21 de junho de 2018

manifestação



Ontem toquei-me no banho
por me lembrar do teu lascivo apelo
à paz:

foi tudo certo, ergui o mastro
para desfraldar a imensa e alva
bandeira,

o punho cerrado e pulsante
por essa tão nobre causa,
mantras

para o equilíbrio dos interesses,
e a essa vontade de um cessar fogo
da carne,

lembrei o teu os nossos gritos de ordem
roucamente libertadores da tua nossa
aflita voz,

e achei-me, no final, tão realizado, ou mesmo
feliz por desta luta saber-me eu e tu cansados
vencedores.

19 de junho de 2018

justaposição



antes da lógica, mandam que o coração
seja palco geocêntrico, enquanto a silva voz,
num grito,
repudia as leis da física;
e falam-nos, com ar de incorruptível alegria,
de uma praça verde, planície até ao solstício,
como se os mares fossem declives
onde só o inferno possa ser chão,
enquanto o firmamento pétalas
de flores sem fim.

vamos lá a ver:
nada fulge como parece, e acidente
é o terreno, se vos
enganam os sentidos,
pois que no crepúsculo do dia ou na efémera estação
estais lá vós e, no firmamento,
afinal,
reina heliocentricamente a
razão.


10 de junho de 2018

escrever liberta



para a Fátima Matos

- Escrever liberta.
- Liberta o quê?
- O que te vem da alma, minha querida, tudo o que te vem da alma.
- Então muita coisa, e do coração ainda mais…
- Do coração, da alma, até do corpo – somos disso feitos.

Planta o teu sorriso, e escreve: de que é feita a terra e a sua cor. Quando é lama e pó, e as criaturas que a habitam. Das tuas unhas nela entranhadas. 

Solta o teu cabelo, e escreve: sobre o que faz soprar o vento, medonho no inverno e como uma carícia quando uma brisa no verão. Da forma como agita o mundo e ainda te faz secar as lágrimas que te lavam o rosto de amarguras ou solenes alegrias.

Esmera-te a regar as raízes, e escreve: como foi que o teu sorriso afinal medrou. Por que são tão importantes as chuvas conciliadoras ainda que seja o sol que desejes, a lamber-te a pele. Escreve sobre a planície do trigo, a forjar o pão. Por que há noite e dia, e aquela hora pequena entre a madrugada e a aurora a incentivar as flores e as copas das árvores altas, murmurando.

Abre as tuas mãos para receberes o fruto, e escreve: o que faz a carne, por que se desfaz a polpa. O que faz pulsar o sangue, e a cor leitosa do sémen. Se foram em vão ou não todos os teus sacrifícios, bem como as dores que o mundo tem. Escreve sobre o doce e também sobre o salgado. A textura da língua, e a saliva alheia que lhe sacia a sede.

Assiste da forma como se rende a tarde como virgem em furor, e escreve: de que é feita a luz e qual a razão de ser assim eterna. Como é que, sendo nós dessa condição da terra que é lama e pó, nos transformamos num brilho permanente aspirando com a morte o seguro firmamento do céu quando desce a noite.

Nessa altura, minha querida, ao repousares sentada e encostada ao tronco da árvore, a abraçar brisas de verão sob a sua sombra, lembra-te de escrever, a essa mesma árvore que te acolherá, sobre a razão de ser ela tão livre para que a natureza lhe conceda esse milagre de nos dar o seu fruto.


1 de junho de 2018

acto final

foto por Milos Korecek, via Alternatif Fotoğraf Topluluğu.


Temei mais nada, ó cães danados e feros, se a caravana já vai tão longe e tolhida de susto que do seu rastro não há-de formar-se qualquer memória! A soma dos equívocos é um pretérito de assombro, e a periferia apenas um esboço para quem tem fé num destino arquitectado. Se, ainda assim, vos atrai o abismo, saltai precipício abaixo como a vara a que o secular mestre condenou. Não tenho vocação para santuário dos infelizes e atormentados – não fosse eu, de maxilar espumoso e brilho nos caninos, esta besta inquieta entre as trevas! Sossegai, veias dilatadas, que o monstro foi solto em parte incerta e amaldiçoado; não terá mais regresso! Sustém-te, ó músculo vicioso das paixões, dos embustes, das profecias, das tragédias! O teu lugar é agora uma cadeira onde poderás assistir ao desfile perecível de toda a efemeridade – tem-te e não caias, resigna-te a bombear a vida e sê profano de toda a esperança! Também vós, ó vistosas e impacientes fêmeas, recolhei o facho entre as pernas, deixai que o vosso corpo recupere da ofegante e arfada jornada, ide deitar as tardes a dormir, num incêndio apaziguador que vos reconcilie a noite com o cio adiado! 

