de qualquer dúvida. De qualquer luz. Até que, de súbito.

24 de junho de 2007

saliva dos dedos


autor desconhecido


Ampara-me da incipiente ilusão da escrita com a saliva dos dedos. Por trás de nós a variz de palavras incomodadas com os sentidos, em negação das parábolas. Fico exausto de língua e ranho pendentes à flor do espaço aberto dos papéis densamente iluminados. Queria estar ali a desejar o quanto cá desejaria ter ficado, e porém os literatos são vermes sujos acomodados na cama dos princípios e das verdades imaculadas, não valendo para o susto das invejas verdes de “o-quanto-essas-palavras-me-pertecem-ó-palerma”. Já não acredito em espelhos a devolver a identidade dos sonhos-vocábulos entrincheirados no chão perto do cesto dos papéis. É como quando nos seca a tinta da pena ou o carvão do lápis quebrado a meio de uma frase, e a raiva despoletada arrasta com grilhões a frase perfeita para o baú olvidado dos esquecimentos eternos, tal carteira ripada pelo larápio que a polícia seis meses mais tarde nos pede para resgatar numa esquadra em fins de província, gasta, violada, sem um ponto qualquer de dignidade que carregue ainda a certeza da nossa propriedade.

Abandonamos as frases perfeitas para os outros, abutres que esperam os sonhos mortos na esquina de um caderno. Há falinhas mansas seduzindo a nossa vaidade com epítetos laureados, e então somos como que injectados de uma respeitabilidade sem alicerce, uma trama urdida para que a queda seja dolorosa. Não estive lá perto e tu mesma reviras os olhos sem emoção. E isso intriga-os, fazem caretas nas sombras entrelinhadas das críticas.

Isto não é um lamento, apenas preguiça. Uma preguiça sem contexto. Prefiro as sortes dos sentidos. Por isso te peço: salva-me com a saliva dos dedos, antes que tudo recomece. Dá-me o teu corpo que as palavras desta vez ficam lá fora a especular o princípio e o fim dos nadas.