21 de março de 2015

poema para a miúda com a chave

Janina Steiner, fotografiia de Laura Zalenga

dedicado a Ana Cristina Chaves

Onde está a graça?
Fecundada nos teus lábios murmurados
de mosto e álcool enquanto
a noite se avoluma rendida em corcel
alimentada à luz de ti

(por que a noite nascida em teus olhos
não conhece penumbra)

Dizem que é atitude de riso fácil,
que de tontarias vai sendo feito…
Dizem assim escarninhos

(os cegos – como eu e tantos )

aqueles que preferem
permanecer incrédulos dessa habilidade
de carpir uma alma tão limpa e clara
que faz tremer de inveja
os mais puros cristais
jazidos em profundezas de admirar

Onde é o humor?
Lascivo e cândido como quem leva
o próprio corpo
num altar celebrado por rebeldia
cuja sede e fome, sangue e carne
tão bem amplia
a força de quem sabe
como sobreviver

Ah!, e dizem conhecer-te o lema
para depois escarnecer
de tão embriagados que estão dessa outra
coisa qualquer que nem alimenta suspiros
nem espanta as sombras

Podia eu ser

(se não receasse a loucura 
e a inocência
e a espuma e o ar e todos
os raios que me partam)

o cavalo imponente que montarias
levando-te aos cumes do mundo
dando a conhecer-te em todas as
latitudes humanas

Podia ser eu sim
- se tivesse eu a mesma gana,
e essa graça,
e esse humor.

13 de dezembro de 2014

poema para a Rita, de um sábado de dezembro


Diz-me com que palavras fundamento a razão e digo amor,
tendo nos teus olhos qualquer hora da madrugada enquanto
o crepúsculo define agora as fronteiras com a jovem noite.
Eu seria acorde dedilhado pelos dedos lentos
que nas tuas mãos se havia de compor; e dos teus lábios uma melodia
havia de se ouvir, como que a instruir plateias.
Seria eu, serias tu, se fosse o mundo dos avessos, num de vez em quando
(ou num faz de conta)
que nos desligasse desta realidade que, por apartados estarmos, vivemos.
Bastava uma gota de sal, cumpridos os humores, a delicar-se entre o gin;
e uma meda dos teus cabelos
recebendo a paixão dos meus abraços.
A noite não seria sábado ou qualquer outro dia diagonal da semana,
nem madrugada de alfena escuridão.
Teria a voz tropical de Caetano, a dizer devagar a fervura do sangue.

Diz-me com que palavras, Rita, senão com que gestos
(mas em gestos lentos, isentos de qualquer tempo verbal),
poderei eu fundamentar a razão e dizer amor.
Pelo menos enquanto este mar de sábado não se finda

e tudo se esqueça, reafirmando a realidade que vivemos.

9 de agosto de 2014

uma palavra tua com flores

pintura de Zinaida Serebriakova

Apetece-me uma palavra tua com flores, aberta e convidativa sobre o teu peito. Não fales do coração, cedendo à lamúria dos amores, pois o que venho a ti pedir é somente o leito onde as carnes, por humanas, se cercam de afectos. Apetece-me a saliva e outra húmida polpa dos dedos, revezar a paciente sede dos lábios inquietos, que sangram como corpo de deus, de ausência e medos, e de toda essa incerteza de que são feitos os amantes.

Apetece-me uma simples palavra tua com flores, que não te demore, que nunca seja como fora antes: 
essa oração ingénua, beata, oferecendo as dores dos insatisfeitos desejos apenas por serem eles  flagrantes... Sim!, o que quero é uma palavra tua, aberta, e com muitas flores!

14 de dezembro de 2013

embalo



Nas vésperas, a chuva ditou sombras sobre a cidade. Porém, o sábado nascido devolveu-lhe a claridade fria e azul das manhãs solarengas de dezembro.

O vento ergeu-se a esvanecer a humidade das roupas no estendal e declarou oficialmente o óbito e o luto entre as árvores.

