13 de maio de 2008

cidade


foto de Filipe Golias (daqui)


Aguarda-me a árvore frondosa entre as vistas da avenida que sobe a cidade como um golpe profundo de faca

(e onde a faca?)

a amparar as sombras sobre os automóveis monótonos em ronco de feras domesticadas, e as pessoas gastando solas e saliva e gestos e risos e palavras e afectos; os prédios inclinados ao olfacto do asfalto exposto;

A árvore aguarda-me vergando cortesias ao vento, e as pontes braços atravessando o cheiro a sabão do rio grávido de abismos, cemitério de organismos e ferro-velho; rodam os automóveis, correm as pessoas, e eu largando-me pela sombra estendida enquanto o verão ainda por parir nas praias que maio enche de relâmpagos.

Aguardam-me os ramos frondosos da velha árvore nascida onde a memória não sabe alcançar e a avenida subindo, hipertensa, como uma faca esventrando a cidade.

11 de maio de 2008

ode ao que te lembrares



para onde esta escadaria imperfeita de musgo e pó
rasgada a granito ancestral agastado pelos passos dos mortos
para onde o horizonte emprenhando da luz de cada olhar que passa e finge
para onde as plumas fétidas das pombas moribundas
dilatando asas na praça onde chove de verde
a oxidação das estátuas de bronze
para onde este jardim desarranjado e daninho com pés de medronho
arreganhando as raízes ao chão de cimento estourado
para onde caminham os velhos suplicando de soberba a vida que já não têm
com a boca de gula gaguejando gengivas por eternidades estéreis
para onde os gritos distantes dos prédios altos embandeirados de roupas
estouvadas ao vento, as molas nos arames multiplicando as cores
para onde os gatos pardos nas sombras das esquinas a feder
detritos e reflexos de faróis indiferentes na passagem
as nuvens enlutando os céus com o vento como lobos

(as molas da roupa na vez das flores)

para onde os cadáveres dos animais aninhados na estrada feitos peregrinos abandonados
para onde esta pressa, para quê correr na iminência da morte súbita
porquê as garagens trancadas e as janelas corridas e as portas cicerones antipáticos
para onde o vinho amargo, as cascas da fruta, os lençóis das prostitutas
para onde o cascalho velho, e a calçada entupida das últimas lamas
para onde cidade, estendida de gangrena, condoída de pus e ratazanas
para onde as palavras nos teus muros
para onde os muros brancos

(e os baldios embandeirados de roupa aflita nos arames
as molas multiplicando-se em cores o jardim daninho)

para onde as escadarias onde moras povo solitário
para que braços e forças as pontes e os boiões de desespero no rio

(para onde os corpos atirados como feras de circo)

que te resta, cidade aleijada de hospitais com limo e vidros estilhaçados
para onde o pão duro farejado pelos cães como lobos
como lobos como uivos como o vento afligindo de gestos
os estendais no cimo dos prédios arreganhando gengivas de bolor

(as molas da roupa como frutos, como flores)

para onde as árvores decepadas, para onde os autocarros
como se dois invernos por cada ano nos rostos estampados dos que lá vão dentro
para quem euromilhões a afastar as funestas janelas da miséria
para onde as lágrimas agora que os rios, agora que os braços para as pontes
transitando despedidas

para onde em que lugar a que tempo
– cairá sol como pétalas, abrirão as chuvas como agulhas? –
móveis de inquilinos despejados
papeis arrastados, uma queda, um joelho sangrando
a malha da meia desfeita, o rímel pelo rosto como se não conhecesse o vale que abre
como virgem ribeiro entre as rugas que descobrem a solidão
a fome, a fome
a boca aberta e negra de fome
para onde?

