13 de julho de 2008

fêmea aflita



O mar ruge como fêmea aflita. Toma-me nu o corpo com uma timidez fria, tocado a medo e receios de virgem. Eu vou entrando devagar, tacteando-lhe a espuma com a polpa dos dedos, numa carícia prolongada e terna, afagando cada ondulação até sentir a humidade quente no retorno de uma suave onda de carinho.

Estende-se na praia sob o sol do desejo, torna a vir, puxa-me. Avança sobre mim rugindo mansamente e sou eu dentro, inteiramente túrgido de prazer. Repele-me. Cobre-me novamente, investindo saliva. O sal e o hálito das algas chegado ao meu olfacto. Abre-se. Investe novamente, recobrando-me a língua e os lábios como se eu peixes e caravelas, e piratas e ilhas perdidas. Abraça-me num constante vai-e-vem pela baía.

O mar esvai-se, quando saio fatigado. Torcido como se fêmea fremindo de prazer. Aflita.

27 de junho de 2008

a meus pés




Brisas que ardem a meus pés enquanto o sal da água se espraia preguiçosa a sul de mim, e o regaço suave da areia acolhe-me o sono inquieto e vago. Se abro os olhos é imenso o azul que me cobre, longitude de voos perdidos e ilusórios, transportando o leve equilíbrio e etéreo de uma incerta liberdade do corpo. E então sou gaivota de luz planando sobranceira às minhas pálpebras.

O marulho entoa encantos de profundezas, garras e ventas feras resfolgando. Respiro o ar e os ouvidos vão dissolvendo os risos, vozes a vários coros sob os girassóis dos chapéus-de-sol e toalhas estendidas como bandeiras sem país.

Quedo-me como um embriagado alegre. Soletro espaçadamente os sonhos, amolecido e torpe, entregue ao esquecimento quase perpétuo do mundo. Em asas que giram, em asas que voltam.

O mundo que arde a meus pés.

23 de junho de 2008

demanda




Procura-me num outro lugar onde não venha a chuva estragar as gargalhadas das flores ao sol e tornar macambúzio o mar a rosnar ao longe. Vem com caramanchões de folhagem verde em jeito de cascata de S. João, e deixa-me que seja o eterno e expectante pescador de barro pintado, que não incomoda ninguém, não é santo nem é gente, é um olhar voltado para todos os rios imaginários a contar de cor os nadas infinitos, num pedaço fio de sediela atado a um palito.

Vem com o perfume dos cravos tardios e a frescura do manjericão, vem lambuzar-me de sardinha e pimento cozido nas chamas, dá-me a beber do vinho morangueiro e entaramelar a fala depois da quarta ou quinta tigelinha vazada. Procura-me num subúrbio qualquer pois que me amedronta a horda na cidade repimpando com martelinhos e alho-porro, essas vagas de gente que me sufocam, tão mortíferas quanto os rios fêmea que engolem todos os dias qualquer coisa viva, seduzindo com remoinhos e falsas marés.

Numa praia sem relâmpagos. Procura-me onde estarei a fugir da primavera doente de vento e frio. Fareja a véspera do verão e encontra-me. Quando ouvires as flores gargalhando, chegaste.

20 de junho de 2008

o telefonema


foto de Ana Rita Vaz Cruz em Olhares


Dá-me novos motivos para passar adiante. Não te fiques pelos mesmos argumentos, como que a driblar o meu raciocínio. A carne é fraca e o vinho do jantar não ajuda. Seguras-me no telefone com um timbre de sedução electrónica, afecta a ruídos alheios, interferências, do “que-foi-que-disse?”.

Soar-te-ia estranho se te cortasse a algaraviada dos números e das questões sem contexto com um convite fora de horas? Fazer-te pensar: que bom seria sair deste burburinho de simpatias ilusórias para tomar um copo, refrescar os olhos e os ombros, a noite até parece morna, convidativa, confortável.

Mas não. Aguentas-me no discurso e insistes. Eu vou agradecendo a voz doce, quase terna, sem dúvida quente, ainda que com ruídos de fundo, interferências, do “pode-repetir-se-faz-favor?”. Não fosse o meu bocal confidente de amargas solidões e tristes desejos, terias ouvido precocemente, num cliché gasto, o tom seco de um

- Não estou interessado.

