28 de julho de 2018

em pé

Kültür Tava

Sustém a fadiga a beijar o corpo e deixa-me sair como quem se despede para destino incerto, a saber que o fogo também unge e salva, que nada espera. Censura-me se encosto o ouvido à lamúria, advertindo-me sobre as auroras prenhes de luz. Pois que estou com esse medo de todo que me quebre o corpo, e de um assombro perca os membros, e me resigne a uma inutilidade de réptil por em oco deixar-se o osso definhar onde rémiges haviam de crescer para me tornar alada e dessa forma a divina que viste em mim.

Já só dói o teu sorriso aquecendo a líbido das mulheres alheias ao teu anseio. Não sei imaginar a tamanha saudade que vou ter de ti. Hei-de procurar-te na orla do mar. Não por acreditar na redenção do pôr-do-sol idílico preliminar dos amantes em estampas românticas. Hei-de ir na madrugada mais escura, fria, se possível na porcelana branca do nevoeiro. Procurar-te e ser invisível, ou apenas vapor sem forma ou claridade. Não terás a necessidade das lágrimas então, certo que o teu regresso seria erro de feitio, insistir no fôlego quando o ar é tão rarefeito.

Fico bem. Sabes que a mim não me bastou nunca o sofrimento. Satisfaz-me sentir o cheiro do sangue, afirmando a certeza que as feridas cumprem e são concretas na dor. E fujo da morte como castigo. Se morresse, certa estou que seria para um nosso reencontro. Lá não há nada, não queiras ser nada entre os meus braços. Não venhas. Pretere o vazio, que em mim mais fundo e tenebroso é o abismo.

Sustém a fadiga a beijar o corpo e deixa-te sair como quem rende os dias, a saber que a terra é sacrilégio para quem fica. E pesa. Como pesa, ainda que as brisas e os ventos. E as árvores testemunhando, irmãs, que é em pé que se ganha a eternidade. E a solidão.

22 de julho de 2018

as algibeiras de virgínia



Trouxe qualquer coisa na algibeira que se abeirava

(disse para consigo)

a uma oportunidade de

– finalmente!

(repetiu)

ser feliz.

Estudou, viajou, sentiu cheiros e sabores, observou. Afinal, não: impossível a felicidade conjugada com o verbo ser. Pôde perceber na poluição dos rios, nos caminhos percorridos sem calçada ou macadame.

Triste porque inacabado enquanto homem

(concluiu),

dirigiu-se ao cume de um relevo sem perceber o abismo. Por simples curiosidade, deu conta apenas do escuro fatal das águas correndo declive abaixo, ao fim de tudo.

Tudo tão no fim, tudo tão declinado e em baixo

(lembrou de dizer para si próprio)

a vida toda feita num abissal baixo, como se o céu desmesuradamente distante das ambições  humanas. Tomar a lua foi falsa promessa e conquista?, indagou ainda.

Recolheu-se num gesto de resignação a baixar os braços, e percebeu na algibeira o volume e o peso do que o levou a chegar ali: a oportunidade de se abeirar de algo que teria levado anos a concretizar. Do que foi em tempos. Foi sem tempo que concluiu:são afinal pedras, pesadas, em todas as algibeiras que vem carregando a humanidade.

Súbito, um impulso subiu corpo acima, tremesse embora das pernas e a aflição no peito: era como um sussurro – encosto do espírito da Virgínia!, suspirou, em cautela supersticiosa – a dizer-lhe que o abismo é apenas ar.

Agora, podemos anunciar, já não existe: pairamos sobre ele, como abutres que somos, a observar-lhe os escombros da queda quando soçobrou, como homem que foi, lá em baixo, a julgar os abismos.

13 de julho de 2018

teatro anatómico



Bom dia. Entra e fecha a porta. Vem verificar as nódoas visíveis sobre a pele. Finge-te erudita do asseio, e que zelas pelo corpo como bibliotecária em Alexandria. Não receies, que fogo algum poderá destruir o legado que herdaste e vens cuidar com precisão de luva. Aguenta-te no acidente, que os objectos frágeis são susceptíveis à perda eterna, ao cabo da extinção, ao fino fio tenso entre os picos, a tremelicar sobre o abismo da existência. Se sentires que o corpo vacila dá-lhe quarentena e deixa-o em repouso como se fosses jejuar no deserto. Ao regressares move-te com atitude felina ou cautela de pluma. Abre muito devagar cada poro e liberta o mofo, soprar para que se respire, observando se as sombras se espantam. Leva o corpo em troféu derradeiro para o teatro anatómico e faz suspender a luz. Sai e fecha a porta. Boa noite.


