14 de junho de 2013

variável outro adeus



Tu já não me tomas a sério, não segues em mim, não vens para me resgatar dos lugares a que não pertenço. Perdi o teu sorriso e o colo do teu olhar em qualquer aresta da chuva que ainda há dias se fez sentir, garantidos que julgáramos estar do verão. Talvez por divagar demasiado ou não ter em conta todos os teus enfados enquanto me distendia em dúvidas. E hoje, passando por ti, sinto-me como que uma aragem que incomoda a quem ainda se previne da falibilidade climatérica, corrente de ar indesejada entre uma janela e uma porta negligentemente abertas.

É curioso falar de forma tão negativa de portas e janelas abertas, uma vez que todos os clichés sugerem o contrário, sobre as oportunidades individuais e as previdências divinas. Parece-me que isso não se passa aqui… Sabes, ouço das pessoas mais velhas que antigamente se dizia que não era de forma alguma conveniente deixar-se correntes de ar em alturas de trovoada, pois que os relâmpagos seriam atraídos nessa travessia, bastando isso para que um raio desvairado entrasse em casa e tudo destruísse. Metaforicamente, e inclinado ao lugar-comum dos escribas mais parvos e piegas, sinto-me na esperteza de referir que talvez se tenha passado assim connosco: uma artilharia pesada de raios e coriscos terão entrado pela aragem dilatada que deixei, negligente, entre nós. Implosão e explosão. Ruínas, depois.

Posto assim, se tudo desmoronado, que me importa a mim agora os dias de verão? Carregados de pólenes e fumos à mistura, de transpirações e espirros alheios, são um covil para moléstias de caixão-à-cova, essas sezões que nos entopem as vias,

(será a alma uma via que se entope?)

fazendo delirar de febrões, ou como lhe chamam – a febre dos fenos

(e com toda a razão neste contexto: então não me canso de falar do teu corpo com um prado de feno?),

e posto assim, dizia, deixo as ervas no jardim a crescer novamente daquela forma bravia entre gigantescos caules de urtiga e leituga, substantivas entre o sol e a humidade que ainda se vão revezando, apesar de meio ano se ter cumprido no calendário.

Leva o teu corpo daqui, não vás cair também de cama, ardida e ardendo destes estridentes delírios, a carpir a febre do feno que há em ti, a resfriar da aragem que, oh negligência minha!, deixei correr entre o que então éramos e o que tanto desejamos que fôssemos…

Assim, reticente: pois que é variável o nosso adeus…

18 de maio de 2013

em pleno

 

Deslocou-se o tempo no calendário, as tardes crescidas adiando a tristeza dos crepúsculos. Deslocaram-se os dias como se não os tivesse sentido e todos os fins-de-semana entre azáfamas desvaneceram. Veio o sol, choveu, houve mais sol e calor, ventou, já se fez praia, nas moitas o perfume amarelo da giesta, agora vento e outra vez chuva com frio entre as ressas do sol de maio.

Ficámos a ver o tempo passar sem que houvéssemos tido a feição de nos aproximarmos – pelo menos o quanto eu desejaria que nos aproximássemos – nos dias em que a brisa lambia de calor as colinas, e a ternura das nossas mãos dadas bastaria para o concretizar. 

Sou de regredir na memória, quase a diluir-me entre o que podia ser ou não das coisas do passado, sem vocação alguma, no entanto, para alimentar nostalgias. Porém, será a nossa causa coisa já de um passado? – não acredito e tu bem vejo que tal ideia a rejeitas também. 

É o quê, então? Quem somos, e o que adiamos, se fomos concebidos de um para o outro? 

Adoro-te. Encantas-me com o teu rosto recebendo esta maresia, os teus cabelos soltos como borboletas, o som do mar a fazer de chão ao meu desejo. Como quero chegar a ti, tocar-te, devolver-me em ti ao vinco da nossa terra da semente que somos. Como te desejo e não sei o caminho, os gestos. Só sei do medo. De me quebrares em estilhaços com uma rejeição. O que me parece é que ainda não amadureci os teus intentos, ou estarei pateticamente esgotando-os. Vou depreendendo do teu sorriso e da simpatia em me concederes ao teu lado que ainda há em ti a reserva de quereres continuar a guardar o teu espaço. 