14 de junho de 2008

dignidade


Duas Vidas um Destino, por Vítor Nunes em 1000 imagens


Apesar de tudo portámo-nos com uma dignidade de felizes criaturas. O nosso porte elegante, sempre à altura de qualquer acontecimento, cheio de honestidade e simpatia. Eu diria mesmo que uma postura altiva, mas alegre e bonacheirona nos dias mais. Nos dias menos a roçar o sensaborão, com alguma inocuidade. Ainda que assim seja, dias mais ou menos, estamos sempre prontos. Para tudo.

Escorre o sol quente pela escadaria abaixo e no varandim prostrámo-nos como jarras de montra a exibir essa felicidade inventada. Ou não inventada: adquirida com a dignidade. Os automóveis passam indiferentes, mas as pessoas que surgem na esquina onde o carvalho ergue uma respeitável sombra de frescura, de passo estugado, viram os olhos para cima questionando-nos o porte, nós os dois sentados como príncipes de um qualquer reino de conto de fadas. As pessoas abrandam, não sabemos se pelo sol que abrasa a tarde e amolece os corpos, se pelo espanto de nos ver assim, como que surpreendidos por um qualquer espectáculo de rua espontâneo e inesperado.

Também há janelas do lado oposto, quadros de donas-de-casa esbaforidamente ocupadas com lides de limpeza. Fazem pausas inclinadas e apoiadas sobre as vassouras, a entender sorrisos e o significado do que somos aqui, com toda esta dignidade que, percebo agora, torna-se contagiante. Retiram o lenço das cabeças e parecem rejuvenescer com vontade de tanta coisa menos limpar.

Repara então no filho mais novo do vizinho do terceiro esquerdo frente do prédio plantado no outro lado da rua: depois de assomar brevemente à janela, aumentou o volume do som da música que ouve e debruça-se enfim sobre o parapeito como se quisesse acompanhar-nos neste espectáculo de jarros de montra, a demarcar um outro estilo, diferente. Repara que mexe o corpo ao ritmo da música, e as pessoas que passam,

(os automóveis serão sempre defeitos indiferentes nesta caricatura)

estugando o passo ao dobrar a esquina da sombra fresca do carvalho: também lhe acenam, ao rapaz, com o olhar indagando o que significará aquele bailado do corpo, a música berrando por dentro.

É assim mesmo, como disse: há uma dignidade feliz em tudo isto, apesar de como são e vão as coisas terrenas. Apesar do mundo. E os que nos reprovam, os que não nos entendem, e os que nos desprezam: coitadas criaturas essas, que infelizes serão.

11 de junho de 2008

doce e gentil desconhecida


Sensualidades, por Paulo Almeida em 1000 imagens


Permite-me poisar os meus lábios nos teus a experimentar a estranheza de tal acto na contracção do teu rosto fechando-se. Colocar a minha mão, ávida e atrevida, sobre os teus seios, afagá-los, mesmo por cima do tecido da camisola, e sentir-te retraindo à medida que avanço. Com a outra mão seguir mais abaixo no teu corpo, dominar a curva da tua anca e encher-me das tuas nádegas por baixo da leve saia que vestes. Curvar à frente, depois, e repousar os dedos abertos sobre o triangulo macio do teu púbis de feno, explorando, encontrando. E tudo isto para saber como recuas, como te fechas e inibes, e como te indignas: a mão aberta e espalmada sobre a minha face que ruboriza do sangue espicaçado, numa declarada e brutal recusa de mim.

Mas, (ó minha doce e gentil desconhecida!), é a tua carne que me apela e eu tenho ganas de ser o teu lobo faminto.

3 de junho de 2008

escrito e dolorido para Eunice


Ao fim do dia..., por Marco Ricca em 1000 imagens


O céu a findar a tarde e os cães latindo. É quando o silêncio se rende passivo, nunca chegando a vencer tudo, balbuciado pelos ruídos. E depois a noite, signo que nos separará.

Dizes-me para aproveitar o momento, para quê sofrer por antecipação. Porque o tempo não pára, Eunice. O tempo não me dá tréguas. O sol cai entre o chilreio dos pardais que recolhem nas árvores frondosas. Sinto-te os dedos tacteando-me a inquietude das mãos, o teu olhar muito meigo e muito sereno, sempre cada vez mais sereno como se o céu te findasse a ti também dentro da sua bocarra escancarada de penumbra. Vagarosa. Mansinha. Traiçoeira.

