8 de setembro de 2008

pós laboral sem tragédia, em fragmentos de um acto


(daqui - se é que é realmente importante)


Algum rumor, um burburinho de fundo como quando

- João, fazes os bifes enquanto ponho a mesa?

subimos ao topo de um prédio e espreitamos a cidade viva, lá em baixo, numa palete miniaturizada.

- Agacha-te

Não. Não é bem assim, é um som abafado. Aqui deitado na banheira com a água cobrindo-me os ouvidos e o rosto, deixando apenas o nariz de fora a respirar devagar e o prédio vibrando por baixo à esquerda e à direita

- Sarinha o jantar está pronto!

e nisto uma mosca entra na casa de banho, atraída pela luz. Sigo-a com o olhar imaginando fuzilá-la, tal o meu ódio e nojo misturados por estas criaturas voadoras que tanto me irritam

- Ah puta!

(O vizinho do lado esquerdo começa cedo a festarola com a namorada, chama-lhe bastantes nomes feios

ou será que a chama pelo nome?

e ela geme e grita com um prazer desmedido, como se…)

- Sarinha não volto a chamar, desliga a televisão e vem sentar-te à mesa!

E a mosca zunindo, zunindo, até vir pousar-se no topo do meu joelho direito, esfregando as patas dianteiras

- Anda puta!

e eu, transformando o meu braço num camaleão guloso à cautela, espalmo a mão sobre o joelho e rebento-lhe o corpo numa investida forte, estridente. A água move-se, rugindo no interior aos meus ouvidos, este rumor abafado a dar conta da casa vazia e silenciosa em contraste com as dos vizinhos

- Os bifes já estão!

(… como se cada injúria fossem flores, nardos ou orquídeas, jóias, enfim, chocolates, bombons)

Olho o corpo da mosca esmagada flutuando na água, dá-me nojo

- Não gosto de bife!

os meus dedos em pinça, o prédio irremediavelmente deixado na condução da água, suspenso, pesco a mosca morta

- Ahhh, já está puta!

e atiro-a pela sanita, descarregando a água com vertigens de vómitos do nojo imenso que me dão estas criaturas voadoras.

Não regressarei, obviamente, à água conspurcada pelas entranhas minúsculas do bicho. Retiro a tampa do ralo da banheira, abro o chuveiro, ensaboando as mãos e o joelho freneticamente

- Não comeces Sarinha, é para comer tudo o que tens no prato

e deixo que a água renovada e quente me embrulhe numa concha reconfortante.

Ora eu que estava para contar não sei o quê… Esqueci-me. Detesto mesmo as moscas. Enxaguo-me. Que farei de jantar? Bife, talvez, sem quaisquer apontamentos óbvios e previsíveis.

Gostava de ter uma puta assim. Ah, isso é que era…

25 de agosto de 2008

a vez



Afundei. Deixei-me a afundar na esperança preguiçosa de ver melhores dias. Convencido com uma certeza indiferente de que alguém certamente viria para abrir-me as janelas, sacudir-me da poeira, trazendo as algibeiras transbordando esperança. Fui de livro em livro procurar o nunca achado e regressei de todas as vezes com as mão negras de nada, as mãos como pedra. Vi esvoaçar sorrisos, soavam harmoniosas vozes e gargalhadas deslocando-se da esquerda para a direita conforme passava o autocarro onde devia seguir dentro, e que perdia toda a vez que aflito tentava embarcar. E as vozes, e as gargalhadas, deixavam o tom harmonioso para um esgalhar confuso de troça e dó.

Ouvia os dias erguendo-se com esplendor, duas ou três melodias a agarrar-me os ombros

- Vem daí

e eu

- Não quero, não vou

convencidíssimo que não chegara ainda a vez de, que não havia dado o tempo suficiente para, que seria preciso aguardar mais. E depois isto e outra vez aquilo diluindo as hipóteses até que o sono me resgatasse num bocejo e a cabeça rodopiando sem eira nem beira. Noite após noite, aconchegado na minha redoma de parvalheira, a dialogar comigo mesmo, a afastar os medos com a febre das alucinações.

Agora parece-me tudo sempre e cada vez mais adiante. Os dias perderam-se, deixaram cair o esplendor, os livros foram-se calando em revoadas de folhas aninhadas no vento, e eu ensurdecendo deles, cegando das palavras. As vozes vão e vêm, como num pesadelo, ora trocistas, ora piedosas

- Anda comigo

e eu

- Não quero, não vou

apontando para as algibeiras com escárnio

- Nem sequer trazes esperança aí

com as janelas cerradas, ou talvez uma parede no lugar onde elas jamais existiram. Eu carregado pelas noites numa redoma de insónias.

