7 de agosto de 2007

sem nada entre


(daqui )


Vem abraçar-me. Redobrar as forças do teu peito sobre mim, naquela longa carícia, tão terna, dos dois corpos conjugados. Encostar o sol às paredes para deixar respirar a fadiga. Vem tomar o olhar de perto à minha pele abandonada ao ciclo moribundo das solidões. Faz sentir-me um pouco mais de mim, em ti, sem constrangimento das lágrimas, ou o peso da saudade que entorpece a voz de soluços. Apenas um abraço, apertando como se mais nada fosse o mundo antes e depois. Como se mais nada fosse o tempo, com ou sem estações do ano, excluir o dia e a noite, como se mais nada senão o útero. Vem dar-me o colo onde nasci, puro e limpo, vestido e sujo de inocência.

Afasta as lágrimas, minhas e tuas. Corre as cortinas para que entrem as sombras dos pardais dançando no chão iluminado. Vem morar aqui, a abraçar-me. Apertados. Que nada urja, que nada cresça, que nada se dissolva ou esmere. Não fales, não serão precisos os lábios, nem os beijos, nem a voz, nem a saliva. Somente a força dos teus braços, sacudindo tempestades. A quebrar o equilíbrio das monotonias. Sem que haja o que fomos. Sem que haja o que havemos de ser. Abrimos palácios, fechamos castelos. Roemos a fome, bebericamos a aridez. E levantamos remoinhos complexos, a esquecer quaisquer leis da física. Como se tudo abafasse e terminasse cá dentro.

Cá dentro em nós, num abraço apertado sem nada entre.

5 de agosto de 2007

as viúvas



As viúvas saem para o sol a carpir as moléstias do caminho, espezinhando areias como quem cospe para serpentes rastejantes. Sacodem a sede entre os lenços negros, de olhos postos no nada como se a paisagem apenas desarranjos de cinzas. Saem com esperanças entre cruzes latejando nos peitos, e nos lábios murmúrios que soletram o segredo da amargura do mundo num dia solarengo e esplendoroso.

(opus domini)

As viúvas herdam os rostos das sombras, os fantasmas paridos do passado. Os intervalos do granito. Clamam de mãos engelhadas aos céus, orgulhosas da frigidez das suas vulvas. Martirizam com rosários as suas carnes velhas, seculares.

Definham de saliva. Com o seu sorriso morto entre as gretas da escuridão. Não falam de cor, não conversam: as ladainhas sobem quilómetros de estradas votadas em sacrifícios para espiar os pecados do mundo.

(ora pro nobis)

Salvam para a eternidade os netos do mundo. Salvam os corações ao alto. Intercedem, prevenindo apocalipses: um punhado mais de areia – apelam. E louvado seja o senhor.

(dominus vobiscum)

30 de julho de 2007

lugares-comuns


foto de Susana Ferreira em 1000 imagens



Trocando em Miúdos, por Chico Buarque

Sabes, há dias em que é obrigatório parar e reflectir. Sei que é um cliché gasto e tu olhas-me de lado num tom de “que vem a ser isto agora?”. A vida é um perfeito cliché, meu amor, feita de todos os lugares-comuns que conheces. Atravessa-nos o corpo e a alma sem dó nem piedade. Falta-nos sempre o alguma coisa que vem afinal a ser tudo. E não alcanças, talvez nem almejes o pouco que falta, o tudo que é nada. Agora o que te peço é que me ouças, bebericando a tarde no teu copo multicolor.

Vim agora mesmo de ver o mar, e perdi-me, afogado, no turbilhão das memórias. Se as contasse teria que fazer uma canoa, ou uma jangada com as palavras. As tuas perguntas, sempre curiosas, seriam o remo e o leme. A minha mão como uma tabela das marés. E a tua boca, sem cuidado, rochedo firme e encalhado, ou talvez – se é com um bocejo que me ouves – a ponta do iceberg traiçoeiro.

De maneira que, e à semelhança do lugar-comum do desencontro, deixo-te um molho de chaves, dois passes de metro - não te vás perder por aí – e despeço-me. Como nesta canção do Chico. Tudo o resto sobra, é pano a mais. Como te disse, perdi-me. Sem fio de Ariadne. Já sei que não gostas de teias nem de aranhas. Mas foram as tuas mordeduras que me ficaram.

