3 de abril de 2008

flores


foto de Luís Mendonça em 1000 imagens


Danças-me com flores à boca da madrugada. Suavemente subindo a coxa sobre o lençol. A concha amparando o teu ventre exala segredos de maresia. Acordas-me com beijos na palma das mãos, e abro os olhos desamparados na ténue escuridão. Sinto-te entre os dedos, em teias loucas e imaginárias. Dedilhando flores, desfolhando rosas, margaridas as tuas pernas, os teus braços.

Então depois o nada com o rastro do todo. Primavera e verão, um segundo como que um século. Mãos, línguas, odores, ansiedades. Multiplicado a cores. E a sombras. E a sangue.

Recobrando o sentido do espaço e do tempo, depois que o universo explodindo em turbilhão o animal dos desejos, largas-me o corpo numa floresta escaldada, com os lençóis em água. Vou perdendo as forças para o sono outra vez. Dentro do teu sorriso.

Num silêncio de tic-tacs vestes a camisola tirada do meu tronco. Colocas-me um beijo demorado sobre a face ainda ruborizada despertando-me por breves instantes do meu segundo sono. Ainda lembro de te ver, em movimentos contra o espelho: penteias o cabelo e são pétalas.

31 de março de 2008

dizer silêncio é ouvir a distância chorar


autor desconhecido


Escrever – sobre que escrever? Talvez o ócio e agora o silêncio da noite. Dizemos silêncio e sabemos que nada é silêncio. Será ouvir um distante soluçar?

Não vive em silêncio o nosso pensamento. O pensamento como rato farejando a noite, o pensamento como rato, na calada. O rato é animal que vive do silêncio, do pranto das distâncias.

Escrevo sobre como não posso ser noite nem rato, sobre o medo e a solidão. Não pode haver nem deve dizer-se silêncio. Dizer silêncio é ouvir a distância chorar. Dormir a tarde com a chuva embalando a vidraça da janela. Dizer silêncio é respirar o vento ou a brisa, é envelhecer com as mãos sobre o colo. O silêncio é uma ruga escrita com lágrimas. É dizer a pedra que não vê. A madeira que incha e seca consoante as marés. É o retalho das areias. É um pó. O luar. Falar emudecendo a palavra sim e a palavra não. É dizer uma morte. É chorar uma morte na distância. Como tudo agora vibra, confuso. Apenas ouvimos o horizonte: é o lugar dos outros. O lugar que podemos escutar e chamar

– silêncio!

ao sossego macio dos espíritos, à mansidão mágica dos corpos adormecidos. E a manhã, despertando a distância, enxugará com a sua brisa azul os nossos olhos. Ou nos sacudirá a água com um arrepio cinzento.

29 de março de 2008

pretextos


A hell of a sky, por Dinis Cortes em 1000 imagens


Sinto-me feliz, sabes?, como já há muito tempo me não sentia. Ficaram enterradas as angústias nas cavernas orgânicas do cérebro, e sei - sim, eu sei -, no sangue fizeram-me correr substâncias químicas que actuam como uma avalanche de imbecilidade sobre a entrada das cavernas onde encurralaram os problemas que me sobressaltavam, os pensamentos que me incomodavam, soterrando-os em escombros de apatia. Junto ao espelho raramente me reconheço: as pálpebras descidas, a boca invertida num arco pateta. Divirto-me com isso e não poucas vezes solto uma gargalhada perguntando ao espelho quem és tu?, embora possa garantir que ninguém me ouça rindo. Preenchem-me os dias de um cansaço sereno, a língua entaramelada de palavras gastas, como se sempre as mesmas. Pouca atenção dou ao que ouço se não me for dito cara com cara em que concedo um ahn desinteressado. E descanso depois com uma leitura leve, um filmezeco na tv sem muitos dramas ou excessiva acção e suspense, enquanto as pálpebras vão pesando vigílias onde já não entram sonhos estranhos. Ficaram perdidas as frustrações nos escombros. Não quero voltar atrás recuperá-las. Sabes, é que me sinto feliz, e que se foda o mundo, entendes? Prefiro assim do que ter a cabeça e o corpo numa ressaca permanente com problemas que, agora que a imbecilidade me ajudou a pensar melhor, fariam soltar dos olhos marés de angústias, nos dedos agulhas de frustrações, e sem qualquer motivo de interesse pelo seguir da vida. Sempre ouvi dizer que os idiotas são os mais felizes, mas remeto-me para aquela canção do Sérgio que explica Por pretextos talvez fúteis, a alegria é o que nos torna os dias úteis. A imbecilidade será por algum tempo o meu pretexto, até que possa novamente erguer os estores das minhas janelas. E renascer nos dias raros.

