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19 de maio de 2018

do maio fecundo


Anybal Bastos photography | modelo: Ana Brito Silva


para a Fernanda



O rio dourado sempre meu confidente soube desse dia de maio em que as aves anunciaram que a cor do amor é azul. Maio criador, fecundo e maduro com as searas ainda jovens, jus à pele adocicada dos teus braços alvos com o sol predicado nos teus cabelos. Inaugurando as brisas de verão a lamber-me o rosto.

Conheci a pele de pêssego no teu peito, o perfume da giesta no teu pescoço, e o sabor da amêndoa no teu olhar.

Tudo tão inicial, como qualquer alvorada, em que pude perceber a geometria dos jardins, pegando na tua mão. Se tremias, eram os abalos em meu peito; se sorrias, era o fulgor do ouro sobre o meu corpo.

E o beijo, como cavalo selvagem à solta, faminto do feno.

Foi quando nasceram os poemas, tão puros e virgens, esse maio feliz. Nós ainda meninos, com a esperança de abarcar o mundo. A eterna juventude da qual afinal nunca parti e onde consigo sempre ouvir a tua voz.

Não será apenas memória ou cadente nostalgia. Estará no sangue de que sou, no entendimento que tenho do mundo e das mulheres.

Não foi, nem será: é a nossa sexta-feira azul.



13 de maio de 2018

queria escrever como faço amor

Robert Duval, via Photographize



Queria escrever um poema
como sei fazer amor, e eu
só sei fazer amor
– não digas
   não digas que não sabes
o que escrevo, ou que não entendes
o que escrevo
pois se
o que escrevo
é tudo e por amor, e é amor
tudo o quanto quero que sintas.


6 de maio de 2018

prelúdio


Kültür Tava


Suspiras como uma sinfonia e estas paredes confidentes do teu corpo. Por capricho, maldade ingénua, ou simples amuo momentâneo, o vidro da janela sustém o fulgor da claridade plena e desvia-te a luz da tarde para um ângulo isolado do quarto onde as partículas do pó se ferem por algum protagonismo. 

Dizes que escrevo inseguro, que é uma pueril falta de confiança, mas logo percebes a oscilação do tampo da mesa onde tenteio, só e incapaz de manter o rumo do navio na previsão de uma tempestade. Tudo se move contra vontade – não sentes? –, essa desconfortável vibração como se o mundo fosse ruir e já antes de nós o susto das aves na sua revoada de espanto, fugindo. 

Não temos cidade, escaparam-se-nos as copas das árvores, e quando sopra uma brisa é um hálito tão temeroso que acabamos duvidando do sentido desta existência. Dos suspiros vem-te a ideia de uma demanda, mas não sou anjo nem cavaleiro, não vim para dar salvação, e estarei sempre numa partida inglória. As minhas palavras não produzem, apenas espigam como o joio. Seguem de igual forma temerosas, num veículo que oscila, desmedido da força da corrente, inconsciente da velocidade. 

Hás-de reparar nos semblantes de quem viaja no regresso a casa com a fadiga nos dedos e um grito incerto no olhar. Não sabem porque gritam, ou porque lhes apetece gritar. Agitam os cabelos quem os tem, fumam seus cigarros os viciosos, deambulam todos, perdidos. Aquelas cabeças dançam, abandonam-se a incertezas – sem receios, podemos notar, mas ainda assim apreensivos com a escuridão certa e irrefutável. 

Nas palavras que ainda saem de mim há também mulheres bonitas, dessas que seduzem apenas pela forma e com o gesto singelo da sua feminilidade. Navegam no mesmo tampo. Viajam no mesmo corredor. Vão também sem ninguém dentro 

(as mulheres? as palavras?) 

a sentir que a alma lhes pesa tanto quanto um acessório inútil dentro um bolso. Sorrio-lhes, com certa comiseração, e observo-as a desperdiçar o ânimo para dentro desse escuro. Respondem ao sorriso como se mais nada, mas, mesmo assim, indiferentes a uma possível tábua de salvação. 

Já não se carrega a humanidade na carne. Teme-se o amor. Todos nós o tememos, pressentindo a aflição de o perder. Já não suspiras, ou é o acto final que te deixa a desmaiar. São as pálpebras na procura da vigília conciliadora. Se me vier o sono, será norte ou será morte. Porém, das janelas, ainda persiste a tal luz angular. Questiono sobre esta demência disfarçada de entorpecimento, se hoje foi um sol tão raro. 

