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22 de abril de 2018

em cama fria

Kültür Tava



Queria a calma manhã para escrever-te o chilreio das aves pequenas ou o recolher ainda ululante das rapinas nocturnas. Dar-te o acordar do céu envolvido no mesmo halo dos teus olhos. No prado, o balanço e o friso dos fetos que se espalham, e a fauce das flores na descoberta das suas corolas. 

Queria o teu sorriso e as tuas mãos brancas assegurando que o mundo é afinal e ainda o melhor sítio para tomar a vida. A ondulação de oiro do teu cabelo num abraço para lá do todo. 

Queria os nossos gestos na vez dos fonemas ou, se necessariamente com palavras, um andamento lexical sem indicar por quais caminhos seguir ou influir sobre a nossa condição futura – apenas as dos sons chegados à terra intercalados com os assobios matutinos dos melros. 

Queria a brisa amena sustentando o voo das borboletas brancas, o aroma denso do tojo por contemplação da magnificência das montanhas desmaiadas de amarelo no horizonte. 

E queria o brilho do sol e a sua macia temperatura primaveril em auxílio do sangue que me percorre as veias. 

Tudo tão rebuscado, uma tontaria tão adjectiva, dirás. Eu sei: ao despertar percebi, sob a pressão do peito e na subida angular das lágrimas, que o meu corpo se havia resignado em cama fria.


11 de abril de 2013

orquídeas a tempo de um aniversário passado



para a Anabela Maria

Perguntas-me pelo teu jardim e as orquídeas predilectas, como promessas feitas. A primavera tão vagarosa, a instalar-se entre as nuvens e o sol tímido mas, mesmo assim, a instalar-se. Floresceu o tojo já, combinado que foi com o romper da giesta em maio, a desmaiar de amarelo as colinas, de frondosas árvores então à inclinação suave das brisas e um permanente perfume de dias estivais prometidos. Mas as chuvas claras de abril não permitem ainda reconhecer essa festa de cor com que se envaidecem os montes, os prados e, sim, os jardins.

Perguntas-me pelo teu jardim e as orquídeas predilectas, e a promessa mantém-se, na esperança que o sol nos conceda o seu brilho. Entretanto,

(e por que em ti é primavera desde sempre)

levo os meus dedos ao roseiral dos teus lábios enternecidos e adivinho quantas pétalas no jardim do teu corpo. Ou da seara jovem da tua pele, amadurecendo o trigo. Desce a brisa dos teus cabelos, num afago pelos cumes plantados de dois amores-perfeitos

(prefiro dois borbotões de água que acalmam a minha sede, mas também pétalas suaves de amor-perfeito)

e então um prado descendente de curvas perfeitas, o aconchego do colo para sestas revigorantes, eu cavalo galopando à procura de sombra e feno .

Tacteando com os dedos encontro um canteiro de tímidos trevos, súbditos de uma flor que reina a meio caminho, semi-deusa, esperando por escolher o pólen. Ufana porque única, rainha porque procriadora. Eis uma orquídea tão bem definida, delicada no seu toque de seda, palpitante, as pétalas erguidas com sumptuosidade. Inalo o seu perfume: tenro nos lábios, agridoce na carne tumefeita. As falanges dos meus dedos em cuidados de jardineiro. A flor então aberta para os delicodoces prazeres.

Concedo-lhe um beijo como se sol e água para o seu alimento. O meu corpo tenso aflorando a seda escarlate das pétalas, a adensar-se no gineceu. Acontece a manhã, ergue-se e desce a tarde e infiltra-se a noite. E nos teus olhos, sempre o céu.

Este jardim sempre te pertencerá, com ou sem promessas alheias, chova em abril ou neve em dezembro.

Que sejam em ti muitas primaveras, em arranjos de campos de orquídeas, tão selvagens quanto rainhas, veneradas pelos que amas.


23 de abril de 2012

o livro diz luta e diz amizade



o livro é país e é paisagem.
a tua voz carpindo a saudade
com o olhar percorrido na viagem.
é luz e sede de qualquer verdade.

o punho exaltando a coragem
do povo que habita a cidade.
ponte para qualquer margem,
entroncamento e profundidade.

