25 de setembro de 2007

não digas


fotografia de André Boto (daqui)


Não digas que vais embora assim, a despedires-te à porta, abrindo uma ferida sobre a luz da tarde. Não saberei render-te, o crepúsculo virá indiferente e a porta uma dor negra habitada por fantasmas mesquinhos, comigo numa espera imbecil de chinelo nos pés e pijama vestido, afundado no sofá, enquanto a lua subindo, pouco interessada sobre se foste se ficaste, e se eu.

Vai haver vestígios de qualquer coisa com algo de ti na televisão, e eu acobardado fugindo à tempestade emocional gerando remoinhos sob o meu peito, eu todo teso a dizer aguenta-te!, olhando para as pessoas desfilando no ecrã. Vai haver vestígios de qualquer coisa com algo de ti também na rádio, quando cansado estiver do sofá e for abrir a cama fria da tua ausência, ronronando música e vozes que não saberei escutar, eu num esforço todo tremeliques, a convencer-me: isto não é nada, vais ver que ela ainda volta, está aí não tarda, já se ouvem os passos dela, sossega.

E nada mesmo, não são os teus passos que se escutam pela porta escancarada de medo, ferida que dói, dói, dói e dói e a qual não saberei tratar, por mais ansiolíticos que tome para afugentar o pânico. Vou acordar numa manhã estéril de sentido. Ligar-me-ão os colegas lá do escritório preocupados, então não vieste trabalhar estás doente, e eu apenas: é a porta que permanece aberta, e eles coitados sem entender patavina, desligando o telefone e comentado em sussurros passou-se este, agora que temos aí os japoneses a chegar para fecharmos o negócio.

Não digas que vais embora, fecha a porta e abraça-me. Não foi nada, vais ver. Tudo continua como antes, podemos assistir aos concursos da televisão divertidos com os disparates das pessoas todas nervosas a responder, e depois, quando o sofá se cansar de nós, abrimos a cama e aquecemo-la com os nossos braços as nossas pernas, as bocas e os hálitos, e adormecemos com a música ronronando baladas noite fora na rádio. Amanhã fecho os negócios com os japoneses, vais ver, tudo na mesma, e nem vou sequer precisar dos ansiolíticos, não há pânico nem nada dói se fechares essa porta depressa, depressa, depressa, agora, por favor.

Não quero acordar amanhã com a vida a doer-me em cima, saber-me sozinho e que dali em diante correrei mundo a mendigar rostos, ombros e colos para cá virem a casa, com ciência de peritos a verificar o que diabo terá a porta para me magoar assim tanto.

18 de setembro de 2007

levaste a morrer o dia


Anne Ferran


E onde deixaste correr as lágrimas, a fadiga veio sobranceira ao teu corpo para te tragar adormecida num abandono imerecido. Inquietam-te os sonhos abortados em pesadelos, mas não é isso que te desocupará agora do sono que ferraste.

Levaste a morrer o dia, estrebuchado no sofá a que te rendeste, com o lenço enrodilhado nos nós dos dedos de tanto morderes a dor. Uma nesga de sol procura-te no espaço entre os móveis, sacudida por uma cortina ténue de pó. Foi recolhendo devagarinho à paciência da janela numa descida de sombras disformes, acabando num silêncio de relógio de parede, acrescentando tempo a nadas, abstracções da tua ausência.

O teu corpo aí adormecido no colo do sofá, indefeso e em posição fetal. O rosto sulcado pelo sal das lágrimas evaporadas. Órfã de beijos, ombros e abraços. O mundo prossegue grotesco com a infidelidade de não saber reconhecer este teu sofrimento. Protege-te apenas a sombra, engolindo os ângulos das paredes, velando-te com um sussurro de preces.

Esperam-te os escombros quando pressentires o rendilhar espantoso da manhã. Então vais morder as aparências, ainda que enlutada pelo esquecimento.

16 de setembro de 2007

por medo


foto de Francis Leonardo Cirino (encontrada aqui)


Se tudo continua por dizer e palavra alguma se acrescenta. E no entanto a suspensão dos lábios, as reticências no olhar sobre a lisura da parede. Esboçam-se gestos no vazio, as mãos gaguejando exclamações moribundas, os dedos apontando interrogações desarticuladas como se tornadas blasfémias, a conspurcar a moral enquanto se vão colocando dúvidas acossadas na última página de um livro pobre a que se acaba o papel, sem espaço para o “e depois?”, e as palavras descarriladas, vertiginosas, sem vocação para o abismo. Fica-se de boca aberta soletrando o silêncio, num caos de disfóricas onomatopeias para o medo.