E eu aflito com a exactidão dos ponteiros nos relógios, os ponteiros demarcando fronteiras. A nossa partilha tem fronteiras, Eunice. É um país em estado de sítio, com recolher obrigatório e sob a lei marcial. Porque dizem-nos – apesar de nos dizerem na cara sem que ainda tivessem verdadeiramente percebido –, dizem-nos que somos proibidos.

Proibidos a partir do momento em que terás que tirar essa máscara de mulher livre e regressarás à tua condição de mãe exemplar de três filhos, da fiel esposa de um importante executivo qualquer que nunca soube bem quem é. Eu sou apenas o entretanto nas horas vagas, ou o depois nas horas em que te perturba a insónia

(a consciência, o amor, o amor-próprio, Eunice?).

O tempo no céu e nos relógios lutando contra o meu orgulho desmanchado, inerme. Porque os meus olhos para ti não trazem defeitos, não trazem preconceitos, só te trazem – tão egoístas! – a ti.

Como posso aproveitar o momento se milímetro a milímetro – como praga que alastra – vais deixando que outra vida te aparte de mim. Os teus beijos são já tardios, tombam sôfregos e remediados na inclinação do meu ombro convulsivo. O teu corpo, poucas horas atrás baluarte da minha felicidade, recolhe-se em modos sorrateiros, possuído pelo medo, pelas palavras, pelos filhos, por eles: todos eles que não cabem entre o espaço que nos vai afastando, de promessas reatadas.

Magoam-me as promessas, Eunice. Magoam-me os teus dedos tacteando as lágrimas das minhas mãos. E magoam-me as noites. As tuas, as que te pertencem sem mim.

Crê-me escrito e dolorido. Sou personagem de tragédia onde venham a caber as lamechices que te encantam, as fantasias que te orientam, que te movem, que te

(que te moveram até mim, que te moveram a conquistar-me?)

que te constroem, enfim, para mim. Eu que não gosto dos romances de amores exacerbados, das lamechices, dos lugares-comuns.

Olha para mim, Eunice: o céu apagou a tarde, a noite veio para te resgatar à norma. Vais partir? Fuzila-me, acaba comigo. Engole-me Eunice.

Para que o dia me não volte a nascer, grávido dessas mesmas e viciadas falsas promessas.


2 de junho de 2008

todas as feridas


Warriors of the Wasteland, por Paulo Franco em 1000 imagens


E todas as feridas porque todas as palavras que não disseste mas escondeste durante tanto tempo que penso tê-las esquecido numa qualquer traiçoeira teia da memória, impregnada de medos que me fazem – talvez – chorar; e por isso, quero lá saber, não vou espremer o coração para que coalhes o sangue que já não te pertence, nem sequer vou deixar enregelar ao frio as mãos que mantenho quentes no meu regaço para te estender o fantasma de uma consolação, de um ombro que não te saberá receber.

Morres, morres, morres, dentro de mim e para ti morres, para tudo o que fez o mundo à tua volta, e serás então o vapor que se ergue do chão quente depois de uma chuvada de verão e que ninguém percebe, quem percebe esta coisa da sublimação, condensação e precipitação?, é tudo palavras e acometimentos climatéricos que não interessam nem como recursos estilísticos da escrita que

enfim, que

que destruíste, admito, que destruíste, e agora que queres? Sabes muito bem que o tempo cura tudo, secará as feridas, afastará daqui a meses o frio, e tu, parte esquecida de consecutivas sublimações, condensações e precipitações, serás um resquício da água que poderei observar, de vez em quando, ainda que leve dias, semanas, meses, talvez anos a recuperar toda a escrita que

enfim, que

que roubaste, admito, que roubaste, e agora para que te servem as palavras roubadas?


27 de maio de 2008

dívidas


foto de Victor Melo em 1000 imagens


Disseste-me que as tristezas não pagam dívidas. E não pagam, é verdade. Mas quem disse que eu estava triste? Apenas estendo o meu olhar para além das fronteiras, procurando horizontes grávidos de promessas. Promessas que nunca se cumprem. Homens e mulheres rendidos pela força do egoísmo. Sento-me num movimento cansado, apoio desinteressado o rosto entre as mãos e sigo assim durante horas. Com o olhar dirigido a todos e a parte alguma. E portanto não há tristezas nem há promessas. Há somente o meu olhar estendido para além de tudo quanto me é presente. Não é tristeza, sou eu que vou cegando, apanhado desprevenido a invocar a certeza do meu umbigo. Quando me levantar, de rosto composto mas empedernido, verás que não há tristeza alguma. E quanto às dívidas, essas, serão tuas. Serão sempre as tuas dívidas para comigo. Livra-te então de ficares tu triste.