Perdi a parábola, era suposto falar-te e nada soube dizer. O que pode ser dito do indizível? Soltam-se as palavras do alinhamento da escrita e perdem-se entre os cantos, na subida das paredes, amedrontadas se há vibração no chão. Como bichos que rastejam. Contemplam o bailado da poeira no vértice da luz desviada e aspiram, alucinadas, ao mesmo protagonismo, furiosas, desequilibradas, tão humanas. O teu corpo dorme. O meu insone. Levo os dedos aos meus lábios, recordando que tinhas vindo para os beijar. Houve faúlha, chama e hulha quente, agora apenas cinza. 

Os dias sempre foram muito bem contados, não podemos distrair-nos. As madrugadas serão sempre imensas, quando dormes. Mesmo que haja dia, mesmo que a noite dite o fogo. Teria graça poder contar-te como foi. Quando me vires, porém, já serão as papoilas sobre a minha campa.


18 de maio de 2013

em pleno

 

Deslocou-se o tempo no calendário, as tardes crescidas adiando a tristeza dos crepúsculos. Deslocaram-se os dias como se não os tivesse sentido e todos os fins-de-semana entre azáfamas desvaneceram. Veio o sol, choveu, houve mais sol e calor, ventou, já se fez praia, nas moitas o perfume amarelo da giesta, agora vento e outra vez chuva com frio entre as ressas do sol de maio.

Ficámos a ver o tempo passar sem que houvéssemos tido a feição de nos aproximarmos – pelo menos o quanto eu desejaria que nos aproximássemos – nos dias em que a brisa lambia de calor as colinas, e a ternura das nossas mãos dadas bastaria para o concretizar. 

Sou de regredir na memória, quase a diluir-me entre o que podia ser ou não das coisas do passado, sem vocação alguma, no entanto, para alimentar nostalgias. Porém, será a nossa causa coisa já de um passado? – não acredito e tu bem vejo que tal ideia a rejeitas também. 

É o quê, então? Quem somos, e o que adiamos, se fomos concebidos de um para o outro? 

Adoro-te. Encantas-me com o teu rosto recebendo esta maresia, os teus cabelos soltos como borboletas, o som do mar a fazer de chão ao meu desejo. Como quero chegar a ti, tocar-te, devolver-me em ti ao vinco da nossa terra da semente que somos. Como te desejo e não sei o caminho, os gestos. Só sei do medo. De me quebrares em estilhaços com uma rejeição. O que me parece é que ainda não amadureci os teus intentos, ou estarei pateticamente esgotando-os. Vou depreendendo do teu sorriso e da simpatia em me concederes ao teu lado que ainda há em ti a reserva de quereres continuar a guardar o teu espaço. 

Se finda a tarde, fazendo crescer o véu do crepúsculo, soluço de amargura por ver-te em maneiras de partir. É de areia ainda o sal nos meus olhos, a insistir na sede do teu corpo. Afastas-te e finjo descansar a cabeça sobre os braços apoiados nos joelhos. Creio que gritaria, se a vergonha de me veres em lágrimas não fosse tão cruelmente piegas, e a sair do contexto do que sou. 

É pela madrugada que solto o pranto, sempre em silêncio, cismado com os sonhos de vigília no rescaldo das insónias, porque é assim a paixão percorrida no corpo: veneno e mel. Sonho como serás tu toda, de pele e braços, pluma e feno, o teu peito e os teus lábios, marinados em primavera. Já não se vive agora de sonhos, pois não?, com o tempo a atravessar-se assim entre tudo e todos… 

Inseguro, apenas posso contar com a certeza de que ainda me falta a latitude certa para chegar a ti em pleno. Oxalá saiba contradizer o espaço e conter o tempo.