O medo! E tão tarde é agora para recear, para temer. Sacode-se a comoção com um suspiro lento, os braços levitados desmaiam-se sob a gravidade do peso, e o corpo é um hábito cansado, uma masmorra ofegante, insidiosa e diluta ruína.

Por dizer palavra alguma se acrescenta. Porém o horizonte chora, murmurando a distância. Como se – e com pouco ou nada: a boca treme nos seus últimos espasmos, vindo a morrer fragmentada quando tudo enfim se quer e se transforma em objecto dispensável.

8 de setembro de 2007

monotonias


autor desconhecido


Madrugam os espaços obliquamente transpirados pela tua presença. Segue em espiral o fumo dos cigarros numa subida estéril a confundir-se contra a luz pendurada do tecto. As cinzas amontoam quartas-feiras despojadas da carne e da gula.

São monotonias inscritas a vinho. A uni-ball repousa alarde junto ao bloco de papel branco a imitar mestrias sábias de naturezas mortas. Afago a textura da minha barba e sobra-me preguiça para a noite inteira. Os olhos movem-se de descarada indiferença.

Observas-me bebida por uma sombra de arestas de parede. Ondula a música lacónica. E depois um silêncio invocando mosquitos e o pó das estantes. Vem de novo a música simulando novo acorde para ir morrendo ruidosa, inconsistente.

Seduzo com os dedos o meu baixo-ventre em volúpias desnecessárias como se te ignorasse ou não houvesse o sexo em ti. Encostas o ombro à imobilidade da mesa, sorvida no mesmo canto entre arestas, imprecisa. Monótona. Sem te preocupar dares conta de mim.

Inspiro o cheiro virgem do bloco de papel branco incinerando-o com o bafo das minhas narinas, de cabeça largada sobre o tampo da mesa, enquanto a preguiça se contém no meu polegar a acariciar-me a glande, desleixada a mão sob os boxers.

Deixo madrugar assim o ambiente até ao cambalear do sono. As pálpebras a inquietarem-se ridículas como moscas em fim de estação. O bocejo transpira tranquilamente perante a tua presença. Gases intestinais, alarves. Escorrega-te já o fino fio de saliva abaixo do queixo.

Vou apagar a luz, numa desordem de gestos pueris, e bebo, conspurcado, o resto do vinho.

30 de agosto de 2007

serafim

Quando vier o mundo, estarei ébrio de ternura. Delicadamente obsceno, sujo e medonho como vão morrendo os inocentes na guerra.

Quase santificado, para quem se reverterão as preces e as crenças. Serei os nomes, serei o céu e a terra uniformes, água e ar e fogo, serei o signo. Adulado por babas incomensuráveis, salivas deslizando como mel, como ouro.

Trarei estridente a mais pura das vontades de viver. Contraindo poder e agindo como contra poder. Bandeira de império, rei incontestado, patriarca, o enviado. Pouco menos que Messias regressado e porém na sua vez. Ao meu sono suspirando guardiães seráficos, áureas e santos, tontearias de circunstância.

Estarei e serei sempre o futuro: quando o mundo vier, soarei profano e profeta.

28 de agosto de 2007

depressão


autor desconhecido


A linha do horizonte é recortada pelas memórias, num vai e vem instável. Recolhem-se os objectos no escuro engolidos pelas sombras pardas do entardecer, o sangue da última luz do dia repousa coalhado no solo fertilizando vãs esperanças.

O grito é uma voz impotente. Toda a força da voz é sussurrada e em surdina. Impondo silêncio.

Persegue-te a serra, entrecortando a linha do horizonte sob as crinas das nuvens fustigadas pelo vento, vindo escuras e agoirentas. Empurram-te para o mar, diluindo o ocidente na luz fosca que cai agora enquanto recolhes o olhar.

Guardas-te pelo crepúsculo e esperas que escureça definitivamente. Vais mergulhar no medo orgânico e retirarás das tuas lágrimas pesadas mágoas que abafam o mundo. Para mais nada, para um nunca mais. Sem que ninguém te perceba, sem que uma mão, um braço, um ombro. Ao abrires palidamente os olhos, choverá em teu redor.

Não saberão resgatar-te.

22 de agosto de 2007

solidão morta

No princípio ainda vinhas beber do meu olhar vazio a sede das noites com que os teus sonhos te inquietavam. Depois a tua imagem deixou de ser material, fantasma colhido do espelho adormecido na sombra. Acabaste como uma memória vaga, solta pelas palavras que partiram da tua boca violeta tingida de indiferença quando disseste que não podia mais ser.