Foste alimentar os animais, arredar o musgo da cancela esconsa, e subiste rente o muro da hera para me acordar. Eu já te esperava de café num púcaro e com a chaminé de um cigarro, feito ritual de quem espanta o entorpecimento dos resquícios do sono.

Apetecia-me o verão... – foram os teus bom dias. Eu sorri com um nevoeiro de tabaco a encobrir-me o olhar trocista. A mim agrada-me o sol de dezembro, e a luz do outono, mas também as colinas desmaiadas de chuva miudinha. 

Entramos em casa. Preparei-te torradas com mel que foste debicando devagar. Continuava a ouvir-se o vento do lado de fora, obstinado a transformar as árvores em esqueletos pintados na paisagem, embandeirado na roupa que, entretanto e já o almoço havia sido levantado, secara no estendal.

Abraça-me, que o sábado vai terminando, arranjado pelas mesma horas dos outros dias em que quase esgotamos a ansiedade pelo fim de semana. Ao final de cada dia somos santos de exaustão, convencidos que, virando a sexta-feira, o tempo cristaliza. E afinal, é como o ditado: a vida são realmente dois dias e um já se está acabando.

Passa ligeiramente das cinco e meia da tarde e o crepúsculo está tão tímido. Dezembro não engana, espelha-se inconstante no céu a anunciar a sua irreverência climatérica. E apetece-me este pequeno final de tarde para me deixar dormir, embrulhado na manta da tua ternura, ritual de quem, depois de acordar, deseja sossegar a madrugada de lentidão enquanto o amor acontece.

Não digas nada. Aquece-te junto a mim, que no verão não temos este embalo.

25 de outubro de 2013

síndrome de bartleby versão 3

desenho de Leandro Lopes

The end of laughter and soft lies
The end of everything that dies
James Douglas Morrison

Não estou capaz de evadir-me para escrever. Passo avesso ao riso, ao pranto, à emoção, à apatia. Como em mim nada é. Se engenho tive um dia, ou se as palavras alguma vez me foram parentes, é absoluta a minha inadequação actual e a orfandade de que possivelmente já sou vítima há muito tempo

(ou desde sempre).

Sou obrigado a concordar com quem eu lhe seja indiferente, ou, remotamente, por motivo sórdido e sem exemplo, com quem sofra a culpa de uma pequena inveja do que já fui capaz: que não vale a pena consumir palavras se não são os actos que lhes fazem jus. Ficarei ridículo a dissertar substantivos sobre não-questões. E assim me quedo a poupar os pormenores quando o que poderia dizer não seria por maior importância.

Vou daqui mudo, a engavetar o pensamento num murmúrio quase inaudível de efemeridade.

Quando – ou se! – outros tempos chegarem, talvez que já nem seja uma esferográfica a discorrer. Provavelmente apenas ver-me-ei a mim mesmo lutando por sobreviver numa areia movediça, de cuja matéria não posso pois agora prever de que será feita

(imagino mas prefiro continuar-me calando).

Fecundo mediocridade e, nesse estado, ainda que fecundado, nenhum ovo alguma vez eclodirá.

Não venham acenar-me: não quero ver nem ouvir vossas bocas postas em “O”. Vou partir de costas voltadas, como se o 

(este)

mundo em nada

(ou alguma vez)

tivesse sido importante para mim.

29 de setembro de 2013

de ti ou de um qualquer outono como este final de setembro


O outono terá começado e as chuvas primeiras que caíram terão acariciado os milheirais e fustigado as pedras

(as florestas ardidas com o hálito criminoso de agosto).

O crepúsculo tem o som assobiado do melro colorido de nostalgia, as palavras correm a menor velocidade, e os tapetes de folhas estalam sob os pés dos mendigos.

O descanso de uma gaivota no pilar da ponte é uma estátua de brisa espelhada nas águas do rio. As sombras quando anoitece são esses gatos pardos que se perdem vagabundos no colo do pensamento.

Finda setembro e não dei pelos dias que correram. Tudo é matinal em mim quando vindo de ti; e se gosto desta chuva é porque apenas me lavam do rosto as fadigas que teimariam em ficar.