Se finda a tarde, fazendo crescer o véu do crepúsculo, soluço de amargura por ver-te em maneiras de partir. É de areia ainda o sal nos meus olhos, a insistir na sede do teu corpo. Afastas-te e finjo descansar a cabeça sobre os braços apoiados nos joelhos. Creio que gritaria, se a vergonha de me veres em lágrimas não fosse tão cruelmente piegas, e a sair do contexto do que sou. 

É pela madrugada que solto o pranto, sempre em silêncio, cismado com os sonhos de vigília no rescaldo das insónias, porque é assim a paixão percorrida no corpo: veneno e mel. Sonho como serás tu toda, de pele e braços, pluma e feno, o teu peito e os teus lábios, marinados em primavera. Já não se vive agora de sonhos, pois não?, com o tempo a atravessar-se assim entre tudo e todos… 

Inseguro, apenas posso contar com a certeza de que ainda me falta a latitude certa para chegar a ti em pleno. Oxalá saiba contradizer o espaço e conter o tempo.

11 de abril de 2013

orquídeas a tempo de um aniversário passado



para a Anabela Maria

Perguntas-me pelo teu jardim e as orquídeas predilectas, como promessas feitas. A primavera tão vagarosa, a instalar-se entre as nuvens e o sol tímido mas, mesmo assim, a instalar-se. Floresceu o tojo já, combinado que foi com o romper da giesta em maio, a desmaiar de amarelo as colinas, de frondosas árvores então à inclinação suave das brisas e um permanente perfume de dias estivais prometidos. Mas as chuvas claras de abril não permitem ainda reconhecer essa festa de cor com que se envaidecem os montes, os prados e, sim, os jardins.

Perguntas-me pelo teu jardim e as orquídeas predilectas, e a promessa mantém-se, na esperança que o sol nos conceda o seu brilho. Entretanto,

(e por que em ti é primavera desde sempre)

levo os meus dedos ao roseiral dos teus lábios enternecidos e adivinho quantas pétalas no jardim do teu corpo. Ou da seara jovem da tua pele, amadurecendo o trigo. Desce a brisa dos teus cabelos, num afago pelos cumes plantados de dois amores-perfeitos

(prefiro dois borbotões de água que acalmam a minha sede, mas também pétalas suaves de amor-perfeito)

e então um prado descendente de curvas perfeitas, o aconchego do colo para sestas revigorantes, eu cavalo galopando à procura de sombra e feno .

Tacteando com os dedos encontro um canteiro de tímidos trevos, súbditos de uma flor que reina a meio caminho, semi-deusa, esperando por escolher o pólen. Ufana porque única, rainha porque procriadora. Eis uma orquídea tão bem definida, delicada no seu toque de seda, palpitante, as pétalas erguidas com sumptuosidade. Inalo o seu perfume: tenro nos lábios, agridoce na carne tumefeita. As falanges dos meus dedos em cuidados de jardineiro. A flor então aberta para os delicodoces prazeres.

Concedo-lhe um beijo como se sol e água para o seu alimento. O meu corpo tenso aflorando a seda escarlate das pétalas, a adensar-se no gineceu. Acontece a manhã, ergue-se e desce a tarde e infiltra-se a noite. E nos teus olhos, sempre o céu.

Este jardim sempre te pertencerá, com ou sem promessas alheias, chova em abril ou neve em dezembro.

Que sejam em ti muitas primaveras, em arranjos de campos de orquídeas, tão selvagens quanto rainhas, veneradas pelos que amas.


10 de março de 2013

breves, e nada restou



Adeus dissemos
e nada mais de então ficou
Madredeus, «Adeus… e nem voltei»
(Os dias da Madredeus, 1985)


Ficaram breves as fotografias, do espaço entre o que foi de um terno abraço e o que havia de ser um beijo predicado. Fingimos prender esses momentos numa eternidade que restou oca, mas nada mais ficou senão sombras impressas da luz que o papel cruelmente deixará ao juízo nocivo do tempo.

Quis que não tivesse sido assim. Ditaste a lonjura, escrevi esquecimento com ponto de interrogação, e os dedos desenlaçaram-se para espanto das árvores esforçadas em nos devolver a verdura das folhas e a maciez do fruto, apesar deste vento a alarmar as portas, apesar desta chuva enlameando os prados que em março desejaríamos floridos.

Tudo em conjuro como se conjugando o verbo partir

(ou quebrar, ou fugir, ou morrer)

levando de mim o teu rosto trigueiro que me sorria todas as manhãs a melodia dos bons dias. A elas, às manhãs, deixei-as entre o fumo espesso de um cigarro angustiado e esse patético arquétipo luso das brumas, numa esperança de asa de borboleta que tudo pudesse, qualquer dia e idade que fosse, voltar a ser. A sermos.