é o pensamento com a voragem
do desejo de abraçar a eternidade.
é sombra, o passado, a imagem

de todas as palavras, a idade
que se conquista na passagem:
o livro diz luta e diz amizade.

7 de abril de 2011

a primavera ainda só lá fora




Outra vez a primavera explodindo no meu corpo e nas emoções que venho carregando ano após ano, sem nunca esquecer o nefasto dia em que estivemos um perante o outro para a despedida, o voltar de costas doloroso, que continua magoando, mesmo quando os ciclos se completam e todas as outras pessoas, objectos, factos e eventos vão passando

(the same old song again).

E as noites a mesma constante: pardas e solitárias. Por mais que não queira ouvir repetir-me, por mais que tudo tenha vindo a perder sentido, é o mesmo desejo que me persegue. Ver-te, sempre uma vez mais para que o cumprimento dessa promessa que fazes por dó, de estar comigo uma última vez, consiga vencer a efemeridade que tenta afastar-nos definitivamente. Um último momento repetido até que se deixe de fazer caso, e continuarmos a rever-nos por um hábito adquirido, um vício que custe largar

(I wanna hold you once again).

Isto por nada mais que o tão simples afago que espero das tuas mãos, beber do teu rosto calado e resignado, porém tão consolador, a fugaz alegria de ter nos braços. O teu colo. Uma vez mais o teu colo dentro do beijo e o calor dos corpos carpindo a dorida saudade. Porque a primavera é só ainda lá fora, meu amor; aqui comigo continuam morando as monções, o negro luto das chuvas frias. E tu sabes tão bem como o mundo me magoa, como tudo não passa de um equívoco, se nada for contigo

(stay with me tonight until the sunrise).

O teu colo, Matilde, o teu colo: concede-me o teu colo e poderás abreviar-me o sofrimento que o mundo contigo me instiga, ano após ano. Um dia virá o inverno da minha vida e então aí deixarei de te pedir a primavera. Até lá, concede-me novamente a eterna última vez.

26 de abril de 2010

circunstância




Deixou de ter importância o que escrevo, por quê e se escrevo. Adianta-se a tarde nos meus sentidos, escurecendo de nuvens as emoções e o pulso. O crepúsculo banha a redundância da tarde e eu quedo-me sem perspectiva com um livro mal amparado sobre o meu colo. O olhar segue preguiçoso a braços com o cansaço.

Não leio: deixo para quando a noite cair e a penumbra resgatando-me para a companhia da solidão. Como sempre foi.

Escrevo sem pressa e por circunstância. Fiquei sem vontade de continuar. Se for o caso

(ou o ocaso permanente e irreversível)

a voz termina sem acenar quaisquer despedidas.

11 de abril de 2010

dois poemas estranhos




estão dois poemas estranhos
(no mínimo estranhos)
a observar o que sucede

onde são largados os pombos
levemente atordoados pela claridade
para o tiro ao alvo

ressoa o estrondo da pólvora
e sibila o vento
na velocidade do projéctil

as manchas de sangue catapultam-se no ar
tingindo a azul paz celeste
num revoar de plumas carmesim

e o grito dolente e mudo
arrancado da mais delicada laringe
que outrora rolava

cai em flecha numa certeza de terra
que por ser ainda sagrada
lhe torna a morte mais nobre

e faz do atirador um deus


2 de abril de 2010

agnus dei



Dois mil

(menos trinta e três, a conta que deus fez, ou seja)

mil novecentos e sessenta e sete anos tem a madeira que quis que apodrecesses antes dela. O teu nome perdurou na história dos homens, a madeira transformou-se em cinzas. Chamaram-lhe a cruz porque eram dois troncos toscos colocados transversalmente: um na vertical e o outro alinhado ao centro no topo do primeiro horizontalmente. Ou simplesmente porque os dois troncos se cruzavam em T, não um perfeito cruzamento mas antes uma bifurcação perversa

(o que bifurca? o teu destino? o destino dos homens? dois caminhos de deus?).

Por cima uma inscrição muito irónica, à semelhança do que se faz ainda hoje quando se quer humilhar alguém. Era assim que na lei imperial romana se castigavam os prevaricadores. A cruz em ti passou a ser sinal perverso de salvação, mas significa apenas a tua morte. Cegos os que não percebem coisa tão simples.