23 de maio de 2008

porque estão tristes


Jeans & Silhouettes, por João Miguel Figueiredo em 1000 imagens


Na rua os transeuntes bisbilhotam o céu inquirindo a amena temperatura com tão pouco sol e sou eu que fui

(que estou?)

a sentar-me na esplanada, lembrando-me de olhar a erosão da calçada em contraste com o modelo da cadeira oferecida e do requinte do guardanapo a servir-me o café.

Perguntam-me do lado: porque estão tão tristes?, e eu não tenho a câmara fotográfica nem os dedos para o desenho, de modo que sem me documentar,

- Porque estão tão tristes?

não sei, estas palavras já foram escritas ontem, entre o suor dos lençóis e uma garganta rastejando rouca.

Era primavera pela alvorada, daí a temperatura. Compreender a tristeza da questão não sou capaz, por isso deixo uma nota pequena ilustrando a esplanada e parto com o silêncio engolido em seco, pendurando a dúvida por responder.

19 de maio de 2008

tango


autor desconhecido


Piazzola faria um tango com a raiz do teu olhar. Dança nos teus olhos a ferocidade do sangue latejando nos teus lábios. O sangue que bebe do meu suor a luz quente do teu corpo. E na multiplicação dos gestos tocar-te é estender-me a um fogo que só a madrugada, com a maciez dos beijos, poderá tornar mais ameno. Antes disso é a carne, é a pulsação. Dentro de ti o mundo renasce, esperando explodir em mim.

Debruças-te sobre a minha boca e fazes saltar os seios que se penduram como dois grandes sinos a velar de carne a minha saliva.

O orvalho vai caindo na orla dos teus beijos, despertando-me a madrugada do corpo. Cerro os olhos vagarosamente, sereno, limpo, acompanhando o bocejar das flores na raiz da alvorada. Dizes-me coisas com o toque delicado da tua pele, inventas o verão ardendo no interior das tuas coxas. E na manhã já colorida, mergulhas de boca esfomeada à procura do ventre, para que o frémito seja um redentor bom dia terno e adocicado como a flor dos morangos adormecida a nossos pés.

Respiras-me e toco-te, enlaçada pelos flancos, e os dois corpos fremindo ao som deste tango. Faço-te prisioneira do meu sangue neste fundo de terra com gemidos, onde, para prova futura do que somos, me plantarei como semente de trigo em seara jovem.

15 de maio de 2008

desta mão


(daqui)


Tirai-me daqui este papel, desta mão que não escreve. Tudo é tão superficial quando encolhemos os ombros e deixamos correr o tempo dentro de uma fadiga. De uma preguiça quase sem remédio. Não interessa quantas janelas, quantas cabeças ao longo da avenida buzinada de automóveis impacientes. Tudo se escoa até que uma sombra venha resgatar todos os ruídos e todos os movimentos. Tirai-me a ansiedade tamborilando sob os meus dedos, o meu olhar na paisagem abstracta escolhendo quais os sentidos. Não tem importância a ausência das palavras, se todas as teclas estão batidas, se todo o molhado está chovido. E que as bocas se cansem de todos os diálogos, os braços de todos os protestos, os punhos de toda a raiva. Tirai-me daqui este papel e as ideias, desta incerteza monótona. Sem luz que incomode. Tirai-me daqui pois não sei o que farei quando tudo gela.

13 de maio de 2008

cidade


foto de Filipe Golias (daqui)


Aguarda-me a árvore frondosa entre as vistas da avenida que sobe a cidade como um golpe profundo de faca

(e onde a faca?)

a amparar as sombras sobre os automóveis monótonos em ronco de feras domesticadas, e as pessoas gastando solas e saliva e gestos e risos e palavras e afectos; os prédios inclinados ao olfacto do asfalto exposto;

A árvore aguarda-me vergando cortesias ao vento, e as pontes braços atravessando o cheiro a sabão do rio grávido de abismos, cemitério de organismos e ferro-velho; rodam os automóveis, correm as pessoas, e eu largando-me pela sombra estendida enquanto o verão ainda por parir nas praias que maio enche de relâmpagos.

Aguardam-me os ramos frondosos da velha árvore nascida onde a memória não sabe alcançar e a avenida subindo, hipertensa, como uma faca esventrando a cidade.