14 de março de 2007

por te amar

As minhas sandálias descobrem nas areias os teus passos com a sombra que me persegue. Estende-se esta angústia sem piedade que me lacrimeja os olhos quando estou entre a multidão.

Porque desespero? Porque me dói onde não tenho qualquer ferida?

Por cada talhar do machado na madeira ainda jovem, por cada prego nas entranhas da tua carne, broto uma lágrima que cai lenta e apaixonada no pó que se levanta e rende, húmido e salgado, ao medo de ser quem sou, a essa angústia que também me assalta pela noite.

De onde vens, porque me persegues se te não vejo?

As madrugadas, quando estendido na minha enxerga, são martírios por te amar e não te conhecer.

7 de março de 2007

saber-te

Preocupa-me saber-te. O que tens na mão. Os séculos devolvidos no teu olhar. Todas as certezas enquanto me quedo céptico. Se foste concebido ou se és o verbo. Preocupa-me o fardo, o peso sobre os ombros, as quedas. O quanto a carne é fraca.

Se os cães latem na tua presença e se inquietam os cavalos. Quando rugem os trovões ou se anuncia a bonança. Preocupa-me o teu corpo no meu.

Quero tocar-te para lá da mansidão do que quiseste

(do que queres)

como deve ser feito o mundo, como e porquê se abraçam os corpos, o humor quente do vinho, a quietude dos rebanhos.

Preocupas-me. Sendo um nada que se sente, sendo um todo que não se vê. Por mim, por ti, por eles. Preocupa-me saber do amor. Ter-te. Preocupa-me ter-te. Em mãos inventadas ou em corpos estrangeiros, nas feridas, nas guerras, nas flores, nas conquistas, na saliva. Dizer-te. Viver em ti.

Preocupa-me saber-te: onde investes, e com que força, a tua enxada.

4 de março de 2007

onde és?

Onde é a terra, onde é a raiz que te afirma sob as bátegas e o vento, onde é o céu? Onde é a mão que te afaga, onde a água que te alimenta, onde a porta esconsa e roída pelo tempo? Onde os pulmões soprando o hálito morno, onde a boca que os dentes cerram, onde os olhos postos no horizonte, onde a lonjura?

Onde

(nesse dia)

te doeram os nós dos dedos de tanto apertares o nada, onde a voz rouca e quebrada, onde

(nesse dia em que te levaram)

a memória e os cavalos fumegando os cascos com a fúria de um grito, onde as pedras que rolaram, onde

(nesse dia em que te levaram para onde a sombra mora)

os gatos pardos e os pardais assustados, onde a pólvora e o invólucro, onde a golfada e a mão apertando o sangue, onde o cigarro caído, onde a saliva e as lágrimas e o suor, onde

(nesse dia em que te levaram para onde a sombra mora e a noite não morre. Não deixes secar a raiz, ou ruir a terra, que não te derrubem as bátegas e o vento, que te não desabe o céu como uma mão que abafa, onde)

as mãos empurrando a porta esconsa e roída, onde o tempo para vacilares os pulmões, onde os cascos da besta fumegando hálitos sobre a lonjura, onde tu

(onde tu?)

onde és tu entre a pólvora e o invólucro, onde a dor da voz de tanto apertares a vida numa golfada, onde é a terra

(onde é?)

que o tempo bateu e as pedras esterilizaram? Onde és, o que foste?

22 de fevereiro de 2007

tonalidade




Tens a cor da infância espelhada na íris dos olhos, e no teu rosto uma tonalidade de Gauguin, em que se ondula o teu cabelo denso e escuro. Tonalidade da terra, como se o outono fosse outra vez em vésperas de primavera. E sorris de inocência os medos e as carícias na ponta dos teus dedos pedindo que te afaste da solidão.

Se a solidão sou eu… fugindo e voltando com as correntes das palavras atrapalhando o tráfego da voz e dos afectos… Dói-me a garganta, sinto-me febril, peço que tomes conta de mim enquanto galgo as estantes do delírio na demanda dos passados por resolver, das pessoas que não esqueci. E tu só inocência e dedos com a cor da infância, cercada numa solidão de outono findo, aspirando na janela girassóis de Gogh… Eu apenas uma doença maricas, cheio de mesuras e mezinhas de avó. Se fosse assim tão simples colher-te as carícias do rosto e desenhar-te a solidão encurralada...

