verborreia às tantas da madrugada

foto de Rustam Rakhimov


Dormem todos cedo: os que, sendo amigos, ficaram uns amigos muito calados, e já nem o telefone os sugere; outros há que dizes que são amigos por suposta e subtil realidade, mas esses, de tão fracas palavras, acabam por não contar; e depois, há toda uma família que te aturou todo o dia e está cansada. Portanto, todos dormem enquanto tu insone. No entanto, ou por isso mesmo, com uma enorme vontade de mundo. Do que dorme.

Apreendes as paredes e olhas as estantes. Ficas muito admirado, enquanto torpe na solidão da madrugada ainda infante, por perceberes, com inclinado rasgo de alegria, que os livros, os teus livros, são os que nunca dormem. E inquietas-te, por lhes quereres então falar.

Porém, não te ouvem: só eles falam. Envolvem-te ora como luz ora como sombra. Querem os teus olhos, mas desprezam a tua voz e a língua que a molda. É que, mesmo para os que se isolam por vontade, há sempre aquela hora

(esta? outra?)

em que precisas da tua voz parida, pela laringe ou que seja mesmo pelos dedos, e que diga o que és. E tenhas interlocutor, preciso, directo, que não seja apenas um menear de cabeça. Sem papel, serão palavras apenas, como as dos livros, mas dialeticamente partilhadas. A roçar esse misterioso cliché do estou-só!-dás-me-uma-mão?, acabando por te dirigires ao menos incauto dos estranhos.

Então, sentes um silêncio imperioso, como o betão: duro. Nem sequer podes conceber isto que sentes como se fosse grave questão.

E fazes lamentável rima? Bem vês assim que, a esta hora, já te perdes da mão. Devagar vais começando a sentir que a razão vem romper aquele silêncio, e farás de um murmúrio o som do sono, concordando que na manhã seguinte…

… vá… um outro chavão.



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