29 de maio de 2011

tiques da inocência perdida na casa assombrada de mim

Analysis of Intimacy: Shadows in My House, por melonyb em RedBubble

Perscruto o céu franzindo o olhar e nada de novo: sol de pouca dura, nuvens zangadas, as mesmas

(serão afinal eternas?)

nuvens parindo sombras na parede. Os rostos que passam por mim nos dias comuns deitam-me à indiferença como se aos poucos tivesse deixado de existir para uma quantidade considerável de outros. São os olhares das mulheres, porém, que mais me magoam. As lindas jovens mulheres, raparigas, enfim, que me passam pelo olhar e o evitam como se no meu rosto existissem dois buracos de negro e assustador abismo. Sei que não é isso, antes sentimentos de pudor misturados com o asco de um velho a tentar seduzir meninas. As meninas que eram a minha paixão e agora me condenam a deixar para trás uma inocência que nunca quis perder.

São os anos que passam, e o corpo, antes de se decompor quando vier a hora certa, começa primeiro a descompor-se. Não adianta o paleio do exercício e alimentação equilibrada que esses apelos a uma vida saudável não travam nada. Não deixam que o tempo avance, pois isso queria eu parar. Pois se aos quarenta

(- Que vem a ser isto aqui?
- Onde?
- Aqui, na tua cara… oh!, são pêlos brancos da tua barba.
- Reflexo da luz?...
- Tens também nas sobrancelhas, agora vendo melhor.
- Reflex…
- Já para não falar nas do cabelo, com essa entradas.
- ... ok.)

já nos pregueia a pele onde antes lisa, e aos cinquenta as primeiras falhas de memória quando tudo era tão ontem

(- Não bebas tanto),

que é a idade dos setenta senão o princípio de um declínio que nunca devia acontecer na vida de uma pessoa? O jeito inseguro de manter uma erecção que se veja

(- Não bebas tanto)

e ejaculações frustrantes passados poucos minutos, é o que me vai restando.

Um dia doenças a que não ligava puto, outro dia cansaço e dores nas costas, o apelo constante do cigarro e as barras do alpendre bebidas de ferrugem porque deixei de reparar nelas como não reparo no gotejar de uma torneira em falência, duas ou três telhas desajustadas deixando a água dos temporais infiltrar, rachadelas nas paredes, os vasos já tão secos de nada como se os desertos também se pudessem representar como o fazemos aos prados floridos para não nos gastarmos de tanto betão e asfalto.

Ainda mais as palavras que tardam a chegar: ao pensamento, à boca (aqui tão desarticuladas que quase sempre me apetece carpir o silêncio de mim), e aos dedos, na letra trémula de um puto que começa a desenhar as primeiras letras. Adormecer sobre os livros. Evitar outonos e invernos com mais medo. Medo constante de

(- Não fumes tanto),

o medo constante de um dia os médicos

(- Não fumes tanto),

o medo perene, agora, de tudo acontecer, quando tudo se vê acontecer aos que connosco ainda chegaram até este presente

(- Sabes quem morreu? O Moreira.
- O Moreira morreu?
- Sim, vê lá. Uma saúde de ferro, um dia chega a casa de um passeio, diz que se sente mal disposto e momentos depois morre. Assim.
- Detesto que me contes essas coisas.
- Tão novo…
- Detesto, Marília.
- É a vida…)

A vida. E onde está a minha? Ou em que fase se encontra?

Nada de novo: sempre quis fugir das sombras, mas sou eu já que eclipso o sol nas paredes desta casa assombrada de mim. Desejo tanto um amor jovem. Sentir nas mãos o vigor dos seios alvos para os afagar ofegante da descoberta. O perfume da juventude. O aroma da carne rosada, quase virgem. O útero imaculado para onde pudesse regressar. E deixar o passado acontecer num futuro ainda longínquo como quando, aos dez anos, me parecia impossível que a idade dos velhos me afectasse. Os velhos sempre teriam sido velhos.

Hoje não sei o que esperar. Apenas desejos: imorais porque se foi a inocência. Guarda o jornal, Marília, não quero saber do mundo. Mais tarde ou mais cedo ele virá para me pedir contas. E engolir-me numa imortalidade de esquecimento.