Se a solidão sou eu, galgando eternos invernos com a garganta febril de gritos de Munch…

21 de fevereiro de 2007

onde foi?


fotografia de Marta Glinska (daqui)


Onde foi que coloquei o molho de chaves, o telemóvel cansado de riscos, e o casaco desatinado com o frio e com a chuva, enquanto te ouço esvoaçar cozinha fora, entre os odores das especiarias? Ferveste tudo no mesmo jantar à luz da vela do alabastro?

As pernas obrigam-me para o sofá, sem obedecer a qualquer vontade minha de te recolher pelas ancas e afagar-te um beijo no teu longo pescoço. Provavelmente tu com as mãos molhadas sob a chuva da torneira aninhando um pé de alface

(e o meu casaco desatinado com o frio e com a chuva).

É o copo do whisky sem razão qualquer, é um jornal poisado com cheiro a tinta, como quem abre uma gaveta com roupa por estrear e saber

- É nova!

Onde foi que coloquei os cigarros que me consomes com duas ou três fumaças entre os teus dedos longos

(num deles um pedacinho de salsa perdida);

e onde está o sofá a que as minhas pernas obrigam, sem obedecer a qualquer vontade minha de te resgatar às caçarolas com um gesto brusco, ordenando o espaço da mesa com uma braçada de filme erótico

(lugar comum)

no intuito de procurar onde o forno, onde o calor, onde a cozedura do teu corpo estalando lamechas refogadas pelo meu, não sei onde

(o meu casaco desatinado com o frio e com a chuva)

não sei onde as chaves e o telemóvel cansado de riscos, e o comando da televisão a ronronar ao lado do tremelique das caçarolas.

Onde foi que me coloquei, para não me veres chegar assim a casa, com o olhar esgotado e as minhas pernas

(sem obedecer a qualquer vontade minha)

agachadas com o choro convulsivo de um

- Onde é que tudo isto começou para acabar assim?

15 de fevereiro de 2007

quando te escrevo


Decepção, de Armindo Dias em 1000 imagens


Quando me sento a escrever-te são sempre pensamentos abstractos, e as letras vão desenhando curvas e rectas na folha limpa do papel, até que surge uma ou outra palavra ainda sem qualquer significado mas cuja função é puxar as que se vão seguindo, e aí tens uma oração, uma frase, um parágrafo a estender-se até às margens do papel sempre com os pensamentos abstractos, uma fotografia, outros papeis amarrotados, uma lapiseira, o cinzeiro sujo e negro e a minha boca

(tossindo e não são palavras a tosse, apenas ruído)

mascando os desinteresses do corpo, na janela sombras de miúdos com um cão, gesticulando ruídos estridentes e gargalhadas, e a minha boca

(tossindo e não são gargalhadas a tosse, apenas ruído)

esboçando um esgar de arrependim

(não um esgar, um bocejo largo)

esboçando um bocejo largo de arrependimento devido aos pensamentos abstractos, os olhos miram as letras desenhadas encastelando frases e parágrafos que tentam entender com um milhão de lágrimas à entrada. Aconchego-me na cadeira isolando as mãos num vácuo, e tudo são objectos

(mascando desinteresses do espaço)

com a música a crescer até que a boca deixa de tossir porque o cinzeiro limpo, o papel amarrotado entregue à lixeira dos restantes. É quando apago a luz e fico sozinho sem sombras nem janelas escutando a música emergindo no meu sono que te escrevo verdadeiramente.

12 de fevereiro de 2007

diz-me

Diz-me o pedaço de terra onde desceste para te ir ouvir as pedras e as raízes, diz-me em que dimensão são os fantasmas, feitos espirais de fumo que sobem do meu cigarro, diz-me que vozes há para que as grite, e se manifestem, diz-me que tudo não é o fim, que quando findaste eu renasci para te ter novamente, diz-me.

Com a tua voz calada na sombra, diz-me.
Com o teu pensamento cavado no nada, diz-me.
Com os ossos inventando a linguagem dos mortos, diz-me.

Se há outras terras, se outras covas onde nascem os jacintos, se mares e rios no fogo que nos consome, diz-me. Diz-me porque latem os cães no dobrar dos sinos, porque o medo aflito com as sombras nos espelhos, diz-me das mãos trémulas, da cabeça em rodopio, do desmaio lento ou convulsivo.

