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13 de janeiro de 2019

escreve! ou: o poema do mau despertar



Disse-te dos meus rascunhos pueris. Das palavras encontradas ao acaso e plantadas em beco. Disse-te que o mundo andou de pernas para o ar no ano que passou e nada disto diverte, se diverge. Tenho no que anseio a sua contradição, ambiciono envolto de nulidade. Há pontos de mim a anos luz uns dos outros. Divirjo, eis: entre o que fui, acorrentado a outroras, e este que agora não sabe, se enche de medo. O medo é pura diversão. Divergente. Abstração? Demência. 

Não. 

Saber construir um poema é saber erguer pontes sobre o poente. 

Não sei escrever um poema. No rascunho, tento versejar como quem se dá a novos ares. Porém, esta mão canhota: é ela quem empurra as palavras corridas umas na frente das anteriores, projectando parágrafos complicados, sintaxes complexas, semânticas a roçar o surreal. Dedo podre para a simplificação. E depois 

os adjetivos sempre presentes, a anunciar o substantivo circunstancial 

depois não é assim que quero, não assim que queria, tudo desapontado: escreve! De tudo quanto eu poderia fazer, nada faço. Calo-me entendendo uma ordem. Se não segue livre em linha recta, coloca-lhe uma barreira, desníveis, qualquer desafio. Calo-me por indeterminado tempo, a repetir fórmulas muito antigas. Poderá surgir a oportunidade de… até que… 

Até que supere esse ano inteiro para viver.

5 de janeiro de 2019

poema da redenção


«I'm lost in your crystal mask»
The Gift, Laura
 Digital Atmosphere, 1998


O sino badala para anunciar o mundo a este quarto escuro, onde poros rejeitam a parição da aurora e o meio-dia esclarecedor. Badala vezes sem conta ou conta que não quero eu fazer, a sentir que me chama, me apela, e eu sem nada dever à manhã ou à tarde porque deixei de me interessar, finjo-me de morto, a concluir as horas que faltam para o render do dia. Não estou, não procuro saber de coisa alguma e o quarto continuará poroso e negro. Escondo-me em máscaras e tão tolo, por sabê-las que nada escondem de mim, moldadas que são em frágil cristal. Hiberno cada ano, tolhido pelas geadas e ventos frios, entorpecido com a escuridão dos dias de chuva, introvertido na existência sem preocupações futuras, apenas remoendo os acasos que têm feito a minha vida até aqui. 

Então, o teu olhar a dar-me razões. Abri os meus olhos e vislumbrei um aceso findar do dia, feito Noé ao cabo de catastróficas tempestades. Entreabriste os lábios e sussurraste: Vê! Era o pôr do sol, ao fim dos anos, dos dias, das horas. Com o teu olhar. Dás-me o pôr do sol, eu procurarei dar-te o luar, nesta madrugada em que do teu beijo me houver renascido finalmente para reaprender contigo o significado da cumplicidade e da partilha. 

Aqui, neste efeito de luz do pôr do sol que me ofereces, ponto de partida para o último anoitecer, a derradeira madrugada até me ver acolhido no teu regaço, quimera tão minha, meu afecto de sempre, meu amor.

20 de janeiro de 2018

primeira carícia


Elliott Erwitt / Magnum fotos via Fotograficamente

Quero ser a cor dos teus dias. Acredita que consigo resgatar o teu sorriso ainda que nesta tarde tolhida por nuvens pesadas tenhas receio de olhar para além do cinzento, da parda solidão.

Basta que entreabras os lábios. Devagarinho como uma primeira carícia. Aos poucos é como que o sol a despontar. O teu sorriso brilha, Anna, enverdece os prados, aquece a semente. Acalma as marés. Como se viesses desses países distantes e encantados a dar boas novas ao mundo.

Quando sorris o teu olhar enternece. Comove-me no seu mistério, na cândida maneira de seduzir. Tens o amor dentro de ti como nascente de água a borbulhar por conhecer a terra e abrir sulcos profundos no solo.

Deixa-me ser o teu leito. Deixa que os meus dedos te conduzam como vento.

