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24 de março de 2019

véspera

Katia Chausheva via Alternatif Fotoğraf Topluluğu.



A parede é demasiado áspera para deixar que o queixo
e as mãos lhe sintam a textura
recolhe-se o sol e este covil de letras e tons e sílabas fica mais frio
fica grave quando se esfrega a fronte
e se coloca o cabelo em desalinho
a pele arrepiada por um arrefecimento que não se espera
uma vez que a tarde feita de sol
ufano de uma promessa estival.

Ao fechar os olhos
o amanhã repudiará as palavras pretéritas
e um domingo será erguido de irrequieta solenidade
a saber que
tendo sido a véspera ébria
será a vez de retomar a sobriedade
e o silêncio.

16 de março de 2019

soneto a são gin





Abençoado seja o São Gin
que me entorpece a razão
e me faz esquecer o tino
deste tão covarde coração;

não fosse eu ser de fracas
carnes e inconstante alma,
terias acutilantes facas
mil e uma três vezes a fama

das que sendo inconstantes
me dão saliva na vez do amor
e, ao acordar, de cio penante
que com pressa saciam esta dor.

Pois sendo isto relativo, não vou
esconder penumbra nem frustração
por ter tido o teu corpo um dia.

E perdido resta agora a este que sou,
morto sem acreditar em redenção,
quedar renitente, maldita ignomínia!

23 de março de 2018

dizer silêncio

Jordi, via Kültür Tava


Dizer silêncio é ouvir a distância chorar.

A noite é um corpo húmido e túrgido
afecto de distâncias e rubores,
quebranto dos meus lábios que entumecem
no calor dos afagos.

Chove numa lassidão queda
num murmúrio sereno de vegetação,
as sombras são vultos feitos de água,
fervem as minhas veias clamando o sono quieto do corpo;

e num torpor
a minha pele que sacode as gotículas da pequena chuva
sussurra sibilante na delícia do toque de veludo
da madrugada,

rendido que estou ao pranto da distância que se diz
silêncio.

28 de março de 2015

eu sou quando tu és


Janina Steiner, fotografia de Silvana Madamski


Tu és o meu despertar,
primavera feita em palavras
no bolhão pueril dos teus lábios
inconstantes de sono e repouso.
O primeiro e subtil acorde do dia
prometendo a semente germinada.
És tu a cor da papoila ainda tímida,
mas também o perfume do tojo
esquecido da ameaça dos seus espinhos.
O inocente abraço prometido
de sorrir sem razão, apenas
porque a presença, e o olhar.
Esse abraço aquecido, enquanto
os teus cabelos propõem brisas.
Tu és a tarde inaugurada,
chilreio das aves pequenas
anunciando um mundo simples
para viver.
És a minha sede saciada
em ribeiros também agora despertados
do parir da terra rebentada
em borbotões desmaiados.
O lavor de um beijo,
a minha lágrima rendida
às pétalas abertas pela ternura.
Tu és o crepúsculo paciente
quebrantando a manhã
feita em neblinas;
e no final da tarde
inquieto render apaixonado
de fruto e ardor.
És tu quem fez o mundo
onde me vejo Adão;
enquanto o resto,
feito de finitude e orfandade,
é um ligeiro devaneio do deus
que , por parceria contigo,
prolonga ser eu sem que
nada mais reste nem tão pouco

acresça significado.

21 de março de 2015

poema para a miúda com a chave

Janina Steiner, fotografiia de Laura Zalenga

dedicado a Ana Cristina Chaves

Onde está a graça?
Fecundada nos teus lábios murmurados
de mosto e álcool enquanto
a noite se avoluma rendida em corcel
alimentada à luz de ti

(por que a noite nascida em teus olhos
não conhece penumbra)

Dizem que é atitude de riso fácil,
que de tontarias vai sendo feito…
Dizem assim escarninhos

(os cegos – como eu e tantos )

aqueles que preferem
permanecer incrédulos dessa habilidade
de carpir uma alma tão limpa e clara
que faz tremer de inveja
os mais puros cristais
jazidos em profundezas de admirar

Onde é o humor?
Lascivo e cândido como quem leva
o próprio corpo
num altar celebrado por rebeldia
cuja sede e fome, sangue e carne
tão bem amplia
a força de quem sabe
como sobreviver

Ah!, e dizem conhecer-te o lema
para depois escarnecer
de tão embriagados que estão dessa outra
coisa qualquer que nem alimenta suspiros
nem espanta as sombras

Podia eu ser

(se não receasse a loucura 
e a inocência
e a espuma e o ar e todos
os raios que me partam)

o cavalo imponente que montarias
levando-te aos cumes do mundo
dando a conhecer-te em todas as
latitudes humanas

Podia ser eu sim
- se tivesse eu a mesma gana,
e essa graça,
e esse humor.