O resto é teu. Sem lugares-comuns.

29 de julho de 2007

do vinho


Vestida de luz, por Elsa Mota Gomes em 1000 imagens


A penumbra da tua púbis revela a floresta húmida e quente da minha perdição. Dispo-me perante a janela de sombras para a rua com o sabor do vinho na pele. Os teus seios são estátuas erguidas e o rubor da noite inventado na tempestade dos teus lábios a fervilhar por mim como espuma, mar que se esvai na garganta de todo o prazer. Vem comigo a esquecer o calor do dia, voláteis sob o néon da cidade. As ruas vibram e brilham com música em cada vão de escada suspirando frenéticas desenvolturas. Desenho a circunferência dos nossos corpos, de haste a convocar deuses pagãos. Soletra-me a esfinge da glande, torna ao chão como cadela com cio. Vens do vinho, e eu venho-me como galáxia distante, e todo o universo é aqui, por dentro a fecundar o verão virgem de sedes. Como se mortos, nos sentíssemos vivos. Sem que o dia retome. Eternizando a noite em bebedeiras de azul.

22 de julho de 2007

abismo

Deixa-me morder as mãos com a saliva da tinta a incendiar raivas e desdéns, sem deixar convalescer misericórdias sobre as palavras enlutadas de vento. Deixa-me ser a vela amotinada, sopro de vida do punho cerrado, braços levantados, a espuma do mar enverdecendo de bílis os cálculos humanos. Que posso valer ao mundo senão grito levantado e insolente, que serei senão blasfémia de toda a conformidade imposta, arqui-inimiga dos sorrisos plastificados chafurdando nas sodas e nos apelos cor-de-rosa? Solto-me de manipulações ideológicas, verborreias demagógicas, para ser a raiz o osso a carne os dentes que mordem e ferem, língua bifurcada apedrejada amaldiçoada. Sou estridência como sol a pino, nascendo nas entranhas do mundo, comendo das entranhas do mundo, defecando as entranhas do mundo.

Foi o mundo que me concretizou, me conquistou, levedou-me em beleza servida de licores amorosos. Nasci em rosto fechado de inocência atrás de portas e janelas que doíam de luz. Sem mãos capazes para a agarrar. Depois disso uma convulsão de anos estúpidos, a dissolver o que os olhos não sabiam ainda descodificar. Então uma nesga dessa luz apanhou-me como se uma teia desalinhada. Apanhada a monte entre o ontem e o que virá. Subi até onde o medo consentiu. Guardei sombras na algibeira que me tomavam os sonhos. E na escalada mais promissora revi o mundo, como quem é apunhalado de costas: volto-me a encarar a face da traição e escancaro-me entre a angústia e a maravilha.

13 de julho de 2007

não sei


foto de Ana Cristina Sarmento em 1000 imagens


Queria dizer-te tudo, desde a alvorada das árvores ao crepúsculo dos rios. Ou começando pelos teus olhos e acabando nos meus dedos. Pousar-te na mão a cartilha da vida. Porém, enfim, só sei dizer-te que não sei.

Não sei explicar os bicos dos pássaros, as escamas dos répteis, os olhos dos peixes, o vento nas folhas das árvores, o azul do dia e o negro salpicado da noite. Não sei dizer sobre o rato e o morcego nem sobre as libelinhas ou as formigas. Não sei como explicar a cor da terra e o calor do magma, não compreendo a temperatura da chuva e a espuma do mar quando enrola. Não sei explicar a janela recortada nem a porta de entrada.

Não sei apontar a gravidade dos astros e a velocidade da luz. Não sei como falar sobre o que já não vive e muito menos dissertar sobre o que vem vivendo. Não sei explicar uma gota e uma inundação, a montanha e um grão de pó. Não sei nada sobre as rodas que circulam nem sobre as pontes unindo as margens.

Não sei explicar-te quase nada, nem mesmo dizer-te porque sorris. Do que eu tenho a certeza é eu falar-te e tu escutares-me. E dos nossos cigarros acesos em anéis azuis. Mais nada sei, tudo me é confuso.

E ainda assim, insistes em quereres que te diga quem eu sou: não sei, minha querida, nada sei.