Uiva agora, ó sublime alma, que as valquírias sonegam Odin já senil e desprezam Freia, essa cadela perdida da sua demanda! Esquece o cálice por onde bebeste o vinho inquinado na esperança de promissoras auroras e horizontes de esplendor. Alimenta-te agora das sobras caprinas vagantes entre as pedras estéreis, nas sobranceiras colinas, nos angulares declives e precipícios. Tem força nas patas traseiras, ó alma que cursiva teimas; eleva o grito, sobrevive! 

Eu quedo-me de cócoras, sobre o limo, tão sujeito ao apelo da cobrição da terra por derradeira fecundação! Sirvo o ventre aos vermes, os olhos à secura do vento suão, as mãos à raiz do pó. De nariz apontado e triangular sob o céu que parece descer em trovões de riso e escarninho, devolvo o peito às rapinas ociosas e sem vocação de predação. No final, a morte será apenas signo de insolência. Pequena árvore de sujeição, onde futuros traidores terminarão sob os seus ramos a desejar piamente que as negras nuvens os levem para delírios azuis.



19 de maio de 2018

do maio fecundo


Anybal Bastos photography | modelo: Ana Brito Silva


para a Fernanda



O rio dourado sempre meu confidente soube desse dia de maio em que as aves anunciaram que a cor do amor é azul. Maio criador, fecundo e maduro com as searas ainda jovens, jus à pele adocicada dos teus braços alvos com o sol predicado nos teus cabelos. Inaugurando as brisas de verão a lamber-me o rosto.

Conheci a pele de pêssego no teu peito, o perfume da giesta no teu pescoço, e o sabor da amêndoa no teu olhar.

Tudo tão inicial, como qualquer alvorada, em que pude perceber a geometria dos jardins, pegando na tua mão. Se tremias, eram os abalos em meu peito; se sorrias, era o fulgor do ouro sobre o meu corpo.

E o beijo, como cavalo selvagem à solta, faminto do feno.

Foi quando nasceram os poemas, tão puros e virgens, esse maio feliz. Nós ainda meninos, com a esperança de abarcar o mundo. A eterna juventude da qual afinal nunca parti e onde consigo sempre ouvir a tua voz.

Não será apenas memória ou cadente nostalgia. Estará no sangue de que sou, no entendimento que tenho do mundo e das mulheres.

Não foi, nem será: é a nossa sexta-feira azul.



13 de maio de 2018

queria escrever como faço amor

Robert Duval, via Photographize



Queria escrever um poema
como sei fazer amor, e eu
só sei fazer amor
– não digas
   não digas que não sabes
o que escrevo, ou que não entendes
o que escrevo
pois se
o que escrevo
é tudo e por amor, e é amor
tudo o quanto quero que sintas.


6 de maio de 2018

prelúdio


Kültür Tava


Suspiras como uma sinfonia e estas paredes confidentes do teu corpo. Por capricho, maldade ingénua, ou simples amuo momentâneo, o vidro da janela sustém o fulgor da claridade plena e desvia-te a luz da tarde para um ângulo isolado do quarto onde as partículas do pó se ferem por algum protagonismo. 

Dizes que escrevo inseguro, que é uma pueril falta de confiança, mas logo percebes a oscilação do tampo da mesa onde tenteio, só e incapaz de manter o rumo do navio na previsão de uma tempestade. Tudo se move contra vontade – não sentes? –, essa desconfortável vibração como se o mundo fosse ruir e já antes de nós o susto das aves na sua revoada de espanto, fugindo. 

Não temos cidade, escaparam-se-nos as copas das árvores, e quando sopra uma brisa é um hálito tão temeroso que acabamos duvidando do sentido desta existência. Dos suspiros vem-te a ideia de uma demanda, mas não sou anjo nem cavaleiro, não vim para dar salvação, e estarei sempre numa partida inglória. As minhas palavras não produzem, apenas espigam como o joio. Seguem de igual forma temerosas, num veículo que oscila, desmedido da força da corrente, inconsciente da velocidade. 

Hás-de reparar nos semblantes de quem viaja no regresso a casa com a fadiga nos dedos e um grito incerto no olhar. Não sabem porque gritam, ou porque lhes apetece gritar. Agitam os cabelos quem os tem, fumam seus cigarros os viciosos, deambulam todos, perdidos. Aquelas cabeças dançam, abandonam-se a incertezas – sem receios, podemos notar, mas ainda assim apreensivos com a escuridão certa e irrefutável. 