Gostaria muito de ter podido saltar para aquele autocarro. Fazer parte do coro. Os meus gritos, porém, já ninguém se interessa ou esforça por ouvi-los. Ninguém os percebe. Observo a luz lá em cima a diminuir e qualquer dia

(qualquer noite)

não poderei alcançar-lhe. Estreita-se o buraco onde continuo a afundar. Onde perdi alguma coisa que, por não saber o que será, imagino que possa ser o mínimo para finalmente vir a ser tudo o que se supõe querer e ter.

Se existirão homens e mulheres de braços fortes para me puxar para fora não sei, não faço a mínima ideia. De qualquer forma perdi. Sinto que perdi. Sem querer fazer dramas, apenas dando aos ombros como quem se volta resignado.

Acho que perdi a vez de ser feliz.

10 de agosto de 2008

não há porque ter título


(autor desconhecido)


Não estamos em casa, e o telefone trina durante uns vinte segundos. É um esquisito, e tem a mania do poliglotismo. O frigorífico estremece como que um arrepio, marcando a sua superioridade em relação aos restantes habitantes da cozinha. A máquina de lavar roupa abre-se num ó meio amuado, tem todos os tecidos promiscuamente compactos, que lhe pesam como dores de cabeça. O micro-ondas está adormecido numa paciência branca, refastelando-se de frescura. Haverá a hora em que padecerá de sufocante calor, colocando na torneira um olhar de inveja.

Os móveis de madeira sussurram espalhados pela casa. Não se ouvem as suas queixas matinais, de gavetas arrastadas e portas chiando. Sussurram porque gostam do silêncio. Televisores, rádios e demais família são os mais impacientes: é como se lhes ouvisse um tamborilar de dedos sobre uma mesa, ou um pezinho irrequieto sobre o chão: é um formigueiro que lhes dá nos leds dos seus stand by.

Mas quem guarda tudo isto com ar de respeito imposto é a imponente porta, mais a tagarela da fechadura, sua companhia de uma vida inteira.

7 de agosto de 2008

ramos


Why the dark, before the dawn?, por Paulo Bizarro em 1000 imagens

para José Gonçalves Ramos (1927-1993), meu Pai


Sempre fui bom ouvinte, sabes disso, apesar de nem sempre mostrar muita paciência, mas sem nunca te ter contestado. E se não te contestava era porque o que dizias parecia sair da minha boca, como se as palavras descendessem também no código genético. E depois veio aquele dia em que da tua boca não saíram mais palavras, que é o mesmo que dizer deixei de ouvir a minha voz na tua garganta. É verdade, eu não precisava de falar, tu discursavas e eu cá por dentro a confirmar as ideias que tínhamos em comum sem termos discutido sobre elas, e muitas das vezes limando o bico de uma dúvida, de um gene meio parvalhão a fazer ruído. Passaram quinze anos desde que tomei o teu lugar, ou seja, desde que a minha voz se produz agora na minha garganta e não na tua. Que já não existe. A tua garganta já não existe, Pai. Nem o teu sorriso, nem as mãos que eu admirava tanto. E depois o que então ficou por dizer, não que houvesse algo de novo a dizer um ao outro (eu ficava calado, os genes disseram tudo desde a minha concepção), mas porque a minha vida foi acontecendo sem ti. Há quem diga que os filhos são o prolongamento dos progenitores, e talvez seja isso. Eu via-me como a flor e o fruto, e a ti como a raiz e o caule que me amparava. Engraçado, o nosso nome, ramos. Eu cresci de um dos teus ramos, agora apenas a flor ou o fruto amadurecendo com o tempo, cortado sem sabedoria, aguentando o caule mas a raiz perdeu-se, extinguiu-se na terra. E ainda que eu sirva para os outros que me amam, para mim já não é a mesma coisa, como se a jarra ou a fruteira onde me colocaram me prendesse sempre ao mesmo lugar, sem lograr alcançar o topo, o mais alto, aquilo a que sempre aspiraste.

Passam os anos, e contudo cada vez dói mais a tua ausência. Talvez por ter a consciência que o adulto em que me tornei precisaria muito mais do pai que o adolescente que fui. E agora só tenho a voz interior, a palmilhar caminhos acautelado com os desvios. E isto é ser filho para sempre.

