memória em ruínas



Creio não se tratar já de uma questão de distância. O mundo em que vivemos subjuga os estigmas e estereótipos no que se refere a lonjuras. Tudo começa agora por ser aqui e o aqui acabará por significar simplesmente o ponto onde duas ou várias pessoas comungam, seja o que for. Então, a insinuação de espaço-entre-distância deixa de fazer sentido para ser pura retórica. Isto, menos dia, mais dias, para qualquer dia destes actuais e de outros vindouros, será um facto.

Concretamente, no que se sente e/ou deixa de se sentir: não tem que ver com a distância. Coisa parva pensar agora assim. Vou com a quase certeza de que estas circunstâncias sentimentais se afunilam num esquecimento remediado, depois traduzido numa memória em ruínas. O provérbio diz que «longe da vista, longe do coração», e eu interpelo, riscando a máxima: se o coração sempre foi cego, que distância poderia desarmá-lo?

Então, é a vista, qualquer que seja, que não é cega, vinda da razão, de um egoísmo, de um ressentimento, e nunca do coração. A este, não sentir é que o torna enfadonho, incrédulo, desesperançado perante sentimentos anteriores.

Surge em letras garrafais, o

E N F A D O N H O

para quem perde do outro um sentimento que se pretendia seguro, e longe de ser pretérito. Como um martelo que tortura o peito, de dia e de noite.

Já em letra muito pequena ou, talvez, vá lá: mediana!, em jeito de rodapé,

enfadonho

é um eufemismo para aquele coração que, gasto e encouraçado, deixa de sentir, de gostar, de amar o que fora objecto de admiração e de amor. Não é esquecimento. Trata-se, efectivamente, de uma ruína da memória sentimental, encontrada afinal frágil e porosa, como erode suposta pedra dura com o obstinado mar matutando nela a derrocada. Só assim o coração segue, renovando o oxigénio, por segura necessidade, outros rumos: o coração que aceita a derrocada, servindo-se de um baú esconso onde remete o que já não o faz palpitar, o que lhe é venoso. O que excede ao sangue limpo, esse que renova a fonte da alma.

De outra forma, seria resignação. E essa acabaria por ser pior ruína: para a memória, para o coração, para o sangue e corpo de quem ainda queira viver, livre, mesmo que venham a ser os seus últimos minutos um bater de asas de borboleta na decadente estação estival.



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banda sonora:


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