Foste o primeiro mártir sem pátria: aquele que combatia com a palavra e actos de bondade como dádivas os vícios instituídos em vez do gume das espadas e dos punhais sedentos de sangue. Um mártir para expiar a inveja e a mesquinhez de um povo alienado pela influência de um poder corrupto de fariseus subalternos do outro poder dominador de roma. Morreste sofrendo de uma tortura medonha, alicerce enfim de todas as vergonhosas torturas vindas depois em teu nome e do pai deus e de toda a civilização acreditando que foste o santo dos santos. Ofereceste a face ao cuspo e ao escarninho da vileza humana, raça naquela altura já tão sem vergonha dos seus actos que nunca mais viria a mudar. Depois de ti os que te seguiram na mesma pureza foram também carne oferecida a martírio para a salvação dos pecados, e depois destes aqueles que os seguiram sentindo que era a ti que seguiam, somando mártires e santos antes e depois da igreja que veio com o teu nome erguida como paródia, mártires cuja quantidade esse deus não soube nunca contabilizar. E ainda os que, mesmo renegando yahweh ou outro deus menor, da mesma sorte foram partindo deste mundo em dois mil anos depois de ti, à assimetria de outros mais ainda antes da tua anunciação.

Esta humanidade, que protegeste na tua dor

(como a leoa protege as suas inocentes crias da predação das hienas e dos chacais loucos de sangue e carne fresca – mas será que não sabias que a humanidade em vez de inocente era, como foi e será, um covil de hienas e chacais, esses animais feros e escarninhos, covardes desde o princípio do mundo, a rasgar sem remorso a carne do teu colo acolhedor?)

esta humanidade, de tanto obscena, não soube nunca compreender-te. Aceitar-te como um homem em tudo semelhante aos que habitavam a terra, mas semeando um evangelho promissor de frutos novos e esperanças. A humanidade temia que os espelhos quebrassem, não se sentia confortável que a tua imagem se lhe fosse semelhante, não era possível uma metáfora viva de carne e osso. Mesmo sabendo e apalpando a solidez da tua carne, a energia da tua voz e a ternura do teu toque. Não havia por que duvidarem, mas os homens não te aceitaram como um seu igual.

Amedrontados com o desconhecido, imitaram ancestrais: ergueram-te como o mais divino, o primeiro dos santos pregado nessa cruz que é afinal uma bifurcação

(o que bifurca? o teu destino? o destino dos homens? dois caminhos de yahweh?),

um cordeiro desse deus malvado que inventaram para justificar os seus actos. O cordeiro de deus que derramaria o seu sangue para a redenção dos pecados e da malvadez humana. É mais fácil uma hipócrita bandeira branca do que a perseverança em nos tornarmos melhores do que fomos, do que são os animais feros e escarninhos de onde viemos. E chamaram-te cristo, isto é, o ungido de deus: aquele que tudo supera, por amor aos homens fracos de carne e espírito. E se ungido de deus, símbolo da humanidade para sua aspiração ao bem.

Porém, nunca te seguiram verdadeiramente: nem com as palavras que semeaste em vez do gume das espadas e dos punhais sedentos de sangue, nem pelo que em ti projectaram, o cordeiro ungido e salvador. Continua a humanidade numa senda obscena e hipócrita, expiada por ti durante séculos até ao fim. A carregar a sua verdadeira cruz, não de madeira, não de pedra, mas de chumbo: vem carregando nos ombros o mundo por castigo, à beira da catástrofe, vítima da sua tão grande culpa e cobiça.

E assim errará pelos séculos, numa grita silenciosa de sofrimento maior que todos os infernos delirados. Até que desapareça do espaço e do tempo esmagada pela sua própria mão.

24 de abril de 2009

partida (em memória dos oprimidos do passado e do presente)



não sustento o teu pensamento
com pedras angulares
porque parto daqui sem haver boca
para a fome
nem sede para os olhos
e com a saudade palpitando em cada passo
que não volve o olhar ao passado

parto como outros partiram
no destino que não se vê para lá do salto e da distância
parto como criminoso
como um ladrão
que furtou à pátria o sangue
mas nunca como um cobarde

porque não sustento o teu pensamento
irregular e granítico
porque a minha fome é a tua fartura
e a minha clausura é o teu conforto
eu parto, já com saudade

e aspirando a uma terra onde possa gritar:
- Liberdade!