Vou estar aqui, entretanto, a velar o teu silêncio. E quando enfim abrires a janela, a primeira brisa que sentires no rosto será o beijo que os meus lábios, irrequietos, guardaram para te dar os bons dias e convidar-te


- Vens comigo?


15 de janeiro de 2018

poema do encontro

via Borboleta Rubi


Enovelo-me no teu abraço e o mundo perde-se, extinguem-se as estações do ano, faz sol quando chove, ardo em calor se são de neve a chuva e o vento, abrem-se jardins entre o betão da cidade, todas as pessoas são felizes ainda que carreguem semblantes pesados.

No teu colo regresso à infância, sem conhecer viva alma de má fé, és o meu escudo protector, o paredão contra o mar irado, a duna que me protege do vento norte.

Cada beijo teu uma flor aberta, as tuas carícias as plumas das aves pequenas. Sou em ti, perpetuado sem idade, inaugurando o mundo a cada suspiro do teu peito.

E quando mergulho no azul do teu olhar não há penumbra, porque os teus olhos brilham como candeias, ou é todo o céu estrelado nas noites frias do norte, a guiar-me a caminhada.

Sou pobre sem ti. Não tenho nome na tua ausência. 

A fome. O teu segredo. Os teus cabelos como tempestade de ouro sobre a almofada.

A canção.

Beber do teu peito a claridade da manhã.

Eu em ti. As minhas lágrimas por ti. O meu corpo por ti. O meu sangue por ti. Encontro-te: quero-te. Não sei o que fazer se tu não estás.

26 de janeiro de 2013

tu

Doirado, por Paulo Vieira em 1000 imagens


De serenos olhos a tua ternura veio afagar-me de rosas a língua e, descendo as pálpebras numa lentidão de prazer sussurrado, deixaste que aportasse o corpo ao teu estuário, ou foi o mar de ti que fez de mim península.

Encarnamos de veludo e seda, na textura do vinho, na liquidez dos morangos, com os lábios tacteando a sede e a fome pelo interior. São folhas de trevo bravo a polpa dos teus dedos desabrochando pela encosta do meu dorso até aos ombros onde te precipitas numa falésia de falsos desmaios e acidentais gemidos.

Vieste e ainda era a sombra. Desenhaste luz em volta num intenso crepúsculo como se o verão fosse para além do efémero das estações, temperadamente quente, permanentemente animador. Trouxe-te ao acaso e, volvidos os anos, não encontrei nunca outra terra senão o pasto de feno dos teus seios.

Pois que sou cavalo selvagem em ti, perdido, assanhado, faminto desse feno. E em ti estou sempre como que de regresso de longa jornada, sem precisão para calcular nova partida.

Agora as palavras calam-se, o feno cresce. 

Tu.

Eu deixarei de importar se tu não existires.

22 de janeiro de 2013

crónica anoitecida

Olhares.com


Chove, o que não seria novidade se não estivéssemos propensos a uns dias de sol – ainda que frios, ao rigor de janeiro – depois do que foi o fim-de-semana devastador. A mim, o temporal levou-me as caleiras da casa, encorrilhou umas telhas, e manchou as janelas de ar pardacento como se não houvesse lugar a auroras

(é estranho escrever auroras por que sempre me lembram o levantar dos dias estivais)

e a madrugada se prolongasse carrancuda pelas horas do dia.

Não vou demorar-me no frio e na humidade que têm sido estes dias. Até a legislação, o governo da nação e o estado dos cidadãos me parecem crespos como o mar em dias de temporal. E talvez, segundo previsões em nada meteorológicas, seja coisa a aguentar o ano inteiro… Mas que fazer, senão ir para a rua gritar?

Também não vou gritar. Apetece-me o sono e o conforto da cama

(é estranho escrever cama e conforto quando tanta gente por aí sem uma coisa nem outra)

ainda que venha a luz da manhã despertar para a corrida do trabalho.

Desta vez (só desta. Só desta?) não vou querer saber. Enrolo-me numa espiral térmica, e o mundo fora de mim irá precipitar-se como filme em avanço rápido, tarda nada entardece e a noite outra vez (outra vez um pleonasmo?) a assinalar que tenho de correr os estores da janela.