Que se lixe que seja um cliché, pai, mas ainda que tenhas deixado de existir como raiz e caule, existes cá dentro de mim e só morrerás quando eu me for também, calado, acertando no nada as dúvidas que, tenho a certeza, havias de esclarecer com a minha voz dentro da tua garganta.

E amo-te: só por isso choro. Pai.

3 de agosto de 2008

que o silêncio fale por nós

morte nihil certius est, nihil vero incerta quam ejus hora



para o meu mais querido amigo



É tão difícil falar sobre esta dor. Vale o silêncio nestas circunstâncias tantas vezes quantos são os grãos de areia que cabem num punhado a esvaírem-se entre os dedos. Não será mais do que isso: o silêncio esvai-se de nós com a lenta passagem do tempo até que o pudor deixe de existir ou peça grandes cuidados. Até que possamos compreender um pouco mais sobre isso da morte, e sobre o amor, e sobre a amizade. Aquela amizade que sabemos ser para sempre, que não tem floreados nem cerimónias. Onde apenas e ainda o pudor. O pudor de dizer que te amo para que os espíritos se sintam quentes, reconfortados o melhor possível dentro da ternura, da generosidade. Mais do que existe entre o sangue de irmãos, compreendes? Não interessa o que se diga, o que se pensa, o que está estabelecido. É somente importante o que se sente, o que existe verdadeiramente.

Assim, só temos que esperar que o silêncio cumpra o seu papel de curandeiro, e de nos mantermos unidos, a partilhar não só as dores agudas com que a vida nos acutila, mas também as alegrias, o que conquistamos de bom.

Deixa seguir o cadáver que já não te é nada, já não nos pertence, pouco ou nada significa. Os nossos mortos aprendemos a viver com eles cá dentro. Continuam vivos enquanto vivemos, porque o amor imenso é assim, transporta-nos todas as pessoas queridas que desejamos continuar a ver como se tudo fosse eterno. E por isso entendes o egoísmo de tão nobres sentimentos. O cadáver é apenas o pó, condição do que vive para dar lugar. Não os espantemos, não nos espantemos. Levamos os nossos mortos bem vivos dentro de nós até que surja a nossa partida, pois «morte certa, hora incerta». Que é quando realmente tudo se acaba, ou pelo menos soubemos que afinal estivemos vivos.

A tua gargalhada também é a minha gargalhada, como as lágrimas são também de ambos. Não temas: sofro sempre contigo, o que te dói, dói-me. Apenas o silêncio: deixemos que entre e se instale para que te diga, entre o pudor, o quanto te amo.

28 de julho de 2008

aparência


(daqui)


Acontece então que já não é como tinha escrito. As palavras desintegram-se num dado momento, perdem-se as letras desamparadas na lima das tuas unhas, no retoque do teu batom, na pestana pescada do canto do olho, e tudo vem sucedendo em catadupa. São fotografias antigas as memórias que se querem repor, são de passados incolores as palavras "Lembras-te de...", e quedamo-nos mudos numa latitude paralela de tudo quanto ocupamos, de umbigo voltado para fora, a reclamar o espaço vazio das cadeiras. E nessa ocasião, as letras perdidas reencontram-se, perfilam-se como jogadores para o retrato do plantel, chega-te mais para lá, vem um pouco para a frente, dois passinhos para a esquerda, e ei-las já alinhadas formando as novas palavras que ditam o quanto crescemos, mas principalmente marcando a diferença sobre o que fomos, e que não voltaremos a ser jamais. Porque é sabido, (e eu segredo-te ao ouvido, para que ninguém se aperceba, para que possamos manter no mínimo a aparência), esta história nunca se repetirá.

