15 de outubro de 2007

a semana




Foi a semana que nos separou, cercada de rotinas e alguns percalços sem deixar lugar para pensar bem no que nos foi acontecendo. Uma semana inteira de aborrecimentos baratos que, depois de contornados, foram afinal patetices, baboseiras

(gostar de ti?, não me recordo)

e os dias foram lentos porque um caroço que se nos atravessou na garganta, incomodativo: engolimos, tossimos, bebemos água e o caroço ainda, subindo e descendo com sabor a angústia. Víamos aos domingos os casais passeando a família, rebuscados em bicicletas, triciclos, carrinhos de bebé. E depois o seu sorriso imaculado como se nada os impedisse dessa felicidade que podemos perceber à distância. Os miúdos saltavam em mil tropelias, uns amuando birrentos, outros gargalhando a luz da tarde e o ar fresco que o outono facilita entre fulgores de sol quente.

Passou-se uma semana e a vida, ainda que por nada em vão, ficou desenxabida, voando num sentido circular, regressando ao começo de quando em ambos havia sorrisos nos dedos a apontar

- Gostar de ti?, sim gosto de ti!

ignorando que o caminho se bifurcava a partir daí, subvertendo as entrelinhas. As noites ganhando espaço sobre os dias e a solidão à escuta como caçador furtivo, camuflada nas sombras angulares das paredes, vírus adormecido que o medo desperta, devagar, tudo sem que desconfiássemos sequer. E então era adeus que dizíamos palmilhando calçadas diferentes, com a semana a abrir-se na flor dos aborrecimentos, das rotinas e dos percalços, coisinhas que depois de as contornarmos afinal não são mais que patetices, baboseiras

(gostar de ti?, não percebo, explica-te lá)

e os dias seguindo lentos, vezes sem conta isto: uma semana, duas, um mês, o semestre, acaba o ano e nós nada, não discernimos o quanto que de tudo podia haver se nos esforçássemos um pouco mais para que o entendêssemos. Não somos perfeitos mas é na imperfeição que nos vamos completando uns com os outros. Como uma soma. Mas connosco a aritmética falhou, essa equação encalhou num erro para o qual não tivemos inteligência suficiente para solucionar.

Por isso, agora assaltados por essa sensação estranha do vazio, batemos vezes sem conta com a cabeça nas paredes, à espera que por fim haja luz para que o coração e a mente não se repitam, desenxabidos como a vida,

- Gostar de ti?, não me recordo. Palavra que não.

8 de outubro de 2007

ainda o ar líquido do verão


Karin Kulmann (daqui)

Vens pela minha mão e dizes como é tão bom saborear o outono ainda com o ar líquido do verão. Pisamos a erva verde sob o brilho do sol, abrimos o olfacto à maresia, e seguimos para a areia abraçados caindo no chão num rebolar de risos e liberdade. Os teus cabelos soltam brisas, os teus olhos pérolas marítimas.

Quando nos chegamos com o rosto tudo ferve de côr. Os lábios aproximam-se, reconhecem-se, esmagam-se profundos. Comungam as línguas, os dedos, os ventres. O vagar dos braços como nós atando os corpos fremindo. Sim, como é bom viajar sobre ti colorida de outono e ainda com o ar líquido do verão.

Arrastas o passo vaidoso, o vestido subido acima dos joelhos, os pés colocando a pose do teu sorriso atrevido: gargalhadas adolescentes, famintas do mundo.

A alegria de sentir a vida como um sol vem tudo de ti. Pertenço-te, sem efemeridades.