10 de março de 2013

breves, e nada restou



Adeus dissemos
e nada mais de então ficou
Madredeus, «Adeus… e nem voltei»
(Os dias da Madredeus, 1985)


Ficaram breves as fotografias, do espaço entre o que foi de um terno abraço e o que havia de ser um beijo predicado. Fingimos prender esses momentos numa eternidade que restou oca, mas nada mais ficou senão sombras impressas da luz que o papel cruelmente deixará ao juízo nocivo do tempo.

Quis que não tivesse sido assim. Ditaste a lonjura, escrevi esquecimento com ponto de interrogação, e os dedos desenlaçaram-se para espanto das árvores esforçadas em nos devolver a verdura das folhas e a maciez do fruto, apesar deste vento a alarmar as portas, apesar desta chuva enlameando os prados que em março desejaríamos floridos.

Tudo em conjuro como se conjugando o verbo partir

(ou quebrar, ou fugir, ou morrer)

levando de mim o teu rosto trigueiro que me sorria todas as manhãs a melodia dos bons dias. A elas, às manhãs, deixei-as entre o fumo espesso de um cigarro angustiado e esse patético arquétipo luso das brumas, numa esperança de asa de borboleta que tudo pudesse, qualquer dia e idade que fosse, voltar a ser. A sermos.

Mas eis que vais, amor, e eu fico. Ou então sou eu que levanto voo numa liberdade que não pedi, atordoado e nervoso subindo, e tu, o meu sossego e o meu abrigo, queda no chão a afastares-te, acenando-me apenas com os cabelos esfarrapando ao vento.

1 de março de 2013

gestos da primavera em mim

foto de Georgina Noronha

Deixei que o tempo se esgotasse sem levar de ti um afago que servisse de consolo a estes dias que passarei sem ter a oportunidade de te ver. Tu alimentas-me de sol o rosto apenas com o olhar, neste março que nasce mansinho e tímido, imprudente a concordar com a brisa que se faz ainda de golpes gelados afectando o conforto dos corpos e entorpecendo os movimentos dos membros. Basta-me, por isso, a doçura com que todos os dias me aqueces com os olhos postos em mim a lamber carícias para ficar indiferente aos enganos e desenganos climatéricos, e me sinta estival como se o odor da terra quente de junho agora.

Tudo cresce já em volta, sinalizando a decadência do inverno que, mesmo a dias de nos deixar, insiste em geadas escarninhas, nevões impostores e chuvadas mesquinhas. Mas em março as águas são mais claras sem sombrear o verdecer dos prados e das árvores, e os dias ganhando minutos empurram a penumbra do que ficou lá atrás, despindo as noites de solidões para lhes dar ânimo e agitação. Pode ser que então o afago não resgatado que hoje choro venha a ser a migalha dos abraços vindouros, do desfile de beijos prometidos, do entrelaçar ternurento dos dedos, da volúpia desenfreada dos músculos. 

Até lá deixo-te muda e atarantada com os modos, os sinais e os comportamentos que admito possam embaraçar-te, desprevenida. Aprenderás a não temer ou desconfiar da natureza do que sinto por ti: quando enfim conquistada, notarás no teu coração e no desejo do teu corpo que tudo isto, meu amor, são tão só os gestos da primavera em mim.

14 de março de 2012

balada para Gabriela

foto de Georgina Noronha

Ergue-me um mundo novo, Gabriela, que eu já vou morrendo neste por ti, a alfinetar desgostos e frustrações nas frinchas que as paredes à minha volta vão abrindo, solícitas, pacientes e acolhedoras dos tremores com que vivo.

Vem um vento, manso e quase morno, desarticulando-te o penteado em suavidade, e eu desperto ronronando como felino, num espreguiçar atento ao movimento perfumado da tua melena. 

