9 de dezembro de 2017

nós


Sandra Geinsweid

Por favor não te enfades por insistir desta forma. Tens que acreditar na possibilidade entre nós, e digo nós porque a palavra parece que se impõe, podia dizer eu e tu, mas não, é nós que aparece, eu a tentar corrigir e o teclado obstinado num tom meio amuado, não me deixa traçar as letras do eu e tu, quer apenas nós, quer-nos.

Olho pela janela e o crepúsculo volátil gira, atordoando-me, concede-me pausas de meros minutos, e recomeça, mansinho e cada vez mais denso, dando espaço a que as sombras se amontoem entre livros, papeis, revistas. Muitas canetas, esferográficas, lápis, e um bloco de folhas em branco onde exercito uma arte de que duvido possuir, todo aflito com maneirismos e floreados e, afinal, vê lá tu, as palavras encarreiram-se tão bem perfiladas num estilo tão próprio delas, como se dissessem

- Quem manda aqui somos nós

e depois já não há aflições nem medos, apenas deixar rolar a arquitectura da escrita que parece ganhar corpo próprio; ponho o selo do meu nome por baixo, quase como que por favor, e já está. As pessoas entusiasmadas lendo aquilo que não fui eu que quis assim, as pessoas

- Escreves tão bem

e eu encolhendo os ombros, aflito também por nada mais saber dizer do que um obrigado espantado e tímido.

Talvez por não mandar nestas insinuantes palavras que me assaltam das mãos ao teclado, desrespeitando vontades e contrariando que as conduza, talvez porque as palavras formam um corpo fora de mim, e insistem abrir a minha boca onde não há voz, ou querer enxugar as lágrimas que me assomam aos olhos

- Não sejas mariquinhas

talvez por tudo isso eu não tenha dado fé, ou melhor - (lá estão elas, lá estão elas!) -, não tivesse sequer qualquer noção do quanto as mesmas baralham e transformam a leitura numa outra coisa que afasta os outros do que eu queria realmente dizer

(tantas vezes!).

Não são desculpas, querida, são elas que assim se impõem, e nem calculas o quanto cruéis são comigo

- Quem manda aqui somos nós mariquinhas

Obrigam-me a escrever entre silêncios, para que haja espaço para as leituras tortuosas, entrelinhas traiçoeiras, e depois ficam - parvas de merda! - a olhar-me com a meiguice de um cachorro desamparado. Não lhes resisto, não sei resistir-lhes, acolho-as no meu colo e deito-me com elas, amantes todas, amantes lascivas que nem nos sonhos me deixam sossegado.

O céu embrulhou-se completamente, e este escritório é uma mancha parda na janela para quem gosta de espreitar intimidades alheias. A meio surge o meu semblante mergulhado na claridade do monitor, os lábios finos, quase austeros, e o olhar raiado de cansaço. Este sou eu, o eu vulnerável que eu e t…

… que nós andamos a debater durante este tempo todo. Este que não conheces e o mais fácil de entender. O mais simples. A olhar de soslaio, borrado de vergonha, o teu ombro tão apelativo.

Queria-te aqui, para contemplar o nó dos teus dedos e compreender por que diabo as palavras

- Cala-te para aí mariquinhas

insistem que tu e eu nada, nós é que deve ser, sem nódoas, sem pedras. Só nós. Podemos tentar outra vez, estava a ser bonito e a fazer-me bem.

9 de dezembro de 2016

não!



Quem és tu, que me assombras as noites e me inventas os sonhos

(por piedade, deixa que seja eu a comandar os sonhos que tenho)

tu que me atordoas o despertar e me fazes viver o dia como se já não existisse amanhã e quaisquer esperanças de mudar, e de tudo o que vivo me pareça sombras de parede, de muros intransponíveis? Esses muros que, ciclicamente, destruo e construo, consoante o humor do sol?

Porque me fazes isto? Ou que te fiz eu, quais foram os muros que te ergui, se declamavas a tua felicidade reinventada? Diz-me que muros foram esses onde te encurralei para que me persigas tanto como se os meus dias e as minhas noites fossem

(ou sejam)

diacrónicos labirintos onde não sei quando

(ou em que lugar)

colocar o verbo ser? Ser eu: porque não sei já ser eu?

Porque não te arrancas de mim, tubérculo que sugas de mim o húmus para cumprires a tua seiva? Por quantos demónios teimas em ser uma doença?

Porquê eu, ou porquê tu e eu? Se nem sequer para o engenho da escrita me serves, e me enjeitas os rios e as ninfas, o luar e a música? Porque me queres só para ti, para esse sofrimento cardíaco e míope, para uma fatal síncope?