Mas eis que vais, amor, e eu fico. Ou então sou eu que levanto voo numa liberdade que não pedi, atordoado e nervoso subindo, e tu, o meu sossego e o meu abrigo, queda no chão a afastares-te, acenando-me apenas com os cabelos esfarrapando ao vento.

1 de março de 2013

gestos da primavera em mim

foto de Georgina Noronha

Deixei que o tempo se esgotasse sem levar de ti um afago que servisse de consolo a estes dias que passarei sem ter a oportunidade de te ver. Tu alimentas-me de sol o rosto apenas com o olhar, neste março que nasce mansinho e tímido, imprudente a concordar com a brisa que se faz ainda de golpes gelados afectando o conforto dos corpos e entorpecendo os movimentos dos membros. Basta-me, por isso, a doçura com que todos os dias me aqueces com os olhos postos em mim a lamber carícias para ficar indiferente aos enganos e desenganos climatéricos, e me sinta estival como se o odor da terra quente de junho agora.

Tudo cresce já em volta, sinalizando a decadência do inverno que, mesmo a dias de nos deixar, insiste em geadas escarninhas, nevões impostores e chuvadas mesquinhas. Mas em março as águas são mais claras sem sombrear o verdecer dos prados e das árvores, e os dias ganhando minutos empurram a penumbra do que ficou lá atrás, despindo as noites de solidões para lhes dar ânimo e agitação. Pode ser que então o afago não resgatado que hoje choro venha a ser a migalha dos abraços vindouros, do desfile de beijos prometidos, do entrelaçar ternurento dos dedos, da volúpia desenfreada dos músculos. 

Até lá deixo-te muda e atarantada com os modos, os sinais e os comportamentos que admito possam embaraçar-te, desprevenida. Aprenderás a não temer ou desconfiar da natureza do que sinto por ti: quando enfim conquistada, notarás no teu coração e no desejo do teu corpo que tudo isto, meu amor, são tão só os gestos da primavera em mim.

11 de fevereiro de 2013

a dor assombrada de ti

foto de Georgina Noronha


Eu sofrendo por não vires e tu insistindo nesse estupor. O teu olhar a evitar-me por entre nadas, a ocupar os vazios, e estes afinal continuando sem coisa alguma se não são as tristezas que pagam dívidas ou ocupam lugares.

Eu irritado por não saber chegar-te, preocupado com a dor da rejeição. A de sempre. A que me assombra. E tu brincando a um faz de conta de que não é contigo, agilizando as mãos nos objectos a surpreender-me:

- Vês? Não me interessa nada disso

mas interessa-te, que eu bem sei. 

Estarei a um ponto de te desiludir se não for persistente, se me votar derrotado nestes jogos? A mim que me importa, não é? Se a ti não? Por que terá de ser assim? Se é jogo, ou patranha, a que vem essa tristeza no teu olhar desocupado das mãos ágeis a rematar as arestas pardas do vazio? O que levas aí dentro, que comoção te faz agir desta forma?

O vento graniza com o frio a chuva escarninha como se tudo agora zombasse de mim. O palerma!, afirmam as nuvens feias. Eu aqui prestes a cair, ou pronto a saltar. O estúpido!, assinalam os esqueletos das árvores no ar.

Vais ficar. Eu não vou mexer uma palha por isto, vou teimoso com pêlo na venta, agarrado a um orgulho qualquer, ainda que saia daqui esmagado, ferido, com nódoas no corpo porque o tombo, porque quis sentir-me livre, porque haveria de querer voar.

Ter as tuas mãos nas minhas: seria a frio um cenário banal, toda a gente dá as mãos. Em nós, porém, sortiria um alívio, um saciar de ternura. O brotar para todos os gestos que haveria de nos deixar unidos, carne com alma.

Ora teimoso, eu. Eu! Eu teimoso! Como sou parvo. Se és tu quem teima e escarnece, bruta e amorosa, a fingir que nada sou para ti. Que pertenço ao pó que a agilidade das tuas mãos tratará de limpar com afinco:

- Não podes brincar assim com coisas sérias.

Não brinco amor, não brinco. Agora não. Vou amuado com a surpresa do teu olhar despeitado na minha nuca. Até depois sem um aceno. Não me olhes que não vou acenar. Talvez volte, ou esperarei que venhas também. E me livres da dor assombrada de ti. 