Ainda hoje equaciono: não podia ser mais o quê, quando nem quê nem mais para prosseguir?

Poderá este meu olhar vazio amar-te na dor concebida para lá das margens do meu leito tolhido de doença? Fugiste de mim e deixaste um deserto frio. Morro aqui, como navio encalhado entre rochas e sei, não virás ver-me como o fenómeno que partiu.

Morro imunodeficiente. A única ideia que quero com que fiques é que o frio é uma solidão morta.

19 de agosto de 2007

cinco minutos


autor desconhecido

Give me please five minutes of everything
The Gift, Film



Concede-me a voz entre os dedos mortos. Deambulando sozinho de sombra em sombra, a pedir a portas estranhas a esmola de um rosto que me ampare a solidão de te perder. Caiu a noite sem aviso de luto sem reverso, tão negro que me parece não haver jamais novas auroras, reciclagens, ranhuras de terra onde possam ainda corações florir.

Foste o último jardim entre os meus gestos. Quedam-se as coisas tão vulneráveis junto aos nós dos teus dedos, ensarilhados uns nos outros sem entendimento. As camélias e os lírios tropeçam em orações com os círios carpindo as despedidas imprevistas. Sussurram os rostos das pessoas cumprimentando-se dolorosamente, sob a luz dos candelabros mais altos numa grosseira atitude de indiferença quando lhes equaciono se na verdade partes, se voltas ressuscitando, se tudo não será um sonho descabido, se afinal tudo isto não é.

A terra engolir-te-á, amanhã, depois. E eu sem fôlego para gritar vou deixar-te ir sem te mostrar o quanto os dias foram raros. Restará uma efemeridade nunca prevista, nunca contada. Como se no fundo não tivesse havido nada, com isto do tempo encalhando e desencalhando. Concede-me a voz final entre os dedos mortos. Cinco minutos de tudo para te reviver, e guardar.

Depois partes então, se assim o mundo quer, se assim se fez o mundo. Os meus dedos recolherão, inconsolados, junto às memórias.

13 de agosto de 2007

virgens


autor desconhecido

para a Alice


Sigo lentamente com o papel virgem sem me levar a parte alguma, apenas desencontros em esquinas incertas. E tu, do outro lado, rejeitando amores medíocres, tentativas de aproximação insonsas. Ambos sabemos o quanto a virgindade do papel nos seduz: salivamos como cães de pavlov, irrequietos até que a tinta, tal qual falo profanador, sacuda com nódoas, palavras e riscos toda essa pureza inocente dos papéis.

Dizem-nos, alarves, para que ergamos as palavras num grito.

Não compreendem: o nosso cio permanecerá enquanto soubermos que os papéis virgens vingarão. E perante isso não podemos urdir o grito, lamentando o quanto a voz se indigna, impotente.

Não que isso seja sinal de fraco abandono, de preguiçoso desleixo. Apenas a ambição assombrada pelos fantasmas ignaros do fracasso.

Eu e tu sabemos: o nosso grito que reclamam cairá no mundo quando todas as palavras souberem seduzir, em espaço e tempo adequados, todos os corpos virgens que anseiam ser escritos. Até que isso aconteça, são preliminares, ou, em último caso, orgasmos estéreis de masturbações experimentais.

9 de agosto de 2007

húmido


1000 imagens


Em todos os sonhos todas as mulheres me esperam de morangos e feno à boca dos seios, em todos os sonhos canções multiplicando as vozes por mais mil emoções com deus nas cascas carnudas dos pinheiros conciliando harpas e gotas e dedos cujas polpas bebem os humores das manhãs como sopa de sol e orvalho.

Em todos os sonhos sou falo e húmido e rasgo a terra com fome da minha pele liquefeita no húmus, e são vulvas e são olhos com que beberei suspenso a sede na taça de água gotejando sob as folhas verdes e fulvas dos olmos.

Posso erguer o meu altar dentro do triângulo invertido do prazer onde brota fonte de sucos, de todos os sonhos suspendo a voz para falar e se sonhando esquecer, em todos os sonhos sei que posso loucamente, desvairadamente, frenético, e sem soluçar, imolando-me numa explosão de tudo onde queres ouvir o verbo, foder-te.