Quero-te longe, como Abril deseja a distância inequívoca de Dezembro; como os morangos e os amores-perfeitos receiam as geadas fora de estação; como o nardo da giesta se insurge contra a intempérie das chuvas de Maio!

Da mesma autoridade com que os cabeções dos sacerdotes cristãos impugnam as culpas do mundo ao impuro Satanás e sua fétida legião de demónios, assim eu te esconjuro para longe, 

(ao mar coalhado!)

para que me salve e possa lavar corpo e alma de tamanha imundície…

Forçarei, ainda que com as já parcas e fracas vontades das minhas carnes

(ó condição humana!),

contra o teu agrilhoamento. És apenas uma noite de Inverno, adjectiva, de era uma vez. Sai-te, desconsolo, e deixa que abra o meu caminho.

1 de outubro de 2016

mistério da fé

ou: um poema para a Marlene



Deus é o útero. Conceição.
Ubiquidade da condição
humana.
Se fores a ver Deus,
dá-Lhe um abraço meu;
se Lhe falares,
diz-Lhe que existo.
Tudo o resto
 – que nos pregam –
são anseios.

(ou talvez o horizonte
detido
em cada um dos
 umbigos)

Não seremos ovelhas.
Antes propensos
aos erros humanos
que seguir a santa
procrastinação.
Se somos Suas criaturas
Deus é o útero
de onde viemos
a insinuar o coração.


28 de março de 2015

eu sou quando tu és


Janina Steiner, fotografia de Silvana Madamski


Tu és o meu despertar,
primavera feita em palavras
no bolhão pueril dos teus lábios
inconstantes de sono e repouso.
O primeiro e subtil acorde do dia
prometendo a semente germinada.
És tu a cor da papoila ainda tímida,
mas também o perfume do tojo
esquecido da ameaça dos seus espinhos.
O inocente abraço prometido
de sorrir sem razão, apenas
porque a presença, e o olhar.
Esse abraço aquecido, enquanto
os teus cabelos propõem brisas.
Tu és a tarde inaugurada,
chilreio das aves pequenas
anunciando um mundo simples
para viver.
És a minha sede saciada
em ribeiros também agora despertados
do parir da terra rebentada
em borbotões desmaiados.
O lavor de um beijo,
a minha lágrima rendida
às pétalas abertas pela ternura.
Tu és o crepúsculo paciente
quebrantando a manhã
feita em neblinas;
e no final da tarde
inquieto render apaixonado
de fruto e ardor.
És tu quem fez o mundo
onde me vejo Adão;
enquanto o resto,
feito de finitude e orfandade,
é um ligeiro devaneio do deus
que , por parceria contigo,
prolonga ser eu sem que
nada mais reste nem tão pouco

acresça significado.

21 de março de 2015

poema para a miúda com a chave

Janina Steiner, fotografiia de Laura Zalenga

dedicado a Ana Cristina Chaves

Onde está a graça?
Fecundada nos teus lábios murmurados
de mosto e álcool enquanto
a noite se avoluma rendida em corcel
alimentada à luz de ti

(por que a noite nascida em teus olhos
não conhece penumbra)

Dizem que é atitude de riso fácil,
que de tontarias vai sendo feito…
Dizem assim escarninhos

(os cegos – como eu e tantos )

aqueles que preferem
permanecer incrédulos dessa habilidade
de carpir uma alma tão limpa e clara
que faz tremer de inveja
os mais puros cristais
jazidos em profundezas de admirar

Onde é o humor?
Lascivo e cândido como quem leva
o próprio corpo
num altar celebrado por rebeldia
cuja sede e fome, sangue e carne
tão bem amplia
a força de quem sabe
como sobreviver

Ah!, e dizem conhecer-te o lema
para depois escarnecer
de tão embriagados que estão dessa outra
coisa qualquer que nem alimenta suspiros
nem espanta as sombras

Podia eu ser

(se não receasse a loucura 
e a inocência
e a espuma e o ar e todos
os raios que me partam)

o cavalo imponente que montarias
levando-te aos cumes do mundo
dando a conhecer-te em todas as
latitudes humanas

Podia ser eu sim
- se tivesse eu a mesma gana,
e essa graça,
e esse humor.