Apenas sinto que tenho de sair. Torto e tonto no peito, sujeito a cambalear, ou sujeito a tudo o que possa vir depois que deixe de te ver: vou amargo, salgado de mágoa, tropeçando nas poças da chuva. A lavar o rosto num grito, apequenado pelo desapontamento.

Não sei mais o que dizer. Sim, já saio.

8 de fevereiro de 2013

poema com anagrama

foto de Georgina Noronha

Sede,
quando o sol inunda e do seu rosto
a luz de um prado sereno;
nos seus lábios a humidade
de sombra e beijo;
folhas,
ramos de esplendor quando os seus cabelos
sacudindo brisas, e o pólen,
e a fragrância do sorriso;
percorrer o mundo nos seus olhos:
eu sonho e tudo claramente infinito
para um inocente desmaio
(que  a sofrer por que a paixão)
do amor assim contido;
em qualquer palavra que declame sua voz
é flauta de incenso
a purificar-me a alma.

Com ternura, ainda ela.

26 de janeiro de 2013

tu

Doirado, por Paulo Vieira em 1000 imagens


De serenos olhos a tua ternura veio afagar-me de rosas a língua e, descendo as pálpebras numa lentidão de prazer sussurrado, deixaste que aportasse o corpo ao teu estuário, ou foi o mar de ti que fez de mim península.

Encarnamos de veludo e seda, na textura do vinho, na liquidez dos morangos, com os lábios tacteando a sede e a fome pelo interior. São folhas de trevo bravo a polpa dos teus dedos desabrochando pela encosta do meu dorso até aos ombros onde te precipitas numa falésia de falsos desmaios e acidentais gemidos.

Vieste e ainda era a sombra. Desenhaste luz em volta num intenso crepúsculo como se o verão fosse para além do efémero das estações, temperadamente quente, permanentemente animador. Trouxe-te ao acaso e, volvidos os anos, não encontrei nunca outra terra senão o pasto de feno dos teus seios.

Pois que sou cavalo selvagem em ti, perdido, assanhado, faminto desse feno. E em ti estou sempre como que de regresso de longa jornada, sem precisão para calcular nova partida.

Agora as palavras calam-se, o feno cresce. 

Tu.

Eu deixarei de importar se tu não existires.

22 de janeiro de 2013

crónica anoitecida

Olhares.com


Chove, o que não seria novidade se não estivéssemos propensos a uns dias de sol – ainda que frios, ao rigor de janeiro – depois do que foi o fim-de-semana devastador. A mim, o temporal levou-me as caleiras da casa, encorrilhou umas telhas, e manchou as janelas de ar pardacento como se não houvesse lugar a auroras

(é estranho escrever auroras por que sempre me lembram o levantar dos dias estivais)

e a madrugada se prolongasse carrancuda pelas horas do dia.

Não vou demorar-me no frio e na humidade que têm sido estes dias. Até a legislação, o governo da nação e o estado dos cidadãos me parecem crespos como o mar em dias de temporal. E talvez, segundo previsões em nada meteorológicas, seja coisa a aguentar o ano inteiro… Mas que fazer, senão ir para a rua gritar?

Também não vou gritar. Apetece-me o sono e o conforto da cama

(é estranho escrever cama e conforto quando tanta gente por aí sem uma coisa nem outra)

ainda que venha a luz da manhã despertar para a corrida do trabalho.

Desta vez (só desta. Só desta?) não vou querer saber. Enrolo-me numa espiral térmica, e o mundo fora de mim irá precipitar-se como filme em avanço rápido, tarda nada entardece e a noite outra vez (outra vez um pleonasmo?) a assinalar que tenho de correr os estores da janela.

Será um dia que não se conta. A não ter existido.

A que vem isto, José? A que vem isto e a quem interessa? Repara como desperdiças papel: encarreiras a esferográfica numa espécie de beco sem saída e surgem rabiscos, arabescos, flores infantis, um qualquer desenho pseudo-qualquer-coisa-a-calhar-surrealista-parvo e não sais daí.

É noite. Não percas o tempo. Não o deixes que te engane. Desliga a internet, o facebook. Não te parece que lá esteja alguém e, no entanto, milhares, não é? Ninguém contigo. Tu com ninguém. Parece estúpido, e é. Desliga. Desliga o computador. Assim.

Surge o silêncio. Lê. Anoitece. Deixa que te anoiteça o sono. Talvez amanhã. Alguém. Por um bom dia

(e é estranho escrever bom dia quando não há ninguém que responda).