28 de março de 2008

vazio


autor desconhecido


A cadeira vazia e tantos livros por ler. A estante fria à espera de uma carícia, nem que apenas o toque das pontas dos dedos no correr das lombadas, como quem passa a mão no pelo do gato que ronrona um carinho. A estante vazia de afectos, e repleta de livros pedindo a minha atenção. A cadeira, de frente para a janela, evoca momentos passados, com a passagem das intempéries, a incandescência do verão, e a candura das madrugadas.

A cadeira e a estante comungam a mesma dor, enquanto o aparelho de som chora baixinho a música do pó.

Paredes. Papeis. Os quadros, as fotografias. Aqui respira-se sofregamente uma ausência notada. E por isso posso juntar-me aos objectos que se dizem inanimados de afecto: eu vazio e tantos livros por ler, tanta música por ouvir, tanta coisa por escrever.

27 de março de 2008

lógica do amor

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Centre Dimension, de Ivaylo Todorov em photobucket


Eu não sei como nem o porquê das pétalas da chuva que assombram os meus passos, num compromisso inadiável do dia seguinte, e eu convalescendo da dor da paixão e de entender a lógica do amor.

Se eu não podia - digam-me - enraivecer-me com essa gravidade dos sentimentos e dar um pulo significativo no horizonte onde as partículas das águas que correm de cima fossem do meu rosto o consolo convulsivo de um pranto necessário.

Exacerbam-se os sentimentos, efabulam-se palavras com requintes de chocolate, mutuam-se os corpos exaltados e aquilo que parecendo infinito desmorona-se em escombros de efemeridades. Tenta-se então perceber essa lógica do amor feito de vaivéns, do é e que já não é: precipitamo-nos convulsivos com a alma a desabar como se tudo fosse o primeiro e único fim.

Não sei como nem o porquê destas pétalas da chuva que pesam como chumbo sobre as pálpebras do meu amanhecer. Gastaria mares imensos de tinta a explicar, naufragando as palavras que pouco - ou mesmo quase nada - poderiam significar.

26 de março de 2008

fruto


foto de Luís Mendonça em 1000 imagens


A mão é o fruto delicado do teu corpo. Uma promessa de amparo e a expectativa do abrigo. Dedilhando afectos ou retorcendo agruras. A mesma mão que serenamente semeia e colhe a idade dos infantes. Monda o pão dos desejos. Sacode a hesitação dos maus amantes, segura a flor dos ousados. E o resto do corpo, servil e humilde, dá-lhe o mote desenfreado das íntimas explorações. É onde estou, é onde me vais buscar sempre que a mão enfim amadurece, deitada sobre o crepúsculo do êxtase. Como a mão é o fruto, grávido das suculentas investidas de tudo o que és!

24 de março de 2008

águas de março


A folha e a chuva, por Helcio A. Rocha em 1000 imagens


Tens de te conformar com a chuva que escorre dos céus. Um lugar-comum diria que as lágrimas. E continuaria com a morte de alguém, que felizmente tu ou eu não conhecemos. Ou, por outro lado, diria quão abençoado é aquele casamento, se porventura é sábado. E assim se fazem os dias cumprindo os lugares-comuns ditos e não ditos. Porém, sabes que não é isso. Não são os clichés que fazem os dias. Não são os clichés que explicam a chuva e o frio no dia em que tu preferias que raiasse o sol e pudesses vestir roupa mais leve, algo que envolvesse o teu corpo como numa pluma. Fosse este o dia em que pudesses cheirar as primeiras margaridas. E que te plantasses à beira-mar à espera dos raios oblíquos de um crepúsculo morno. É como se o dia lhe custasse a acordar, sacudir o sono da madrugada. Como se o dia fosse como tu: escondida na manta com que te aqueces, olhando pela janela a noite obstinada no tom plúmbeo do céu.

E ainda assim, a chuva é água clara. É luz, talvez, se observarmos bem. E retornando aos clichés, é esta a água que vem salvar da sede as tuas primeiras margaridas do ano. Sim, está escuro, é triste. Apontas-me o livro como se fosse a única coisa que te restasse. Isso de ler enquanto chove, minha querida, também é um lugar-comum. Ninguém pode ler enquanto chove. A verdade é que ninguém se conforma. Está muita gente à procura do mesmo que tu. E outros esperando o mesmo que eu: que essa manta se levante para cobrir uma tarde de amor feita de adocicados humores.