Porém, partir do verão sem ti é negar todo o ano. Não quero que setembro se esgoste sem um beijo meu sobre a manhã de ti. 

De ti, que resolves os humores com o cardinal da primavera como se não houvesse ano para celebrar e passar.

Não é minha vontade contrariar-te.

13 de agosto de 2013

até logo

foto gentilmente cedida por Inês Borges

para a Inês Borges

Sirvo-me do teu silêncio em suaves goles de vinho, enquanto permito que o teu olhar me invada com carícias de sombra. A noite instalou-se morna rendendo-se ao predicado do teu rosto. Eu escuto o seu sibilar, canção murmurada nas ruas, nos vãos dos prédios, na margem poluta do rio.

Encorajas-me de ombro nu, onde um beijo ilustraria esta vontade tímida de te ter. É, porém, o recorte de mistério nos teus olhos que me faz transpirar, denúncia da minha falta de táctica para te envolver.

Aprendo nesse entreabrir dos lábios como uma carícia te fará sorrir e que palavras te possam provocar. Sorves a noite no mesmo vagar com que esvazio o copo de vinho, e eu de beber aflito contando que os meus movimentos não me traiam, ou que qualquer distração te liberte dessa hipnótica tensão de enganar o tempo.

Atreve-te, argumentas. De fome nos lábios, mordido, aguento-me. As tuas palavras urdem formigueiros em mim sem que a voz se comova. Os meus dedos empolgados, quentes.

Acrescentam-se verbos e substantivos. Todas as canções. As belas epopeias. O primeiro abraço e enfim o encontro.

Vibram as horas uma duas três e tantas vezes numa qualquer torre sineira. A janela aberta para a aragem, os lençóis testemunhando o quanto desta entrega, que afinal o vinho desinibindo. Sobe a pequena luz da alvorada. No teu rosto adormecido ainda o mistério: não sei ao que vieste e o que fui em ti.

Sei que entraste com a madrugada no olhar. E agora saio eu com o sol na alma.

Até logo.

31 de julho de 2013

esta paixão segundo isto

foto de Alexander Sikov

Escusa-me deste sufoco de me sentir perdido no tempo, como se, de tonto ou doente, colocasse cabeça e boca à banda a tactear o ar num desespero de náufrago. Porque me desvias agora o olhar 

(tu que quando te procurava sempre sorrias aliviando-me o peso das minhas existenciais crises depressivas) 

e me deixas à mercê desta agonia que me sobe no sangue até ao nó da garganta, revoltando o peito em taquicardias, dando aso a que a ansiedade se liberte esparvoada esbardalhando-me os sentidos, o equilíbrio, e então o pânico generalizado orgânica e emocionalmente em tudo o que é em mim, galgando os pensamentos, rosnando-me aos movimentos…? 

Pedi-te que assim não fosse, que aceitasses sem razão as palavras confidentes sem qualquer contrição ou juízo de moral; mas como poderia eu exigir assim da tua vontade? Como posso pedir-te indiferença ao perigo de te deixares também ir sem a expectativa do regresso, a animar ilusões, mesmo que te sintas, à partida, imune e contrariada de tais acidentes emotivos? 

Vou deitar as tardes a dormir para mitigar a cabeça destas incertezas, dos medos, das angústias. Nunca durmo, porém. Deitar as tardes a dormir é um queixume velho meu, arvorado nem sei já em que poema antigo da juventude, e que simplesmente dará o mesmo resultado que o enterrar a avestruz a sua cabeça na areia. Isto é: que fujo, que me aguento cobarde e inerme. 

Engole toda a luz a noite caindo, e essa escuridão que se junta à negritude da alma resume as insónias acumuladas. Sirvo-me do sono apenas quando já o dia rompe vigoroso a despertar os vivos. Que é quando, da fadiga, após a secura da boca e da luta contra a tensão dos músculos e dos nervos, o corpo se rende, como que apanhado numa doença viral, febril, acometido de tremuras e demais convulsões. 

