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17 de fevereiro de 2019

o trigo nas tuas mãos



Deixa-te inebriar pelo calor do toque das minhas mãos que em limpa manhã desejam procurar-te, perde as estribeiras do bom senso, cala a moralidade, contraria o estigma da boa conduta para que recebas o meu corpo em prado dourado pelo sol, trigo nas tuas mãos, o consolo de me teres a colocar a língua sobre os teus mamilos, comigo a afagar o sal da tua pele que vai explodindo de tremores, e te arrepiares na confusão dos dedos e os teus cabelos sobre os meus braços, pescoço, os ombros, tu a escaldar sob os sentidos que te avivo ateando fogo e chuva e depois mais fogo e sol, e toda a manhã numa sinfonia de toque com seda e sede e fome e apetite; as nossas bocas unas despertando e desmaiando na raiz das nossas línguas, um só músculo de desejo e frémito…

Oh meu amor, minha ninfa, minha gata de janeiro!... O que há em ti que toma posse do que sou e descontrola tudo o que o coração comanda e faz o meu corpo de tal condição refém? Eu hei-de em ti vir-me para que te venhas tu a resgatar o desejo em polpa de pêssego; deixa-me sentir o desmanchar da minha carne sobre a tua. O mundo vem, vem-te comigo e com o mundo, a sentir que é vida os corpos e duas almas numa comoção de tudo quanto quero e que me une a ti: vir-me na tua flor para deixarmos de ser apenas eu, apenas tu, e sermos plenitude de um nó de simbiose sempre eterno. Já não há existência sem ti, deixa que me venha e me renasça dentro do teu ventre, inebriante útero que há-de conseguir do vazio deixar-me limpo e, como com um vagido, recomeçar a viver.

16 de fevereiro de 2019

um adeus adiado

Kültür Tava

Adormeci com a tua ausência, ao que se seguiu um corrupio de fragmentos acumulados de tudo o que tenho arrastado como um fardo no par de horas em que 

(a julgar ser verdade )

sonhei durante o fugaz sono. Obviamente não saberei caracterizar os esgares do meu rosto nesse tormento, mas sei o quão vívidos e angustiantes foram os batimentos cardíacos e as sacudidelas do espírito enquanto eu presente nesse palco onírico. Escrevo palco para ser levada à letra. Havia uma espécie de assistência, plateia tão fragmentada quanto os pedaços que me lembro de ter vivido nesse par de horas em que 

(a julgar ser verdade)

dormi. 

Não é minha intenção discorrer sobre o sonho ou as suas camadas pois nem sempre são suficientes as palavras. Posso apenas afirmar que foi contigo com quem estava nessa quase luta emocional em cenário adverso, adensado por sombras mais escuras que o abismo. E essa plateia que nos observava entre os Ah! e os Oh! das bocas, consoante o escarninho e o gozo, o espanto e a dissimulação. O centro da acção era apenas em ti, na oscilação do teu comportamento, ora vilipendioso, ora cheio de charme e sedução, ora em derretida e delicodoce ternura. E eu, incapaz de articular discurso, sobressaltada pelo teu inconstante humor e pela reacção da assistência, apenas gesticulando os braços como naufrago e em convulsão desarticulada. E havia de estar assim o meu rosto 

(a julgar ser verdade)

num consecutivo esgar. 

Quando despertei, era o limbo entre o fim da abóboda da madrugada e o horizonte a leste prenhe de luz, enquanto a cidade nem sequer esboçava qualquer intenção de bocejo. Sacudi o torpor e as imagens do sonho esfregando o rosto e os olhos com as mãos e os dedos, e deixei o corpo aquietar-se na rouquidão do quarto e no ronronar da cama. Os olhos abertos para o tecto branco escuro. Sem pensamento que pudesse incomodar esse assossegar. Cobri de calma o peito, e a taquicardia abrandou, desaparecendo poucos minutos depois. 

Ergui-me da cama, pronta para o afã do dia. O fardo que tenho arrastado também, acompanhando-me à casa de banho, no café com torradas e manteiga, em cada perneira das calças que vesti, no frio da malha contra a pele do peito, fazendo-me arrepiar. E o teu nome, já só signo da tua ausência, a tentar com que sorria, nem que seja por única vez e matinal, tentando convencer-me que tu e eu 

(a julgar ser verdade)

somos ainda um adeus adiado.