30 de maio de 2009

encontro II


Beleza romena, por António Amen em 1000 imagens


Pigarreia-me a voz, arranhada e seca. E os gestos acompanham a mesma rouquidão, gagos e disléxicos como quem mete as mãos pelos pés. Cresce às faces o sangue num rubor de glande nervosa, escaldante carmesim a incendiar o pudor, nadando aflito até às lágrimas. Pronunciar neste estado o teu nome ou esboçar-te um tímido olá revelou-se numa tarefa árdua e difícil de concretizar. Não que fosse impossível - a vontade, se não inibida pelo desastre, pode mover montanhas. Mas não foi o caso. Tudo era desastre em mim: o ventre dilatado da cerveja entre os amigos, a barba crescida pela preguiça de contínuos maus despertares, a roupa desleixada e amarrotada. Felizmente não padeço do odor forte de quem transpira um dia de labuta. Senão era a catástrofe.

101 cigarros pigarreiam à porta da comoção, a saliva atropela-se ao engolir, o ritmo do peito dispara sem conhecer meta a atingir, e os dedos das mãos como folhas mortas e humedecidas com o orvalho da exaltação – és como uma manhã nova para mim, espelhada no fresco azul dos teus olhos, na seara de intenso odor a frutos dos teus cabelos, a manhã mais clara e limpa quanto desejaria conhecer. A língua não soube ampliar o acorde das palavras. Era uma papa cheia na minha boca. Os lábios, esses, poderiam oscular, ferver sobre os teus ou diluir-se em tua extensa pele de feno. Porém, som nenhum conseguiriam produzir.

Portanto, nem os lábios, nem os gestos, nem nada em mim que se movimente, salvo a palpitação surda no tórax. Nada pode chamar a tua atenção, que possa tirar de ti sequer um simples olhar. Sou objecto patético na tua presença. E agora que te afastas, sou árvore a viver plantada para todo o sempre com sombras e banquinho de velhotes a colher nostalgias como a chupar do solo a seiva com que se alimenta. Vegetal e ignorado.

Quando o mundo der uma volta completa pode ser que nessa altura sim: bem composto, ex-fumador, recolhido e sedutor. Para passar a ignorar-te eu, como a um arbusto que incomoda as vistas.

11 de maio de 2009

pintura




ilustra-me esta noite com as linhas das tuas mãos
delicadamente tatuando sombras sobre o meu corpo
e apagando todas as fronteiras do amor e do prazer
sou eu que finjo o abrir de uma flor
e por cada pétala caída
a madrugada alarga-se no nosso toque acetinado
és tu a bátega apaziguadora que virá a despertar como um orvalho fresco
a aurora que se demorará na cor
selvagens os teus dedos adocicados
pelo mel do pólen
introduzem-se no teu corpo

para que a cópula seja sempre e mais uma tela
pintada pelas mãos e com as tintas
das nossas bocas
adormecidas na manhã do nosso leito.

6 de maio de 2009

segue-me a linha do corpo




segue-me a linha do corpo
no arrepio que provoca a brisa do teus lábios
inunda-me o ventre com o ondular dos teus cabelos
e serena repousa o ósculo
no pico extasiado do falo
que te desperta
a fome
de carne doce

engole-me
seduz-me na vertigem da tua língua

os meus sentidos emergem
na graciosidade gesticular
das tuas pernas
que, estremecendo,

procuram a foz de um rio feito de pétalas
e plumas da alvorada.

1 de maio de 2009

sábia mão artesã




ciranda as palavras encobertas pelo joio dos sentimentos
e atravessa circular as paredes do mundo
nela há uma planície com borbotões de água límpida
que lembram os olhares quebrantados da pobreza

cintilam as dores calejadas numa letra escorreita de substantivos
e sobram sempre dos poemas pontas soltas de sons
que livres se encadeiam numa melodia intemporal
é esta força graciosa humilde porém sublime

do ardor na terra, no ferro, no vidro, na malha
em toda a manhã que abre os sentidos povoados de ambição.

27 de maio de 2008

dívidas


foto de Victor Melo em 1000 imagens


Disseste-me que as tristezas não pagam dívidas. E não pagam, é verdade. Mas quem disse que eu estava triste? Apenas estendo o meu olhar para além das fronteiras, procurando horizontes grávidos de promessas. Promessas que nunca se cumprem. Homens e mulheres rendidos pela força do egoísmo. Sento-me num movimento cansado, apoio desinteressado o rosto entre as mãos e sigo assim durante horas. Com o olhar dirigido a todos e a parte alguma. E portanto não há tristezas nem há promessas. Há somente o meu olhar estendido para além de tudo quanto me é presente. Não é tristeza, sou eu que vou cegando, apanhado desprevenido a invocar a certeza do meu umbigo. Quando me levantar, de rosto composto mas empedernido, verás que não há tristeza alguma. E quanto às dívidas, essas, serão tuas. Serão sempre as tuas dívidas para comigo. Livra-te então de ficares tu triste.