Eu, que queria morar nos teus lábios como quem encolhe o rosto numa ternura infantil, amordaçado continuo sobrevivendo nos sonhos onde supostamente me pertences, embora em redoma e inalcançável como os santos a quem se reza por mistério. Desvias o arrepio da tua pele sensível à primavera imberbe da polpa dos meus dedos, tão desnivelada quanto ao que sinto, que me questiono se é na mesma latitude que nos vemos, ou se serás espectral aparência de quem tanto deseja. 

Poderia simplesmente dizer-te o que quantos amantes dizem às suas amadas em afã epistolar. Mas por onde vai o mundo, Gabriela, que enredo possível para que pudesse sentir a tua mão cruzada na minha, como os amantes e suas amadas fazem? Fiquei a duvidar - confesso que duvido sempre - por segundos, mas ainda fui capaz de te chegar com um sorriso atrelado a uma esperança muito pequena e – bem sei, Gabriela – insignificante. Desse sorriso, porém, não te abala a lembrança, encostada que segues sempre na distracção por todos os cenários possíveis da nossa eventual trágico-comédia a roçar o mau gosto do cinema romântico nascido em hollywood. 

E, apesar de tudo, e de tanto isso que fazes e insinuas que me põe a tremer como varas perdidas de insegurança, apesar de estar de costas para a verdade, se me abrisses assim os braços como ao mundo os abres, e devolvesses a luz de um olhar mais cúmplice, poderia então jurar-te, Gabriela, que venceria o mundo por ti.

19 de março de 2011

a lua mais cheia segundo um poema para a rosa




Lua cor de cobre adensada no manto frio da noite: revelas além da luz que enalteces

(como se dissesses – eu, ufana)

outros brilhos que os meus olhos raramente alcançam.

Além andrómeda, acolá vaidosa a nebulosa de oriente, e as plêiades de luz borbulhando. Abres os braços, dominando, e levantas o véu do céu que guardas. E tantas!, ó lua, tantas verdades ficam ainda esquecidas; quanta lassidão e tristeza que tão mal se escondem nessa luz que é tua atrás de um outro lado obscuro de memória astral…

Viste a lua, Rosa? Vaidosa, escondeu a penumbra com a prata do seu brilho para te encantar com a luz de andrómeda ou aquela nebulosa chamada oriente.

E o céu inteiro ficou grande perante o teu olhar curioso

(de onde vens, e porque és).

Orgulhoso, o céu se desnuda perante ti. Pinta-lhe o retrato, que bem o merece, e mancha-o de toda esta luz que te sorri.

Viste a lua, Rosa? Se não, deixa, porque eu também não vi.

24 de março de 2010

ensaio poético para andreia


Sensualidade, por Paulo Vieira em 1000 imagens


a tua melena de ouro confunde-se com as searas do pão
que sacia a fome dos homens;
além violetas, margaridas, e um mar de trevos
de onde despontam papoilas;
faz sol, Andreia, escolhe uma sombra;
a laranjeira já não te pertence, nem os seu ramos
nem as suas flores;
enfeita os teus cabelos com ramos de damasco
a cor perfeita nos teus seios incendiados de desejo;
estende teu corpo acolá, entre o perfume das flores:
um teu amante virá e cobrirá a tua pele banhada de brancas pétalas,
que se desviarão ao toque carnal da sua mão.


12 de março de 2010

here comes the sun

Here Comes The Sun, The Beatles, Abbey Road (1969)


O sol nasce

(para todos?

- Vais filosofar a esta hora da manhã?
- Tens razão, não vou)

e quando nasce vem prometendo que se recolherá naquela hora em que se deixa já de sentir-se o inverno

(apesar dos dias de chuva, do vento e do frio que como vagabundos sem abrigo, sem destino, sem lugar ou hora certa vão dando mostras do seu mau feitio quando já tudo menos se espera deles)

e o assobio do melro entre o verde que se reaviva inverte a melancolia em sorrisos espontâneos, as pálpebras cerradas a apreciar-lhe o canto com um prazer que se pensava esquecido e os braços espreguiçam-se como se todos os minutos do dia fossem de morna alvorada.

Bicicletas limpam-se do pó e do bolor das penumbras de garagem a cortar o ar em velocidades de pardal sem levantar do chão, e os casacos saem do corpo para seguir a tiracolo ou atirados para dentro do roupeiro

- Hoje ficas aí

e em vez da camisola farta e cinzenta, a leveza do algodão colorido.