Podes tu tanto poupar-me a estes acometimentos ridículos de que sou provocador e vítima. Salvar-me como heroína de romance oitocentista de tantos e tamanhos tormentos a que a alma apaixonada se dispõe. Que um abraço – vê lá tu, um simples abraço! – embora sem garantias promissoras nem a servir vãs esperanças, apenas apertado de ternura 

(podias mesmo justificá-lo como acto cristão de amor ao próximo… 

… mas salvo de misericórdia, por favor!) 

que um abraço assim talvez me fosse suficiente para que amparado pudesse transformar num suspiro 

(ainda que a insinuar o último exalar do corpo) 

a oportunidade concedida de respirar aliviado, desinfestando a negritude, a desilusão, os soluços da convulsão dos prantos, e voltar 

(sem pieguices) 

a sorrir interiormente. 

Diz-me, impiedosa: é esse abraço que vais continuar a recusar-me?

14 de junho de 2013

variável outro adeus



Tu já não me tomas a sério, não segues em mim, não vens para me resgatar dos lugares a que não pertenço. Perdi o teu sorriso e o colo do teu olhar em qualquer aresta da chuva que ainda há dias se fez sentir, garantidos que julgáramos estar do verão. Talvez por divagar demasiado ou não ter em conta todos os teus enfados enquanto me distendia em dúvidas. E hoje, passando por ti, sinto-me como que uma aragem que incomoda a quem ainda se previne da falibilidade climatérica, corrente de ar indesejada entre uma janela e uma porta negligentemente abertas.

É curioso falar de forma tão negativa de portas e janelas abertas, uma vez que todos os clichés sugerem o contrário, sobre as oportunidades individuais e as previdências divinas. Parece-me que isso não se passa aqui… Sabes, ouço das pessoas mais velhas que antigamente se dizia que não era de forma alguma conveniente deixar-se correntes de ar em alturas de trovoada, pois que os relâmpagos seriam atraídos nessa travessia, bastando isso para que um raio desvairado entrasse em casa e tudo destruísse. Metaforicamente, e inclinado ao lugar-comum dos escribas mais parvos e piegas, sinto-me na esperteza de referir que talvez se tenha passado assim connosco: uma artilharia pesada de raios e coriscos terão entrado pela aragem dilatada que deixei, negligente, entre nós. Implosão e explosão. Ruínas, depois.

Posto assim, se tudo desmoronado, que me importa a mim agora os dias de verão? Carregados de pólenes e fumos à mistura, de transpirações e espirros alheios, são um covil para moléstias de caixão-à-cova, essas sezões que nos entopem as vias,

(será a alma uma via que se entope?)

fazendo delirar de febrões, ou como lhe chamam – a febre dos fenos

(e com toda a razão neste contexto: então não me canso de falar do teu corpo com um prado de feno?),

e posto assim, dizia, deixo as ervas no jardim a crescer novamente daquela forma bravia entre gigantescos caules de urtiga e leituga, substantivas entre o sol e a humidade que ainda se vão revezando, apesar de meio ano se ter cumprido no calendário.

Leva o teu corpo daqui, não vás cair também de cama, ardida e ardendo destes estridentes delírios, a carpir a febre do feno que há em ti, a resfriar da aragem que, oh negligência minha!, deixei correr entre o que então éramos e o que tanto desejamos que fôssemos…

Assim, reticente: pois que é variável o nosso adeus…

18 de maio de 2013

em pleno

 

Deslocou-se o tempo no calendário, as tardes crescidas adiando a tristeza dos crepúsculos. Deslocaram-se os dias como se não os tivesse sentido e todos os fins-de-semana entre azáfamas desvaneceram. Veio o sol, choveu, houve mais sol e calor, ventou, já se fez praia, nas moitas o perfume amarelo da giesta, agora vento e outra vez chuva com frio entre as ressas do sol de maio.