23 de maio de 2008

porque estão tristes


Jeans & Silhouettes, por João Miguel Figueiredo em 1000 imagens


Na rua os transeuntes bisbilhotam o céu inquirindo a amena temperatura com tão pouco sol e sou eu que fui

(que estou?)

a sentar-me na esplanada, lembrando-me de olhar a erosão da calçada em contraste com o modelo da cadeira oferecida e do requinte do guardanapo a servir-me o café.

Perguntam-me do lado: porque estão tão tristes?, e eu não tenho a câmara fotográfica nem os dedos para o desenho, de modo que sem me documentar,

- Porque estão tão tristes?

não sei, estas palavras já foram escritas ontem, entre o suor dos lençóis e uma garganta rastejando rouca.

Era primavera pela alvorada, daí a temperatura. Compreender a tristeza da questão não sou capaz, por isso deixo uma nota pequena ilustrando a esplanada e parto com o silêncio engolido em seco, pendurando a dúvida por responder.

19 de maio de 2008

tango


autor desconhecido


Piazzola faria um tango com a raiz do teu olhar. Dança nos teus olhos a ferocidade do sangue latejando nos teus lábios. O sangue que bebe do meu suor a luz quente do teu corpo. E na multiplicação dos gestos tocar-te é estender-me a um fogo que só a madrugada, com a maciez dos beijos, poderá tornar mais ameno. Antes disso é a carne, é a pulsação. Dentro de ti o mundo renasce, esperando explodir em mim.

Debruças-te sobre a minha boca e fazes saltar os seios que se penduram como dois grandes sinos a velar de carne a minha saliva.

O orvalho vai caindo na orla dos teus beijos, despertando-me a madrugada do corpo. Cerro os olhos vagarosamente, sereno, limpo, acompanhando o bocejar das flores na raiz da alvorada. Dizes-me coisas com o toque delicado da tua pele, inventas o verão ardendo no interior das tuas coxas. E na manhã já colorida, mergulhas de boca esfomeada à procura do ventre, para que o frémito seja um redentor bom dia terno e adocicado como a flor dos morangos adormecida a nossos pés.

Respiras-me e toco-te, enlaçada pelos flancos, e os dois corpos fremindo ao som deste tango. Faço-te prisioneira do meu sangue neste fundo de terra com gemidos, onde, para prova futura do que somos, me plantarei como semente de trigo em seara jovem.

15 de maio de 2008

desta mão


(daqui)


Tirai-me daqui este papel, desta mão que não escreve. Tudo é tão superficial quando encolhemos os ombros e deixamos correr o tempo dentro de uma fadiga. De uma preguiça quase sem remédio. Não interessa quantas janelas, quantas cabeças ao longo da avenida buzinada de automóveis impacientes. Tudo se escoa até que uma sombra venha resgatar todos os ruídos e todos os movimentos. Tirai-me a ansiedade tamborilando sob os meus dedos, o meu olhar na paisagem abstracta escolhendo quais os sentidos. Não tem importância a ausência das palavras, se todas as teclas estão batidas, se todo o molhado está chovido. E que as bocas se cansem de todos os diálogos, os braços de todos os protestos, os punhos de toda a raiva. Tirai-me daqui este papel e as ideias, desta incerteza monótona. Sem luz que incomode. Tirai-me daqui pois não sei o que farei quando tudo gela.

13 de maio de 2008

cidade


foto de Filipe Golias (daqui)


Aguarda-me a árvore frondosa entre as vistas da avenida que sobe a cidade como um golpe profundo de faca

(e onde a faca?)

a amparar as sombras sobre os automóveis monótonos em ronco de feras domesticadas, e as pessoas gastando solas e saliva e gestos e risos e palavras e afectos; os prédios inclinados ao olfacto do asfalto exposto;

A árvore aguarda-me vergando cortesias ao vento, e as pontes braços atravessando o cheiro a sabão do rio grávido de abismos, cemitério de organismos e ferro-velho; rodam os automóveis, correm as pessoas, e eu largando-me pela sombra estendida enquanto o verão ainda por parir nas praias que maio enche de relâmpagos.