7 de outubro de 2007

porque arde


fotografia de Hugo Félix em 1000 imagens


Doura a brisa que acompanha o estalejar da língua medindo no copo a sua sede. Sobre o rio vários e breves fulgores de céu espelham todo o estado de espírito que faz juz à leitura prazenteira. Deslizo sobre o fim da tarde com o dedo sobre as páginas e é um sabor multicolor que se vem na minha boca. Ela está do lado oposto, só, a apreciar a paisagem que se vai diluindo numa sombra lilás para um fundo quase negro, intercalado pela iluminação desmaiada das ruas. Obriga-me a penumbra a fechar o livro, na mesma consoante em que vislumbro o descruzar e cruzar das suas pernas doces de frescura. Sopram no silêncio os rumores da noite caindo, e um comboio ensurdece o eco sobre o rio, passando ansioso na linha mais lá para trás. Aproximo delicadamente as unhas junto à pedra que me faz de cadeira, de poltrona para o horizonte. A pedra arde áspera no céu dos meus dedos. Queria-a aqui, junto a mim, cruzando e descruzando as pernas, uma circulação sobre eixos imaginários, tagarelando parcelas de vida, coisas comuns. Vejo-a a entreabrir os lábios e é seda de rosa vermelha a insinuar promessas de beijos. Os olhos dela brilham e enternecem. A noite abre agora a porta para a cidade constelando na sua abóbada de faróis. Levanto-me convicto de que me espera. Hesito a ouvir a água do rio marulhando amores contra a costa. E imagino a sua presença acolher-me, de mãos vagarosas. Fecho os olhos como que... O sorriso dela levita-me no ar, perco o chão e a terra. Que farei, se tudo assim arde?


5 de outubro de 2007

na vez da boca


(daqui)


Não me preocupa a natureza dos teus impropérios. Vituperiosa já é a nossa existência grávida de equívocos. Somos feras assim que o sono nos afasta da inocência a mendigar atenções. Diz-se do mundo assim selvagem, do salve-se quem puder. E aprendemos a afiar as garras, a espreitar a vítima na próxima esquina. Saciamo-nos da miséria alheia ainda que a nossa seja abismal. Cuspimos para o ar sem dar atenção aos telhados de vidro, às cabeças que rolam imprudentes, imprecatadas do lixo e dos olhos gordos. Profetizam babosices as bruxas de picho riçado no lugar das melenas, e as fadas da ingenuidade encurralam-se lactantes num corridinho a salvar o mundo com estrelas e anjos e varinhas de condão. Já não há demanda para o homem, bicho cruel condenado pela caverna de onde nunca tirou os ossos.

Sacudo portanto os ombros, indiferente ao que me dizes, ao que me fazes. Virás na próxima esquina, quando de toda a delonga emergirem os teus medos encobertos - hoje são blagues, amanhã condenatórias heresias. E no ar sentirás um cheiro, uma sombra atroz, e nos teus ouvidos a morte arrastando covas à socapa. Mostrando-te os dentes a rugir.

E verás então quem fui, quem sou: o leão na vez da boca.

4 de outubro de 2007

confidente


(daqui)

Escrevo-te confidente de voz embargada de mágoa. Sobram os espaços entre as sombras, fragmentos de momentos que não vou poder esquecer. Nada sobra do meu olhar para lá do horizonte atlântico onde poiso o pensamento e me quedo ao frio ou à chuva. De garrafa de vinho na mão, a lamuriar o destino. E como tudo se esvai num gole, ofegante mas apaziguador, como as ondas que crescem furiosas e me deixam depois a rolar ternuras e mimos.

Lembro de ti como se fosses lanterna ou farol, embora perdido em águas turbulentas e de trevas arreigadas pelo pudor e pela vergonha. Lembro da tua boca, dos teus dedos cruzados como nós de madeira verde, e da forma como murmuravas encantos. Das tuas pernas apascentando perfumes e alvoradas. Lembro-me das tuas mãos: lívidas, tímidas, a contar um rosário. E no entanto tão solícitas que guardavam segredos de toda uma vida. Graciosas estendidas ao sol. Ansiosas quando tocando a transparência do vidro da janela cravejada de chuva. As tuas mãos que alimentavam os meus cabelos.

Eras a minha musa. Eras a fabulação dos faunos e faustos e ninfas do pouco que eu escrevia. Do pouco que eu sabia. De tudo que me havias ensinado.