Ficámos a ver o tempo passar sem que houvéssemos tido a feição de nos aproximarmos – pelo menos o quanto eu desejaria que nos aproximássemos – nos dias em que a brisa lambia de calor as colinas, e a ternura das nossas mãos dadas bastaria para o concretizar. 

Sou de regredir na memória, quase a diluir-me entre o que podia ser ou não das coisas do passado, sem vocação alguma, no entanto, para alimentar nostalgias. Porém, será a nossa causa coisa já de um passado? – não acredito e tu bem vejo que tal ideia a rejeitas também. 

É o quê, então? Quem somos, e o que adiamos, se fomos concebidos de um para o outro? 

Adoro-te. Encantas-me com o teu rosto recebendo esta maresia, os teus cabelos soltos como borboletas, o som do mar a fazer de chão ao meu desejo. Como quero chegar a ti, tocar-te, devolver-me em ti ao vinco da nossa terra da semente que somos. Como te desejo e não sei o caminho, os gestos. Só sei do medo. De me quebrares em estilhaços com uma rejeição. O que me parece é que ainda não amadureci os teus intentos, ou estarei pateticamente esgotando-os. Vou depreendendo do teu sorriso e da simpatia em me concederes ao teu lado que ainda há em ti a reserva de quereres continuar a guardar o teu espaço. 

Se finda a tarde, fazendo crescer o véu do crepúsculo, soluço de amargura por ver-te em maneiras de partir. É de areia ainda o sal nos meus olhos, a insistir na sede do teu corpo. Afastas-te e finjo descansar a cabeça sobre os braços apoiados nos joelhos. Creio que gritaria, se a vergonha de me veres em lágrimas não fosse tão cruelmente piegas, e a sair do contexto do que sou. 

É pela madrugada que solto o pranto, sempre em silêncio, cismado com os sonhos de vigília no rescaldo das insónias, porque é assim a paixão percorrida no corpo: veneno e mel. Sonho como serás tu toda, de pele e braços, pluma e feno, o teu peito e os teus lábios, marinados em primavera. Já não se vive agora de sonhos, pois não?, com o tempo a atravessar-se assim entre tudo e todos… 

Inseguro, apenas posso contar com a certeza de que ainda me falta a latitude certa para chegar a ti em pleno. Oxalá saiba contradizer o espaço e conter o tempo.

11 de abril de 2013

orquídeas a tempo de um aniversário passado



para a Anabela Maria

Perguntas-me pelo teu jardim e as orquídeas predilectas, como promessas feitas. A primavera tão vagarosa, a instalar-se entre as nuvens e o sol tímido mas, mesmo assim, a instalar-se. Floresceu o tojo já, combinado que foi com o romper da giesta em maio, a desmaiar de amarelo as colinas, de frondosas árvores então à inclinação suave das brisas e um permanente perfume de dias estivais prometidos. Mas as chuvas claras de abril não permitem ainda reconhecer essa festa de cor com que se envaidecem os montes, os prados e, sim, os jardins.

Perguntas-me pelo teu jardim e as orquídeas predilectas, e a promessa mantém-se, na esperança que o sol nos conceda o seu brilho. Entretanto,

(e por que em ti é primavera desde sempre)

levo os meus dedos ao roseiral dos teus lábios enternecidos e adivinho quantas pétalas no jardim do teu corpo. Ou da seara jovem da tua pele, amadurecendo o trigo. Desce a brisa dos teus cabelos, num afago pelos cumes plantados de dois amores-perfeitos

(prefiro dois borbotões de água que acalmam a minha sede, mas também pétalas suaves de amor-perfeito)

e então um prado descendente de curvas perfeitas, o aconchego do colo para sestas revigorantes, eu cavalo galopando à procura de sombra e feno .

Tacteando com os dedos encontro um canteiro de tímidos trevos, súbditos de uma flor que reina a meio caminho, semi-deusa, esperando por escolher o pólen. Ufana porque única, rainha porque procriadora. Eis uma orquídea tão bem definida, delicada no seu toque de seda, palpitante, as pétalas erguidas com sumptuosidade. Inalo o seu perfume: tenro nos lábios, agridoce na carne tumefeita. As falanges dos meus dedos em cuidados de jardineiro. A flor então aberta para os delicodoces prazeres.