21 de abril de 2009

pré-laboral com bastante tragédia


(daqui)


Vem o vento atordoando a gentileza da manhã e não há vontade alguma de me erguer da cama, fazer a barba, encarar o dia que recomeça, tudo a repetir-se uma e outra vez. A cortina corrida que não anseio abrir faz cair no quarto uma luz cinzenta de objectos perdidos. As pernas por dentro dos lençóis gesticulando impaciências matutinas, os olhos persistindo aninhados na cova das pálpebras, e a boca desenhando um corte esgotado no rosto. 

Um mau acordar com o hálito a enxofre. Porque nada de agradável me espera para lá destes lençóis, depois do banho e da barba feita às cegas, após duas goladas num café de véspera morno e a trinca desconsolada na torrada.

Sou violentamente subtraído da cama à força de pontapés imaginários carregado de raiva contra os empregadores deste país. Despeço-me angustiado dos lençóis amarrotados por tanta luta contra o mundo. O mundo que, durante os quarenta e cinco minutos em que me preparo para o enfrentar, odeio. Visceralmente.

Vou imaginando com azedume os rostos que então se cruzarão comigo, multiplicados de sorrisos, bons dias, quase vénias de meter nojo, falsas simpatias. Nada é perfeito, é sabido e certo, mas estas manhãs assim são actos obscenos contra a integridade psicológica de qualquer um.

Até que, a pouco e pouco, muito devagar sem que possamos dar por isso, eu e os rostos acabamos por nos conciliar, acabamos amavelmente confraternizados no nosso comum objectivo: que o dia acabe! E o humor até deixa espaço e pretextos para piadinhas de circunstância, risadas de toda a ordem.

São os ódios que se querem uns aos outros, cúmplices e solidários.

16 de abril de 2009

para o mundo



Não sei se eu tu ou alguém que não tu ou eu assumindo, sentado e pensativo, a pose dos mais sábios ao formularem as leis do universo; por dentro move-se uma corrente concentrada de tudo aguardando a espasmódica sobriedade de um parto quase ético, mas dir-se-á amoral; e a careta

(como de espanto!)

desenha 

(em desdenho)

um quase sorriso ao que se move vivo e pensante – a humanidade! – em espiral imperfeita que alivia numa descarga sem gorar polir os ombros e as mãos; os braços obrigam-se quietos ao abandono até virem estremecendo no êxtase do esperado orgasmo que pare, expele, sem amor à própria criação:

o terno pedaço com que quer acarinhar, caridoso em pleno, o esplendor deste mundo.

10 de abril de 2009

o evangelho segundo este poema


fotograma de The Last Temptation Of Christ, de Martin Scorcese



Nascemos.
Jamais seremos indiferença.
Ergue-se um mundo do mundo já erguido
nele as glórias, as vãs glórias
neles as alegrias, as solenes alegrias
neles os amores, emancipados amores
nele o nosso gemido
nele todas as histórias
todas as histerias
todas as dores.
E de um mundo então erguido,
morremos.


As minhas sandálias descobrem nas areias os teus passos da sombra que me persegue. Porquê esta angústia, esta piedade que me lacrimeja os olhos - quando estou entre a multidão porque desespero? Porque me dói onde não tenho qualquer ferida? Por cada talhar do machado na madeira ainda jovem, por cada prego nas entranhas desta carne por saciar, broto uma lágrima que cai lenta e apaixonada no pó que se levanta e rende, húmido e salgado ao medo de ser quem sou, à angústia que me assalta pela noite. De onde vens, porque me persegues se te não vejo? As madrugadas, estendido na minha enxerga, são martírios por te amar e não te conhecer.

Como bebem e comem, gemendo sorrisos no prazer da gula que lhes sucede à fome miserável da alma. Vêm até mim e eu lhes digo que a minha fome e a minha sede não se sacia, nem os meus lábios sabem rasgar o mesmo sorriso. Levam-me a casa de uma mulher e dão-me haxixe, dão-me vinho para que beba do espírito e o espírito queima por dentro todas as fomes do homem que sou. Como bebem e largam risos perante meu olhar petrificado: ali, no ventre daquela mulher, nascem víboras que clamam o meu nome.