10 de fevereiro de 2019

slow motion





Manhã de chuva, árvores gesticulando
no vento. Do lado de dentro,
tique
                \
                /
taque
sobre o silêncio.
Respira-se:

– Estás a adiar as palavras
– Não sei delas
– Desde que não adies as emoções
– Tenho medo.

Expressão desconcertada. Devolvo um poema:

teu olhar revela-me
suaves tentações
teu desejo é como o tímido esquilo
que se esconde do ruído

emoções:
nunca      fujas      delas.

Um abraço.
U m    b r e v e    o l h a r .  
Braços caídos,  porta  aberta:
a esperança recusa qualquer sinal de
a d e u s .

9 de fevereiro de 2019

poema simples para ti

Kültür Tava




oh!
Esses vindouros dias estivais e o apelo do feno
do teu sorriso tecendo a manhã limpa
no estuário do rio entre brisas, canaviais de onde se levantam
as asas e os gorjeios das aves pequenas,

plumas!
Não resistindo a acariciar o meu rosto
os teus cabelos que acordam da almofada
mais a polpa dos teus lábios sobre a minha
pele em solene

bom dia!
Sorriso de azul da janela ensaiando o mar,
e eu despertando sem bocejo, apenas a foz
espreguiçando sob a raiz do sorriso -
sendo tu o léxico e a terra

que mostra ao mundo o poema que és
e tanto desejo escrever.

11 de fevereiro de 2013

a dor assombrada de ti

foto de Georgina Noronha


Eu sofrendo por não vires e tu insistindo nesse estupor. O teu olhar a evitar-me por entre nadas, a ocupar os vazios, e estes afinal continuando sem coisa alguma se não são as tristezas que pagam dívidas ou ocupam lugares.

Eu irritado por não saber chegar-te, preocupado com a dor da rejeição. A de sempre. A que me assombra. E tu brincando a um faz de conta de que não é contigo, agilizando as mãos nos objectos a surpreender-me:

- Vês? Não me interessa nada disso

mas interessa-te, que eu bem sei. 

Estarei a um ponto de te desiludir se não for persistente, se me votar derrotado nestes jogos? A mim que me importa, não é? Se a ti não? Por que terá de ser assim? Se é jogo, ou patranha, a que vem essa tristeza no teu olhar desocupado das mãos ágeis a rematar as arestas pardas do vazio? O que levas aí dentro, que comoção te faz agir desta forma?

O vento graniza com o frio a chuva escarninha como se tudo agora zombasse de mim. O palerma!, afirmam as nuvens feias. Eu aqui prestes a cair, ou pronto a saltar. O estúpido!, assinalam os esqueletos das árvores no ar.

Vais ficar. Eu não vou mexer uma palha por isto, vou teimoso com pêlo na venta, agarrado a um orgulho qualquer, ainda que saia daqui esmagado, ferido, com nódoas no corpo porque o tombo, porque quis sentir-me livre, porque haveria de querer voar.

Ter as tuas mãos nas minhas: seria a frio um cenário banal, toda a gente dá as mãos. Em nós, porém, sortiria um alívio, um saciar de ternura. O brotar para todos os gestos que haveria de nos deixar unidos, carne com alma.

Ora teimoso, eu. Eu! Eu teimoso! Como sou parvo. Se és tu quem teima e escarnece, bruta e amorosa, a fingir que nada sou para ti. Que pertenço ao pó que a agilidade das tuas mãos tratará de limpar com afinco:

- Não podes brincar assim com coisas sérias.

Não brinco amor, não brinco. Agora não. Vou amuado com a surpresa do teu olhar despeitado na minha nuca. Até depois sem um aceno. Não me olhes que não vou acenar. Talvez volte, ou esperarei que venhas também. E me livres da dor assombrada de ti. 

Apenas sinto que tenho de sair. Torto e tonto no peito, sujeito a cambalear, ou sujeito a tudo o que possa vir depois que deixe de te ver: vou amargo, salgado de mágoa, tropeçando nas poças da chuva. A lavar o rosto num grito, apequenado pelo desapontamento.