Mas a escrever agora esqueço-te, numa atroz dor de cabeça. O que me dói mais é ter de te apagar, negar-te a seiva dos meus abraços. Porque inclinado, sorvo o resto da garrafa e encontro o mar, na derradeira tentativa de nos eternizarmos como um fóssil.

Meu amor, porque foi esta partida?

2 de outubro de 2007

agora sim

Agora sim: o rebuliço manteve-me acordado e posso respirar sem sentir o peso que ardia sobre a minha voz. Já não estarei aqui pelo quanto aqui estive. Vou erguer-me na escadaria onde corríamos brincando às escondidas, e rindo, sempre rindo. Não fazia pena quando chovia: fugíamos a ver o arco-íris. Não importava o vento: ululavamos aos papagaios de papel no sete-estrelo. Claro, e sempre sorrimos à cor dos malmequeres e das papoilas e sabíamos o sabor da brisa nos dias mais quentes. Devorávamos os gelados comprados com moedas gastas e nas mãos ficava o açúcar que se pegava entre os dedos. Éramos assim, e brincando à escadarias, erguia-me pela escondida voz que ardia sobre o leito, sorvendo a chuva que ululava ao vento, nas fotografias via-se o arco-íris fugindo para o seio dos malmequeres e das papoilas que gastávamos com moedas pegadas pelo açúcar da infância, e tudo não era aqui conforme foi ontem e é hoje e não será amanhã, porque agora sim, meu amor, se acordei, tenho o peito refrescado para te recitar, na voz que se afina beijando a pluma da manhã, o soneto com que adormeci:


Dezarrezoado amor, dentro em meu peito
tem guerra com a razão. Amor, que jaz
i já de muitos dias, manda e faz
tudo o que quer, a torto e a direito.

Não espera razões, tudo é despeito,
tudo soberba e força, faz, desfaz,
sem respeito nenhum, e quando em paz
cuidais que sois, então tudo é desfeito.

Doutra parte a razão tempos espia,
espia ocasiões de tarde em tarde,
que ajunta o tempo: em fim vem o seu dia.

Então não tem lugar certo onde aguarde
amor; trata traições, que não confia
nem dos seus. Que farei quando tudo arde?



(soneto de Sá de Miranda)

25 de setembro de 2007

não digas


fotografia de André Boto (daqui)


Não digas que vais embora assim, a despedires-te à porta, abrindo uma ferida sobre a luz da tarde. Não saberei render-te, o crepúsculo virá indiferente e a porta uma dor negra habitada por fantasmas mesquinhos, comigo numa espera imbecil de chinelo nos pés e pijama vestido, afundado no sofá, enquanto a lua subindo, pouco interessada sobre se foste se ficaste, e se eu.

Vai haver vestígios de qualquer coisa com algo de ti na televisão, e eu acobardado fugindo à tempestade emocional gerando remoinhos sob o meu peito, eu todo teso a dizer aguenta-te!, olhando para as pessoas desfilando no ecrã. Vai haver vestígios de qualquer coisa com algo de ti também na rádio, quando cansado estiver do sofá e for abrir a cama fria da tua ausência, ronronando música e vozes que não saberei escutar, eu num esforço todo tremeliques, a convencer-me: isto não é nada, vais ver que ela ainda volta, está aí não tarda, já se ouvem os passos dela, sossega.

E nada mesmo, não são os teus passos que se escutam pela porta escancarada de medo, ferida que dói, dói, dói e dói e a qual não saberei tratar, por mais ansiolíticos que tome para afugentar o pânico. Vou acordar numa manhã estéril de sentido. Ligar-me-ão os colegas lá do escritório preocupados, então não vieste trabalhar estás doente, e eu apenas: é a porta que permanece aberta, e eles coitados sem entender patavina, desligando o telefone e comentado em sussurros passou-se este, agora que temos aí os japoneses a chegar para fecharmos o negócio.