Nascemos: jamais seremos indiferença. Eis onde vive o mistério de todas as dores, de todas as crenças: o nascer para a vida, erguendo-se um mundo do mundo já erguido. A palavra que renasce em cada um dos homens que habitam o mundo para quem o amor e o apego à vida é o caminho de que se desviam qual camelo rendido à estreiteza da agulha. Todas as glórias de todas as conquistas, todas as lágrimas de todas as derrotas, todo o amor, amor maior com que me revisitam, toda a dor, dor que me alimenta, e dor de que te sacias: eu sou o filho do homem, duas vezes carne do mundo. Cumpra-se a palavra para que o tomemos reerguido.

Jejuo do que é particularmente terreno. Saio pela noite fria, envolto em meu manto e não carrego a enxerga - esta noite não é para dormir. Encontro na raiz das minhas veias o segredo das insónias quando o tormento exasperado sai de mim como a carga que cai do dorso carregado do camelo. Esvai-se tudo de mim como se o sol repousasse todas as horas por trás das crinas das dunas e sou livre e imenso no ventre de tudo de que se faz o vento.

Vinde até mim, almas perdidas e fustigadas pelo gume da indiferença, vinde ao calor do filho do homem, aquele que jejuou dos prazeres terrenos para encontrar a palavra redentora que vos vem salvar. Vinde até mim, órfãos da riqueza, espoliados da soberba, arrependei-vos da vossa nefasta solidão. Vinde, vós que bebeis perenes das fontes do prazer e não sabeis explicar o azedume das vossas lágrimas; chegai aqui, indomáveis, rebeldes, delfins, insaciados, abram as mãos para receber da palavra e dela comer. Vinde até meus braços, vós que sofreis de dores e tormentos, feridos e esfomeados de toda a natureza, esquecidos e maltratados. Vinde, ó proscritos, e recebei a redenção. Em verdade, de todas a verdades vos digo que estas palavras que vos canto são os versos com que o pai pediu para exultar o mundo.

Estou na paz como estou na brisa que suaviza o rosto do campino ceifando a sua seara. Estou também no trigo de todas as fomes, na carne e no sangue, no dilúvio e na tempestade, e estou também na água de todas as sedes, na aurora e na bonança. Estou na lágrima que rola do espinho cravado na alma do mundo, estou no meu pai que te perfilha, na minha mãe que te acarinha. Estou no mundo erguido pelas minhas mãos.

Que desça sobre a terra toda a incúria salgada da vossa fraqueza e se derrame do meu sangue como um cordeiro que morto foi para saciar a fome aflita. Que se abram os céus após o vão dilúvio, que se encha a colina de sol e de brilho os mares. Sou aquele que ama e se entrega, pois erguido foi este mundo.

Escrita na história e nos passos por sobre a areia que palmilhei está a cumprir-se a profecia:
- e de um mundo então erguido, morremos!

5 de abril de 2009

Irene


foto por Pedro Gomes em 1000 imagens


Na parede nascem os fungos com a súbita progressão da luz abalando a indiferente leveza do cotão varrido no soalho e o farelo da cal que desce do tecto. Veio uma nesga de sol acender o brilho das unhas que repousam a manhã abreviada. Ergues-te num pulo de ave marítima, e tocas-me com o bico da tua boca desfeita na cinza do teu velho veneno.

Na parede crescem os fungos e já te custa respirar o sal que a brisa pulveriza sobre o corpo encontrado na janela. Uma pequena ave dada à morte, como qualquer folha que perde a seiva e se despede lacónica do ramo onde lhe dava o vento.

Que pena, pensas do ser de penas contadas como rosários sem fim, uma ave branca abalando a tua expectativa de paz interior, porque veio morrer assim este pássaro pequeno quase sobre a palma da tua mão, janela onde te encontras todas as manhãs com o mar e as rugas do céu?

