eterno amor efémero


Sempre me aguardaste delicado, sabendo quando estaria de regresso ao teu colo. Somos vaga ideia no desencontro mas sublimes nesta fidelidade do regresso. Tentei a mesma fórmula, rara vez, mas as repetições devemos evitá-las, para que não se caia em equívoco. Fomos desconstruindo a concepção de que o amor é dívida e que se paga com a exclusividade, nos mesmos termos de quem vende a alma ao diabo.

Estive estes dias, entre a penumbra das tardes e a escuridão das madrugadas, embalada pelo consolo das chuvas, no meu ofício de dar solidez às tintas como que corpos brotando de mim sobre a tela, ao mesmo tempo lhes conferindo circunstância etérea e muito volátil para não desiludir os espíritos abstraídos do terreno. Sabes que não o faço por ambição, nem por outro propósito senão o mesmo com que regresso a ti: reencontrar-me. Tem sido difícil, mas não é a dificuldade que temo. É espremer-me e haver resultado nenhum, nem sequer por fantasia, de modo que surge sempre aquela imagética do alpendre que aguenta a corda, a corda que aguenta o corpo, o corpo que se contorce no último espasmo, o último espasmo significando o derradeiro orgasmo, este o êxtase que nos aproxima de deus… 

Nada existe senão quando sei que me ouves, ainda que a minha voz não seja a ti dirigida. Sabes bem que há outros homens. Tantos que, por euforia talvez diástole, envolvidos num caldo de lirismo exacerbado, ou sei lá, se dedicam a desembaraçar o fio do novelo imenso que fazem de mim. 

E, bem sabes, nada há de mim escondida por dentro de um novelo. Na outra ponta do fio, de onde nada parte o que possa acrescentar-me, não me encontro nem me encontram. É um fio nulo que se acaba, defraudando a expectativa de quem resolvido estiver para saber mais e completar seja lá o que for, só à sua maneira ensimesmada com que me concebeu. 

Espanto-me com o facto de alguém quase se envaidecer da convicção que tem de saber que mulher sou, sem ter notado os sinais que contradizem quaisquer expectativas, sendo os mesmos que anulam os equívocos. Contigo não foi assim. Acabo por acreditar, também em delírio lírico, que terás primeiro penetrado em minha alma antes que o teu corpo península do meu, e soubeste desde aí exactamente em que ponto poderias ser contínuo ou divergente. 

Lembro-me do dia em que nos concebemos um ao outro, chovia desta forma, com frio e intermitência. Tu até dizias que a cada orgasmo nosso o céu da tarde se abria para que as ressas de sol pudessem inundar o quarto, preencher as paredes, renovar o ciclo. Intervalos em que confessavas 

- Sabes bem que te amo, mas não vai ser por isso que vou implorar um amor igual de ti 

tão rendido, tão… púbere, talvez? Então eu, com nó na garganta, penosa e dengosa, temendo que tu entendesses que eu te visse como mera aventura, cheia de medo que me virasses o rosto na despedida, que eu afinal apenas mais uma galdéria, nunca expectando nada mais do que aquelas horas. Eu falsamente grávida de promessas que sabia não poder cumprir e, ainda assim, cuidando de afirmar que tal era muito mais do que conseguirias imaginar, que os meus sentimentos, enfim, verdadeiros, e que o amanhã outro dia, e que no depois de amanhã até se calhar alguma coisa. 

Sem ter nunca compreendido que contigo era nenhuma coisa nem coisa alguma. Era tudo o quanto poderias ser, sem olhar para trás, sem ver em frente. A ti sempre e só te importou o momento. Eu não sabia que era uma confissão efémera para algo maior que se quer eterno, independente de qualquer circunstância em que um e outro pudessem estar. E, desde então, só o teu colo, só o teu olhar, castanho e húmido como são feitas as tardes desde que o frio inaugura a decadência outonal das folhas até que o novo ciclo se inicie no solstício, só esse teu mundo assim feito em mim me alivia daquela circunstancial vontade de morrer. 

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