Será um dia que não se conta. A não ter existido.

A que vem isto, José? A que vem isto e a quem interessa? Repara como desperdiças papel: encarreiras a esferográfica numa espécie de beco sem saída e surgem rabiscos, arabescos, flores infantis, um qualquer desenho pseudo-qualquer-coisa-a-calhar-surrealista-parvo e não sais daí.

É noite. Não percas o tempo. Não o deixes que te engane. Desliga a internet, o facebook. Não te parece que lá esteja alguém e, no entanto, milhares, não é? Ninguém contigo. Tu com ninguém. Parece estúpido, e é. Desliga. Desliga o computador. Assim.

Surge o silêncio. Lê. Anoitece. Deixa que te anoiteça o sono. Talvez amanhã. Alguém. Por um bom dia

(e é estranho escrever bom dia quando não há ninguém que responda).

25 de janeiro de 2011

às vezes

Luar © JVieira

Apesar de tudo, a mesma melancolia. Não evoques o sol e o verde nas árvores, porque este sol ainda nada aquece e as árvores de folha caduca só não caducaram de vez porque vão continuando de pé. Não quero desiludir-te mas não importa se o faço: eu vou enrolando os cobertores na cama onde temperaturas tropicais me fazem sonhar sobre os paraísos que ainda não conheci. Vou tão cansado do vento a cortar frio o rosto e as mãos, vendo as pessoas pobres a mendigar de farrapos sobre o corpo, e por mais que enrole os cobertores não as vejo de olhar mais feliz. Vou cansado da luz troçando de mim no soalho e se um pé de fora o corpo imediatamente todo tremeliques. Que mariconço me saíste, pensarás, a aconchegar-me com mais uma mantinha sobre a cama e os infelizes sem deixar de tremer uma esmola deixada nas mãos farripas. Nem quero que subas os estores e corras as cortinas. Deixa-me nessa penumbra amiga que conheço há tantos anos, a minha concha, o meu refúgio, ficando a iludir-me que se o mundo não me vê o mundo não é assim, poderá ser diferente quando um dia quiser enfim levantar-me e deixar o clima tropical enrolado nos cobertores. Que importa haver sorte, felicidade, amor, bem-estar, se entre isso há tudo o que é o seu contrário? E porque hei-de eu importar-me com isto? E porque hei-de importunar-te com estas coisas? Não sei que dizer-te. Podes sempre sair. Dói-me, não sei se me entendes. Dói como deixar a mão regelando com o vento seco e frio de janeiro. E quando me dói, regresso à infância dos medos, dos sustos, da ansiedade. Regresso ao centro da ferida. Regrido a um leito doente, entre as febres tropicais da cama enrolada nos cobertores com milhares e milhares de pobres de farrapos no corpo. Deliro e dói. E fico na esperança tonta de, uma vez infante novamente, uma vez mais inocente a morrer, me veja tornado anjinho do senhor com ganas de entornar o mundo e encher a taça de um novo vinho. Regenerado. Mas o senhor vem castigando-me desde tempos que nem sequer conheceste. Vou estrebuchar, ranger os dentes, gritar para dentro, lutar contra uma ressaca inventada mas saberei encontrar-te quando enfim a tal janela se voltar a abrir, e entre jardins novos reencontre o sentido de cá continuar. Sai, deixa agora a penumbra entrar e sai tu, que és do mundo. Eu só o sou às vezes.

15 de janeiro de 2011

paternidade II


Dei conta de os dias terem crescido minutos uma vez que janeiro

- salto do cordeiro!

mas não foi apenas pela temperatura amena e pelo facto de as nuvens terem dado tréguas nestes últimos dias, ainda o ano a dar os seus primeiros passos, para que nestas longas horas tenha tomado o gosto à primavera por vir: foi mais um ramo que de mim brotou, antecipando-se aos botões por desabrochar nas árvores esquecidas pelas neves do inverno. Veio do quente e fecundo útero da mãe para os braços do pai que o ampara no esplendor do mundo, desse que ainda é, do qual ainda se garantem esperanças.