E pronto, termino assim para te não incomodar mais, num afecto carregado de clichés, enquanto os céus vertem as águas de março.

15 de março de 2008

voou


(daqui)


De costas e com medo: invejava as gaivotas que pairavam sobre ele, gritando o perigo da falésia. Tinha todos os músculos tensos e o rosto pálido, agreste. Os olhos fechados como quando o sol dói.

-Voa…

Um vento de norte cortou-lhe a respiração. Tomou dois passos atrás, retesado de medo e espanto. Abriu por instantes os olhos a fitar ainda o mundo de frente.

- Como será?...

Lembrou-lhe tudo: os cigarros esquecidos no bolso, o post-it no frigorífico desenhando a despedida, o copo de uísque que não chegou a beber. O molho de chaves balouçando na fechadura da porta que afinal não fechou. O carro coberto de pó e rodas enlameadas que não quis que o acompanhasse.

Só a trouxe pela mão a lembrar-lhe.

Lembrou-lhe os rostos e as vozes da véspera. Os suores que vieram de madrugada. A insónia. A boa noite entusiasmada do amigos, o bom dia indiferente da dona da pastelaria onde bebera o café matinal.

Lembrou-lhe as notícias do jornal que lera com a ânsia da premeditação e o fatalismo dos sinais.

Lembrou-lhe ela. E ela ali presente a tocar-lhe a mão. Era ela que lhe lembrava isto tudo.

- Como serei?...

Uma gaivota rasou-lhe o rosto, de bico estridente. Fechou os olhos, a esquecer o mundo de frente. Mas avançava de costas, como que recuando a um princípio de nada.

Tomou mais dois passos atrás. Ficou lívido: nas costas sentia o rugido do mar como uma boca de inferno escancarada.

- Voa…

Não se deu conta que no último passo atrás largava o chão. Sentiu a gravidade. Voou.

11 de março de 2008

a suspensão das respostas


(autor não identificado - daqui)


Dá-me razões para continuarmos adiante, pedi. Procurei por respostas e o teu rosto devolveu-me uma voz ausente borbulhando pontos de interrogação que se suspenderam no olhar indiferente que me dirigiste.

E os teus dedos: ajustando os nós brancos nas articulações com a ansiedade pousada irrequieta sobre o teu regaço como se um bicho assustado. Estudei a firmeza dos teus joelhos, a saia justa sobre as ancas e as coxas. Plantada como estátua fria. Uma malha caída nas meias elucidando-me o desmazelo, os sapatos revirados pelo constrangimento dos teus pés inquietos.

Levantei-me da cadeira à tua frente e deixei divagar sombras minhas pelas paredes. Pareceu-me que não tínhamos vizinhos naquele momento, embora tivesse distinguido o lento arrastar de uma chinela algures

(de cima, de baixo, do lado?)

ou talvez uma gaveta a abrir. É isto no que se transforma o silêncio: sons vagos entre os pensamentos que fervilham, e uma vez por outra

(quantos minutos decorridos?)

o frigorífico estremecendo. Do lado de fora das janelas alguma coisa também, indefinida,

(espera: um cão que late, uma porta batida?)

e afinal tudo isto eram segundos apenas: o tempo da paciência que esgotei entre ter-me levantado e retornado à cadeira colocada frente à tua indiferença de estátua. Porém, pensei ter visto um sorriso a esboçar-se de esguelha do teu rosto, ou quiçá um espasmo, não sei bem, algo que conseguiu refrear a ira com que tencionava investir em ti.

- Queres dizer alguma coisa, porra?!

A tua boca cuspiu-me como uma víbora que ataca de supetão a presa, ou a ameaça, e os meus queixos caíram: não quiseste dar-me as razões para continuar. As tuas ancas ainda permaneciam sem qualquer deslocação, e os sapatos quase voavam de frenesi. Só os nós dos teus dedos deram sinal de alguma acalmia, aliviados da pressão. Mas o peito ofegava. Ofegava o peito em ambos, gesticulando um para cada lado a suspensão das respostas desenhadas em pontos de interrogação que vogavam num falso silêncio.

9 de março de 2008

emancipação




Não sei se foi o silêncio que entrou cá dentro. Estava arquitectando as palavras, abstraído do movimento enquanto pela janela absorvia, inactamente, um quê de pulsar de gente, inconstâncias climatéricas, e outros ruídos que não sei já definir. Havia uma porção de vozes, isso com certeza, vozes de coisas vivas e de coisas mortas. Ou de coisas, simplesmente. Pouco me interessava o quê.