11 de julho de 2007

lírios


fotografia de Joana Lorça (daqui)


Não

(por favor)

não acendas ainda a luz nem corras os estores, deixa marinar um pouco mais esta ressaca na sombra dos meus pesadelos mais recentes, tragados a fel de nostalgia e desespero. O dia fervilha de luz na ombreira da porta e a manhã, sabes

(a manhã que sempre me espantou com a sua boca delicada de lírios)

não iria continuar se me mostrasse plantado entre olheiras neste rosto de granito. Chovesse talvez

(essas pérolas que ainda me adoçam a alma)

e estenderia a mão afugentando o fumo dos cigarros para ver as vidraças tristes, mas bem vês que não há chuva ou correm nuvens de oeste, nem sequer nevoeiros que me ajudem a suportar devagarinho os nós e as correntes que me afligem, a levantar-me desta preguiça visceral de medo, de tudo o que já não ouso respirar. Há o sol

(perguntando duvidoso nos estores da janela)

que aguenta a manhã no brilho das flores e eu sem coragem para te oferecer um beijo, dizer que te amo como se bom dia, qualquer coisa que

(vais dizer-me que não há motivos)

pudesse fazer ou dizer para que não temas, não receies. E não te afastes. Não vejo o teu rosto, bem sei, mas sinto-te o olhar gritando e nos lábios o mesmo fervilhar do sol lá fora nesta manhã de verão. Tudo arde e grita e ama e a minha pele acinzenta-se com golpes de solidão

(a manhã perpetuando as horas na esperança que)

e dizem-me mais uns dias, num risco de voz trémula

(com pena?)

como se isso não fosse o bastante para contar uma eternidade, desde que te sinta as mãos a medir-me a testa e o resto sombra, para que não perceba o teu lacrimejar, gotas de mar mediterrâneo que me prende ainda mais à vida, e tenho medo, tu sabes que tenho medo e sorris

(a manhã perpetuando as horas na esperança que venha saudá-la para me deixar mais uma pequena brisa de vida, restaurar a cor da minha pele)

e tudo seria para mim tão patético e lamechas como um daqueles filmes que assistias aos domingos nos intervalos das nossas tardes de amor durante o inverno, mas agora tornou-se tão sério desde que ressacas dias e noites a contar a origem do fim.

Diz à manhã

(por favor)

que se deixe crescer, promete-lhe que os lírios levo-os comigo. E quando o corpo arrefecido, permite que o sol desfaça a sua curiosidade.

28 de junho de 2007

de súbito


autor desconhecido

De súbito, a inclinação da luz. Diluindo as sombras do sono. A cabeça em desequilíbrio, atordoada da almofada por render durante três dias e três noites. O corpo abandonado a uma rodilha de lençóis fedendo. Uma garrafa tombada no chão, sobre o charco seco de vómitos sucessivos. Era tarde nos ponteiros do relógio embora as horas permanecessem inconstantes, voláteis. Porém, denunciadoras. Como a luz inclinada sobre a parede, acordando as sombras, buscando uma memória confusa.

Um vazio no estômago. Um frio de encolher as pernas. Lutou para manter as pálpebras abertas numa coragem envolta de fadiga.

- Não acredito em nada disto.

Estendeu a mão ao controlo remoto do televisor e fez-se ambiente de cor e sons dentro do quarto entorpecido de mofo e pó.

De súbito, a amontoar visões e vozes sobrepostas às que vinham do concurso da televisão. Dor: como uma morte, enlutara. Viúvo de coisa viva prometida a não regressar. Entregue ao tudo acabado. E nisto, esse tudo dos dias anteriores a romper perfilando-se na mente estalando de medo, tédio, vazio e ressaca.

Fora uma frase simples, lugar-comum de dramas e comédias românticas, a roçar o mau gosto. Dita entre os lábios desejados de carne, sob um olhar convicto de efemeridade:

- Adeus, meu amor.

O nunca mais traduzido. Conjugado em todas as pessoas singulares e plurais do presente e do futuro. Havia-se deitado com lágrimas do passado, ancorado numa garrafa a borbulhar de álcool na boca. Depois disso, afirmará, não se lembra de qualquer gesto, de qualquer certeza, de qualquer dúvida. De qualquer luz. Até que, de súbito.

