primeira vez


Christian Vogt, The pair , 1987 Alternatif Fotoggraf Toplulugu


– Diz-me em que estás a pensar….

Vi-te ponderada a considerar os meus pensamentos enquanto absorvias os movimentos que fazia na cadeira ridiculamente imperfeita para qualquer conforto de quem se senta nela. Perguntar-te-ei, entre o estrebucho do rabo e do lombo mal acomodados: aguentas o medo? Ou estás nesse cansaço de viver todas as rotinas sem as questionar? Eu sei que é difícil, os dias querem-se repetidos como comboio que não pretende descarrilar. E vão esses dias repetindo-se em sombras, mesmo nessas manhãs ou tardes em que ao sol, por tão ufano, lhe crescem braços sobre o sumptuoso manto azul. E, porém, vencem essas sombras que predicam o básico papel da nossa vida neste mundo tão perturbado. 

Ao observar-te, furtei a tua questão, mas com diferente dúvida: em que diversa coisa estás tu a pensar? Para lá dos meandros do livro que lês? Há o desapontamento por que a vida nem sempre se vive de condimento? A estrugir desinteressadamente o jantar das jornadas para que valha o alimento a sustentar forças do dia seguinte, antes dos roncos e admoestações da madrugada. Rotinas que nos inclinam. Rotinas que não queres viver mais? 

Respondeste: acaba por ser tudo um cliché, a vida de toda a gente tem andado um pouco nessa esfera, a dos lugares-comuns, a treta toda de nos acharmos todos uns iguais aos outros. E não somos. É tão ridículo, isso… 

Acrescentaste: acontece que hoje despertei confusa, a martelar-me essa coisa do amar ou, se é que é mais importante, sentir-me amada. Como encostar um búzio grande aos nossos ouvidos e imaginarmos que ouvimos o mar. Desperto com essa solidez do que sou, emoção e corpo, mas o rumor que fica de uma madrugada é hálito amargo de saber que, afinal, estou só, quando o que preciso é de um bom dia ao lado, mesmo que intercalar, a conceder empatia ao corpo do torpor desperto. 

Seguiu-se diálogo, nada combinado. Eu e tu como que duas pessoas que não tivessem ainda falado nada e, nesse acaso, tu a falares para mim, mas com os olhos postos fora do que pudesse a vista entender: 

– Sabes? A noite passada, distraída no livro, e a beberricar um copo de vinho, deixei entornar um pouco sobre a toalha de linho que serve apenas 

(a sustentar o cliché) 

como bibelot sobre a mesinha da sala de estar, tingindo-a de um escarlate, 

(eu a perceber que era vinho tinto na vez do branco que dizes tanto preferir, fresco como a água dos ribeiros em pleno verão – palavras tuas) 

e houve em mim, repentina, qualquer coisa a soar a epifania bacoca … Não rias! Que… é a mancha que o meu coração deixaria ali, não fossem as impossibilidades físicas de tal acontecimento. 

Eu ter-te-ei dito algo como: contraria a pureza do linho, deixa-a manchada para que eu dê conta, sendo o sustenido sangue do teu coração. Não faz nódoas, apenas memórias. Acolhe do vinho derramado o premente dos nossos beijos nunca havidos, dos nossos corpos nunca tocados. 

E tu, com a veleidade de quem se considera leitora das entrelinhas do olhar, 

– A pensar precisamente nisso. Nessa urgência. 
– Queres? Sabes o que te diz o meu coração, mesmo que não manche com a mesma nódoa de vinho? Consegues alinhar-te na fremência recalcada do meu corpo? 
– Como se fosse aquela sensação escondida de como quando nascemos. Algo novo. Luz de outra coisa que não a que vemos, talvez. 
– Respirar o mundo e dar-lhe noção das primeiras sensações depois do útero? 
– Não, disso trazemos ideia, apenas lhe acrescentamos o que não supúnhamos. 
– Que é, então? 
– A fome. O teu corpo produz em mim a fome, como se, recém-nascida, procurasse o seio maternal. É o princípio do desejo após nascermos, ou de acordar, no meu caso presente, feito de uma luz que acabamos por esquecer. É isso. 

Antes que tudo pudesse ser concreto, ainda acrescentaste: 

– Essa fome da primeira vez. Essa luz que gostamos de chamar guia dos nossos dias. 

Foi então por isso que não nos enganamos nas vezes seguintes.

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