As árvores despidas vão vestir-se lentamente não porque deixaram de se sentir quentes e tenham agora frio mas porque se vão vestindo de frescura a convocar brisas, aromas, sombras graciosas que não trazem depressões no seio. Os rebentos na terra esperançando frutos novos e quando menos se dá conta, já os prados se enchem de malmequeres brancos e amarelos enquanto não amadurece o tojo e a giesta.

Bucólico o ar sem ares de tristeza. Então, os cabelos das mulheres mais belas semeiam a primavera, renovando o ciclo das estações, sempre e cada vez mais esperada com a saudade de nos sentirmos felizes, de que talvez o tempo não seja assim tão cru e nos conceda o desejo de se deixar ficar paradinho de todas as vezes que a memória o proteste.

Vem aí o sol, é certo, mesmo que lhe custe ainda adaptar-se à inclinação deste hemisfério onde tentamos todos encontrar razões para nos livrarmos

(olha, afinal sempre se filosofa)

de tantas nuvens negras – físicas ou metafóricas – que nos têm atormentado há tantos meses e em que parece que envelhecemos sem dar vazão ao próprio tempo.

(- Pára! Não estragues tudo. Não resistes mesmo, não é?
- A natureza prossegue, meu amor, e a minha é assim mesmo... não a posso travar.)

4 de março de 2010

é um palheiro


(autor da foto desconhecido)


Andamos no mundo a abafar nossos vãos e inconfidentes pecados, a tirar da vida e das pessoas tudo o que é ter, e ter sempre cada vez mais. Feitos doidos, roemos o pão duro que o tal diabo amassou

(pobre padeiro medíocre o diabo, há séculos a fazer um pão assim tão rude, e nós pior ainda, que o tragamos sem reclamar, nem sequer uma mirada por cima do ombro)

sem saber onde encostar o corpo e descansar a cabeça, sem saber em que chão firme possamos pisar ou se é no lodo que nos vamos atolando.

E dizes-me: o mundo é feito assim, vais agora tu querer mudá-lo?

Dizes-me mais: escreves essas coisas todas sofridas, conta lá, és uma pessoa triste?

E respondo: não posso sozinho mudar o mundo, claro que não, se ainda fosse eu e tu e outros mais ainda talvez, mas mesmo assim… Nada muda, e isso é que me incomoda, cada dia igual ao anterior e nada fazemos: menosprezamos o que mais significância tem e rendemo-nos às coisas fúteis, idolatrando falsas questões, ao encontro de falsas sendas. Cremos em deus tão enganados de nós mesmos. Cremos em deuses porque não sabemos como crer em nós próprios.

E respondo mais: triste eu? Que conheces de mim para me rotulares a tristeza? Não a coloques em mim, que sigo sem culpa gaguejando incertezas e amarguras de cada vez que me cresce a idade. O mundo é que é triste, nunca te preocupaste em olhar à tua volta? O mundo está triste, tão doente: se nada se acerta, como vamos acertar o passo?

- Para quê?

- Para que juntemos a vozes e façamos uma longa cadeia

(diria eu. E responderias:)

- Deixa-te de merdas, e vem mas é divertir-te.

Nada muda, vês? Alguém ainda mexe uma palhinha, mas, no fundo, quem tem coragem para encontrar essa

(senda, graal, o que lhe chames)

tão procurada agulha no palheiro?

30 de março de 2009

por acabar


desenho de Allan Hart (daqui)



Dormito sobre os livros com a baba rente ao queixo enquanto o gume do vento vai caçando os braços desprevenidos lá fora, com este sol a brindar a tarde e porém o frio outra vez. Sinto que tenho mais sede

(mais fome, mais desejo)

e não descanso como seria suposto, com os cães cansados de latir, a deformar-me a consistência dos sonhos.

Qualquer coisa entre a vigília e o sono. Qualquer coisa entre a cor e o preto e o branco e o cinza. Entre o cigarro e a cinza.

Tacteio vagamente e vazio as palavras pelos livros dentro e vou como um cego analfabeto

(entre o verde e o musgo, a nadar, a nadar)

um cego que não sabe ler em braille.