Onde há a verdade, diz-me. Se tiveres vontade, diz-me.

Para que tudo pasme e a física se transforme num caos de insónias sem haver noite, sem que resistam dias, para que os relógios parem ou não signifiquem que tudo o que houve depois de ti foi mesmo a sério, mesmo a doer, se foi o que eu vi.

Diz-me, para que eu acredite. Nas aves. Nos esquilos. Nas formigas indiferentes à catástrofe humana.

9 de fevereiro de 2007

negras nuvens


foto de Ricardo Araújo em 1000 imagens


E então recomecei a escrever. As imagens repetiram-se incessantes no meu pensamento, apesar dos ombros encolhidos e das costas voltadas para a vontade de. Numa resignação total, carregada de dúvidas. Por vezes acordo com uma predisposição adolescente e sigo os olhares de mulheres mais novas, de comovente emoção a mergulhar no sorriso. E saltam-me dos dedos carícias leves em folhas de papel reciclado, tão serena escrita escorreita como o voo das gaivotas sob o chumbo das nuvens

(gaivotas em terra, tempestade no mar).

Consola-me saber que o ridículo exposto também tem o seu valor, e existem variantes, como as estradas principais e secundárias. Saber renascer é a quanto se deve o esforço. Ainda que encolhendo os ombros, voltando costas ao formigueiro das cidades.

Resignação total, carregado de gaivotas em terra, esperando as dúbias consequências de tão negras nuvens.

8 de fevereiro de 2007

a mesma viagem


Dead Window por Sabin-Corneliu Buraga

para a Elisa




Estive longos minutos sentado na cadeira sem que qualquer palavra surgisse

(e agora que penso melhor, os minutos são uma porção significativa de tempo quando as palavras não se dignam a estar presentes, e por isso minutos longos como quem conta todos os crepúsculos da manhã e da tarde, como quem vai sobrando à conta dos dias, distanciando-se com a boca calada e meneando a cabeça à descoberta de)

de coisas mundanas como os autocarros que passam aqui em frente a horas tardias, levando uma duas pessoas, aconchegadas no colo da noite perdidas sabe-se lá em que boca calada, meneando a cabeça à descoberta das palavras certas, e nenhuma que surgisse, de modo que eu

(provavelmente todos os segundos o mais demorado beijo, uma tarde de amor, uma viagem)

de autocarro fechado no colo da noite a querer lembrar-me de ti sem encontrar resposta para a teimosia das palavras ausentes durante tanto tempo

(fazendo das horas meses, o sol e a chuva, e a lua, tudo isso, quando vejo uma ou duas pessoas dentro dos autocarros a horas tardias, com as coisas pequenas meneando a cabeça dentro do colo da noite, de modo que eu)

deixo-me ficar sentadinho na cadeira como um traste velho à espera de todos os fins, são longos minutos que me faltam, não são uma duas pessoas que passam dentro do colo da noite pestanejando autocarros a horas tardias

(como se um demorado beijo, e as tardes de amor contadas pelos dedos a jurar que)

um dia serias tu, mas nada disso, quando digo que são uma duas pessoas aconchegadas às palavras sem dizer, só a ti te vejo, posso mesmo jurar que és tu dentro do autocarro levado no colo da noite, que são apenas minutos

(e pensando bem, minutos é uma maneira de dizer que uma porção significativa de crepúsculos esperando a tua saída, mas o sonho que tenho é sempre a mesma volta, com a mesma ambiguidade de que se faz a vida que vivemos sem percebermos que ao olhar para trás são dunas)

dunas de segundos pelo mais demorado beijo, uma tarde de amor. Sempre a mesma viagem.

30 de novembro de 2006

intermezzo

Tudo foi ontem, tudo passou, e contamos apenas com o presente, se o futuro é indescritível e muito insolente, de feitio difícil, carregado de promessas e porém alimentado de contradições. Portanto, que ainda não existe, e não merecerá a pena avaliar ou prever. Talvez porque seja feito de efémeros presentes de todos os minutos, de todas as horas, manhãs, tardes, dias, semanas, meses, anos. Talvez porque o futuro seja afinal tão só a inalcançável eternidade. Então o que seguramos nas mãos, o peso que trazemos ao ombro, a matéria de que é feita a nossa cruz, venham a ser em vão. Nascemos para chegar ao fim, sem promessas e em consecutivas esperanças contraditórias. Somos o hoje sobrando do que fomos ontem. O futuro é ontem, alimento dos sonhos e de todos os nossos delírios. O pouco que poderia ser muito, o nada que viesse a ser o todo. Partimos sem rumo para a meta, e sabendo que ela lá estará, que é, enfim, a única certeza. E perante isto apenas nos resta, e restará, a dúvida: que farei quando tudo arde? -, equação para a véspera do todo ou do nada.