Nas palavras que ainda saem de mim há também mulheres bonitas, dessas que seduzem apenas pela forma e com o gesto singelo da sua feminilidade. Navegam no mesmo tampo. Viajam no mesmo corredor. Vão também sem ninguém dentro 

(as mulheres? as palavras?) 

a sentir que a alma lhes pesa tanto quanto um acessório inútil dentro um bolso. Sorrio-lhes, com certa comiseração, e observo-as a desperdiçar o ânimo para dentro desse escuro. Respondem ao sorriso como se mais nada, mas, mesmo assim, indiferentes a uma possível tábua de salvação. 

Já não se carrega a humanidade na carne. Teme-se o amor. Todos nós o tememos, pressentindo a aflição de o perder. Já não suspiras, ou é o acto final que te deixa a desmaiar. São as pálpebras na procura da vigília conciliadora. Se me vier o sono, será norte ou será morte. Porém, das janelas, ainda persiste a tal luz angular. Questiono sobre esta demência disfarçada de entorpecimento, se hoje foi um sol tão raro. 

Perdi a parábola, era suposto falar-te e nada soube dizer. O que pode ser dito do indizível? Soltam-se as palavras do alinhamento da escrita e perdem-se entre os cantos, na subida das paredes, amedrontadas se há vibração no chão. Como bichos que rastejam. Contemplam o bailado da poeira no vértice da luz desviada e aspiram, alucinadas, ao mesmo protagonismo, furiosas, desequilibradas, tão humanas. O teu corpo dorme. O meu insone. Levo os dedos aos meus lábios, recordando que tinhas vindo para os beijar. Houve faúlha, chama e hulha quente, agora apenas cinza. 

Os dias sempre foram muito bem contados, não podemos distrair-nos. As madrugadas serão sempre imensas, quando dormes. Mesmo que haja dia, mesmo que a noite dite o fogo. Teria graça poder contar-te como foi. Quando me vires, porém, já serão as papoilas sobre a minha campa.


22 de abril de 2018

em cama fria

Kültür Tava



Queria a calma manhã para escrever-te o chilreio das aves pequenas ou o recolher ainda ululante das rapinas nocturnas. Dar-te o acordar do céu envolvido no mesmo halo dos teus olhos. No prado, o balanço e o friso dos fetos que se espalham, e a fauce das flores na descoberta das suas corolas. 

Queria o teu sorriso e as tuas mãos brancas assegurando que o mundo é afinal e ainda o melhor sítio para tomar a vida. A ondulação de oiro do teu cabelo num abraço para lá do todo. 

Queria os nossos gestos na vez dos fonemas ou, se necessariamente com palavras, um andamento lexical sem indicar por quais caminhos seguir ou influir sobre a nossa condição futura – apenas as dos sons chegados à terra intercalados com os assobios matutinos dos melros. 

Queria a brisa amena sustentando o voo das borboletas brancas, o aroma denso do tojo por contemplação da magnificência das montanhas desmaiadas de amarelo no horizonte. 

E queria o brilho do sol e a sua macia temperatura primaveril em auxílio do sangue que me percorre as veias. 

Tudo tão rebuscado, uma tontaria tão adjectiva, dirás. Eu sei: ao despertar percebi, sob a pressão do peito e na subida angular das lágrimas, que o meu corpo se havia resignado em cama fria.


23 de março de 2018

dizer silêncio

Jordi, via Kültür Tava


Dizer silêncio é ouvir a distância chorar.

A noite é um corpo húmido e túrgido
afecto de distâncias e rubores,
quebranto dos meus lábios que entumecem
no calor dos afagos.

Chove numa lassidão queda
num murmúrio sereno de vegetação,
as sombras são vultos feitos de água,
fervem as minhas veias clamando o sono quieto do corpo;

e num torpor
a minha pele que sacode as gotículas da pequena chuva
sussurra sibilante na delícia do toque de veludo
da madrugada,

rendido que estou ao pranto da distância que se diz
silêncio.

20 de janeiro de 2018

primeira carícia


Elliott Erwitt / Magnum fotos via Fotograficamente

Quero ser a cor dos teus dias. Acredita que consigo resgatar o teu sorriso ainda que nesta tarde tolhida por nuvens pesadas tenhas receio de olhar para além do cinzento, da parda solidão.