Não digas que vais embora, fecha a porta e abraça-me. Não foi nada, vais ver. Tudo continua como antes, podemos assistir aos concursos da televisão divertidos com os disparates das pessoas todas nervosas a responder, e depois, quando o sofá se cansar de nós, abrimos a cama e aquecemo-la com os nossos braços as nossas pernas, as bocas e os hálitos, e adormecemos com a música ronronando baladas noite fora na rádio. Amanhã fecho os negócios com os japoneses, vais ver, tudo na mesma, e nem vou sequer precisar dos ansiolíticos, não há pânico nem nada dói se fechares essa porta depressa, depressa, depressa, agora, por favor.

Não quero acordar amanhã com a vida a doer-me em cima, saber-me sozinho e que dali em diante correrei mundo a mendigar rostos, ombros e colos para cá virem a casa, com ciência de peritos a verificar o que diabo terá a porta para me magoar assim tanto.

18 de setembro de 2007

levaste a morrer o dia


Anne Ferran


E onde deixaste correr as lágrimas, a fadiga veio sobranceira ao teu corpo para te tragar adormecida num abandono imerecido. Inquietam-te os sonhos abortados em pesadelos, mas não é isso que te desocupará agora do sono que ferraste.

Levaste a morrer o dia, estrebuchado no sofá a que te rendeste, com o lenço enrodilhado nos nós dos dedos de tanto morderes a dor. Uma nesga de sol procura-te no espaço entre os móveis, sacudida por uma cortina ténue de pó. Foi recolhendo devagarinho à paciência da janela numa descida de sombras disformes, acabando num silêncio de relógio de parede, acrescentando tempo a nadas, abstracções da tua ausência.

O teu corpo aí adormecido no colo do sofá, indefeso e em posição fetal. O rosto sulcado pelo sal das lágrimas evaporadas. Órfã de beijos, ombros e abraços. O mundo prossegue grotesco com a infidelidade de não saber reconhecer este teu sofrimento. Protege-te apenas a sombra, engolindo os ângulos das paredes, velando-te com um sussurro de preces.

Esperam-te os escombros quando pressentires o rendilhar espantoso da manhã. Então vais morder as aparências, ainda que enlutada pelo esquecimento.

16 de setembro de 2007

por medo


foto de Francis Leonardo Cirino (encontrada aqui)


Se tudo continua por dizer e palavra alguma se acrescenta. E no entanto a suspensão dos lábios, as reticências no olhar sobre a lisura da parede. Esboçam-se gestos no vazio, as mãos gaguejando exclamações moribundas, os dedos apontando interrogações desarticuladas como se tornadas blasfémias, a conspurcar a moral enquanto se vão colocando dúvidas acossadas na última página de um livro pobre a que se acaba o papel, sem espaço para o “e depois?”, e as palavras descarriladas, vertiginosas, sem vocação para o abismo. Fica-se de boca aberta soletrando o silêncio, num caos de disfóricas onomatopeias para o medo.

O medo! E tão tarde é agora para recear, para temer. Sacode-se a comoção com um suspiro lento, os braços levitados desmaiam-se sob a gravidade do peso, e o corpo é um hábito cansado, uma masmorra ofegante, insidiosa e diluta ruína.

Por dizer palavra alguma se acrescenta. Porém o horizonte chora, murmurando a distância. Como se – e com pouco ou nada: a boca treme nos seus últimos espasmos, vindo a morrer fragmentada quando tudo enfim se quer e se transforma em objecto dispensável.

8 de setembro de 2007

monotonias


autor desconhecido


Madrugam os espaços obliquamente transpirados pela tua presença. Segue em espiral o fumo dos cigarros numa subida estéril a confundir-se contra a luz pendurada do tecto. As cinzas amontoam quartas-feiras despojadas da carne e da gula.

São monotonias inscritas a vinho. A uni-ball repousa alarde junto ao bloco de papel branco a imitar mestrias sábias de naturezas mortas. Afago a textura da minha barba e sobra-me preguiça para a noite inteira. Os olhos movem-se de descarada indiferença.