O vento lá fora caçoando dos braços desprevenidos e a baba rente ao queixo, mexes-me um braço, afagas-me o peito do ronco alarde e dos livros

(o que eu leio, o que sei que leio)

juntos à face rubra, uma quietude muito atribulada para quem se quer quieto, os teus dedos a limpar-me o queixo, e o queixume, a varrer livros e palavras numa braçada de água

(entre o musgo e o lodo)

o queixume de mim a rogar-te

- Deixa-me dormir, deixa-me dormir…

21 de março de 2009

florescer




- Mamã! Hoje é primavera!

E em verdade é. Os pássaros chilreiam a alvorada de plumas ainda fria, veste-se a paisagem de tojo enquanto espera a flor da giesta adormecida em botão. Respira-se um aroma a terra e pólen e é como se inalasse dias inteiros de sol, relva jovem e a água clara dos regatos.

Os sentidos florescem. Esboça-se um sorriso ao espreguiçar a madrugada para a frescura das manhãs claras, apetece a relva dos parques e as suas árvores verdejando. As mãos deitadas à terra lavrando hortas e jardins. Em cada porção de solo a esperança de rejuvenescer nos rebentos comprometidos com a flor e o fruto.

É a terra também esta poesia jorrada em cor. É deste aroma a sol, desta emoção multicolor a escrita com sangue e húmus.

Mamã! Hoje é primavera! seria em verdade o melhor título para se cantar este emergente novo dia, cumprido o equinócio para a harmonia dos espíritos fecundos.

18 de março de 2009

lugar perdido


foto de Alberto Calheiros em 1000 imagens


É a brisa que traz até mim o perfume dos teus cabelos, o perfume que nunca senti, que não conheço. É a memória do teu rosto que faz doer dentro do meu peito um fogo que consome as tardes. É a noite em que te busco cego sem sair deste lugar onde escrevo sem lua sem estrelas, sabendo que não vou encontrar-te. Há um bocejo, a ponte, o rio, cidade onde tudo é nada, mas principalmente um beijo que dos teus olhos chega até mim como flor que perde as suas pétalas, em forma de dúvida: a questão de saber o que queremos.

Sei já que sabes que mesmo no nada sabemos um do outro. Sabemos desta fresca manhã que desperta no cruzar fugaz dos olhares. Sabes já tanto quanto eu que a tua mão permanecerá fria. Que o calor do meu peito não te aconchegará. Que de ambos o afago não tocará nem de leve nossos corpos.

Não é culpa nossa sejas tu tão bela e eu homem tão apaixonado. Não é culpa nossa a ironia do tempo nem as contradições da natureza. O que somos perante o sentimento que nos une? Duas almas tristes, duas bocas frágeis de palavras isentas do beijo que os olhares trocaram proibidos, duas mãos que se não tocarão jamais, que de si nada conhecem senão desejos, dois corpos que nunca se encontrarão, à deriva num espaço frio e cinzento. Não é culpa nossa este amor encarcerado na confusa gargalhada de um deus. Serena tu, que a minha revolta repousa já conformada. Seremos nós culpados pela terra árida onde deitamos este sonho a crescer, mas onde tudo murcha e perece?

Nunca te tive nos braços e já eras minha. Cerravas os olhos devagarinho como se a polpa dos meus dedos te tocasse levemente, todas as manhãs, numa carícia longa e suave, no traço do teu rosto. Nunca te falei de amor e já me amavas recolhida nos teus sorrisos. Não te vi o corpo e já eras deusa minha. Nunca soube quem eras, não sei quem és ou quem serás E sabia como amar-te, como proteger-te. Como dizer-te o azul e o sol.

Sabia-te e mostrava-te, em sonhos de poeta, minha musa, amante, mulher.

14 de março de 2009

embrionária primavera


dois corpos uma só alma II, por Filipe Pereira em Olhares


O sol. Veio para retemperar os corpos. Frágeis, os pequenos rebentos despontam nos dedos ainda trémulos das árvores. O dia finda num esplendor de luz, riscando de fogo toda a linha do horizonte. A lua ergue-se vagarosa por entre o crepúsculo, profetizando a madrugada.

Tu. Regressas para me animar o corpo. Frágil, a tua mão tacteia com timidez e nervosa a textura da minha pele. O amor apela-nos, consome-se com maior fúria. Os teus cabelos repousam o feno sobre a seda do lençol, a respiração apazigua o frémito dos músculos.