Basta que entreabras os lábios. Devagarinho como uma primeira carícia. Aos poucos é como que o sol a despontar. O teu sorriso brilha, Anna, enverdece os prados, aquece a semente. Acalma as marés. Como se viesses desses países distantes e encantados a dar boas novas ao mundo.

Quando sorris o teu olhar enternece. Comove-me no seu mistério, na cândida maneira de seduzir. Tens o amor dentro de ti como nascente de água a borbulhar por conhecer a terra e abrir sulcos profundos no solo.

Deixa-me ser o teu leito. Deixa que os meus dedos te conduzam como vento.

Vou estar aqui, entretanto, a velar o teu silêncio. E quando enfim abrires a janela, a primeira brisa que sentires no rosto será o beijo que os meus lábios, irrequietos, guardaram para te dar os bons dias e convidar-te


- Vens comigo?


15 de janeiro de 2018

poema do encontro

via Borboleta Rubi


Enovelo-me no teu abraço e o mundo perde-se, extinguem-se as estações do ano, faz sol quando chove, ardo em calor se são de neve a chuva e o vento, abrem-se jardins entre o betão da cidade, todas as pessoas são felizes ainda que carreguem semblantes pesados.

No teu colo regresso à infância, sem conhecer viva alma de má fé, és o meu escudo protector, o paredão contra o mar irado, a duna que me protege do vento norte.

Cada beijo teu uma flor aberta, as tuas carícias as plumas das aves pequenas. Sou em ti, perpetuado sem idade, inaugurando o mundo a cada suspiro do teu peito.

E quando mergulho no azul do teu olhar não há penumbra, porque os teus olhos brilham como candeias, ou é todo o céu estrelado nas noites frias do norte, a guiar-me a caminhada.

Sou pobre sem ti. Não tenho nome na tua ausência. 

A fome. O teu segredo. Os teus cabelos como tempestade de ouro sobre a almofada.

A canção.

Beber do teu peito a claridade da manhã.

Eu em ti. As minhas lágrimas por ti. O meu corpo por ti. O meu sangue por ti. Encontro-te: quero-te. Não sei o que fazer se tu não estás.

30 de dezembro de 2017

ver morrer

Kültür Tava

Serve-me no rosto a gota de sal e esquece a taciturna nuvem enovelando a tarde. Cada segundo um tambor do tempo em meu peito como um cavalo galopando pradaria fora. A chuva serve de mortalha ao ano que se finda e nós sem um gesto comiserativo, ou qualquer ansiedade para lhe velar o corpo, preocupados com a ignomínia dos pagãos.

Ver morrer não é signo de passagem. Ficamos quedos no passado, a indagar as razões dos nossos fracassos, ofendidos com esta pressa que o tempo tem de se ultrapassar, sem hesitar sobre os actos, sobre as cruzes, sobre as lágrimas de quem está aquém e não sabe o norte do futuro.

Eu e tu não provaremos deste ou de outro amanhã. Temos vindo a tactear o mundo com os olhos muito abertos na alfena escuridão e não sabemos onde estão os nossos corpos para repousar. Temos as mãos unidas para mais rápido nos afastarmos com medo. Temos os lábios em comunhão para céleres se ferirem de sangue. Ouvimos o murmúrio de uma canção mais longe mas é o silêncio que entre nós cresce. Temos a voz rouca de tanto gritar no vazio.

Serve-me o sal numa gota do teu abraço. Entro profundamente no céu dos teus olhos e são as brisas de maio, o trigo de julho na cama dos teus cabelos, o humor da terra de outubro no teu baixo ventre. Motes de uma fábula por inventar que já não sei escrever. Nada se inaugura. Levamos os livros velhos, a tinta desbotada, toda a vida já contada e sem outros planos que o caminho sobre a argila vermelha de um sul estéril.

Vai descer a noite e o novelo da chuva não se precipitou. Está nos céus em anseios de virgem. E o tempo é um touro marrando com cio. Vai preparar-te. O esquisso do que quisemos que fôssemos será diluído quando a chuva chorar de espanto ao sentir-se possuída pela virilidade do tempo que lhe semeará no ventre o alicerce do ano que já não vamos poder ver nascer.

Serve-me dessa morte no sal de uma gota que deixaste por mim.