21 de junho de 2018

manifestação



Ontem toquei-me no banho
por me lembrar do teu lascivo apelo
à paz:

foi tudo certo, ergui o mastro
para desfraldar a imensa e alva
bandeira,

o punho cerrado e pulsante
por essa tão nobre causa,
mantras

para o equilíbrio dos interesses,
e a essa vontade de um cessar fogo
da carne,

lembrei o teu os nossos gritos de ordem
roucamente libertadores da tua nossa
aflita voz,

e achei-me, no final, tão realizado, ou mesmo
feliz por desta luta saber-me eu e tu cansados
vencedores.

19 de junho de 2018

justaposição



antes da lógica, mandam que o coração
seja palco geocêntrico, enquanto a silva voz,
num grito,
repudia as leis da física;
e falam-nos, com ar de incorruptível alegria,
de uma praça verde, planície até ao solstício,
como se os mares fossem declives
onde só o inferno possa ser chão,
enquanto o firmamento pétalas
de flores sem fim.

vamos lá a ver:
nada fulge como parece, e acidente
é o terreno, se vos
enganam os sentidos,
pois que no crepúsculo do dia ou na efémera estação
estais lá vós e, no firmamento,
afinal,
reina heliocentricamente a
razão.


10 de junho de 2018

escrever liberta



para a Fátima Matos

- Escrever liberta.
- Liberta o quê?
- O que te vem da alma, minha querida, tudo o que te vem da alma.
- Então muita coisa, e do coração ainda mais…
- Do coração, da alma, até do corpo – somos disso feitos.

Planta o teu sorriso, e escreve: de que é feita a terra e a sua cor. Quando é lama e pó, e as criaturas que a habitam. Das tuas unhas nela entranhadas. 

Solta o teu cabelo, e escreve: sobre o que faz soprar o vento, medonho no inverno e como uma carícia quando uma brisa no verão. Da forma como agita o mundo e ainda te faz secar as lágrimas que te lavam o rosto de amarguras ou solenes alegrias.

Esmera-te a regar as raízes, e escreve: como foi que o teu sorriso afinal medrou. Por que são tão importantes as chuvas conciliadoras ainda que seja o sol que desejes, a lamber-te a pele. Escreve sobre a planície do trigo, a forjar o pão. Por que há noite e dia, e aquela hora pequena entre a madrugada e a aurora a incentivar as flores e as copas das árvores altas, murmurando.

Abre as tuas mãos para receberes o fruto, e escreve: o que faz a carne, por que se desfaz a polpa. O que faz pulsar o sangue, e a cor leitosa do sémen. Se foram em vão ou não todos os teus sacrifícios, bem como as dores que o mundo tem. Escreve sobre o doce e também sobre o salgado. A textura da língua, e a saliva alheia que lhe sacia a sede.

Assiste da forma como se rende a tarde como virgem em furor, e escreve: de que é feita a luz e qual a razão de ser assim eterna. Como é que, sendo nós dessa condição da terra que é lama e pó, nos transformamos num brilho permanente aspirando com a morte o seguro firmamento do céu quando desce a noite.

Nessa altura, minha querida, ao repousares sentada e encostada ao tronco da árvore, a abraçar brisas de verão sob a sua sombra, lembra-te de escrever, a essa mesma árvore que te acolherá, sobre a razão de ser ela tão livre para que a natureza lhe conceda esse milagre de nos dar o seu fruto.


1 de junho de 2018

acto final

foto por Milos Korecek, via Alternatif Fotoğraf Topluluğu.


Temei mais nada, ó cães danados e feros, se a caravana já vai tão longe e tolhida de susto que do seu rastro não há-de formar-se qualquer memória! A soma dos equívocos é um pretérito de assombro, e a periferia apenas um esboço para quem tem fé num destino arquitectado. Se, ainda assim, vos atrai o abismo, saltai precipício abaixo como a vara a que o secular mestre condenou. Não tenho vocação para santuário dos infelizes e atormentados – não fosse eu, de maxilar espumoso e brilho nos caninos, esta besta inquieta entre as trevas! Sossegai, veias dilatadas, que o monstro foi solto em parte incerta e amaldiçoado; não terá mais regresso! Sustém-te, ó músculo vicioso das paixões, dos embustes, das profecias, das tragédias! O teu lugar é agora uma cadeira onde poderás assistir ao desfile perecível de toda a efemeridade – tem-te e não caias, resigna-te a bombear a vida e sê profano de toda a esperança! Também vós, ó vistosas e impacientes fêmeas, recolhei o facho entre as pernas, deixai que o vosso corpo recupere da ofegante e arfada jornada, ide deitar as tardes a dormir, num incêndio apaziguador que vos reconcilie a noite com o cio adiado! 