És em todas o suco de sangue da fruta desfeita das mulheres que me esperam a balbuciar nos meus lábios – toma-me esventra-me, vem dentro de mim procurar o que em todos os sonhos pode vir, e ser, e acontecer.

7 de agosto de 2007

sem nada entre


(daqui )


Vem abraçar-me. Redobrar as forças do teu peito sobre mim, naquela longa carícia, tão terna, dos dois corpos conjugados. Encostar o sol às paredes para deixar respirar a fadiga. Vem tomar o olhar de perto à minha pele abandonada ao ciclo moribundo das solidões. Faz sentir-me um pouco mais de mim, em ti, sem constrangimento das lágrimas, ou o peso da saudade que entorpece a voz de soluços. Apenas um abraço, apertando como se mais nada fosse o mundo antes e depois. Como se mais nada fosse o tempo, com ou sem estações do ano, excluir o dia e a noite, como se mais nada senão o útero. Vem dar-me o colo onde nasci, puro e limpo, vestido e sujo de inocência.

Afasta as lágrimas, minhas e tuas. Corre as cortinas para que entrem as sombras dos pardais dançando no chão iluminado. Vem morar aqui, a abraçar-me. Apertados. Que nada urja, que nada cresça, que nada se dissolva ou esmere. Não fales, não serão precisos os lábios, nem os beijos, nem a voz, nem a saliva. Somente a força dos teus braços, sacudindo tempestades. A quebrar o equilíbrio das monotonias. Sem que haja o que fomos. Sem que haja o que havemos de ser. Abrimos palácios, fechamos castelos. Roemos a fome, bebericamos a aridez. E levantamos remoinhos complexos, a esquecer quaisquer leis da física. Como se tudo abafasse e terminasse cá dentro.

Cá dentro em nós, num abraço apertado sem nada entre.

5 de agosto de 2007

as viúvas



As viúvas saem para o sol a carpir as moléstias do caminho, espezinhando areias como quem cospe para serpentes rastejantes. Sacodem a sede entre os lenços negros, de olhos postos no nada como se a paisagem apenas desarranjos de cinzas. Saem com esperanças entre cruzes latejando nos peitos, e nos lábios murmúrios que soletram o segredo da amargura do mundo num dia solarengo e esplendoroso.

(opus domini)

As viúvas herdam os rostos das sombras, os fantasmas paridos do passado. Os intervalos do granito. Clamam de mãos engelhadas aos céus, orgulhosas da frigidez das suas vulvas. Martirizam com rosários as suas carnes velhas, seculares.

Definham de saliva. Com o seu sorriso morto entre as gretas da escuridão. Não falam de cor, não conversam: as ladainhas sobem quilómetros de estradas votadas em sacrifícios para espiar os pecados do mundo.

(ora pro nobis)

Salvam para a eternidade os netos do mundo. Salvam os corações ao alto. Intercedem, prevenindo apocalipses: um punhado mais de areia – apelam. E louvado seja o senhor.

(dominus vobiscum)

30 de julho de 2007

lugares-comuns


foto de Susana Ferreira em 1000 imagens



Trocando em Miúdos, por Chico Buarque

Sabes, há dias em que é obrigatório parar e reflectir. Sei que é um cliché gasto e tu olhas-me de lado num tom de “que vem a ser isto agora?”. A vida é um perfeito cliché, meu amor, feita de todos os lugares-comuns que conheces. Atravessa-nos o corpo e a alma sem dó nem piedade. Falta-nos sempre o alguma coisa que vem afinal a ser tudo. E não alcanças, talvez nem almejes o pouco que falta, o tudo que é nada. Agora o que te peço é que me ouças, bebericando a tarde no teu copo multicolor.

Vim agora mesmo de ver o mar, e perdi-me, afogado, no turbilhão das memórias. Se as contasse teria que fazer uma canoa, ou uma jangada com as palavras. As tuas perguntas, sempre curiosas, seriam o remo e o leme. A minha mão como uma tabela das marés. E a tua boca, sem cuidado, rochedo firme e encalhado, ou talvez – se é com um bocejo que me ouves – a ponta do iceberg traiçoeiro.

De maneira que, e à semelhança do lugar-comum do desencontro, deixo-te um molho de chaves, dois passes de metro - não te vás perder por aí – e despeço-me. Como nesta canção do Chico. Tudo o resto sobra, é pano a mais. Como te disse, perdi-me. Sem fio de Ariadne. Já sei que não gostas de teias nem de aranhas. Mas foram as tuas mordeduras que me ficaram.

O resto é teu. Sem lugares-comuns.