13 de dezembro de 2014

poema para a Rita, de um sábado de dezembro


Diz-me com que palavras fundamento a razão e digo amor,
tendo nos teus olhos qualquer hora da madrugada enquanto
o crepúsculo define agora as fronteiras com a jovem noite.
Eu seria acorde dedilhado pelos dedos lentos
que nas tuas mãos se havia de compor; e dos teus lábios uma melodia
havia de se ouvir, como que a instruir plateias.
Seria eu, serias tu, se fosse o mundo dos avessos, num de vez em quando
(ou num faz de conta)
que nos desligasse desta realidade que, por apartados estarmos, vivemos.
Bastava uma gota de sal, cumpridos os humores, a delicar-se entre o gin;
e uma meda dos teus cabelos
recebendo a paixão dos meus abraços.
A noite não seria sábado ou qualquer outro dia diagonal da semana,
nem madrugada de alfena escuridão.
Teria a voz tropical de Caetano, a dizer devagar a fervura do sangue.

Diz-me com que palavras, Rita, senão com que gestos
(mas em gestos lentos, isentos de qualquer tempo verbal),
poderei eu fundamentar a razão e dizer amor.
Pelo menos enquanto este mar de sábado não se finda

e tudo se esqueça, reafirmando a realidade que vivemos.

9 de agosto de 2014

uma palavra tua com flores

pintura de Zinaida Serebriakova

Apetece-me uma palavra tua com flores, aberta e convidativa sobre o teu peito. Não fales do coração, cedendo à lamúria dos amores, pois o que venho a ti pedir é somente o leito onde as carnes, por humanas, se cercam de afectos. Apetece-me a saliva e outra húmida polpa dos dedos, revezar a paciente sede dos lábios inquietos, que sangram como corpo de deus, de ausência e medos, e de toda essa incerteza de que são feitos os amantes.

Apetece-me uma simples palavra tua com flores, que não te demore, que nunca seja como fora antes: 
essa oração ingénua, beata, oferecendo as dores dos insatisfeitos desejos apenas por serem eles  flagrantes... Sim!, o que quero é uma palavra tua, aberta, e com muitas flores!

14 de dezembro de 2013

embalo



Nas vésperas, a chuva ditou sombras sobre a cidade. Porém, o sábado nascido devolveu-lhe a claridade fria e azul das manhãs solarengas de dezembro.

O vento ergeu-se a esvanecer a humidade das roupas no estendal e declarou oficialmente o óbito e o luto entre as árvores.

Foste alimentar os animais, arredar o musgo da cancela esconsa, e subiste rente o muro da hera para me acordar. Eu já te esperava de café num púcaro e com a chaminé de um cigarro, feito ritual de quem espanta o entorpecimento dos resquícios do sono.

Apetecia-me o verão... – foram os teus bom dias. Eu sorri com um nevoeiro de tabaco a encobrir-me o olhar trocista. A mim agrada-me o sol de dezembro, e a luz do outono, mas também as colinas desmaiadas de chuva miudinha. 

Entramos em casa. Preparei-te torradas com mel que foste debicando devagar. Continuava a ouvir-se o vento do lado de fora, obstinado a transformar as árvores em esqueletos pintados na paisagem, embandeirado na roupa que, entretanto e já o almoço havia sido levantado, secara no estendal.

Abraça-me, que o sábado vai terminando, arranjado pelas mesma horas dos outros dias em que quase esgotamos a ansiedade pelo fim de semana. Ao final de cada dia somos santos de exaustão, convencidos que, virando a sexta-feira, o tempo cristaliza. E afinal, é como o ditado: a vida são realmente dois dias e um já se está acabando.

Passa ligeiramente das cinco e meia da tarde e o crepúsculo está tão tímido. Dezembro não engana, espelha-se inconstante no céu a anunciar a sua irreverência climatérica. E apetece-me este pequeno final de tarde para me deixar dormir, embrulhado na manta da tua ternura, ritual de quem, depois de acordar, deseja sossegar a madrugada de lentidão enquanto o amor acontece.

Não digas nada. Aquece-te junto a mim, que no verão não temos este embalo.

25 de outubro de 2013

síndrome de bartleby versão 3

desenho de Leandro Lopes

The end of laughter and soft lies
The end of everything that dies
James Douglas Morrison

Não estou capaz de evadir-me para escrever. Passo avesso ao riso, ao pranto, à emoção, à apatia. Como em mim nada é. Se engenho tive um dia, ou se as palavras alguma vez me foram parentes, é absoluta a minha inadequação actual e a orfandade de que possivelmente já sou vítima há muito tempo

(ou desde sempre).