- Ouve esta que saiu no jornal.
- Ouço o quê?
- Isto que te vou ler.
- Vais ler o quê?
- O que saiu no jornal.

Pois, não sabia que coisas, e nem me interessava. Estava concentrado em estruturar o esqueleto destas ideias, ou melhor, onde assentar o alicerce das palavras certas, calculando as distâncias entre os pilares, já imaginando onde uma frase abriria uma porta, e depois

(como isto é tão engraçado)

já se vão erguendo paredes onde os sentidos nem parecem encontrar-se, e no entanto,

- Patético, não achas?
- O quê?
- O que acabei de ler.
- Acabaste o quê?
- Mas tu estás a ouvir-me ou não?
- Sim, sim…

depois de tantas voltas e reviravoltas, vai a ver-se e lá se vão reencontrando as ideias, tanto esforço e suor, e olha, cá está tudo no mesmo patamar; a gente luta e luta contra o encadeamento incerto das palavras, não lhes dá confiança, finge que não vê, esquematiza o melhor possível, rasga e fecha paredes, vai construindo alto, tão alto, e afinal são elas que se impõem, rasteirinhas

- Vai à merda.
- Vou onde?

e alinhando paredes, isto é, alinhando o esqueleto que já exige a carne o sangue os nervos, quando mesmo, quase mesmo, só faltando a epiderme os olhos a boca e a voz,

(os acabamentos, as arestas limadas)

- Vou onde, Beatriz?

nem Beatriz nem ruídos. Tudo suspenso. Eu não sei se foi o silêncio que entrou. O que sei é que quanto a escrever, tanto faz que comecemos pela base como pelo telhado. São elas, as palavras, que lideram o curso, como nascente que rebenta onde e quando menos suspeitamos.

9 de janeiro de 2008

geografia


Sensual, de Mário Sousa em 1000 imagens


A chuva incide hesitante no horizonte, espumando-o de névoa. A vidraça lacrimeja no exterior. Do lado de dentro duas brasas na lareira contestam o frio já moribundo, e uma garrafa de vinho para argumentar a temperatura dos humores.

- Vem para aqui,

insinuas-me, enquanto o meu olhar ainda se demora oblíquo no desfocado de algodão doce da tarde.

- Não ouves?, vem para aqui, para junto de mim.

Sorrio, esquecendo a boca arqueada de tantos meses. Fora um tempo em que não recordo os dias, de tão despojado me sentia da vida, deslizando para o fundo à medida que o sol se afastava e as horas seguravam a penumbra. E desde aí eu apenas um corpo lasso dentro de um quarto sem luz, sem que as janelas encontrassem qualquer razão para abrir.

Foi quando senti que as tuas mãos ardiam do fogo de que se move o mundo. Que o impossível era apenas uma hipótese descartável, isenta de fundamentos verdadeiros. Vieste devagar a deitar-te a meu lado, aquecendo-me as noites geladas, velando o meu semblante pétreo.

Um dia calhou que eu sorrisse, e do casulo enfiado brotaram borboletas como se a primavera ascendesse antes do tempo sob a almofada onde repousavas os cabelos. Não tinhas roupa nem vergonha, e a tua pele ofegava. Deste-me a provar-te, e ensinaste-me que mesmo no fundo era sempre possível amar.

Trouxeste-me assim para o dia de hoje. E ainda que o dia se acinzente de chuva indecisa, não regrido agora mais. Tornaram-se as janelas montras para que eu possa continuar o que desejara morto.

Deixo enfim a paisagem para lá da vidraça e vou para junto de ti. Apelas-me com o olhar, o gesto do ventre, a carícia do perfume. Enlaçamo-nos e reencontro-me em ti.

Porque, meu amor, tu és a justa geografia do meu corpo.

22 de dezembro de 2007

Domingo, 24 de dezembro de 2000


Curtains, de Armindo Dias em 1000 imagens


Deixaste-me os vasos que pintavas com as tuas mãos, e a pequena oliveira esticando os ramos frágeis sob o orvalho como órfãos de ti. A casa ainda tem o cheiro fresco da madeira nova, e no lugar da parede

(infinitamente branca)

onde pretendias colocar os nossos retratos, ergue-se uma sombra com ares de acolher fantasmas, talvez os fantasmas que me habitam desde a tua partida faz hoje vinte e quatro dias.