19 de novembro de 2006

tardes pardas


autor desconhecido


Abro as mãos sob a chuva a tentar compreender o teu pranto saciando as tardes pardas. São chuvadas fortes, magoam-me as polpas dos dedos e sulcam nas palmas outras linhas que não me era permitido observar. Esgueiro-me dentro do carro, acudindo o meu corpo encharcado e sigo numa marcha lenta

a mesma lentidão das tardes pardas

engolindo aos poucos o brilho da luz falecida nas poças de chuva subindo na estrada. Vejo outros carros circulando mas é a cidade deserta, ainda que sob um guarda-chuva passe ligeira uma ou outra pessoa, vão de cara fechada, vão anónimos, e por isso as ruas desertas

enquanto nas polpas dos meus dedos a chuva do teu rosto

carpindo

e o meu medo de tocar no teu fundo, no fundo de tudo

as insónias da madrugada anterior.

Quando houve a manhã com promessas de sol pensei que um sonho, um pesadelo, mas eras tu que crescias dentro do dia acinzentando-se. Houve o almoço e o apetite em luxos de cerimónia

- Não quero mais, estou bem servido.

e nada disso. Apenas a vontade de fugir

eu com medo do fundo para onde me arrastavas, eu basta e tu sempre insistindo

com a água cercando-me o equilíbrio das emoções. Não compreendo a tua chuva, apesar da mesma lentidão e das mesmas sombras pardas. Quiseste-me em ti, dentro de ti

sustive-me nas esquinas dos teus lábios, mas arrependido sacudi-te, porque o sal

como quem avança no mar e se esquece do fundo

o sal um amargo de vida a que não queria retornar; liberta-me, esquece-me.

Para quê o mar violento e salgado como a morte, se esta chuva, se estas tardes pardas? Sabes, perdi a vocação para a tortura. E para os abismos.

13 de setembro de 2006

agulhas

Vieram trepidando com as agulhas da chuva algumas sombras sobre o parque em frente. Os automóveis como canteiros escuros e estéreis. A água espelhando o céu em completa indiferença. Espelhos turvos, como que mortos. A água escorrendo pelas vértebras do chão, apanhando o pó das árvores precipitadas com as suas folhas esperando o momento certo de colorir as bermas. As latitudes do sol mudam, os luzeiros da noite tremelicam como se frio. E as janelas cerradas, acariciadas de conforto pelo lado de dentro. Fico de pé escutando o recolher dos melros. A tarde hoje quase não se distingue da noite. Quando me voltar para dentro as sombras cobrirão já todo o parque aqui em frente. E só se ouvirão agulhas fustigando o chão e os telhados.

1 de setembro de 2006

daphne


No azul dos teus olhos..., de Filipe Vieira em 1000 imagens


Só em sonhos posso recordar a maciez dos teus cabelos da cor do feno. Cansaram-se os anos dentro de nós, afastaram-se os olhares, as vontades, os interesses em comum. Podia dizer-te morta e a mim viúvo, mas nem isso restou. Apenas os sonhos onde posso dar largas ao desejo de te ter com os cabelos abertos sobre a minha almofada. O sabor de amoras na tua língua. O perfume de rosas no peito. E a pele muito jovem, sedosa, como as pétalas da manhã. Amei-te, foste minha. Foste como um membro que perdi numa qualquer guerra de amores

(não sei, já não me recordo bem).

Como seria um reencontro? Rosário de rugas e maleitas? Saber que outras mãos nos afagam os corpos? Verificar o tempo ignorado ao exclamar "como estás diferente!"?

Prefiro o sonho, onde retornas a plantar o verão fecundo na minha cama. Murmurando, viril, num andamento eterno,

(porque eu acredito que os sonhos podem eternizar-se),

o teu nome: Daphne.