Aguardam-me os ramos frondosos da velha árvore nascida onde a memória não sabe alcançar e a avenida subindo, hipertensa, como uma faca esventrando a cidade.

11 de maio de 2008

ode ao que te lembrares



para onde esta escadaria imperfeita de musgo e pó
rasgada a granito ancestral agastado pelos passos dos mortos
para onde o horizonte emprenhando da luz de cada olhar que passa e finge
para onde as plumas fétidas das pombas moribundas
dilatando asas na praça onde chove de verde
a oxidação das estátuas de bronze
para onde este jardim desarranjado e daninho com pés de medronho
arreganhando as raízes ao chão de cimento estourado
para onde caminham os velhos suplicando de soberba a vida que já não têm
com a boca de gula gaguejando gengivas por eternidades estéreis
para onde os gritos distantes dos prédios altos embandeirados de roupas
estouvadas ao vento, as molas nos arames multiplicando as cores
para onde os gatos pardos nas sombras das esquinas a feder
detritos e reflexos de faróis indiferentes na passagem
as nuvens enlutando os céus com o vento como lobos

(as molas da roupa na vez das flores)

para onde os cadáveres dos animais aninhados na estrada feitos peregrinos abandonados
para onde esta pressa, para quê correr na iminência da morte súbita
porquê as garagens trancadas e as janelas corridas e as portas cicerones antipáticos
para onde o vinho amargo, as cascas da fruta, os lençóis das prostitutas
para onde o cascalho velho, e a calçada entupida das últimas lamas
para onde cidade, estendida de gangrena, condoída de pus e ratazanas
para onde as palavras nos teus muros
para onde os muros brancos

(e os baldios embandeirados de roupa aflita nos arames
as molas multiplicando-se em cores o jardim daninho)

para onde as escadarias onde moras povo solitário
para que braços e forças as pontes e os boiões de desespero no rio

(para onde os corpos atirados como feras de circo)

que te resta, cidade aleijada de hospitais com limo e vidros estilhaçados
para onde o pão duro farejado pelos cães como lobos
como lobos como uivos como o vento afligindo de gestos
os estendais no cimo dos prédios arreganhando gengivas de bolor

(as molas da roupa como frutos, como flores)

para onde as árvores decepadas, para onde os autocarros
como se dois invernos por cada ano nos rostos estampados dos que lá vão dentro
para quem euromilhões a afastar as funestas janelas da miséria
para onde as lágrimas agora que os rios, agora que os braços para as pontes
transitando despedidas

para onde em que lugar a que tempo
– cairá sol como pétalas, abrirão as chuvas como agulhas? –
móveis de inquilinos despejados
papeis arrastados, uma queda, um joelho sangrando
a malha da meia desfeita, o rímel pelo rosto como se não conhecesse o vale que abre
como virgem ribeiro entre as rugas que descobrem a solidão
a fome, a fome
a boca aberta e negra de fome
para onde?

9 de maio de 2008

fabulação


(daqui)


Fico sem graça porque me apanhas tão desnudado que me assemelho a um virgem tísico em núpcias todo cheio de tiques e timidez perante a noiva. E ainda que tu – tal qual a afectuosa noiva – me abras os lençóis e me convides a entrar no leito a teu lado

(vais rejeitar que não a teu lado, que não tens o talento)

eu continuo desajeitado e hesitante, tremeliques das pernas, cheio de vulcões na pele áspera, teimando em fazer-me invisível, espreitando em que buraco me hei-de enfiar. Que noiva me quer assim? Tísico, borbulhento, coberto de tufos de pelos, desajeitado, desconfiado e hesitante?

As palavras acumulam-se a uma velocidade tonta dentro da minha cabeça e a composição acaba sempre por descarrilar. Surge um texto a espaços de dias que são as sobras de um sonho, os esboços de uma epopeia, os escombros. São principalmente os escombros e a necessidade de libertar o meu espaço interior de tantas palavras que se acumulam.