9 de maio de 2008

fabulação


(daqui)


Fico sem graça porque me apanhas tão desnudado que me assemelho a um virgem tísico em núpcias todo cheio de tiques e timidez perante a noiva. E ainda que tu – tal qual a afectuosa noiva – me abras os lençóis e me convides a entrar no leito a teu lado

(vais rejeitar que não a teu lado, que não tens o talento)

eu continuo desajeitado e hesitante, tremeliques das pernas, cheio de vulcões na pele áspera, teimando em fazer-me invisível, espreitando em que buraco me hei-de enfiar. Que noiva me quer assim? Tísico, borbulhento, coberto de tufos de pelos, desajeitado, desconfiado e hesitante?

As palavras acumulam-se a uma velocidade tonta dentro da minha cabeça e a composição acaba sempre por descarrilar. Surge um texto a espaços de dias que são as sobras de um sonho, os esboços de uma epopeia, os escombros. São principalmente os escombros e a necessidade de libertar o meu espaço interior de tantas palavras que se acumulam.

São acidentes. São as borbulhas, os tufos de pelo. Os tremeliques. E vejo ao redor que não existe buraco onde me enfiar, vejo-te multiplicada em vozes que surgem de onde não suspeitava sequer um murmúrio, seduzindo-me

- Continua escrevendo.

E eu, como o nubente tísico, vou dando passos muito curtos, assustado com a maciez dos lençóis, mas – confesso – deslumbrado com a beleza do teu rosto, os contornos do teu corpo, com uma incerta expectativa do prazer que nos teus braços

(aos teus olhos)

irei encontrar, mimando o meu umbigo, mesmo que os tufos de pelos o encubram.

Se então explodires num êxtase desenfreado

(por favor não finjas)

eu prometo olhar-me novamente ao espelho e talvez reencontre o que já dei por perdido.

18 de abril de 2008

gosto dos teus seios


power lines, de A Brito em 1000 imagens


Gosto dos teus seios. A curva da nascente e o repouso imperioso, içada bandeira no cume dos mamilos. A ponderar os lábios e a ponta dos dentes. Como espuma e água na polpa dos meus dedos. Como rocha amparando os meus intentos. Como fogo a auréola do sol para os meus olhos. A receber afagos da maciez dos teus cabelos.

Um fruto de verão, e o suco escorrendo do meu queixo. Sabor silvestre, corpos quentes, perfume bravio. Pendular sobre o desejo ao fundo aberto na tua ferida de prazer. Pétalas e música. O gemido animal.

Duas luas cheias que recebem a via láctea espremida de mim a espasmos de calor. Plantados no teu jardim onde repouso o corpo exausto de anseios.

Gosto dos teus seios.

15 de abril de 2008

hoje


foto de Gonçalo Esteves em 1000 imagens


Hoje apenas tenho a dizer-te que não sei escrever. Vieste numa correria de ave desconcertada a cacarejar qualquer coisa sobre uma ideia genial, segundo a tua própria expressão, suspensa num sorriso escancarado. A boca e os lábios assim sorrindo seguiram os meus gestos até os músculos esforçados começarem a esmorecer. Não achas boa ideia, perguntaste, numa clara intenção indirecta de indagares sobre o meu silêncio e a minha indiferença face à tua estridente alegria. Sentei-me num movimento cansado, apoiei desanimado o rosto entre as mãos

(quando foi que estive também assim?)

e dei-te o mesmo valor que dou à secretária, às estantes, ao papel, e restantes objectos que perfilam assimetricamente nesta sala. Os livros sempre os considerei como objectos vivos, como qualquer vida vegetal, não se mexem, não se emocionam, mas crescem sempre que os leio uma e outra vez. Ainda assim, e perante o meu rosto mudo apoiado nas mãos, estão como qualquer planta que precisa de cuidado, podar umas folhas velhas, mexer a terra, regar… Mas há dias em que nada parece ter qualquer importância. Nem mesmo quando vens de sorriso escancarado, de ideias brilhantes a querer salvar o meu dia. E encho-me de ternura por ti quando compreendes que a tua saída em silêncio e em respeito pelo meu estado de espírito é a melhor atitude a tomar: hoje apenas tenho a dizer-te que não sei escrever. Volta, por favor, quando te deres conta das folhas verdes e viçosas, quem sabe venha a nascer então uma flor com que possas adornar os teus cabelos…

9 de abril de 2008

ainda mais


(daqui)


E volta a cadência da chuva entorpecendo-me os passos, os pés baralham-se em nós consecutivos junto aos lençóis de água, a cabeça à deriva na humidade, e os meus braços embrulhados num cinzento - nem por isso frio - que tinge a paisagem agora cercada de telhados brilhantes e gruas em movimento.