28 de dezembro de 2012

doce forno, branda cozedura, pão gentio




Falar-te dos teus lábios e pecar com as tuas mãos
Anabela Maria

Acode ao gomo da minha boca, resgata-a com a saliva e o músculo de polpa da língua. Trinca-a de ternura e fervura, tempera-a de hálito ofegante. Deixa os lábios marinarem num toque leve, como se encontrando-se quisessem apartar-se com a sensação de fogo. Agita-me na voz, gutural e sussurradamente.

Perde o pudor e solta o corpo de forma a escorrer em gotas de mel sobre o meu. Aos poucos, num vagar de carícias, vou ficando em ponto rebuçado abrigado no teu doce forno. Tens o pão pronto a cozer, massa e carne e sangue que nos sacia. Com os dedos revolvo as brasas, e espreguiço o ventre sob o teu, contorcendo-se. Encontro-te. Dissolvo-me.

Vens ao abraço. Vens com cuidado para não se perder o calor. Ficas sorrindo a brincar-me com o olhar, sabendo-me nos olhos o que podia dizer os meus lábios. O quanto blasfemam as minhas mãos a lamber-te os contornos dos seios. Mostras nesse sorriso que ainda o meu toque te desperta o apetite. Entreabres os lábios e murmuras com malícia:

- Cozedura pronta, amor, mas ainda há mais fornalha a servir…



15 de dezembro de 2012

desce a tarde em dezembro

foto de Susana Oliveira

para a Susana, para a Daniela


Desce a tarde em dezembro. Precipitaram-se as horas e o pardo das nuvens cedeu lugar à iluminação convulsa da cidade. Ruídos longínquos dos cães latindo, o ronronar dos automóveis sobre o asfalto molhado, uma palpitação urbana com a sensação de não haver humanidade no ruído, e por isso silêncio. Beberico um copo de uísque a propósito de um conforto pateta, sacudindo a solidão com o tilintar das pedras de gelo. Não saí, não vieste, não estás, não vou.

Ontem foram os teus olhos, secretamente guardando-me da noite e dos seus avanços imprudentes, enquanto caía a chuva como se um dilúvio, ou algo assim tão imensamente grave e tão profundamente medonho para que razões não me sobrassem de querer diminuir a distância de ti.

E fui dos teus olhos para as tuas mãos calmas, ternas, cuidadoras: um abrigo. Num murmúrio ininteligível de lábios por que o pudor, por que eles que não sabem, por que assim concordamos que seria. Tu ao meu lado com o mundo caducando à volta. Eles aflitos e nós em paz, a desenhar sorrisos com o pulsar do sangue.

Queria fugir dos lugares-comuns, dos clichés líricos, da verborreia bacoca. Queria um verso simples e amplo para dizer de ti. Porém são tão parcas, feias, dúbias, deselegantes e insignificantes as palavras contigo.

Demoras?
Se eu pudesse, escrever-te-ia um poema tão bonito como o último olhar que me lançaste, antes de fazeres aquela curva em marcha lenta.*

Por que, deste lado, é o olhar que já diz tudo. E tu sabes.

* de Teresa Coutinho

3 de novembro de 2012

imagem depois de ti



A seguir caminho no intermédio da luz taciturna da tarde chuvosa e a noite vindo a descer vagarosa sobre os telhados adiantando a hora do crepúsculo. Abri o cigarro no hálito frio e a tarde encolheu-se fugidia. Soletro a calçada, pedras em granito tão velho, com destino a ti.

Volvidos foram tantos anos, Manuela, que regressar assemelha-se ao aroma de uma velha reserva de vinho bebida em balões que nos enchem as mãos. Tento imaginar se o tempo te foi cruel, cavando rugas sobre o teu rosto, pregueando a pele no pescoço, nas axilas… Se te deu sofrimento de enegrecer a alma, ou caducando a maciez que os teus olhos continham.

(abano a cabeça numa flexão para me desvanecer de tais pensamentos, a cidade pulsa, vibra, vive…)

Se o tempo te deu em esgotada da paciência de filhos, viúva do amargo da rotina.

(… resplandece a cidade: há tantos anos que aqui não vinha, a verificar a harmonia das gaivotas, os prédios grisalhos sob o céu inconstante de chuva e neblinas, o humor acre das vielas e dos becos guardados no mofo das traseiras).