24 de dezembro de 2017

segunda-feira

Andrea Kiss - www.facebook.com/andreakissartist

Ninguém sabe. Só eu a sinto. E senti-la é não saber exactamente quem sou, como sou, e o porquê. Não o porquê da minha existência, mas o porquê do meu sofrimento. O porquê de me sentir assim, sem nada para que possa apontar

– Sinto-me doente

e no entanto é assim que me sinto, doente, mas do quê, não sei. Creio que tudo terá começado naquela nefasta segunda-feira, como todas as segundas-feiras são nefastas, as pessoas abrem a boca de tédio e suspiram

– Amanhã é segunda-feira

como se a segunda-feira fosse o dia do suplício. Mergulham nos seus sofás coçados pela tarde mole e sonolenta de domingo, perdidos no vazio dos ridículos programas de televisão, ou dos filmes de segunda categoria repetidos ciclicamente, intervalados por enxurradas de publicidade, fazendo-os sonhar com ideias fúteis. E esperam como répteis que as horas concretizem a segunda-feira, a nova semana de lavores e irritações que se inicia.

Não foi isso, ou não foi por isso, que em mim tudo começou, naquela nefasta segunda-feira de Outubro. Foi a dor que não senti, da perda do meu pai, expirando eram duas da tarde o seu último sopro de vida, preso aos lençóis da cama lavada de fresco, entubado pelo nariz e enfraldado como os bebés. Para ele não havia razões para afirmar

– Sinto-me doente

pois nele tudo era visível, o soro, as aberturas no abdómen para escoar os líquidos que não retinha, a algália… o peito magro revelando as costelas, e o batimento cardíaco cada vez mais acelerado à medida que as injecções de morfina iam sendo aumentadas, para que se não prolongasse o seu sofrimento. Foram os intestinos, rebeldes, que o mataram, desfaziam-se como o papel de um guardanapo humedecido, eram enfim bocados do intestino desfeito que lhe saíam pelos drenos feitos na barriga. Eu não sabia ou não queria compreender como uma doença pode acabar repentinamente com uma vida num espaço de meses. Julguei que apenas dizendo

– Sinto-me doente

se pudesse recorrer aos médicos, aos hospitais, aos cirurgiões que dizem esforçar-se para fazer terríveis milagres quando os doentes entram, terminais, divagando

– Só se lembram de santa bárbara quando troveja

como se a questão da vida fosse uma possibilidade climática qualquer acometida pelas forças sobrenaturais. Afinal não basta anunciar-nos doentes para que possamos ser salvos, quer pelas mezinhas da avó, quer pelas curas milagrosas e esforçadas da ciência médica…
Não chorei em qualquer altura do acto fúnebre, nem antes, nem depois, estivesse só ou acompanhada, ao passo que outros familiares, a maior parte deles nem sequer muito chegados, tias irmãs do meu pai que socorriam ao cadáver, histéricas aos berros,

– Eras o mais novo e foste o primeiro a partir

familiares que nem uma única visita lhe fizeram no hospital, ou em casa enquanto o meu pai aguardava que o seu último suspiro o levasse para lá da hipocrisia terrena.

Foi assim durante muito tempo, durante anos, sofria calada para mim mesma, não querendo aceitar que a morte me tivesse afectado, desprezava-a tanto que nunca acreditei nela, apenas sentia a dor da saudade física do meu pai, da sua voz, e tentava convencer-me que nunca mais o veria, como se tivesse empreendido uma viagem longa e interminável.

Outras coisas se foram passando comigo, agruras da vida, mas nada de especial, nenhuma desgraça, nenhuma dificuldade de maior, para uma rapariga que acabava de sair da adolescência órfã de pai e com uma mãe que se encolerizava com tudo e todos, como se tudo e todos tivessem culpa da morte que os intestinos do meu pai lhe deram.

Foram desilusões, que todas as pessoas normais têm, ao longo da sua vida, sem que por isso tivessem de alertar,

– Sinto-me doente

a vida empurra-nos para a frente, seja qual for a qualidade do caminho, é sempre em frente que caminhamos, sem termos tempo para olhar para trás e refazer alguma coisa que devia ter sido feita; o mundo corre e nós corremos com ele, e quando nos lembramos

– Só se lembram de santa bárbara quando troveja

o sangue pica-nos nos olhos e bate-nos nas têmporas, a alertar, devias ter feito isto, esqueceste-te daquilo. Nunca emendamos as coisas más que passam por nós e nos fazem desviar do caminho menos acidentado. Foi isso que me foi acontecendo, desde que o meu pai morreu, desde que o Luís me deixou para se dedicar aos estudos na Alemanha e ter aparecido cinco anos mais tarde, casado com um fulana alta, branca e esguia, segurando pela mão um rapazito franzino com a mesma tez e um cabelo branco que me lembro de ver nas gravuras dos contos infantis, com os traços latinos do meu ex-namorado, que, como vim a saber pouco tempo depois, nunca fora para a Alemanha estudar, mas sim trabalhar levando consigo a esguia mulher que já trazia no ventre a semente da sua então traição ao amor que me jurara.