Eu havia saltado da cama um pouco aos trambolhões, completamente baralhado numa trapalhice infantil, para escrever um sonho sobre fábulas, eu vinha escrever sobre fábulas, e os pés faltaram-me, atados num silêncio de nós de água que desciam sem paciência dos lençóis - nem por isso frios - de uma cor parda que só as noites assim sabem delicadamente espalhar sobre a tela dos sonhos, esses estranhos edifícios da memória, cujas gruas em constante movimento são os desejos desarmados.

Eu vinha entorpecido nos passos da chuva, nesta cadência melancólica da humidade, que embrulhando-me os braços em nós de cinzento, me atrapalhava o pensamento - nem por isso frio - à deriva sobre os telhados como fábulas e

(o que veio a ser então, o que foi, o que me sucedeu?)

tudo o que havia para contar era um despertar fustigado pelo cansaço e a vontade de dormir ainda mais, ainda mais, ainda mais.

7 de abril de 2008

clausura


(daqui)


Os dias foram crescendo e sem que eu desse por isso

(dormindo, o trabalho, comendo, o trabalho, dormindo, o trabalho)

já as margaridas cobriam de branco os prados rebeldes de vento e verde jovens. Foram as chuvas, foi o sol adocicando as tardes, foram as chuvas novamente, e é Abril. E ora torna o sol, ora tornam as chuvas, de levezinho levantando o aroma da terra. O hálito perfeito espalhado como uma brisa, enquanto eu

(comendo, o trabalho, dormindo, o trabalho, comendo, o trabalho)

a esquecer-me no mofo dos papéis, entre paredes cariadas de humidades e bolores, com a fruta magoada nos dedos e os lençóis doridos no meu corpo.

Onde existo?, pergunto ao espelho que me reflecte de esguelha, como se a resposta

(dormindo, o trabalho, comendo, o trabalho, dormindo, o trabalho)

estivesse na fresta da janela esconsa de estores apodrecidos pelas chuvas que foram, pelo sol adocicando as tardes, e entre os sonos recordo o melro que mora sem sombras nem bolores ou lâmpadas com o seu ar de fadiga contra o fio de fumo dos cigarros queimados; o melro do outro lado da frincha onde um bocadinho das chuvas, um bocadinho do sol, perfeitamente alheio ao

(comendo, o trabalho, dormindo, o trabalho, comendo, o trabalho)

sabor amorfo da fruta magoada. E dos lençóis doendo-lhes o meu corpo. As únicas margaridas que pude ver enquanto tudo acontecia estavam numa fotografia a que o tempo deitou alguma piedade. O melro pareceu-me assobiar sempre.

4 de abril de 2008

o mundo versus eu


autor desconhecido


Acendes o cigarro sem entenderes patavina do meu mundo e abalas, com total indiferença. Sabes, fico como uma criança que vê alguém distribuindo doces por todas as outras crianças, esquecendo-se dela. E, tal como a criança, recolho-me na concha do meu mundo a conjecturar fatalidades. A inventar culpas que não me podem ser atribuídas. Porém, assimilo-as como que verdadeiras, e cuspo ao espelho, odiando-me. Culpas que jogam como agulhas traçando a direcção de todas a minhas acções, marcando os desvios virtuais e reais.