Não sei mais o que dizer. Sim, já saio.

8 de fevereiro de 2013

poema com anagrama

foto de Georgina Noronha

Sede,
quando o sol inunda e do seu rosto
a luz de um prado sereno;
nos seus lábios a humidade
de sombra e beijo;
folhas,
ramos de esplendor quando os seus cabelos
sacudindo brisas, e o pólen,
e a fragrância do sorriso;
percorrer o mundo nos seus olhos:
eu sonho e tudo claramente infinito
para um inocente desmaio
(que  a sofrer por que a paixão)
do amor assim contido;
em qualquer palavra que declame sua voz
é flauta de incenso
a purificar-me a alma.

Com ternura, ainda ela.

23 de fevereiro de 2011

há dias



Há dias em que escrever é um terrível sacrifício. As palavras desentendem-se, exaltadas e confusas, e por isso, em vez de escrever, enrolo-me num cobertor

(talvez fume um ou dois cigarros no intuito de fazer adormecer as palavras, mas sou eu quem boceja)

e aconchegado a uma solidão pateta, construída por paredes de sombras paridas na frieza do entardecer, ligo a televisão e afundo-me na morrinha de um programa qualquer a que não presto atenção porque as palavras

desentendidas, exaltadas,

distraem-me e levam-me por becos e travessas de pensamentos, articulados e fazendo todo o sentido ao princípio, mas fragmentando-se e distribuindo-se depois pelas sombras que me vão pesando as pálpebras enquanto a retina dos olhos parece ainda fixa na claridade do televisor, de que nada entendo, e já não ouço, entrando assim numa vigília atormentada por fragmentos de sonhos. E as palavras ainda desentendidas, exaltadas, tomam corpo dentro do sono que se adensa, se aprofunda, e quando dou por mim

(sem dar realmente por mim, sou um corpo adormecido dentro do rolo do cobertor, iluminado pela claridade do televisor e embalado pelo ronronar das vozes que dali saem)

estou entre a confusão alarmada das palavras, recusando-me a tomar partido de qualquer das partes divididas entre o escrever e o não escrever, entre o querer tudo e nada dizer; e sem perceber patavina do que estas palavras divididas pretendem

– Quem vos evocou?

sinto uma aflição a espalhar-se por mim, pois entretanto algumas das palavras embuçadas pelas sombras que o fim de tarde pariu, portanto, palavras embuçadas, transformadas em vilãs, extorsionárias, impiedosas, violentas, fazem um cerco à minha volta, eu todo aflições,

– Quem vos evocou?

querendo correr e a distância, ao invés de encurtar, cada vez maior, porque maior agora a escuridão, maior a patética solidão, maior o meu desespero enrolado num cobertor de palavras vilãs,

– Quem vos evocou?

eu chorando, convulsivamente chorando, emocionado pela morte de alguém que estas palavras por má fé quiseram desde sempre esconder,

(exaltadas, impiedosas)

o meu pranto convulso rebentando uma nascente de água salgada onde, por vingança, quero afogar todas estas palavras que me cercam, me sufocam, porque não palavras, já não palavras que se desentenderam, são sombras que a televisão não soube matar com a sua claridade, é a solidão que me violou os sentidos enquanto eu pateta, questionando às palavras rebeldes

– Quem vos evocou?

(por isso é um terrível sacrifício escrever devido à pardacenta luz do entardecer, cruelmente entorpecedora).

Quando os meus soluços enfim a cessar e eu conseguindo entreabrir os olhos molhados pela dor, por essa morte encoberta que as palavras barraram, esconderam, fazendo-se desentendidas quando

– Quem vos evocou?

foi então que revelaram

– É o meu pai, é o meu pai

como que a explodirem, elas agora agonizando

– Foi o teu pai, foi o teu pai
– Foi o pai
– O pai
– Pai
– Pai!

e acordo porque está a minha filha ao meu lado, mexendo-me, chamando-me

– Pai!

desenrolando-me lentamente do cobertor parido de sombras. Uma luz do tecto acende-se e é a minha mulher com um sorriso nas mãos, que me afaga o cabelo

– Estiveste a dormir, querido?

e é assim que regresso à presença do televisor ronronando, a minha filha, na sua voz ainda frágil,

– Pai, estiveste a dormir?

e eu, afastando já as palavras

(exaltadas, desentendidas)

liberto-me da patética solidão porque já não sombras, já não aflições e desesperos, já não lágrimas e prantos, agora tudo claro: quando me ergo a sorrir para beijar a minha filha, ela, na sua voz ainda frágil do bebé que já não é,

– Pai, estiveste a chorar?