Uiva agora, ó sublime alma, que as valquírias sonegam Odin já senil e desprezam Freia, essa cadela perdida da sua demanda! Esquece o cálice por onde bebeste o vinho inquinado na esperança de promissoras auroras e horizontes de esplendor. Alimenta-te agora das sobras caprinas vagantes entre as pedras estéreis, nas sobranceiras colinas, nos angulares declives e precipícios. Tem força nas patas traseiras, ó alma que cursiva teimas; eleva o grito, sobrevive! 

Eu quedo-me de cócoras, sobre o limo, tão sujeito ao apelo da cobrição da terra por derradeira fecundação! Sirvo o ventre aos vermes, os olhos à secura do vento suão, as mãos à raiz do pó. De nariz apontado e triangular sob o céu que parece descer em trovões de riso e escarninho, devolvo o peito às rapinas ociosas e sem vocação de predação. No final, a morte será apenas signo de insolência. Pequena árvore de sujeição, onde futuros traidores terminarão sob os seus ramos a desejar piamente que as negras nuvens os levem para delírios azuis.



19 de maio de 2018

do maio fecundo


Anybal Bastos photography | modelo: Ana Brito Silva


para a Fernanda



O rio dourado sempre meu confidente soube desse dia de maio em que as aves anunciaram que a cor do amor é azul. Maio criador, fecundo e maduro com as searas ainda jovens, jus à pele adocicada dos teus braços alvos com o sol predicado nos teus cabelos. Inaugurando as brisas de verão a lamber-me o rosto.

Conheci a pele de pêssego no teu peito, o perfume da giesta no teu pescoço, e o sabor da amêndoa no teu olhar.

Tudo tão inicial, como qualquer alvorada, em que pude perceber a geometria dos jardins, pegando na tua mão. Se tremias, eram os abalos em meu peito; se sorrias, era o fulgor do ouro sobre o meu corpo.

E o beijo, como cavalo selvagem à solta, faminto do feno.

Foi quando nasceram os poemas, tão puros e virgens, esse maio feliz. Nós ainda meninos, com a esperança de abarcar o mundo. A eterna juventude da qual afinal nunca parti e onde consigo sempre ouvir a tua voz.

Não será apenas memória ou cadente nostalgia. Estará no sangue de que sou, no entendimento que tenho do mundo e das mulheres.

Não foi, nem será: é a nossa sexta-feira azul.



13 de maio de 2018

queria escrever como faço amor

Robert Duval, via Photographize



Queria escrever um poema
como sei fazer amor, e eu
só sei fazer amor
– não digas
   não digas que não sabes
o que escrevo, ou que não entendes
o que escrevo
pois se
o que escrevo
é tudo e por amor, e é amor
tudo o quanto quero que sintas.


6 de maio de 2018

prelúdio


Kültür Tava


Suspiras como uma sinfonia e estas paredes confidentes do teu corpo. Por capricho, maldade ingénua, ou simples amuo momentâneo, o vidro da janela sustém o fulgor da claridade plena e desvia-te a luz da tarde para um ângulo isolado do quarto onde as partículas do pó se ferem por algum protagonismo. 

Dizes que escrevo inseguro, que é uma pueril falta de confiança, mas logo percebes a oscilação do tampo da mesa onde tenteio, só e incapaz de manter o rumo do navio na previsão de uma tempestade. Tudo se move contra vontade – não sentes? –, essa desconfortável vibração como se o mundo fosse ruir e já antes de nós o susto das aves na sua revoada de espanto, fugindo. 

Não temos cidade, escaparam-se-nos as copas das árvores, e quando sopra uma brisa é um hálito tão temeroso que acabamos duvidando do sentido desta existência. Dos suspiros vem-te a ideia de uma demanda, mas não sou anjo nem cavaleiro, não vim para dar salvação, e estarei sempre numa partida inglória. As minhas palavras não produzem, apenas espigam como o joio. Seguem de igual forma temerosas, num veículo que oscila, desmedido da força da corrente, inconsciente da velocidade. 

Hás-de reparar nos semblantes de quem viaja no regresso a casa com a fadiga nos dedos e um grito incerto no olhar. Não sabem porque gritam, ou porque lhes apetece gritar. Agitam os cabelos quem os tem, fumam seus cigarros os viciosos, deambulam todos, perdidos. Aquelas cabeças dançam, abandonam-se a incertezas – sem receios, podemos notar, mas ainda assim apreensivos com a escuridão certa e irrefutável. 

Nas palavras que ainda saem de mim há também mulheres bonitas, dessas que seduzem apenas pela forma e com o gesto singelo da sua feminilidade. Navegam no mesmo tampo. Viajam no mesmo corredor. Vão também sem ninguém dentro 

(as mulheres? as palavras?) 

a sentir que a alma lhes pesa tanto quanto um acessório inútil dentro um bolso. Sorrio-lhes, com certa comiseração, e observo-as a desperdiçar o ânimo para dentro desse escuro. Respondem ao sorriso como se mais nada, mas, mesmo assim, indiferentes a uma possível tábua de salvação. 