A felicidade tem momentos pequeninos, dos que acontecem todos os dias e a toda a hora, sem que tenhamos tempo para neles reparar. Este meu momento ao qual nunca teria sido alheio, tem o meu rosto regredindo quarenta anos, trazendo-me a segurança de uma imortalidade para além do corpo. A felicidade pode ser a alvorada anunciada num vagido ainda que acontecendo aos primeiros minutos de uma tarde bem luminosa

(que bom: agraciado pelo sol).

A felicidade leva o meu nome no mundo, por quantas gerações lhe seja concedido. São momentos breves, mas tão intensos, ternos e calorosos que a memória jamais poderá renegar. Os dias cresceram, bem os senti, com um ar fresco de alento, de reanimação do mundo, do meu mundo

(sorriu para mim: que bom, fui agraciado pelo sol).

Os dias vão crescendo e eu irei assim embalado, renascido, e a crescer devagar com eles.



20 de janeiro de 2010

verborreia

shapescapes

Não consigo escrever: tudo se amontoa à boca do pensamento, cheio de ruído, congestionado por preocupações e más vontades contra mim. Não encontro outra posição senão a cabeça amparada sobre a palma da mão, numa atitude de

(foda-se lá isto)

de indiferença, com a boca posta torta de cansaço. Os olhos deixam-se levar pelo peso das pálpebras e vou quase chegando aos sonhos da vigília onde a realidade se transforma em algo confuso e cada vez mais distante. Desperto com o roncar furioso de um carro para lá da janela, e não mudando de atitude, fico a observá-lo: bicho preguiçoso de focos espetados a assomar na curva, a rua sobe e o bicho barafusta com as suas ventas de pistões e escape com o declive que lhe faz perder a velocidade, o condutor reduz para segunda e o carro vai esforçado, lentamente, a subir o quanto lhe custa, até desaparecer da minha vista.

Retornando a paisagem à noite deserta e fria,

(todas a casas de estores corridos como se por dentro nunca tivessem sido habitadas)

volto a encarar a alvura do papel, o deserto vasto branco do papel que me magoa, intriga e frustra. Os cigarros são a derradeira tentação, a mão segurando uma esferográfica suspensa das palavras que teimam em não decifrar o pensamento atrapalhado por sentimentos que não sei agora exprimir.

Creio que o que digo – ou o que disser – é sobre o quanto já não sei o que foi, tudo o que é transforma-se vagaroso num ontem antecipado e descomprometido, e sigo cego de mim mesmo, com a cabeça pousada na palma da mão, a boca torta do cansaço que também se transforma, lentamente, numa irremediável irritação contra mim, contra todos. E por isso

(foda-se lá isto)

não lembro o passado, nem descodifico o presente e muito menos posso pensar qualquer nada de um futuro que honestamente nem sei que significado tem.

Crês em mim? Estou como o carro, bicho preguiçoso a subir o declive de uma rua. Se engatasse a segunda talvez viesse a produzir alguma coisa, mas temo que no fim da subida, arfando das ventas

(de pistões e escape)

me venha a faltar o combustível. Então era o papel amarrotado, o caixote do lixo boca esfomeada da minha mediocridade. Será melhor procurar outro repouso para a cabeça que não as falanges da mão, uma almofada talvez, aguardando o sono que venha a retemperar a energia para um despertar sem amuos nem resmungos. Procurando não o hoje, já transformado num ontem, mas tentar revigorar um amanhã mais promissor.

Pelos menos que escreva puro, sem esta verborreia que nada acrescenta, e apenas me ilude.

13 de janeiro de 2010

chama-me pelo nome




O ano caiu sob as suas raízes apodrecidas. Delicadamente o humor da terra prepara a vida para depois da estação velha, fendida a frio e a plumas de neve como só os céus podem oferecer.

Os calendários reiniciaram os ciclos após o solstício de inverno em que a penumbra desceu o seu peso sobre os olhares, os sorrisos e os gestos. Caminham agora os dias vagarosamente para jornadas mais abertas, compridas nos mostradores dos relógios do ano nascituro, em promessas de maiores alegrias.