Eu. Sucedendo-me em êxtase. Frágil o meu peito ainda, sofrido das sombras pardas perseguindo silêncios antigos. O cigarro atira anéis no vazio. Vou resgatar carícias ao teu colo. Nas minhas mãos como nardo o hálito do teu corpo permanece.

Está quente. E não é a primavera ainda.

11 de março de 2009

asas II


Esta luz que te ilumina, por Carlos Manuel Pereira em 1000 imagens


Então? Que te poderei responder?... Apenas nos lençóis guardamos o amor, e esta penumbra que avança tornando informe a sombra da minha mão e da pena que escreve, enquanto março desperta da tua boca frágil.

Então? Não sei. Talvez espere pela madrugada plena, observando seduzido o despertar dessa tua inocência de sono, e a tua boca tão frágil. Espreito o ocaso como se a janela fosse uma fotografia que me ofereceste: quedo-me a olhar o crepúsculo estilhaçando entre algumas nuvens pouco afeitas a estes enlevos pré-primaveris.

Levanta-se ligeiramente um braço teu e é uma asa aberta no sul do meu corpo planando suave como papel e pluma com que são feitos os poemas aves que desafiam a chuva. Construo um ninho com os teus cabelos de feno para me sentires recolher antes que a tarde finde debaixo do olho da lua.

Então? Que posso dizer mais?... Apenas os lençóis que ainda não reconhecem esta estação do ano que me brinda o teu sono repousado, com a seara jovem dos teus cabelos.

8 de março de 2009

mulher



Disseram de ti a costela primeva do mundo mas eu não partilho tal premissa. Se anjos caídos houve, nos tempos em que dos céus caíam as mais belas criaturas, então anjo foste caído da mais celestial sabedoria.

Quis o inferno, por castigo viril, que fosses cristo intemporal para carregares no corpo e na voz muda os pecados do mundo, e foram somando as páginas da história humana todo o sacrifício e velamento da tua vocação para enaltecimento dos varões umbigos de todos os maiores e menores poderes que todos testemunhamos.

E do grito que rasgaste demolidor para a absolvição da culpa e da maldição do sangue, soubeste tomar nas mãos o fruto e a flor como armas de arremesso e quiseste volver o mundo como se do avesso fossem rosas, ouro e a água clara das nascentes: o perfume delicado, a inteligência criadora e a liberdade redentora de um útero cósmico, universal.

Ainda assim, de provas dadas do altruísmo e inspiração divina, quer-te o mundo obstinado que cristo ressuscites e tomes ao ombro a triste cruzada da tua condição de género fraco. Dá-te este mundo as luvas para um combate de igual para igual, porém com o riso escarninho de quem sabe de antemão que nunca tal sucederá.

Ergue-te e toma o pedestal por direito, ser dos milagres, tu que dás varões que o mundo anseia tanto idolatrar. Não és a força bruta com que o macho te domina subvertendo-te. És de todas as eras e chegado é o tempo de haver luz nas páginas da história que se vão escrevendo. Do que a humanidade precisa, para se completar e afirmar, é dessa matéria do amor e da singeleza das coisas simples e belas que carregas em teu seio.

Não só do sexto sentido de onde te vem deus ou deusa, mas de todos os sentidos. Nossa verdadeira mãe – esta sim intemporal.

6 de março de 2009

tardes infinitas


sonhos felizes, por Sandra Marques em 1000 imagens


Concede-me o sono das tardes infinitas com o véu da morrinha a cobrir-me as pálpebras de sonhos velados, onde me julgo soberano ou perseguido, generoso ou tirano, guerreiro ou poeta. Deixa o quarto mover-se com as sombras que vão resgatando e devolvendo as latitudes e os pontos cardeais.

O gato ronrona amoroso em preguiça, silhueta que forma o meu reflexo sob os cobertores enovelado. Hoje fiz-me para deitar as tardes a dormir: não quero livros, não quero a música, apenas o murmúrio do mundo paredes fora em dissonância com a chuva pequenina a molhar outros tolos que não eu. O mundo lá fora burburinhando humedecido na labuta e na indiferença, cego de verde pela inveja de mim, cá dentro dos quarenta fios.

Quando então acordar,

(o gato alongando a silhueta)

vou metido no pijama a assistir ao nascer do novo dia. Uma alvorada de tal modo resplandecente de cores e sol como jamais houve vista.