Empreguei-me numa loja de pronto-a-vestir, certificada por uma marca multinacional, e que me fez perder lentamente o sonho de um dia me licenciar em gestão empresarial, pois o meu sonho era ter uma empresa minha, enriquecer, tomar o poder, e talvez a minha sede de começar a trabalhar fosse por isso, embora a razão principal tivesse sido esquecer o Luís e não ter que aturar todo o dia as tempestivas pragas da minha mãe contra o mundo, pendurada ela num domingo eterno, no sofá roçado lá de casa, sem razão para suspirar

– Amanhã é segunda-feira

porque para ela todos os dias eram fatídicos, todos os dias ela travava a sua luta feroz contra os seus moinhos, capaz de envergonhar qualquer dom Quixote…

Foi nesse emprego que conheci o Álvaro, gerente da loja, que engraçou comigo desde o primeiro dia, e me bajulava com almoços e jantares no shopping, entre fatias de pizza e hambúrgueres indigestos. Deixei-me levar pela conversa dele, como se o amor fosse um produto de venda, e lá me convenceu a levar-me para a cama, onde me atirou com todos os seus ossos, de tão magro que era, e tão desajeitado. Foi uma noite inesquecível, os ossos embrulhando-se no meu corpo que ele não parava de elogiar, e naquela confusão contundente em que o esqueleto dele me triturava o corpo de dores, e sem sentir algum prazer, creio ter chorado pela primeira vez desde que o meu pai partira da cama para debaixo da terra, desde que o Luís fugiu para a Alemanha com uma família nova na bagagem, desde que a minha mãe explodiu de vez e teve se ser internada num hospital psiquiátrico agravada com uma trombose que lhe tolheu a língua praguejadora.

O Álvaro convencidíssimo que eram lágrimas de alegria, lágrimas pelo amor e pelo prazer que se convencia encher-me, mas nem sequer o seu membro sumido, como se de um outro osso se tratasse, me enchia o espaço abandonado e dorido do meu colo, de modo que, talvez por pena, de mim ou dele, já nem sei bem, acabei por concordar com ele, que era o amor da minha vida e mais feliz eu não podia sentir-me.

Apenas um ano bastou para que eu deixasse de me preocupar com a canseira de todas as segundas-feiras fatídicas das gentes que trabalham, a loja não dava os lucros orçados pela empresa e fechou, ficando eu sem emprego, e o monte de ossos de malas aviadas para a capital, aceitando a gerência de uma loja que entretanto abrira, com promessas de cartas, telefonemas e de visitas… que nunca se concretizaram.

Seis meses passaram onde pelo meio aconteceu a morte da minha mãe que, para ser sincera, não me lembro como foi, porque foi e quando foi. Seria talvez motivo de me sentir desamparada de todo, mas não o senti, a minha vontade era fugir para longe, tentar ser eu outra vez num outro lugar qualquer, livrar-me da vergonha do que tinha sido até então.

Consegui novo emprego num escritório de advogados, e no meio da barafunda de processos, polícias e ladrões me tenho aguentado. No entanto, nada em mim mudou. Continuo a sentir a dor dos ossos do Álvaro, a ausência fria do Luís, atordoada com as tempestades levantadas pela minha mãe, mesmo depois de morta e enterrada há dois anos.

Sinto-me assim, e ninguém sabe. Alguém balbuciou certa vez a palavra depressão, mas quis rir-me, e não me convenci. É uma dor, que não sei de onde vem, talvez sejam os intestinos a invadir-me o cérebro, convencidos que se desfazem como papel húmido, talvez sinta a necessidade de visitar o frio da Alemanha e levar pela mão as feições latinas do Luís na tez branca e russa de um rapazito, ou ainda talvez seja algum osso do Álvaro que ele tenha deixado dentro de mim como recordação. Mas doença não é, não sei de onde vem, senão prostrava-me frente à televisão de domingo, no sofá já rasgado de tanta canseira, à espera que a segunda-feira nasça no relógio e eu esclareça a quem me possa ouvir

– Sinto-me doente.

*

[recuperado de um texto escrito em Outubro de 2004]