E, entretanto, o mundo. Fendido pelos humores da humanidade, pela redundância da fraqueza social. O mundo que se recicla numa indiferença de tudo e tão ambígua: renascem as fontes, multiplicam-se sem se esgotarem os insaciáveis.

Todos jogam sem regras a cabeça dos outros. Jogam e perdem. Perdem e tornam a jogar, perdem novamente e oprimem.

Nunca se vencidos. Sempre por vencedores. Os que ditam a história.

Quando for a morte despenhando essa avalanche de grosseria, e as fontes recuperarem o sentido dos ciclos que se renovam, aí estende a mão na frente do teu mais virgem sorriso. Ergue a voz para inundar o mundo. Solta os cabelos para arejar o tempo.

Quando for então a vez de se abrirem os olhos, chama-me. Quando forem os vencidos. Quando os espelhos restituídos.

Quando se reescrever a história, chama-me pelo nome.

6 de janeiro de 2010

a manhã seguinte


autor desconhecido


O que mais desejas, confessa, é que a manhã seguinte venha num piscar de olhos, quando tudo esteja

(finalmente?)

acabado. Todas estas horas a velar o nada que não se ouve, não se percebe, já não se sente. Um suplício. As pessoas vão surgindo a entregar condolências numa estafa de consideração pelo defunto, pela família, pelos amigos mais chegados. Cruzam-se no nevoeiro denso dolentes de luto, os mais afastados, submetidos à consideração social do fúnebre evento, marcam presença de mãos inertes sobre o colo, fingindo pudor quando o olhar lhes atraiçoa de curiosidade a observar o comportamento do nojo alheio: mulheres e jovens chorando, alguém que passa mal, muitos que exclamam eu não acredito.

Ninguém está preparado para morrer, e menos preparado está quem fica para ver partir deste mundo alguém a quem tanto se quer. Faz parte do nosso mais inocente e inofensivo egoísmo: ainda que o moribundo sofra, ainda que cá já não esteja a não ser o corpo vegetal e mundano, não queremos nunca que parta. Assusta-nos saber que não voltaremos a ouvir a voz, sentir o toque das suas mãos, nunca mais ver o sorriso ou uma lágrima no rosto, que os olhos não voltarão a fitar-nos.

Por isso o teu desejo íntimo de que tudo desapareça de uma vez: entreguem esse amontoado de pó que o humor da terra reclama como seu, que desça ao insondável essa coisa que não sei o que é, como foi que veio para aqui e como teve a coragem de me deixar. E que não se abra o céu em grande gritaria pelo nosso silencioso sofrimento. Não celebremos morte alguma, se o corpo se arrependeu de continuar pode a alma vir comigo, para todo o sempre, dentro de mim.

Sim, queres que o ritual acabe de uma vez. E pensas que quem partiu foi numa viagem sem regresso em que a única esperança é esta promessa irracional que todos alimentamos de que um dia

(finalmente?)

o reencontro será festejado nessa desejada manhã seguinte da nossa tão triste existência.

1 de janeiro de 2010

desassossego




esta chuva que me ofusca sob minha pele o meu abraço:
não sei sobre que escrevo, nem sei se escrevo, tão madraço

quero deixar para trás as paredes sem sombras nem ocaso
esquecer a tarde, de janelas caladas onde nascem os rostos
com olhar amargo: as cortinas e os televisores iluminados

(tocam-se pianos
mãos, braços
olhos
sapatos)

porque o pensamento voga em branco
e o corpo sem tormenta transpira
cansaço

escuto o norte dos livros e dos cigarros
aconchego o bocejo na língua do nascente
grito de surdina ao ocidente em descuido
e desassossegado

então escolho de vendas nos olhos e o dedo esticado
- vou para o sul: nem sei se acabo.

30 de janeiro de 2009

poesia


Cristina, por Tiago Martins em 1000 imagens


- O que é a poesia, então?, perguntou-me, com o olhar curioso de quem bebe a sabedoria nos meus lábios.