De modo que… há dias em que escrever torna-se um terrível sacrifício.

21 de fevereiro de 2010

vida má rês




A vida é um fado de gume bem afiado: fatia-nos em porções desiguais consoante a ingenuidade, a altivez, a cumplicidade, a cupidez, a sinceridade, a desfaçatez, a genialidade e a estupidez que carregamos durante os anos. E por último, a ansiedade de que a senilidade venha trazer-nos a sensatez de caminharmos

(seccionados em fatias-fiambre de vive-um-dia-de-cada-vez)

com a resignada consciência da nossa finitude.

E eu desfaço rude todo o espaço em volta na revolta por esse estado induzido de embriaguez, julgando que tudo posso e mando enquanto o mundo tão insano se dissolve nas teias dos seus porquês.

A vida é um desdém, em afiado gume: fatiados, cozinha-nos depois muito bem, de goela à gula, em brando lume.

É traiçoeira e de má rês, a servir-nos de alimento a um surdo-mudo deus, energúmeno que nunca soube se afinal nos queria, ou se desejaria aniquilar-nos de vez.

19 de fevereiro de 2010

grisalho



os teus lábios beijam-me pálidos.

lá fora o nevoeiro como se mil fumadores
filosofando tacitamente a quietude da alvorada:
é a palavra cinza de frio escrita na janela.

do leito te ergues, morrendo os lençóis à tua partida.

a tua ausência acentua a cor grisalha da janela
a consentir que espreguice o corpo dolorido sobre o leito
e os meus músculos não querem acordar prematuros.

regressas ao quarto já a fumar
como se quisesses fazer parte do ritual que além janela
o dia provoca na sua triste e cinzenta manhã.

olhas-te ao espelho, observas o teu corpo
e de súbito reparas no teu envelhecimento:
ontem não soubeste não conseguiste fazer-me amor.

perdoa-te
concede-te a desculpa da primeira vez.

talvez que o dia não se acinzente assim tanto
e eu possa sentir-te crescendo sob as tuas rugas
numa torre carmesim a ansiar o desejo.

9 de fevereiro de 2010

o funil


(Botticelli)

Imaginas um funil? Agora enche-o de areia até cima, e enquanto os primeiros grãos começam a correr pelo fundo, coloca-me miniaturizado no topo, sobre a areia

(não sou muito pequeno para desaparecer dentro da areia, nem grande suficiente para me segurar).

O funil vai esvaziando e eu descendo desequilibrado no chão instável sob os meus pés

(eu serei uma miniatura ou uma caricatura?)

e apesar de ver o fosso aumentar em meu redor, e apesar de atiçar as unhas contra a parede lisa do funil, não almejo salvação

(é curioso observares o fenómeno: bastariam os teus dedos como pinça para me salvar da aflição, mas tens os olhos ávidos de saberes o que vai acontecer concretamente).

Já a areia desceu praticamente toda pelo tubo final do funil, e ainda que por momentos conseguisse segurar-me numa aresta mal polida do objecto,

(até no abismo encontramos os erros alheios)

as minhas forças rendem-se e eis o meu corpo resignado a deslizar até ao afunilamento do relevo.

(Não sou miniatura nem caricatura: sou uma marioneta. Um fantoche de braços, pernas e cabeça aflitos e desesperadamente agitados pela tua curiosidade.)

Nem magro nem muito gordo, mas uma massa corporal suficiente para que, ao afunilar, não conseguir finalizar a viagem pelo tubo onde termina o objecto: sou eu, metade afunilado, metade ainda a respirar a superfície, mas sem qualquer esperança de salvação. Se me puxas para cima, separarás o tronco das pernas

(queres-me inteiro?);

se me empurras para baixo esmagas-me a cabeça para dentro do tronco. A estupidez está em que por mais riscos eu corra contigo, vou sempre para onde me queres levar. E um dia vai ser assim: deixo na parede o desassossego volatilizado pela penumbra que se insinua consoante a vontade das nuvens, e estarei acossado pelo humor da tua curiosidade.