Sinto que ir a ti é como descer no passado com medo de cair no presente. Vou a pestanejar memórias nossas, de sobrolho arregaçado, memórias tão íntimas, flagrantes do que eu e tu somos (ou fomos) feitos. Por cada rosto que se cruza comigo na rua é um vulto pressagiador de ti, a acelerar-me o ritmo cardíaco, alterando a maré da minha saliva, a ansiedade dos dedos. Continuarás com o mesmo semblante de triunfo sobre tudo, o mesmo olhar curioso e atrevido, com o dom de me incendiar os sentidos?

Tudo isto, Manuela, são rastilhos de incertezas, pudor sobre a desfiguração, fragmentos do medo de nada ser como era. A teimar que o tempo não é senhor de fazer estragos, de deixar permanecer o que a memória não quer atraiçoar. E isto é tudo o que tenho quando chego ao prédio tombado na frontaria de uma velhice que não reconheço, tão despegado do futuro, como se nada tivesse havido antes para que pudesse estragar o presente de inesperadas fatalidades. O hálito do varandim com o cheiro a detergente da roupa pendurada sob o plúmbeo do céu parece acertar nisso: não reconheço qualquer peça, o tempo veio aqui desmanchar memórias, que raiva. E porque não recolheste ainda a roupa, Manuela, se a noite entrou de supetão mesmo que a tarde ainda exija o consentimento do burburinho diurno, dos carros, dos rostos que passam, das lojas entranhadas de luz tosca?

É então que carrego no botão oxidado da campainha. Tento lembrar-me do teu rosto sem artifícios do tempo, como se nenhum relógio tivesse funcionado entre a última vez que nos vimos e esta agora que nada me diz particularmente, pelo menos quanto ao que veio depois disso. Qual será, ó receio meu!, a imagem depois de ti? O que te sobrou. O que sobrou de ti em mim e de mim em ti. Tudo o que não pude aproveitar e agarrar, perpetuar. O que de nós vamos enfim conseguir aproveitar, Manuela? Saberei reciclar em mim a imagem depois de ti?

A campainha soou rouca, abriu-se instantes depois a porta que vai ou vem para ou da rua. Subo, sem precipitações, também sem hesitar, porém. Serão apenas alguns degraus, que me lembre. Amparada ao corrimão gasto onde pela primeira vez soubemos beijar-nos, vens a acenar-me, entre a penumbra. Subo ainda mais, renitente

(reticente agora?)

e quando te abeiraste do meu abraço cercando com as mão o meu rosto a indagar o que foi feito de mim, não esperava que te viessem lágrimas aos olhos

(nunca te vi lágrimas, Manuela, agora reparo que não te conheci as lágrimas)

e exclamasses num preconceito de cansaço: meu deus, o que o tempo fez de ti!

29 de outubro de 2012

em que pensas quando mordes o veludo da romã?



«em que pensas quando mordes o veludo da romã?»
                                                                (Anabela Maria)

No prolongamento do que te aflige esta noite: vieram as horas a inclinar o sol muito antes que a azáfama do dia terminasse parecendo que a madrugada pudesse nascer antes que os vizinhos sossegassem. E eu ausente, parte incerta de ti numa geografia abstracta

(eu com sede),

ausente do copo, do prato, dos talheres, da cadeira e da mesa, depois do sofá, da chávena do café, da ternura da média-luz frente à televisão muda. Ausente de um cigarro partilhado na janela.

Ausente do desfolhar de um livro, da almofada, dos lençóis. Da tua boca, das gargalhadas, do olhar quieto e demorado, do toque. Ausente dos teus dedos em mim como se me descobrisses a primeira vez, de quando te deitas delicada a exalar o hálito das flores enquanto a noite se adensa de nevoeiro

(eu com sede e fome),

e um arrepiar do teu púbis pulsando de hesitação e apelo, e a fonte aberta dos teus mamilos.

E por cada semente, ooooh, por cada semente que mordo da romã: os teus lábios que se aproximam, inflamam, a maciez da pele no caminho da minha saliva, o tremer dos joelhos, o abraço das tuas pernas no meu dorso, tu implorando com gemidos Vem, e eu mergulhando em ti, numa dissolução perfeita de mim no teu mosto, muito devagarinho, a colher o suco carmim e açucarado da tua língua. O teu beijo. O teu rosto gritando sem voz, apenas o olhar implorativo, cativo de súplica

(eu com tanta sede e guloso da fome do teu corpo).

Dentro de ti. Penso-me dentro de ti quando mordo o veludo da romã.