27 de julho de 2008

flor de narciso




para António Lobo Antunes



Venho visitar o lugar ocupado pelos mosquitos de verão, o velho tanque repousando a fresca água da velha fonte; e acontece que me seguem os instrumentos de escrita e leitura, ferramentas confidentes do artista, para a labuta das palavras sobre um tampo de mesa mal aplainado mas marcado por gerações de escribas e leitores dos serões onde a poluição ainda não conhecia o comprimento das ondas hertzianas. Sento-me no banco tosco e vou adaptando a minha fisionomia à procura de uma posição confortável. Um carreiro de formigas atravessa na frente dos meus pés. Cauteloso como um monstro delicado, tenho o cuidado de as não pisar. Estendo a vista para o pomar em frente, reconheço umas árvores e outras não. A erva alta, rebelde. O sol deslizando para trás de uma colina. Fico por longos momentos brincado com a caneta entre os dedos. Logo faz-se noite e o papel ainda branco. Após uma pausa, que não sei dizer ter sido breve nem longa, escrevo o meu nome, de letra enviesada, à mercê dos relevos do tampo da mesa. O meu nome e mais nada. Levanto-me, estico as pernas, espreguiço os dedos. O meu nome à luz parda do entardecer. E com tanta coisa de que poderia ter dissertado. Ali, o meu nome, agora riscos até a noite engolir a brancura do papel. Não faz luar nesta latitude, e o meu nome existe, ali, depois de abandonar o local, para assistir, do outro lado, o romper de um novo dia. O meu nome. Eu. E uma flor de narciso ao lado, no tampo irregular da mesa onde escribas e leitores mais antigos.

18 de julho de 2008

trazes sorrisos


(daqui)



Trazes sorrisos contigo, a abraçar ternuras da noite. O copo nos lábios afasta-te do olhar as sombras cravadas dos objectos, ignorando por dentro a nudez das paredes, os recantos escuros que a luz não alcança e onde o pó ressona de estuque junto à cadeira onde me sento.

Vens para me chamar à sinfonia dos grilos na colina que sobe adiante, o riacho absorvido num espectro de luar e águas a encostar-se ao meu sono.

- Ouve!, ordenas-me espetando o dedo no ar, como se viesses professar a divindade da noite: a música rompeu, já se dança, o fogo no ar exibindo piscadelas atrevidas; é tempo de sacudirmos os corpos, fazer levantar a poeira.

Então ergo-me da cadeira, fingindo indisposição, sem dar braços a torcer, meio sorriso, meio enfado, guiado ao colo dos teus braços. Trazes sorrisos contigo, abraças-me com a ternura da noite. E com noites de verão como estas, que farei lamuriento quando tudo me parece renascer?

13 de julho de 2008

fêmea aflita



O mar ruge como fêmea aflita. Toma-me nu o corpo com uma timidez fria, tocado a medo e receios de virgem. Eu vou entrando devagar, tacteando-lhe a espuma com a polpa dos dedos, numa carícia prolongada e terna, afagando cada ondulação até sentir a humidade quente no retorno de uma suave onda de carinho.

Estende-se na praia sob o sol do desejo, torna a vir, puxa-me. Avança sobre mim rugindo mansamente e sou eu dentro, inteiramente túrgido de prazer. Repele-me. Cobre-me novamente, investindo saliva. O sal e o hálito das algas chegado ao meu olfacto. Abre-se. Investe novamente, recobrando-me a língua e os lábios como se eu peixes e caravelas, e piratas e ilhas perdidas. Abraça-me num constante vai-e-vem pela baía.

O mar esvai-se, quando saio fatigado. Torcido como se fêmea fremindo de prazer. Aflita.

27 de junho de 2008

a meus pés




Brisas que ardem a meus pés enquanto o sal da água se espraia preguiçosa a sul de mim, e o regaço suave da areia acolhe-me o sono inquieto e vago. Se abro os olhos é imenso o azul que me cobre, longitude de voos perdidos e ilusórios, transportando o leve equilíbrio e etéreo de uma incerta liberdade do corpo. E então sou gaivota de luz planando sobranceira às minhas pálpebras.

O marulho entoa encantos de profundezas, garras e ventas feras resfolgando. Respiro o ar e os ouvidos vão dissolvendo os risos, vozes a vários coros sob os girassóis dos chapéus-de-sol e toalhas estendidas como bandeiras sem país.

Quedo-me como um embriagado alegre. Soletro espaçadamente os sonhos, amolecido e torpe, entregue ao esquecimento quase perpétuo do mundo. Em asas que giram, em asas que voltam.

O mundo que arde a meus pés.

23 de junho de 2008

demanda




Procura-me num outro lugar onde não venha a chuva estragar as gargalhadas das flores ao sol e tornar macambúzio o mar a rosnar ao longe. Vem com caramanchões de folhagem verde em jeito de cascata de S. João, e deixa-me que seja o eterno e expectante pescador de barro pintado, que não incomoda ninguém, não é santo nem é gente, é um olhar voltado para todos os rios imaginários a contar de cor os nadas infinitos, num pedaço fio de sediela atado a um palito.