Livra-te deus.

(sobrou-me aqui uma vírgula?)

26 de fevereiro de 2009

síndrome de Bartleby




Nas ideias um oco, sobeja o silêncio branco de nada dizer, apenas o princípio de qualquer coisa que nunca chega a ser coisa alguma. E os papéis acumulam-se vomitados sobre o cesto. Tantas frases mal começadas, tantos riscos, letras amontoadas como sucata reciclada. Não será por acaso: os jornais afinal são também assim, verborreias descartáveis. O que se disse ontem já não tem valor hoje. É o que se consome, o imediato. Tudo o resto fica na berma do prato, quiçá alimento para rafeiros magros de solidão. Somos como cães danados à procura de certezas, de perfeição.

Ao acabar o cigarro tudo na mesma: a esferográfica paralisa num A

(e porque será o A uma letra tão importante que paralisa assim a esferográfica, que atrofia as ideias até ao osso?)

encontrando a barreira do eco e da repetição

(estou cansado, estou cansado, estou cansado)

num novelo de desagrado, de impaciência, a desistir de tudo enrolando a bola tosca de papel que salta para o cesto do lixo, levando mais meia dúzia de letras, palavras mal escolhidas, frases por completar.

Cumpra-se a matéria urgente do amor, era o mote. Mas do amor quem daí quer ouvir ou ler o que for? Direi pois o quê? Com todos estes livros por ler e o cesto dos papéis aguentando a frustração de tantos As

(ases?)

que nem para um baralho de cartas do solitário servirão.


24 de fevereiro de 2009

tudo contudo sem palavras




Aqui fico demorado na inconstante prisão do álcool com grandes brilhos de vidro, solicitando nas nuvens a compulsiva esperança de liberdade. Passam as horas,

(ouvi hoje alguém dizer, de olhos fechados, que o tempo é um delírio de deus),

e não sei dizer se estou fatigado, se derrubado, se desperto, se morto enfim e sem conhecer o meu corpo acabado e imprestável. Penso que agarrando assim o ar, fechando o punho com firmeza sobre o invisível, possa resgatar alguma vida e foi como fiz: afinal não sou ainda morto, mas toda a cidade, desde o varandim até ao confim do horizonte poluído, é uma enorme barreira que se levanta.

Pego num lápis rombo e discorro: tudo é escrita e tudo contudo sem palavras que o afirmem; tudo se volta e revolta em mim no contrário do que sou e tudo isto é isto que sei e não tenho como dizer senão que a sombra (redundante sombra!), nestas circunstâncias,

(em que é permanente e físico o delírio de deus),

serve-me como leito ao meu sono de ébria frustração.

21 de fevereiro de 2009

feto


(autor da foto desconhecido)


Ascendi ao norte, de encontro ao fresco verde da noite, subindo as serras. Aqui a cor das estrelas é pura, limpa. Trouxe o amor na bagagem, o braço que não me deixa cair nas horas inquietas. E quando senti na velocidade o aroma da terra que me alimenta, mergulhei relaxado no útero da paisagem, deixando para trás a labareda infame de todas as noites de insónia.

Agora que escrevo e me respiro por inteiro, vou à madrugada beber as novas palavras, alargando na íris embriagada de beleza o universo onde me incenso e realizo.

15 de fevereiro de 2009

dentro do sol


foto de José Paulo Andrade em 1000 imagens

É um grave silêncio dentro do sol. Uma janela fechada sobre todos os eventos da cidade. As gruas certificam-me que a cidade vive e cresce. Os automóveis traçam rectas ângulos circunvoluções e não produzem ruído para o lado de cá. A janela é uma sentinela indiscreta e desinteressada se não for a prudência do meu olhar. E de uma curiosidade acrescida, as pessoas como peões de um jogo, circulam também diagonalmente e resgatam identidades à luz clara da memória que se apressa a encontrar imagens que condigam com os perfis. Observar pela janela fechada dentro de um silêncio grave de sol não exulta nada de novo, converge apenas para o ridículo e o sonho, ou pinta na tela dos sentidos uma abstracta realidade.