São acidentes. São as borbulhas, os tufos de pelo. Os tremeliques. E vejo ao redor que não existe buraco onde me enfiar, vejo-te multiplicada em vozes que surgem de onde não suspeitava sequer um murmúrio, seduzindo-me

- Continua escrevendo.

E eu, como o nubente tísico, vou dando passos muito curtos, assustado com a maciez dos lençóis, mas – confesso – deslumbrado com a beleza do teu rosto, os contornos do teu corpo, com uma incerta expectativa do prazer que nos teus braços

(aos teus olhos)

irei encontrar, mimando o meu umbigo, mesmo que os tufos de pelos o encubram.

Se então explodires num êxtase desenfreado

(por favor não finjas)

eu prometo olhar-me novamente ao espelho e talvez reencontre o que já dei por perdido.

11 de maio de 2007

agora sei


fotografia de Armindo Dias em 1000 imagens


Ficarei a velar os momentos. A acreditar que tudo é

(ainda?)

possível. E tudo é demasiado para suportar. Levantem-se os medos e alguma coisa parecerá mais fácil. Os espelhos que não me conhecem, as vozes que não me chamam, só por exemplo. Ficarei do lado de cá, a inventariar as solidões através da janela. Dos autocarros que passam tristes, levando gente triste. Das sarjetas visitadas por todos os gatos pardos. Aqueles que o são e aqueles que o fingem ser. Com promessas de simpatia pelos promotores de vendas que me queiram falar ao telefone. Aquele que nunca toca. Aquele que é um absurdo de lugares comuns.

Canso-me, sabes

(ainda?)

de tudo quanto seja especial porque sem o toque das tuas mãos nada mais é senão extravagante, ou piroso, brejeiro. E as tuas mãos estão longe, abrindo brisas de maio em outras latitudes. Lugares para onde não sei deslocar o corpo. Lugares que se incomodam com o meu cigarro perscrutador.

E passarão os dias, como sempre. Como passaram por nós dentro e fora de lençóis e os magazines de arquitectura copulando com volumosas páginas de poesia. Aquele relógio que me deste,

(- Contas a nossa vida por ele?)

parou. E acredito que o tempo tenha realmente parado por aqui. Todos os movimentos redundam no mesmo. Ouço cheiro vejo sinto o fim em tudo quanto começa. E por isso era previsível. Sabíamos ambos.

Por isso acredito

(ainda)

que tudo é possível. Não interessa em que acredito, desde que acredite. E ao escrever estas palavras, na mesma solidão triste dos autocarros para lá da janela, eu soube. E agora sei sem qualquer dúvida. Sei finalmente que nome te hei-de dar: o tempo que ignorei como perdido.

5 de maio de 2007

triste é o virar de costas


Último Beijo, de Paulo César (1000 imagens)


Ficou-me amargo o último beijo. O derradeiro quando não sabia sequer

(ou sabia, mas não acreditava)

que era também a última noite. Das tuas mãos repousadas sobre o meu peito, entre os lençóis preenchidos de silêncio. E por aquele sabor amargo

(enquanto te vestias, uma coisa furtiva, como se não mo fosse permitido)

o meu olhar estranhamente deslocando-se, a mão por instantes

(longos, instantes transformados em horas)

sacudida e suspensa nas entrelinhas dos teus gestos. E indaguei

(lembro-me)

onde os teus dedos dedilhando de cor as palavras, os sorrisos afectuosos sobre o meu olhar, e as lágrimas

(ou talvez nem lágrimas)

alagando tremores por medo das partidas. E nisto um último olhar, a derradeira prova de que

(sabia lá eu)

o amor para nós não era possível. Tudo o que disse, e fiz, perdido naquele olhar. Tudo o que eras para mim. Seguiram-se os dias sem serem dias, as noites acontecendo sem que eu acreditasse. Eu, um copo, o cigarro intermitente nas dúvidas que fui colocando.

Restou apenas esta fotografia. Eu, que repudiei as lamechices e os são valentinos, as datas, nem sempre as memórias, eu aqui a olhar-te distante numa fotografia. Com os mesmos dias seguindo-se alheios a mim, as mesmas noites acontecendo sem nós dois dentro, ainda apenas

(e por quanto tempo?)

eu, um copo e cigarros decompondo as dúvidas. Assim. Foi assim. Como pudeste?