Um ressentimento vem fecundo de muitos outros, com aquele sofrimento das nobres paixões da alma. Que ferem como gumes espetados nos músculos paralisando-me os gestos por mais pueris. Surge a cama, na sua vocação tão solícita, do mesmo-a-calhar, e os estores empreendem a viagem de retorno da luz gorda do sol à magra compostura da escuridão. Os estores ferrados e amuados, solidários com o meu rosto que se esconde nos lençóis, deixando a dúvida sobre se as lágrimas.

Então, é aquela solidão mórbida. Dos pensamentos dicotómicos entre o acabar com tudo esvaziando a embalagem dos barbitúricos ou o quanto essa besta perde por me colocar de lado, todo de dentes aguçados.

Nunca sabemos para onde tombamos e, na pior das hipóteses, o dia pode ser deveras trágico acumulado de lugares-comuns dos tablóides sensacionalistas. Vi gente a acabar assim por uma ninharia. E esta morbidez de sombras, carregando a inveja para com os que se regozijam ao sol e ao calor dos últimos dias, deixa a aninhar-se sobre si, como galinha choca, a infame cobardia.

Muitas expressões podem descrever tal cenário, mas só se firma esta no meu pensamento quando, e se por acaso, racional:

- É nojento tudo isto.

E, com tudo isto, todo o mundo.

3 de abril de 2008

flores


foto de Luís Mendonça em 1000 imagens


Danças-me com flores à boca da madrugada. Suavemente subindo a coxa sobre o lençol. A concha amparando o teu ventre exala segredos de maresia. Acordas-me com beijos na palma das mãos, e abro os olhos desamparados na ténue escuridão. Sinto-te entre os dedos, em teias loucas e imaginárias. Dedilhando flores, desfolhando rosas, margaridas as tuas pernas, os teus braços.

Então depois o nada com o rastro do todo. Primavera e verão, um segundo como que um século. Mãos, línguas, odores, ansiedades. Multiplicado a cores. E a sombras. E a sangue.

Recobrando o sentido do espaço e do tempo, depois que o universo explodindo em turbilhão o animal dos desejos, largas-me o corpo numa floresta escaldada, com os lençóis em água. Vou perdendo as forças para o sono outra vez. Dentro do teu sorriso.

Num silêncio de tic-tacs vestes a camisola tirada do meu tronco. Colocas-me um beijo demorado sobre a face ainda ruborizada despertando-me por breves instantes do meu segundo sono. Ainda lembro de te ver, em movimentos contra o espelho: penteias o cabelo e são pétalas.

31 de março de 2008

dizer silêncio é ouvir a distância chorar


autor desconhecido


Escrever – sobre que escrever? Talvez o ócio e agora o silêncio da noite. Dizemos silêncio e sabemos que nada é silêncio. Será ouvir um distante soluçar?

Não vive em silêncio o nosso pensamento. O pensamento como rato farejando a noite, o pensamento como rato, na calada. O rato é animal que vive do silêncio, do pranto das distâncias.

Escrevo sobre como não posso ser noite nem rato, sobre o medo e a solidão. Não pode haver nem deve dizer-se silêncio. Dizer silêncio é ouvir a distância chorar. Dormir a tarde com a chuva embalando a vidraça da janela. Dizer silêncio é respirar o vento ou a brisa, é envelhecer com as mãos sobre o colo. O silêncio é uma ruga escrita com lágrimas. É dizer a pedra que não vê. A madeira que incha e seca consoante as marés. É o retalho das areias. É um pó. O luar. Falar emudecendo a palavra sim e a palavra não. É dizer uma morte. É chorar uma morte na distância. Como tudo agora vibra, confuso. Apenas ouvimos o horizonte: é o lugar dos outros. O lugar que podemos escutar e chamar

– silêncio!

ao sossego macio dos espíritos, à mansidão mágica dos corpos adormecidos. E a manhã, despertando a distância, enxugará com a sua brisa azul os nossos olhos. Ou nos sacudirá a água com um arrepio cinzento.