Poesia? É uma flor. A árvore crescida na vasta planície. Uma pedra perdida na calçada. É o teu rosto ruborizado com a delicadeza dos sentimentos. Poesia é o pranto das distâncias em forma de silêncio. É o fruto maduro e apetecido. É a boca do sexo que me apela. É a madeira jovem e adocicada. É a penugem do teu pescoço longo. Deitar as tardes a dormir. Reciclar as madrugadas. É beber a fonte da alvorada. E a chuva que embala. E o sol. Poesia é o sol quando dizem que nasce para todos.

Poesia é a língua do cão que te aquece num afago. É o voo livre das aves pequenas. É o mar borbulhando de cores. E a maresia que te entontece. Com o marulho na negridão, à noite. Nunca como a lua que apenas mostra uma face. Poesia é um rosto multiplicado a mil.

É toda a música que te enternece. Poesia é tudo o que queres, e sentes. E tudo o mais que não disse, e é.

29 de janeiro de 2009

no oco da boca


por Pedro Gomes em 1000 imagens


- Ensina-me a escrever,

pediste, como se quisesses aprender a falar pela primeira vez, tal era a tua vontade de pegar nas palavras e redescobri-las, saber que outros sentidos escondem, o que despertam nos outros, e o que é, afinal, esta coisa do escrever, e a língua que não só toma o sabor mas dá a outros diferentes paladares, como num beijo.

Não sei ensinar-te, querida, não sei ensinar-te. Apenas saberei indicar-te que, no oco da boca, tomamos os desejos e então dizemo-los, tão só como quando os lábios se abrem como jazidas multicolores e brilhantes, e que com as mãos se lapida o que a terra nos oferece.

- Não te posso ensinar o talento, ele está no teu interior. Busca-o, trá-lo à luz dos nossos dias.

28 de janeiro de 2009

não há como


(daqui)

- Queria escrever um poema de amor

Não o escrevas, poeta. Virá a mágoa numa maré de corpos que entre si lutam por um pedaço de metal. Abre as mãos e recolhe o trigo das searas. Constrói o pão. Tempera-o com o sal do teu suor, a suavidade das tuas lágrimas. Dá-nos de comer, a nós, infame espécie. Todos os poemas são profanados, e não há como o novo pão para que o papel retorne à sua qualidade vegetal. Quando souberes que todo o papel é virgem da ignomínia, então tenta. Bastará uma palavra para florir um novo prado onde os corpos caídos se esqueçam do vil metal e te adore como a deus. Mas aí, poeta, aí não permitas que tudo recomece: imola-te, para exemplo da maior e absoluta humildade.

26 de janeiro de 2009

sede de


3ª Foto do dia 24.08.2008, por Luís Mendonça em 1000 imagens


Vencida pelo meu sorriso, desnudou o peito desarmando o seu pudor. Cruzou os braços sobre si numa timidez diluída na expectativa. Afastei-lhe os braços

(e não as pernas que também nuas, entretanto).

Beijei demorado as auréolas e o volume redondo de ambos os seios. Pousei a cabeça numa atitude sôfrega de fome. Foi apaixonadamente que coloquei a boca sobre um dos mamilos túrgidos, ofegantes.

Era do seu leite de afectos que queria beber, ficar saciado.

24 de janeiro de 2009

textura



Sombras, por João Mota da Costa em 1000 imagens


Encostado à parede finjo olhar de perto a pequena silhueta tecida na sombra e as formas dos objectos na sua quietude de nada. Na esquina da mesa sou sobressaltado pela impaciência de uma centopeia tacteando a textura da humidade. Não lhe tenho medo, apenas uma aversão infantil por tão delicada e delirante agitação, pela sua forma repugnante. Imagino-a nos meus lábios, transpiro, tenho nojo, arrepios, as patas multiplicadas, levantando-se em sucessivas ondas. Grito, atropelo as mãos no meu rosto, fujo da parede onde um exército de outros bichos semelhantes se prepara para sentir no meu rosto a textura da sombra. E deste nojo, desta aversão inventada pela minha imaginação, um velho jornal é a arma letal para a infeliz centopeia, viscosamente derretida no canto da mesa. Enxoto os seus restos para o lixo, ainda com o mesmo nojo.

Indisposto, sento-me na cadeira. Foi então que te vi, com o rosto lavado em lágrimas: havia esmagado um beijo teu.