23 de maio de 2006

regresso




Ainda aqui estou, encalhado para o teu regresso. Sempre de braços abertos com a luz parda inteirando-se de mim a perguntar

- Que faz este aqui?

e eu encolhendo os ombros à presença da nuvem negra que vai e vem, verificando se as minhas alegrias estão sendo reprimidas, se levo o tempo com o rosto apoiado nas mãos

(caramba, dava alvíssaras a quem me dissesse quando é que eu já estive assim)

a inventar depressões por causa da morte de um caracol, ou porque o botão da camisa está por um fio, e eu sem ti para mo pregares mesmo com ela vestida, tu repetindo uma lenga-lenga antiga que a tua avó te ensinou

- Não coso vivo nem morto, coso isto que está roto.

Sim, continuo aqui, como se o tempo que entretanto passou fosse apenas a antevéspera de um capricho teu, e tento desviar-me dos maus pensamentos cuidando do jardim órfão de ti, magicando novas decorações para o quarto, para a sala de estar, comprando no hipermercado trens de cozinha sofisticados e um serviço de mesa em porcelana, tão naturalmente do mesmo modo como compro toda a espécie de mercearia, alimentos e vinho para as nossas refeições. E só de vez em quando (juro que é só de vez em quando) deixo-me escurecer com a tarde, concedo a presença da luz parda indagando

- Que faz este aqui?

aparentemente em pânico se verificar que afinal o jardim cresce em escombros, e que as cores das cortinas não dão nada bem com a colcha que escolhi, e que o outro dia numa fúria desenfreada destruí aquele serviço vista alegre presente do nosso casamento. Aparentemente em pânico quando me dou conta que as caçarolas vão acumulando ferrugem (ou será gordura?), semanas a fio esquecidas na pia como qualquer escultura abstracta, e que são as baratas e outros bichos

(outros que não o caracol)

que se alimentam dos restos depositados nos armários, o frigorífico morto de bocarra escancarada… Aparentemente em pânico se me dou conta que não és tu que vens pregar os botões por um fio, a repetir a lenga-lenga da tua avó

- Não coso vivo nem morto, coso isto que está roto

e as minhas camisas desalinhadas no roupeiro, botão sim botão não, que figura ridícula ando eu a fazer na rua, no trabalho? E por isso dou comigo a inventar depressões, seguidas de prantos e fúrias, procurando o caracol como a única companhia nesta casa cheia de fantasmas de ti, só espero que não morto.

Contudo, sei resistir a tudo isso, como me ensinaste no dia da tua partida, e por isso repito, cheio daquele optimismo que dizias ser a minha grande qualidade: eu ainda aqui estou, encalhado para o teu regresso.

4 de maio de 2006

da tua iniciativa


Anjo, de Miguel Oliveira em 1000 imagens


Sentas-te e as palavras não estão contigo. Abres os dedos afagando o regaço e a tua mão tropeça num soluço inaudível. E servir-te-ia chorar para esquecer, para afogares as mágoas em auto-comiseração. Eu aguardo no mesmo silêncio feito de culpas e sustenho a voz para não te atrapalhar a equação dos pensamentos. Sempre foste tu que decidiste o que fazer. Quero pois que sejas tu a tomar a iniciativa, como se nos encontrássemos numa encruzilhada sem direcções, e me guies, como sempre o fizeste, pelo caminho que achas o melhor para concretizarmos o nosso destino. No teu corpo sinto que reside uma impaciência, parece-me que te vais mover, mas nem o olhar manifesta qualquer intenção de movimento. Eu sigo silenciosamente, remexendo devagar as minhas algibeiras, levantando e poisando os livros em cuidado, receando que a movimentação do ar te altere o alinhamento da solução para tudo isto.

Foram longos minutos, porque não fui capaz de saber se horas; sei que estamos nisto há muito tempo, desde que te sentaste. Agora que a minha boca, rendida ao cansaço, se solta em um ou dois bocejos, e depois de tanta paciência, esperando que da tua condição de estátua surgisse o epílogo da nossa presença diante do outro, as tuas mãos erguem-se seguindo a explosão indignada da tua boca que me acusa de não fazer qualquer esforço para superar esta ridícula situação.