Vem com o perfume dos cravos tardios e a frescura do manjericão, vem lambuzar-me de sardinha e pimento cozido nas chamas, dá-me a beber do vinho morangueiro e entaramelar a fala depois da quarta ou quinta tigelinha vazada. Procura-me num subúrbio qualquer pois que me amedronta a horda na cidade repimpando com martelinhos e alho-porro, essas vagas de gente que me sufocam, tão mortíferas quanto os rios fêmea que engolem todos os dias qualquer coisa viva, seduzindo com remoinhos e falsas marés.

Numa praia sem relâmpagos. Procura-me onde estarei a fugir da primavera doente de vento e frio. Fareja a véspera do verão e encontra-me. Quando ouvires as flores gargalhando, chegaste.

20 de junho de 2008

o telefonema


foto de Ana Rita Vaz Cruz em Olhares


Dá-me novos motivos para passar adiante. Não te fiques pelos mesmos argumentos, como que a driblar o meu raciocínio. A carne é fraca e o vinho do jantar não ajuda. Seguras-me no telefone com um timbre de sedução electrónica, afecta a ruídos alheios, interferências, do “que-foi-que-disse?”.

Soar-te-ia estranho se te cortasse a algaraviada dos números e das questões sem contexto com um convite fora de horas? Fazer-te pensar: que bom seria sair deste burburinho de simpatias ilusórias para tomar um copo, refrescar os olhos e os ombros, a noite até parece morna, convidativa, confortável.

Mas não. Aguentas-me no discurso e insistes. Eu vou agradecendo a voz doce, quase terna, sem dúvida quente, ainda que com ruídos de fundo, interferências, do “pode-repetir-se-faz-favor?”. Não fosse o meu bocal confidente de amargas solidões e tristes desejos, terias ouvido precocemente, num cliché gasto, o tom seco de um

- Não estou interessado.

14 de junho de 2008

dignidade


Duas Vidas um Destino, por Vítor Nunes em 1000 imagens


Apesar de tudo portámo-nos com uma dignidade de felizes criaturas. O nosso porte elegante, sempre à altura de qualquer acontecimento, cheio de honestidade e simpatia. Eu diria mesmo que uma postura altiva, mas alegre e bonacheirona nos dias mais. Nos dias menos a roçar o sensaborão, com alguma inocuidade. Ainda que assim seja, dias mais ou menos, estamos sempre prontos. Para tudo.

Escorre o sol quente pela escadaria abaixo e no varandim prostrámo-nos como jarras de montra a exibir essa felicidade inventada. Ou não inventada: adquirida com a dignidade. Os automóveis passam indiferentes, mas as pessoas que surgem na esquina onde o carvalho ergue uma respeitável sombra de frescura, de passo estugado, viram os olhos para cima questionando-nos o porte, nós os dois sentados como príncipes de um qualquer reino de conto de fadas. As pessoas abrandam, não sabemos se pelo sol que abrasa a tarde e amolece os corpos, se pelo espanto de nos ver assim, como que surpreendidos por um qualquer espectáculo de rua espontâneo e inesperado.

Também há janelas do lado oposto, quadros de donas-de-casa esbaforidamente ocupadas com lides de limpeza. Fazem pausas inclinadas e apoiadas sobre as vassouras, a entender sorrisos e o significado do que somos aqui, com toda esta dignidade que, percebo agora, torna-se contagiante. Retiram o lenço das cabeças e parecem rejuvenescer com vontade de tanta coisa menos limpar.

Repara então no filho mais novo do vizinho do terceiro esquerdo frente do prédio plantado no outro lado da rua: depois de assomar brevemente à janela, aumentou o volume do som da música que ouve e debruça-se enfim sobre o parapeito como se quisesse acompanhar-nos neste espectáculo de jarros de montra, a demarcar um outro estilo, diferente. Repara que mexe o corpo ao ritmo da música, e as pessoas que passam,

(os automóveis serão sempre defeitos indiferentes nesta caricatura)

estugando o passo ao dobrar a esquina da sombra fresca do carvalho: também lhe acenam, ao rapaz, com o olhar indagando o que significará aquele bailado do corpo, a música berrando por dentro.

É assim mesmo, como disse: há uma dignidade feliz em tudo isto, apesar de como são e vão as coisas terrenas. Apesar do mundo. E os que nos reprovam, os que não nos entendem, e os que nos desprezam: coitadas criaturas essas, que infelizes serão.