12 de fevereiro de 2009

aresta


Maria Bratu, por Tiago Martins em 1000 imagens


Incomoda-me que me olhes cercada de medo. Como se eu fosse algum fero animal que te ameaçasse morder apenas porque deverias dizer tudo o que sentes. Eis pois que és tu que pareces o bicho: enfiada, nervosa, trocando as palavras em sucessivos ataques de dislexia. E sem nada dizer, como se todo o tempo em que aí estiveste fosse um equívoco.

Quando então me decido a tocar-te

(levantou-se toda a penugem das partes visíveis do teu corpo)

e a avançar com um roçar dos meus lábios nos teus, deu-te um ar como se morresses, transformada na aresta da mesa onde o meu corpo inclinado desatina, e cai.

- Talvez tudo isto fosse muito lamechas para ti, confessa...


6 de fevereiro de 2009

a minha espera de ti


foto por Kadu (daqui)


Não me interessa se vens ou não. Passaram as horas naquele ponteiro que a estação ergueu como monumento às pessoas que esperam, inquietas, o embarque e o desembarque da vida. Pesa-me o sono da tarde, depois de tanto esperar. Aqui não está nem vem ninguém. Aqui, na planície agreste das minhas mãos. Voaram os estorninhos numa soberania invejável e as nuvens sorriem e já não choram. Vieram espiar-me a minha espera de ti e trazem as tuas cartas carregadas de promessas. Se não estás estendo os meus braços para o vazio e entro. Pelo menos dentro de mim posso contar com o afago do sangue, se as lágrimas já não me servem para mais nada.

5 de fevereiro de 2009

essa palavra é revolta


(autor desconhecido)


Se olhares à tua volta, o que vês? Diz-me lá, não com os olhos bem abertos, como quando acordas estremunhada
- B’ dia
numa cama que não a tua e não te lembras de mais nada, não sabes onde estás, como ali
(aqui)
vieste parar, e abres então bem os olhos para as paredes, a janela, os móveis, as roupas espalhadas no chão, enquanto eu te respondo, bem desperto
- Bom dia!
Vá, olha à tua volta como se fosse um desses momentos em que procuras o equilíbrio do espaço físico que não conheces. Que vês tu?
É difícil acreditar, eu sei. Nessa atitude de não quereres saber, em que encolhes os ombros, incrédula, é como se te escondesses entre os lençóis afagando ainda um sono que não terminou de todo, e o pior é isso, sabes, o pior é que andamos assim todos a não querer saber, a despertar por momentos num mundo estranho
- B’ dia
e voltamos, numa cobardia inocente, à paz dos lençóis, deixando para depois o terrível decifrar da situação.
Não quero que fujas, te isoles. Não quero que deixes para depois. Quero que faças parte desta realidade que o subconsciente te ajuda a não dares fé. Esquece tudo o resto. Arregala bem os olhos e vê. De ouvidos bem atentos escuta. Não é o
- Bom dia!
bem desperto que vais ouvir. Não serão paredes ou janelas ou a roupa espalhada no chão, produto de uma noite que já não te lembras como aconteceu, assim, que ainda estás a despertar do sono bem devagarinho. Arregala bem os olhos e quero que acredites, quero que sintas que a realidade sempre foi esta e mais nenhuma. Quero os teus ouvidos acordados para escutares a palavra:


«Essa palavra é revolta

Uma cadeira é uma ponte muito estreita para um mar como este. Levanta-se um vento acima dos cadeados e as nuvens pesam toneladas mesmo para aqueles que nunca pensaram em enforcar-se nos barrotes de um alpendre. Uma cadeira torna perigosa esta cabeça que rapidamente se inflama ao som dos coágulos de sangue que percorrem as paredes em busca de uma palavra. Os impostores não foram desmentidos, as fórmulas continuam a servir e os barcos naufragam até na sombra das areias.
» (*)

Com certeza compreendes agora. E que vás buscar finalmente o porquê de que, agora, quando acordas, estremunhada e balbucias
- B’ dia
já não encontras a voz para te responder, bem desperta,
- Bom dia!