Concedo-lhe um beijo como se sol e água para o seu alimento. O meu corpo tenso aflorando a seda escarlate das pétalas, a adensar-se no gineceu. Acontece a manhã, ergue-se e desce a tarde e infiltra-se a noite. E nos teus olhos, sempre o céu.

Este jardim sempre te pertencerá, com ou sem promessas alheias, chova em abril ou neve em dezembro.

Que sejam em ti muitas primaveras, em arranjos de campos de orquídeas, tão selvagens quanto rainhas, veneradas pelos que amas.


10 de março de 2013

breves, e nada restou



Adeus dissemos
e nada mais de então ficou
Madredeus, «Adeus… e nem voltei»
(Os dias da Madredeus, 1985)


Ficaram breves as fotografias, do espaço entre o que foi de um terno abraço e o que havia de ser um beijo predicado. Fingimos prender esses momentos numa eternidade que restou oca, mas nada mais ficou senão sombras impressas da luz que o papel cruelmente deixará ao juízo nocivo do tempo.

Quis que não tivesse sido assim. Ditaste a lonjura, escrevi esquecimento com ponto de interrogação, e os dedos desenlaçaram-se para espanto das árvores esforçadas em nos devolver a verdura das folhas e a maciez do fruto, apesar deste vento a alarmar as portas, apesar desta chuva enlameando os prados que em março desejaríamos floridos.

Tudo em conjuro como se conjugando o verbo partir

(ou quebrar, ou fugir, ou morrer)

levando de mim o teu rosto trigueiro que me sorria todas as manhãs a melodia dos bons dias. A elas, às manhãs, deixei-as entre o fumo espesso de um cigarro angustiado e esse patético arquétipo luso das brumas, numa esperança de asa de borboleta que tudo pudesse, qualquer dia e idade que fosse, voltar a ser. A sermos.

Mas eis que vais, amor, e eu fico. Ou então sou eu que levanto voo numa liberdade que não pedi, atordoado e nervoso subindo, e tu, o meu sossego e o meu abrigo, queda no chão a afastares-te, acenando-me apenas com os cabelos esfarrapando ao vento.

1 de março de 2013

gestos da primavera em mim

foto de Georgina Noronha

Deixei que o tempo se esgotasse sem levar de ti um afago que servisse de consolo a estes dias que passarei sem ter a oportunidade de te ver. Tu alimentas-me de sol o rosto apenas com o olhar, neste março que nasce mansinho e tímido, imprudente a concordar com a brisa que se faz ainda de golpes gelados afectando o conforto dos corpos e entorpecendo os movimentos dos membros. Basta-me, por isso, a doçura com que todos os dias me aqueces com os olhos postos em mim a lamber carícias para ficar indiferente aos enganos e desenganos climatéricos, e me sinta estival como se o odor da terra quente de junho agora.

Tudo cresce já em volta, sinalizando a decadência do inverno que, mesmo a dias de nos deixar, insiste em geadas escarninhas, nevões impostores e chuvadas mesquinhas. Mas em março as águas são mais claras sem sombrear o verdecer dos prados e das árvores, e os dias ganhando minutos empurram a penumbra do que ficou lá atrás, despindo as noites de solidões para lhes dar ânimo e agitação. Pode ser que então o afago não resgatado que hoje choro venha a ser a migalha dos abraços vindouros, do desfile de beijos prometidos, do entrelaçar ternurento dos dedos, da volúpia desenfreada dos músculos. 

Até lá deixo-te muda e atarantada com os modos, os sinais e os comportamentos que admito possam embaraçar-te, desprevenida. Aprenderás a não temer ou desconfiar da natureza do que sinto por ti: quando enfim conquistada, notarás no teu coração e no desejo do teu corpo que tudo isto, meu amor, são tão só os gestos da primavera em mim.