Observas-me bebida por uma sombra de arestas de parede. Ondula a música lacónica. E depois um silêncio invocando mosquitos e o pó das estantes. Vem de novo a música simulando novo acorde para ir morrendo ruidosa, inconsistente.

Seduzo com os dedos o meu baixo-ventre em volúpias desnecessárias como se te ignorasse ou não houvesse o sexo em ti. Encostas o ombro à imobilidade da mesa, sorvida no mesmo canto entre arestas, imprecisa. Monótona. Sem te preocupar dares conta de mim.

Inspiro o cheiro virgem do bloco de papel branco incinerando-o com o bafo das minhas narinas, de cabeça largada sobre o tampo da mesa, enquanto a preguiça se contém no meu polegar a acariciar-me a glande, desleixada a mão sob os boxers.

Deixo madrugar assim o ambiente até ao cambalear do sono. As pálpebras a inquietarem-se ridículas como moscas em fim de estação. O bocejo transpira tranquilamente perante a tua presença. Gases intestinais, alarves. Escorrega-te já o fino fio de saliva abaixo do queixo.

Vou apagar a luz, numa desordem de gestos pueris, e bebo, conspurcado, o resto do vinho.

30 de agosto de 2007

serafim

Quando vier o mundo, estarei ébrio de ternura. Delicadamente obsceno, sujo e medonho como vão morrendo os inocentes na guerra.

Quase santificado, para quem se reverterão as preces e as crenças. Serei os nomes, serei o céu e a terra uniformes, água e ar e fogo, serei o signo. Adulado por babas incomensuráveis, salivas deslizando como mel, como ouro.

Trarei estridente a mais pura das vontades de viver. Contraindo poder e agindo como contra poder. Bandeira de império, rei incontestado, patriarca, o enviado. Pouco menos que Messias regressado e porém na sua vez. Ao meu sono suspirando guardiães seráficos, áureas e santos, tontearias de circunstância.

Estarei e serei sempre o futuro: quando o mundo vier, soarei profano e profeta.

28 de agosto de 2007

depressão


autor desconhecido


A linha do horizonte é recortada pelas memórias, num vai e vem instável. Recolhem-se os objectos no escuro engolidos pelas sombras pardas do entardecer, o sangue da última luz do dia repousa coalhado no solo fertilizando vãs esperanças.

O grito é uma voz impotente. Toda a força da voz é sussurrada e em surdina. Impondo silêncio.

Persegue-te a serra, entrecortando a linha do horizonte sob as crinas das nuvens fustigadas pelo vento, vindo escuras e agoirentas. Empurram-te para o mar, diluindo o ocidente na luz fosca que cai agora enquanto recolhes o olhar.

Guardas-te pelo crepúsculo e esperas que escureça definitivamente. Vais mergulhar no medo orgânico e retirarás das tuas lágrimas pesadas mágoas que abafam o mundo. Para mais nada, para um nunca mais. Sem que ninguém te perceba, sem que uma mão, um braço, um ombro. Ao abrires palidamente os olhos, choverá em teu redor.

Não saberão resgatar-te.

22 de agosto de 2007

solidão morta

No princípio ainda vinhas beber do meu olhar vazio a sede das noites com que os teus sonhos te inquietavam. Depois a tua imagem deixou de ser material, fantasma colhido do espelho adormecido na sombra. Acabaste como uma memória vaga, solta pelas palavras que partiram da tua boca violeta tingida de indiferença quando disseste que não podia mais ser.

Ainda hoje equaciono: não podia ser mais o quê, quando nem quê nem mais para prosseguir?

Poderá este meu olhar vazio amar-te na dor concebida para lá das margens do meu leito tolhido de doença? Fugiste de mim e deixaste um deserto frio. Morro aqui, como navio encalhado entre rochas e sei, não virás ver-me como o fenómeno que partiu.

Morro imunodeficiente. A única ideia que quero com que fiques é que o frio é uma solidão morta.