Então olhas-me desesperada pedindo-me calada que te dê as esperadas condolências. Não foste tu que morreste no parapeito, Irene. Não foste tu. Nem ninguém que te mereça comiseração. Apenas um pássaro que não tinha mais onde cair morto. Faz parte do mesmo humor das folhas caídas das árvores, dos insectos esborrachados no pára-brisas de um automóvel.

Vem. Constrói o teu ninho no meu regaço e não te percas a pensar que no teu sangue corre a efemeridade da tua existência. Na parede nascem fungos, e mais estranhas criaturas que não vês passear de madrugada entre as sombras. Vem. Encolhe-te como se fosses menina, inocente e indefesa, e pudesses caber na palma da minha mão, aconchegada dos males do mundo, das doenças, dos hospitais de corredores brancos, infinitos dentro dos pesadelos.

Tens um espelho que tudo te reflecte além do corpo. Não é de vidro nem folha de estanho esse espelho: são as tuas mãos aparando a convulsão do teu rosto frágil. Sabes que todos acabamos por morrer, Irene? Todos. Todos como pássaros ou folhas tombadas.

Oxalá tombes na tua hora sobre o parapeito da janela de deus, olhando-te comiserativo. Também ele é um ser frágil, que olha todas as manhãs o mar e as rugas do céu, acreditando ingénuo que há esperança. Dizem que vence a morte. Cá tenho as minhas dúvidas: se a vencesse, ela nunca existiria. E seria um consolo tão grande, Irene, não seria?

18 de abril de 2008

gosto dos teus seios


power lines, de A Brito em 1000 imagens


Gosto dos teus seios. A curva da nascente e o repouso imperioso, içada bandeira no cume dos mamilos. A ponderar os lábios e a ponta dos dentes. Como espuma e água na polpa dos meus dedos. Como rocha amparando os meus intentos. Como fogo a auréola do sol para os meus olhos. A receber afagos da maciez dos teus cabelos.

Um fruto de verão, e o suco escorrendo do meu queixo. Sabor silvestre, corpos quentes, perfume bravio. Pendular sobre o desejo ao fundo aberto na tua ferida de prazer. Pétalas e música. O gemido animal.

Duas luas cheias que recebem a via láctea espremida de mim a espasmos de calor. Plantados no teu jardim onde repouso o corpo exausto de anseios.

Gosto dos teus seios.

15 de abril de 2008

hoje


foto de Gonçalo Esteves em 1000 imagens


Hoje apenas tenho a dizer-te que não sei escrever. Vieste numa correria de ave desconcertada a cacarejar qualquer coisa sobre uma ideia genial, segundo a tua própria expressão, suspensa num sorriso escancarado. A boca e os lábios assim sorrindo seguiram os meus gestos até os músculos esforçados começarem a esmorecer. Não achas boa ideia, perguntaste, numa clara intenção indirecta de indagares sobre o meu silêncio e a minha indiferença face à tua estridente alegria. Sentei-me num movimento cansado, apoiei desanimado o rosto entre as mãos

(quando foi que estive também assim?)

e dei-te o mesmo valor que dou à secretária, às estantes, ao papel, e restantes objectos que perfilam assimetricamente nesta sala. Os livros sempre os considerei como objectos vivos, como qualquer vida vegetal, não se mexem, não se emocionam, mas crescem sempre que os leio uma e outra vez. Ainda assim, e perante o meu rosto mudo apoiado nas mãos, estão como qualquer planta que precisa de cuidado, podar umas folhas velhas, mexer a terra, regar… Mas há dias em que nada parece ter qualquer importância. Nem mesmo quando vens de sorriso escancarado, de ideias brilhantes a querer salvar o meu dia. E encho-me de ternura por ti quando compreendes que a tua saída em silêncio e em respeito pelo meu estado de espírito é a melhor atitude a tomar: hoje apenas tenho a dizer-te que não sei escrever. Volta, por favor, quando te deres conta das folhas verdes e viçosas, quem sabe venha a nascer então uma flor com que possas adornar os teus cabelos…

9 de abril de 2008

ainda mais


(daqui)


E volta a cadência da chuva entorpecendo-me os passos, os pés baralham-se em nós consecutivos junto aos lençóis de água, a cabeça à deriva na humidade, e os meus braços embrulhados num cinzento - nem por isso frio - que tinge a paisagem agora cercada de telhados brilhantes e gruas em movimento.