Escrevo-te entre os cigarros de que detestavas o aroma, e vejo por entre as frinchas dos estores as luzinhas tremelicando das janelas e varandas dos vizinhos. Este ano não há árvore de natal cá em casa, as tuas mãos voaram para latitudes extremas às minhas que entre soluços tremem e deslizam sobre a folha do papel

(infinitamente branca)

receando a velha solidão que avança entre o seu silêncio de passos largos. Veio instalar-se na tua poltrona preferida, a mesma onde te sentavas a ler magazines ilustrados, folheando com os teus dedos compridos o papel sedoso

(tão bem me sabia ouvir os teus dedos folheando o papel das tuas revistas).

E agora o silêncio definitivo, com a solidão instalada como que fazendo troça de mim, do meu rosto arqueado, dos meus lábios fundidos na sombra.

A esta hora fumegam as travessas do bacalhau e das batatas e legumes, velinhas acesas, o verde e o vermelho tão solenes sobre a mesa, os serviços de cristal e porcelana e o faqueiro de casquinha faiscando brilhos supérfluos, entre o burburinho quente de tantos rostos de tantas famílias, abraçando-se com palavras feitas na boca dos seus rostos. Pelo menos abraçam-se com palavras.

Disse-te ainda no verão que este ano passaríamos o natal na nossa nova casa

(«Este ano, venha quem vier, passo o natal na minha casa», lembras-te?),

ainda que carente dos móveis que querias tanto para a decoração que imaginaste. E de facto concretizou-se a profecia: cá estou na casa nova, ignorando os convites calorosos de dó do resto da família, a celebrar o natal ausente. Ausente da árvore de natal que só tu querias decorar, ausente das tuas mãos confeccionando os doces tradicionais, e dos teus dedos

(embalando ao folhear magazines ilustrados)

a que lambia os restos dos cremes e do açúcar. Ausente das tuas cores nos vasos que deixaste, sobrando tão vazios como está agora a casa, como se nada respirasse.

A minha consoada é um bolo-rei oferecido não sei por quem, acompanhado por tragos longos de whisky

(beber faz realmente esquecer alguma coisa?),

entre lágrimas que se perdem de mim. Com o telefone mudo. As paredes frias.

Vou ainda com alguma esperança ao computador espreitar nos chats alguém que vista esta mesma amargura, aquecendo o gargalo da garrafa de whisky na minha mão direita. Mas soma-se tudo em vão: não está ninguém, não há ninguém. E então a solidão não é afinal apenas a tua ausência. É também o medo gritando num sufoco sem voz. Sem nada para o ouvir.

Feliz natal.

4 de dezembro de 2007

insónias


fotografia de Hugo Félix em 1000 imagens

Se te perder, perco-me, e perder-te-ás.
(dez anos antes)

Corro pelas insónias como vagabundo de mim arrastando o desgosto de ti. A neblina nocturna adensou-se num nevoeiro cego pela madrugada dentro, varrendo a cidade ardida numa luz fosca.

E olhando a janela velada, escorro pelas memórias. Do dedilhar delicado das tuas rendas. Do desfolhar impreciso dos teus livros. Os teus olhos então cinzentos como agora a cidade lá fora

(em dias de sol espelhavam o esplendor do céu),

e a crepitação das brasas por trás dos teus cabelos.

- Acende a lareira, amor

pedias-me, de voz enternecida. Eu ateava-te o fogo, que se reflectia na humidade carnuda dos teus lábios. Dois ou três toros de madeira uniam-se na lareira pelas chamas libidinosamente provocadoras, atiçando. E eram então os nossos braços as nossas pernas os nossos corpos consumidos pelo impulso, um fogo ateado na inflamação dos lábios que se desejavam até às lágrimas. Corpos fremindo como se o mundo fosse apenas ali, durasse o instante em que perdíamos o equilíbrio de toda a periferia, do alheio, e os sentidos vagueavam entre o sangue e a voz na vez de nós.

Corro agora pelas lágrimas a multiplicar saudade com insónias. A neblina desceu densa sobre a cidade como se a tua ausência tivesse nascido no rio ou no mar, a instigar-me as madrugadas vivas de frio, clamando o ar gelado das solidões.

E olhando pela janela velada discorro a dor por tudo agora ser tão diferente de há dez anos atrás. Porque o eterno se tornou, sem aviso ou precaução, nesta insípida efemeridade. Tão absurdo de tão longe. Dez anos desde que nos perdemos em parte incerta.

Pelo menos o porquê? Nem isso.