(*) da autoria de Sérgio Pereira, publicado no Jornal de Notícias, em 1994

1 de fevereiro de 2009

das tuas mãos


Morrerei só, por Armindo Dias em 1000 imagens


E então lembrei-me das tuas mãos. Pequenas, acanhadas, a contar um rosário. E no entanto, tão longas para guardarem segredos de toda uma vida. Graciosas estendidas ao sol. Ansiosas quando tocando a transparência do vidro da janela cravejada de chuva. Pequenas mãos onde pulsava a terra e o hálito e o beijo nunca saciado.

O que tacteiam hoje não sei dizer. Remexem a terra das azáleas enquanto a chuva desnorteia a velocidade dos automóveis? Conduzem um filho que te sorri agradecendo amparo? Desenhando a forma de novos amores em sucessivos êxtases que jamais conhecerei? Quantos cadernos encheram de riscos e traços os esquissos de uma tela? Medram no calor dos trópicos ou fenecem enrugadas numa agrura qualquer da tua vida?

Não são saudades. E deixou há muito de ser amor. Apenas a memória vaga das tuas mãos que alimentavam os meus cabelos, adormecendo as tardes quando me encontravas perdido e embriagado numa valeta qualquer.

Queria muito que as tuas mãos deixassem de ser as tuas. Para ser as de alguém que me desse só mais esta oportunidade.

22 de fevereiro de 2007

tonalidade




Tens a cor da infância espelhada na íris dos olhos, e no teu rosto uma tonalidade de Gauguin, em que se ondula o teu cabelo denso e escuro. Tonalidade da terra, como se o outono fosse outra vez em vésperas de primavera. E sorris de inocência os medos e as carícias na ponta dos teus dedos pedindo que te afaste da solidão.

Se a solidão sou eu… fugindo e voltando com as correntes das palavras atrapalhando o tráfego da voz e dos afectos… Dói-me a garganta, sinto-me febril, peço que tomes conta de mim enquanto galgo as estantes do delírio na demanda dos passados por resolver, das pessoas que não esqueci. E tu só inocência e dedos com a cor da infância, cercada numa solidão de outono findo, aspirando na janela girassóis de Gogh… Eu apenas uma doença maricas, cheio de mesuras e mezinhas de avó. Se fosse assim tão simples colher-te as carícias do rosto e desenhar-te a solidão encurralada...

Se a solidão sou eu, galgando eternos invernos com a garganta febril de gritos de Munch…

21 de fevereiro de 2007

onde foi?


fotografia de Marta Glinska (daqui)


Onde foi que coloquei o molho de chaves, o telemóvel cansado de riscos, e o casaco desatinado com o frio e com a chuva, enquanto te ouço esvoaçar cozinha fora, entre os odores das especiarias? Ferveste tudo no mesmo jantar à luz da vela do alabastro?

As pernas obrigam-me para o sofá, sem obedecer a qualquer vontade minha de te recolher pelas ancas e afagar-te um beijo no teu longo pescoço. Provavelmente tu com as mãos molhadas sob a chuva da torneira aninhando um pé de alface

(e o meu casaco desatinado com o frio e com a chuva).

É o copo do whisky sem razão qualquer, é um jornal poisado com cheiro a tinta, como quem abre uma gaveta com roupa por estrear e saber

- É nova!

Onde foi que coloquei os cigarros que me consomes com duas ou três fumaças entre os teus dedos longos

(num deles um pedacinho de salsa perdida);

e onde está o sofá a que as minhas pernas obrigam, sem obedecer a qualquer vontade minha de te resgatar às caçarolas com um gesto brusco, ordenando o espaço da mesa com uma braçada de filme erótico

(lugar comum)

no intuito de procurar onde o forno, onde o calor, onde a cozedura do teu corpo estalando lamechas refogadas pelo meu, não sei onde

(o meu casaco desatinado com o frio e com a chuva)

não sei onde as chaves e o telemóvel cansado de riscos, e o comando da televisão a ronronar ao lado do tremelique das caçarolas.

Onde foi que me coloquei, para não me veres chegar assim a casa, com o olhar esgotado e as minhas pernas

(sem obedecer a qualquer vontade minha)

agachadas com o choro convulsivo de um

- Onde é que tudo isto começou para acabar assim?