Eu havia saltado da cama um pouco aos trambolhões, completamente baralhado numa trapalhice infantil, para escrever um sonho sobre fábulas, eu vinha escrever sobre fábulas, e os pés faltaram-me, atados num silêncio de nós de água que desciam sem paciência dos lençóis - nem por isso frios - de uma cor parda que só as noites assim sabem delicadamente espalhar sobre a tela dos sonhos, esses estranhos edifícios da memória, cujas gruas em constante movimento são os desejos desarmados.

Eu vinha entorpecido nos passos da chuva, nesta cadência melancólica da humidade, que embrulhando-me os braços em nós de cinzento, me atrapalhava o pensamento - nem por isso frio - à deriva sobre os telhados como fábulas e

(o que veio a ser então, o que foi, o que me sucedeu?)

tudo o que havia para contar era um despertar fustigado pelo cansaço e a vontade de dormir ainda mais, ainda mais, ainda mais.

7 de abril de 2008

clausura


(daqui)


Os dias foram crescendo e sem que eu desse por isso

(dormindo, o trabalho, comendo, o trabalho, dormindo, o trabalho)

já as margaridas cobriam de branco os prados rebeldes de vento e verde jovens. Foram as chuvas, foi o sol adocicando as tardes, foram as chuvas novamente, e é Abril. E ora torna o sol, ora tornam as chuvas, de levezinho levantando o aroma da terra. O hálito perfeito espalhado como uma brisa, enquanto eu

(comendo, o trabalho, dormindo, o trabalho, comendo, o trabalho)

a esquecer-me no mofo dos papéis, entre paredes cariadas de humidades e bolores, com a fruta magoada nos dedos e os lençóis doridos no meu corpo.

Onde existo?, pergunto ao espelho que me reflecte de esguelha, como se a resposta

(dormindo, o trabalho, comendo, o trabalho, dormindo, o trabalho)

estivesse na fresta da janela esconsa de estores apodrecidos pelas chuvas que foram, pelo sol adocicando as tardes, e entre os sonos recordo o melro que mora sem sombras nem bolores ou lâmpadas com o seu ar de fadiga contra o fio de fumo dos cigarros queimados; o melro do outro lado da frincha onde um bocadinho das chuvas, um bocadinho do sol, perfeitamente alheio ao

(comendo, o trabalho, dormindo, o trabalho, comendo, o trabalho)

sabor amorfo da fruta magoada. E dos lençóis doendo-lhes o meu corpo. As únicas margaridas que pude ver enquanto tudo acontecia estavam numa fotografia a que o tempo deitou alguma piedade. O melro pareceu-me assobiar sempre.

4 de abril de 2008

o mundo versus eu


autor desconhecido


Acendes o cigarro sem entenderes patavina do meu mundo e abalas, com total indiferença. Sabes, fico como uma criança que vê alguém distribuindo doces por todas as outras crianças, esquecendo-se dela. E, tal como a criança, recolho-me na concha do meu mundo a conjecturar fatalidades. A inventar culpas que não me podem ser atribuídas. Porém, assimilo-as como que verdadeiras, e cuspo ao espelho, odiando-me. Culpas que jogam como agulhas traçando a direcção de todas a minhas acções, marcando os desvios virtuais e reais.

Um ressentimento vem fecundo de muitos outros, com aquele sofrimento das nobres paixões da alma. Que ferem como gumes espetados nos músculos paralisando-me os gestos por mais pueris. Surge a cama, na sua vocação tão solícita, do mesmo-a-calhar, e os estores empreendem a viagem de retorno da luz gorda do sol à magra compostura da escuridão. Os estores ferrados e amuados, solidários com o meu rosto que se esconde nos lençóis, deixando a dúvida sobre se as lágrimas.

Então, é aquela solidão mórbida. Dos pensamentos dicotómicos entre o acabar com tudo esvaziando a embalagem dos barbitúricos ou o quanto essa besta perde por me colocar de lado, todo de dentes aguçados.