24 de junho de 2007

saliva dos dedos


autor desconhecido


Ampara-me da incipiente ilusão da escrita com a saliva dos dedos. Por trás de nós a variz de palavras incomodadas com os sentidos, em negação das parábolas. Fico exausto de língua e ranho pendentes à flor do espaço aberto dos papéis densamente iluminados. Queria estar ali a desejar o quanto cá desejaria ter ficado, e porém os literatos são vermes sujos acomodados na cama dos princípios e das verdades imaculadas, não valendo para o susto das invejas verdes de “o-quanto-essas-palavras-me-pertecem-ó-palerma”. Já não acredito em espelhos a devolver a identidade dos sonhos-vocábulos entrincheirados no chão perto do cesto dos papéis. É como quando nos seca a tinta da pena ou o carvão do lápis quebrado a meio de uma frase, e a raiva despoletada arrasta com grilhões a frase perfeita para o baú olvidado dos esquecimentos eternos, tal carteira ripada pelo larápio que a polícia seis meses mais tarde nos pede para resgatar numa esquadra em fins de província, gasta, violada, sem um ponto qualquer de dignidade que carregue ainda a certeza da nossa propriedade.

Abandonamos as frases perfeitas para os outros, abutres que esperam os sonhos mortos na esquina de um caderno. Há falinhas mansas seduzindo a nossa vaidade com epítetos laureados, e então somos como que injectados de uma respeitabilidade sem alicerce, uma trama urdida para que a queda seja dolorosa. Não estive lá perto e tu mesma reviras os olhos sem emoção. E isso intriga-os, fazem caretas nas sombras entrelinhadas das críticas.

Isto não é um lamento, apenas preguiça. Uma preguiça sem contexto. Prefiro as sortes dos sentidos. Por isso te peço: salva-me com a saliva dos dedos, antes que tudo recomece. Dá-me o teu corpo que as palavras desta vez ficam lá fora a especular o princípio e o fim dos nadas.

22 de junho de 2007

a tua morte a minha viuvez

O verão deve ter chegado para ficar, disse a rádio e os ramos das árvores não descansam fustigados pelo vento. O céu lembra-me as tardes ainda mornas de outubro quando o sofá me recebia de chá nas pontas dos dedos, os óculos no rosto e um livro volumoso, de capa nova, o perfume denso do papel. Do jazz ao fim da tarde durante um banho de imersão. Das horas preenchidas de cigarro a diluir a noite chuvosa. Lembra-me tudo

(talvez ainda a tua morte, ou a minha viuvez)

menos que seja o verão chegado para ficar. Se as paredes dos prédios são cinzentas, mais plúmbeo me parece o céu. E as gruas paradas, pacientes com a rudeza do vento. Bebo vinho, para dissipar o sabor a terra

(da minha viuvez, da tua morte?)

que a chuva tem. Bebo para buscar o travo do fruto vermelho que não vi amadurecer. Algures, não aqui, não hoje, há sol e as mangas curtas imperam. E por isso a rádio com sorrisos para lá dos transístores. Porém aqui

(na tua morte, na minha viuvez)

não veio (virá?) o verão. Chá e mantas. Cigarros. Janelas com vento nos ramos das árvores. Os óculos, e o livro com todas as páginas que faltam para completar a minha finitude.

8 de junho de 2007

inominável

Com os dentes aguçados à porta da tarde, fervia-lhe o corpo de sedes, cansado de apontar com o bico do nariz a tez amarelecida do tecto de muitos cigarros. Todo o rosto dentes desdenhando num esgar convulsivo o silêncio povoado daquela insanidade dos humores da carne. Lençóis duplamente dobrados sobre o peito enxovalhados nas pontas e um pé branco procurando como se folha viçosa alguma da frescura percorrendo as frestas bolorentas. Sabia que era assim o fim de tudo. Como quando ouvia em miúdo falar do fim dos tempos, do colapso do mundo: ele era o fim dos tempos, o colapso de tudo que poderia chamar mundo.

Alguém ali perto sentado numa cadeira a sofrer de uma esperança impaciente, dirá que estava a rir-se, com tantos dentes aguçando de desdém. E tamborilava os dedos sobre a perna esquerda a magicar baterias e concertos, enquanto o pé desnudado e branco, imobilizado pelo tempo da demora. O mundo sempre foi uma coisa demorada. A cadeira velava na ingenuidade o acto de apodrecer, do primeiro segundo antes do verão.

Já não estava ali, afinal. Acabava com o mundo de olhos vidrados para o tecto fumado. E com os dentes aguçados, como se de novo raiz procurando na terra a seiva para ser outra vez.