29 de março de 2008

pretextos


A hell of a sky, por Dinis Cortes em 1000 imagens


Sinto-me feliz, sabes?, como já há muito tempo me não sentia. Ficaram enterradas as angústias nas cavernas orgânicas do cérebro, e sei - sim, eu sei -, no sangue fizeram-me correr substâncias químicas que actuam como uma avalanche de imbecilidade sobre a entrada das cavernas onde encurralaram os problemas que me sobressaltavam, os pensamentos que me incomodavam, soterrando-os em escombros de apatia. Junto ao espelho raramente me reconheço: as pálpebras descidas, a boca invertida num arco pateta. Divirto-me com isso e não poucas vezes solto uma gargalhada perguntando ao espelho quem és tu?, embora possa garantir que ninguém me ouça rindo. Preenchem-me os dias de um cansaço sereno, a língua entaramelada de palavras gastas, como se sempre as mesmas. Pouca atenção dou ao que ouço se não me for dito cara com cara em que concedo um ahn desinteressado. E descanso depois com uma leitura leve, um filmezeco na tv sem muitos dramas ou excessiva acção e suspense, enquanto as pálpebras vão pesando vigílias onde já não entram sonhos estranhos. Ficaram perdidas as frustrações nos escombros. Não quero voltar atrás recuperá-las. Sabes, é que me sinto feliz, e que se foda o mundo, entendes? Prefiro assim do que ter a cabeça e o corpo numa ressaca permanente com problemas que, agora que a imbecilidade me ajudou a pensar melhor, fariam soltar dos olhos marés de angústias, nos dedos agulhas de frustrações, e sem qualquer motivo de interesse pelo seguir da vida. Sempre ouvi dizer que os idiotas são os mais felizes, mas remeto-me para aquela canção do Sérgio que explica Por pretextos talvez fúteis, a alegria é o que nos torna os dias úteis. A imbecilidade será por algum tempo o meu pretexto, até que possa novamente erguer os estores das minhas janelas. E renascer nos dias raros.

28 de março de 2008

vazio


autor desconhecido


A cadeira vazia e tantos livros por ler. A estante fria à espera de uma carícia, nem que apenas o toque das pontas dos dedos no correr das lombadas, como quem passa a mão no pelo do gato que ronrona um carinho. A estante vazia de afectos, e repleta de livros pedindo a minha atenção. A cadeira, de frente para a janela, evoca momentos passados, com a passagem das intempéries, a incandescência do verão, e a candura das madrugadas.

A cadeira e a estante comungam a mesma dor, enquanto o aparelho de som chora baixinho a música do pó.

Paredes. Papeis. Os quadros, as fotografias. Aqui respira-se sofregamente uma ausência notada. E por isso posso juntar-me aos objectos que se dizem inanimados de afecto: eu vazio e tantos livros por ler, tanta música por ouvir, tanta coisa por escrever.

27 de março de 2008

lógica do amor

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Centre Dimension, de Ivaylo Todorov em photobucket


Eu não sei como nem o porquê das pétalas da chuva que assombram os meus passos, num compromisso inadiável do dia seguinte, e eu convalescendo da dor da paixão e de entender a lógica do amor.

Se eu não podia - digam-me - enraivecer-me com essa gravidade dos sentimentos e dar um pulo significativo no horizonte onde as partículas das águas que correm de cima fossem do meu rosto o consolo convulsivo de um pranto necessário.

Exacerbam-se os sentimentos, efabulam-se palavras com requintes de chocolate, mutuam-se os corpos exaltados e aquilo que parecendo infinito desmorona-se em escombros de efemeridades. Tenta-se então perceber essa lógica do amor feito de vaivéns, do é e que já não é: precipitamo-nos convulsivos com a alma a desabar como se tudo fosse o primeiro e único fim.

Não sei como nem o porquê destas pétalas da chuva que pesam como chumbo sobre as pálpebras do meu amanhecer. Gastaria mares imensos de tinta a explicar, naufragando as palavras que pouco - ou mesmo quase nada - poderiam significar.