19 de janeiro de 2009

inclinação




Do que eu recordo é a água agitada do Douro, e as pedras centenárias inclinadas

(numa inclinação indiferente a tudo)

sob as sombras das nuvens que profetizavam chuvas. E o pé calcando a beira viscosa das águas que vão e vêm na maré, conduzindo a rodopios de ninja, desequilibrando o corpo numa esfera de vertigem; e no instante da queda, era o mesmo abismo visto do cimo da ponte entre braços de ferro e tremeliques amaricados.

Verde. É a cor de que recordo depois da espuma e dos buracos antigos vomitando os despojos das cidades. E peixes grandes que não agarraria debaixo do braço de tão compridos eram.

Então perdido num quase deserto de águas escuras ao vento inclinadas

(numa inclinação indiferente a tudo)

senti emergir-me nos braços fortes de não sei quem com as vozes em gritaria de uns quantos que pareciam preparar-se para outros golpes de ninja, desequilibrando o corpo numa esfera de tragédia; não tanto, mas quase quanto em noites de São João a ver o fogo derretido sobre os braços de ferro, e o alvoroço de histerias amaricadas.

Azul, veio depois essa cor. Era o céu que entretanto se limpara, guiando o milagre para cima das mesmas pedras centenárias inclinadas

(numa inclinação indiferente a tudo)

e do que eu recordo é o sufoco dos olhares poisados em mim como se eu um peixe grande que não se agarra debaixo do braço por tão comprido, as vozes aglomeraram-se e tudo tão denso, tudo tão inclinado como as águas com o vento que a última recordação foi o meu corpo agitado e o resto sem cor, esvaindo-se num sufoco negro de nuvens fugidas profetizando chuvas para outras tragédias urbanas.

15 de janeiro de 2009

betão


(daqui)


Quando está assim o dia em que tudo chove - mesmo as gruas no seu movimento preguiçoso que choram dos seus braços abertos no ar, ou como os automóveis que borrifam as bermas com a sua agonia de chegar rápido a todo o lugar, ou ainda as bandeiras das roupas esquecidas desesperadamente nas cordas sacudidas da sua condição de aves ao vento, e mais ainda essas árvores que se esforçam por explodir de verde e dar outra coloração às praças com as gotas de água despregadas dos seus ramos como se sacodem os cães e os gatos -, quando está assim o dia em que tudo chove, dizia, reparo como cinzenta é a cidade que cresce para cá das nossas expectativas.

O bruto feio cinzento do betão. Chove dentro todos os dias na cidade, agora tenho a certeza.

13 de janeiro de 2009

azeviche


[autor desconhecido]

Não canto porque sonho.
Canto porque és real.
Canto o teu olhar maduro,
o teu sorriso puro,
a tua graça animal.

Canto porque sou homem.
Se não cantasse seria
o mesmo bicho sadio
embriagado na alegria
da tua vinha sem vinho.

Canto porque o amor apetece.
Porque o feno amadurece
Nos teus braços deslumbrados.
Porque o meu corpo estremece
por vê-los nus e suados.


Eugénio de Andrade em As Mãos e Os Frutos, musicado por Fausto


*

A toada de Fausto entrou no ambiente e trouxe vinho para tomarmos, e foi quando pegavas no copo que reparei no pequeno sinal sobre o teu anelar, como se fosse a pedra de um anel. Uma pequena pedra de azeviche. Estranho nunca ter reparado, afinal é tão pouco vulgar um sinal negro na falange, substituindo a ausência de uma jóia. Talvez porque só te toque os lábios e te devolva o sorriso com os olhos; talvez porque as tuas pernas torneadas me encham as palmas das mãos, ou o teu peito me desmanche a carne para outros sentidos. Ou talvez a humidade no teu baixo-ventre (outra pedra de azeviche aninhada no teu colo), que me fascina quando se abre num apelo carmesim. Não sei. Os teus dedos tragados na fome dos suspiros eram só um toque de pluma sobre a carne, animal e cega.

Não era costume olhar os teus dedos, e hoje foi pelo vinho que tomávamos, trazido no acorde e na voz de Fausto, que te redescobri como pedra preciosa.