Nunca sabemos para onde tombamos e, na pior das hipóteses, o dia pode ser deveras trágico acumulado de lugares-comuns dos tablóides sensacionalistas. Vi gente a acabar assim por uma ninharia. E esta morbidez de sombras, carregando a inveja para com os que se regozijam ao sol e ao calor dos últimos dias, deixa a aninhar-se sobre si, como galinha choca, a infame cobardia.

Muitas expressões podem descrever tal cenário, mas só se firma esta no meu pensamento quando, e se por acaso, racional:

- É nojento tudo isto.

E, com tudo isto, todo o mundo.

3 de abril de 2008

flores


foto de Luís Mendonça em 1000 imagens


Danças-me com flores à boca da madrugada. Suavemente subindo a coxa sobre o lençol. A concha amparando o teu ventre exala segredos de maresia. Acordas-me com beijos na palma das mãos, e abro os olhos desamparados na ténue escuridão. Sinto-te entre os dedos, em teias loucas e imaginárias. Dedilhando flores, desfolhando rosas, margaridas as tuas pernas, os teus braços.

Então depois o nada com o rastro do todo. Primavera e verão, um segundo como que um século. Mãos, línguas, odores, ansiedades. Multiplicado a cores. E a sombras. E a sangue.

Recobrando o sentido do espaço e do tempo, depois que o universo explodindo em turbilhão o animal dos desejos, largas-me o corpo numa floresta escaldada, com os lençóis em água. Vou perdendo as forças para o sono outra vez. Dentro do teu sorriso.

Num silêncio de tic-tacs vestes a camisola tirada do meu tronco. Colocas-me um beijo demorado sobre a face ainda ruborizada despertando-me por breves instantes do meu segundo sono. Ainda lembro de te ver, em movimentos contra o espelho: penteias o cabelo e são pétalas.

20 de abril de 2007

dá-me


(daqui)


Entrega-me o corpo com o mesmo delírio do fogo. Atiça-me o sangue com a saliva do teu desejo. Os teus lábios em sedes carnívoras sobre a minha pele. Quero engolir-te, segurando o teu olhar com as minhas mãos ávidas, derretido sobre as tuas pernas. Sentir-te dentro como se mil paraísos plantados na terra. Grita-me de vaidade, grita-me de insolência, grita-me de pavor

(grita-me o teu amor)

espalhando a seara dos teus cabelos sobre meu ventre em espasmos, arranca-me de mim a golpes violentos das ancas, abre-te, abre-me

(abre o amor)

incendiando de ósculos maduros todas as minhas extremidades, e segura-me, segura-me que me enlouqueço de fome sobre o vale da tua vulva, freneticamente empurrando-te para lá das forças físicas, liberta-me

(liberta o amor)

rasgando até à carne toda a sede da minha língua. Entrega-me o corpo rendido à submissão feminina, ergue-te, baixa-te, volta-te, revira-te, explode-te que explodindo vou eu em jactos viris de vulcão enfurecido. Entrega-me o corpo

(entrega-te amor)

com o fogo ateado no turbilhão crescente dos teus gemidos, dá-me, dá-me, dá-me

(dá-me o teu amor)

emergindo sob o azul todo o calor como um deus de luz.

6 de abril de 2007

séculos

Tocas-me com as feridas, os dedos soletrando a dor e o sangue caído nos cravos por florir

(de onde os cravos? nas tuas mãos, nos nossos olhos?)

inquieto-me com sonhos onde vives depois de morto e voltas a morrer com a mesma resignação com que a humanidade te mata, uma e outra vez.

Foram cobertos de sol e luas os teus séculos e o sangue esmorecendo com o verde das invejas e das iras, criou bolor sobre a terra tornada pálida deserta amarela

(a humanidade).

E só por pudor que te beijam a cruz. Poucas lágrimas vertendo brilhos de nostalgia em cada gota caída enlameada no pó. Por pudor e arrependimento vagos. Mas esta humanidade sempre preferiu a mesma face que esbofeteia, movida de luxúria e gula

(onde se encontra o teu olhar?)

- por pudor?

Por pudor não violo a vida, programada há tanto por te entender. Vou acreditando que a meio caminho do sonho

(onde morto, vives e vens para morrer)

seja a única esperança para que em uníssono possamos proferir, em jeito de profecia antiga, o quanto

- Tudo está consumado.