A cadeira de repente vazia, levantadas as dúvidas sobre se o pé sentiria alguma frescura. As dobras dos lençóis aliviadas. A tarde finda de lilases com nuvens passeando a curiosidade dos céus. Do silêncio, burburinho. Subindo ao ritmo dos segundos.

E nada. Nada. Já não era nada. Apenas o objecto tridimensional representando um rosto de dentes lavrando raivas antigas, de nariz apontando a anedota do mundo sob os tectos. Do cinzeiro, repousando na mesa-de-cabeceira, talvez seguindo também a ideia apocalíptica da sua existência, não nasceriam fios azulados a esbater a brancura do fim. Do tecto. Ou o tecto sendo esse fim. O fim do mundo no tecto.

E mais nada. Porque a morte é inominável.

11 de maio de 2007

agora sei


fotografia de Armindo Dias em 1000 imagens


Ficarei a velar os momentos. A acreditar que tudo é

(ainda?)

possível. E tudo é demasiado para suportar. Levantem-se os medos e alguma coisa parecerá mais fácil. Os espelhos que não me conhecem, as vozes que não me chamam, só por exemplo. Ficarei do lado de cá, a inventariar as solidões através da janela. Dos autocarros que passam tristes, levando gente triste. Das sarjetas visitadas por todos os gatos pardos. Aqueles que o são e aqueles que o fingem ser. Com promessas de simpatia pelos promotores de vendas que me queiram falar ao telefone. Aquele que nunca toca. Aquele que é um absurdo de lugares comuns.

Canso-me, sabes

(ainda?)

de tudo quanto seja especial porque sem o toque das tuas mãos nada mais é senão extravagante, ou piroso, brejeiro. E as tuas mãos estão longe, abrindo brisas de maio em outras latitudes. Lugares para onde não sei deslocar o corpo. Lugares que se incomodam com o meu cigarro perscrutador.

E passarão os dias, como sempre. Como passaram por nós dentro e fora de lençóis e os magazines de arquitectura copulando com volumosas páginas de poesia. Aquele relógio que me deste,

(- Contas a nossa vida por ele?)

parou. E acredito que o tempo tenha realmente parado por aqui. Todos os movimentos redundam no mesmo. Ouço cheiro vejo sinto o fim em tudo quanto começa. E por isso era previsível. Sabíamos ambos.

Por isso acredito

(ainda)

que tudo é possível. Não interessa em que acredito, desde que acredite. E ao escrever estas palavras, na mesma solidão triste dos autocarros para lá da janela, eu soube. E agora sei sem qualquer dúvida. Sei finalmente que nome te hei-de dar: o tempo que ignorei como perdido.

5 de maio de 2007

triste é o virar de costas


Último Beijo, de Paulo César (1000 imagens)


Ficou-me amargo o último beijo. O derradeiro quando não sabia sequer

(ou sabia, mas não acreditava)

que era também a última noite. Das tuas mãos repousadas sobre o meu peito, entre os lençóis preenchidos de silêncio. E por aquele sabor amargo

(enquanto te vestias, uma coisa furtiva, como se não mo fosse permitido)

o meu olhar estranhamente deslocando-se, a mão por instantes

(longos, instantes transformados em horas)

sacudida e suspensa nas entrelinhas dos teus gestos. E indaguei

(lembro-me)

onde os teus dedos dedilhando de cor as palavras, os sorrisos afectuosos sobre o meu olhar, e as lágrimas

(ou talvez nem lágrimas)

alagando tremores por medo das partidas. E nisto um último olhar, a derradeira prova de que

(sabia lá eu)

o amor para nós não era possível. Tudo o que disse, e fiz, perdido naquele olhar. Tudo o que eras para mim. Seguiram-se os dias sem serem dias, as noites acontecendo sem que eu acreditasse. Eu, um copo, o cigarro intermitente nas dúvidas que fui colocando.

Restou apenas esta fotografia. Eu, que repudiei as lamechices e os são valentinos, as datas, nem sempre as memórias, eu aqui a olhar-te distante numa fotografia. Com os mesmos dias seguindo-se alheios a mim, as mesmas noites acontecendo sem nós dois dentro, ainda apenas

(e por quanto tempo?)

eu, um copo e cigarros decompondo as dúvidas. Assim. Foi assim. Como pudeste?