Já não se carrega a humanidade na carne. Teme-se o amor. Todos nós o tememos, pressentindo a aflição de o perder. Já não suspiras, ou é o acto final que te deixa a desmaiar. São as pálpebras na procura da vigília conciliadora. Se me vier o sono, será norte ou será morte. Porém, das janelas, ainda persiste a tal luz angular. Questiono sobre esta demência disfarçada de entorpecimento, se hoje foi um sol tão raro. 

Perdi a parábola, era suposto falar-te e nada soube dizer. O que pode ser dito do indizível? Soltam-se as palavras do alinhamento da escrita e perdem-se entre os cantos, na subida das paredes, amedrontadas se há vibração no chão. Como bichos que rastejam. Contemplam o bailado da poeira no vértice da luz desviada e aspiram, alucinadas, ao mesmo protagonismo, furiosas, desequilibradas, tão humanas. O teu corpo dorme. O meu insone. Levo os dedos aos meus lábios, recordando que tinhas vindo para os beijar. Houve faúlha, chama e hulha quente, agora apenas cinza. 

Os dias sempre foram muito bem contados, não podemos distrair-nos. As madrugadas serão sempre imensas, quando dormes. Mesmo que haja dia, mesmo que a noite dite o fogo. Teria graça poder contar-te como foi. Quando me vires, porém, já serão as papoilas sobre a minha campa.


22 de abril de 2018

em cama fria

Kültür Tava



Queria a calma manhã para escrever-te o chilreio das aves pequenas ou o recolher ainda ululante das rapinas nocturnas. Dar-te o acordar do céu envolvido no mesmo halo dos teus olhos. No prado, o balanço e o friso dos fetos que se espalham, e a fauce das flores na descoberta das suas corolas. 

Queria o teu sorriso e as tuas mãos brancas assegurando que o mundo é afinal e ainda o melhor sítio para tomar a vida. A ondulação de oiro do teu cabelo num abraço para lá do todo. 

Queria os nossos gestos na vez dos fonemas ou, se necessariamente com palavras, um andamento lexical sem indicar por quais caminhos seguir ou influir sobre a nossa condição futura – apenas as dos sons chegados à terra intercalados com os assobios matutinos dos melros. 

Queria a brisa amena sustentando o voo das borboletas brancas, o aroma denso do tojo por contemplação da magnificência das montanhas desmaiadas de amarelo no horizonte. 

E queria o brilho do sol e a sua macia temperatura primaveril em auxílio do sangue que me percorre as veias. 

Tudo tão rebuscado, uma tontaria tão adjectiva, dirás. Eu sei: ao despertar percebi, sob a pressão do peito e na subida angular das lágrimas, que o meu corpo se havia resignado em cama fria.


23 de março de 2018

dizer silêncio

Jordi, via Kültür Tava


Dizer silêncio é ouvir a distância chorar.

A noite é um corpo húmido e túrgido
afecto de distâncias e rubores,
quebranto dos meus lábios que entumecem
no calor dos afagos.

Chove numa lassidão queda
num murmúrio sereno de vegetação,
as sombras são vultos feitos de água,
fervem as minhas veias clamando o sono quieto do corpo;

e num torpor
a minha pele que sacode as gotículas da pequena chuva
sussurra sibilante na delícia do toque de veludo
da madrugada,

rendido que estou ao pranto da distância que se diz
silêncio.

20 de janeiro de 2018

primeira carícia


Elliott Erwitt / Magnum fotos via Fotograficamente

Quero ser a cor dos teus dias. Acredita que consigo resgatar o teu sorriso ainda que nesta tarde tolhida por nuvens pesadas tenhas receio de olhar para além do cinzento, da parda solidão.

Basta que entreabras os lábios. Devagarinho como uma primeira carícia. Aos poucos é como que o sol a despontar. O teu sorriso brilha, Anna, enverdece os prados, aquece a semente. Acalma as marés. Como se viesses desses países distantes e encantados a dar boas novas ao mundo.

Quando sorris o teu olhar enternece. Comove-me no seu mistério, na cândida maneira de seduzir. Tens o amor dentro de ti como nascente de água a borbulhar por conhecer a terra e abrir sulcos profundos no solo.

Deixa-me ser o teu leito. Deixa que os meus dedos te conduzam como vento.

Vou estar aqui, entretanto, a velar o teu silêncio. E quando enfim abrires a janela, a primeira brisa que sentires no rosto será o beijo que os meus lábios, irrequietos, guardaram para te dar os bons dias e convidar-te


- Vens comigo?