Sou obrigado a concordar com quem eu lhe seja indiferente, ou, remotamente, por motivo sórdido e sem exemplo, com quem sofra a culpa de uma pequena inveja do que já fui capaz: que não vale a pena consumir palavras se não são os actos que lhes fazem jus. Ficarei ridículo a dissertar substantivos sobre não-questões. E assim me quedo a poupar os pormenores quando o que poderia dizer não seria por maior importância.

Vou daqui mudo, a engavetar o pensamento num murmúrio quase inaudível de efemeridade.

Quando – ou se! – outros tempos chegarem, talvez que já nem seja uma esferográfica a discorrer. Provavelmente apenas ver-me-ei a mim mesmo lutando por sobreviver numa areia movediça, de cuja matéria não posso pois agora prever de que será feita

(imagino mas prefiro continuar-me calando).

Fecundo mediocridade e, nesse estado, ainda que fecundado, nenhum ovo alguma vez eclodirá.

Não venham acenar-me: não quero ver nem ouvir vossas bocas postas em “O”. Vou partir de costas voltadas, como se o 

(este)

mundo em nada

(ou alguma vez)

tivesse sido importante para mim.

29 de setembro de 2013

de ti ou de um qualquer outono como este final de setembro


O outono terá começado e as chuvas primeiras que caíram terão acariciado os milheirais e fustigado as pedras

(as florestas ardidas com o hálito criminoso de agosto).

O crepúsculo tem o som assobiado do melro colorido de nostalgia, as palavras correm a menor velocidade, e os tapetes de folhas estalam sob os pés dos mendigos.

O descanso de uma gaivota no pilar da ponte é uma estátua de brisa espelhada nas águas do rio. As sombras quando anoitece são esses gatos pardos que se perdem vagabundos no colo do pensamento.

Finda setembro e não dei pelos dias que correram. Tudo é matinal em mim quando vindo de ti; e se gosto desta chuva é porque apenas me lavam do rosto as fadigas que teimariam em ficar.

Porém, partir do verão sem ti é negar todo o ano. Não quero que setembro se esgoste sem um beijo meu sobre a manhã de ti. 

De ti, que resolves os humores com o cardinal da primavera como se não houvesse ano para celebrar e passar.

Não é minha vontade contrariar-te.

13 de agosto de 2013

até logo

foto gentilmente cedida por Inês Borges

para a Inês Borges

Sirvo-me do teu silêncio em suaves goles de vinho, enquanto permito que o teu olhar me invada com carícias de sombra. A noite instalou-se morna rendendo-se ao predicado do teu rosto. Eu escuto o seu sibilar, canção murmurada nas ruas, nos vãos dos prédios, na margem poluta do rio.

Encorajas-me de ombro nu, onde um beijo ilustraria esta vontade tímida de te ter. É, porém, o recorte de mistério nos teus olhos que me faz transpirar, denúncia da minha falta de táctica para te envolver.

Aprendo nesse entreabrir dos lábios como uma carícia te fará sorrir e que palavras te possam provocar. Sorves a noite no mesmo vagar com que esvazio o copo de vinho, e eu de beber aflito contando que os meus movimentos não me traiam, ou que qualquer distração te liberte dessa hipnótica tensão de enganar o tempo.

Atreve-te, argumentas. De fome nos lábios, mordido, aguento-me. As tuas palavras urdem formigueiros em mim sem que a voz se comova. Os meus dedos empolgados, quentes.

Acrescentam-se verbos e substantivos. Todas as canções. As belas epopeias. O primeiro abraço e enfim o encontro.

Vibram as horas uma duas três e tantas vezes numa qualquer torre sineira. A janela aberta para a aragem, os lençóis testemunhando o quanto desta entrega, que afinal o vinho desinibindo. Sobe a pequena luz da alvorada. No teu rosto adormecido ainda o mistério: não sei ao que vieste e o que fui em ti.

Sei que entraste com a madrugada no olhar. E agora saio eu com o sol na alma.

Até logo.

31 de julho de 2013

esta paixão segundo isto

foto de Alexander Sikov

Escusa-me deste sufoco de me sentir perdido no tempo, como se, de tonto ou doente, colocasse cabeça e boca à banda a tactear o ar num desespero de náufrago. Porque me desvias agora o olhar 

(tu que quando te procurava sempre sorrias aliviando-me o peso das minhas existenciais crises depressivas) 

e me deixas à mercê desta agonia que me sobe no sangue até ao nó da garganta, revoltando o peito em taquicardias, dando aso a que a ansiedade se liberte esparvoada esbardalhando-me os sentidos, o equilíbrio, e então o pânico generalizado orgânica e emocionalmente em tudo o que é em mim, galgando os pensamentos, rosnando-me aos movimentos…? 

Pedi-te que assim não fosse, que aceitasses sem razão as palavras confidentes sem qualquer contrição ou juízo de moral; mas como poderia eu exigir assim da tua vontade? Como posso pedir-te indiferença ao perigo de te deixares também ir sem a expectativa do regresso, a animar ilusões, mesmo que te sintas, à partida, imune e contrariada de tais acidentes emotivos? 

Vou deitar as tardes a dormir para mitigar a cabeça destas incertezas, dos medos, das angústias. Nunca durmo, porém. Deitar as tardes a dormir é um queixume velho meu, arvorado nem sei já em que poema antigo da juventude, e que simplesmente dará o mesmo resultado que o enterrar a avestruz a sua cabeça na areia. Isto é: que fujo, que me aguento cobarde e inerme. 

Engole toda a luz a noite caindo, e essa escuridão que se junta à negritude da alma resume as insónias acumuladas. Sirvo-me do sono apenas quando já o dia rompe vigoroso a despertar os vivos. Que é quando, da fadiga, após a secura da boca e da luta contra a tensão dos músculos e dos nervos, o corpo se rende, como que apanhado numa doença viral, febril, acometido de tremuras e demais convulsões. 

Podes tu tanto poupar-me a estes acometimentos ridículos de que sou provocador e vítima. Salvar-me como heroína de romance oitocentista de tantos e tamanhos tormentos a que a alma apaixonada se dispõe. Que um abraço – vê lá tu, um simples abraço! – embora sem garantias promissoras nem a servir vãs esperanças, apenas apertado de ternura 

(podias mesmo justificá-lo como acto cristão de amor ao próximo… 

… mas salvo de misericórdia, por favor!) 

que um abraço assim talvez me fosse suficiente para que amparado pudesse transformar num suspiro 

(ainda que a insinuar o último exalar do corpo) 

a oportunidade concedida de respirar aliviado, desinfestando a negritude, a desilusão, os soluços da convulsão dos prantos, e voltar 

(sem pieguices) 

a sorrir interiormente. 

Diz-me, impiedosa: é esse abraço que vais continuar a recusar-me?

14 de junho de 2013

variável outro adeus



Tu já não me tomas a sério, não segues em mim, não vens para me resgatar dos lugares a que não pertenço. Perdi o teu sorriso e o colo do teu olhar em qualquer aresta da chuva que ainda há dias se fez sentir, garantidos que julgáramos estar do verão. Talvez por divagar demasiado ou não ter em conta todos os teus enfados enquanto me distendia em dúvidas. E hoje, passando por ti, sinto-me como que uma aragem que incomoda a quem ainda se previne da falibilidade climatérica, corrente de ar indesejada entre uma janela e uma porta negligentemente abertas.

É curioso falar de forma tão negativa de portas e janelas abertas, uma vez que todos os clichés sugerem o contrário, sobre as oportunidades individuais e as previdências divinas. Parece-me que isso não se passa aqui… Sabes, ouço das pessoas mais velhas que antigamente se dizia que não era de forma alguma conveniente deixar-se correntes de ar em alturas de trovoada, pois que os relâmpagos seriam atraídos nessa travessia, bastando isso para que um raio desvairado entrasse em casa e tudo destruísse. Metaforicamente, e inclinado ao lugar-comum dos escribas mais parvos e piegas, sinto-me na esperteza de referir que talvez se tenha passado assim connosco: uma artilharia pesada de raios e coriscos terão entrado pela aragem dilatada que deixei, negligente, entre nós. Implosão e explosão. Ruínas, depois.

Posto assim, se tudo desmoronado, que me importa a mim agora os dias de verão? Carregados de pólenes e fumos à mistura, de transpirações e espirros alheios, são um covil para moléstias de caixão-à-cova, essas sezões que nos entopem as vias,

(será a alma uma via que se entope?)

fazendo delirar de febrões, ou como lhe chamam – a febre dos fenos

(e com toda a razão neste contexto: então não me canso de falar do teu corpo com um prado de feno?),

e posto assim, dizia, deixo as ervas no jardim a crescer novamente daquela forma bravia entre gigantescos caules de urtiga e leituga, substantivas entre o sol e a humidade que ainda se vão revezando, apesar de meio ano se ter cumprido no calendário.

Leva o teu corpo daqui, não vás cair também de cama, ardida e ardendo destes estridentes delírios, a carpir a febre do feno que há em ti, a resfriar da aragem que, oh negligência minha!, deixei correr entre o que então éramos e o que tanto desejamos que fôssemos…

Assim, reticente: pois que é variável o nosso adeus…