19 de novembro de 2006

tardes pardas


autor desconhecido


Abro as mãos sob a chuva a tentar compreender o teu pranto saciando as tardes pardas. São chuvadas fortes, magoam-me as polpas dos dedos e sulcam nas palmas outras linhas que não me era permitido observar. Esgueiro-me dentro do carro, acudindo o meu corpo encharcado e sigo numa marcha lenta

a mesma lentidão das tardes pardas

engolindo aos poucos o brilho da luz falecida nas poças de chuva subindo na estrada. Vejo outros carros circulando mas é a cidade deserta, ainda que sob um guarda-chuva passe ligeira uma ou outra pessoa, vão de cara fechada, vão anónimos, e por isso as ruas desertas

enquanto nas polpas dos meus dedos a chuva do teu rosto

carpindo

e o meu medo de tocar no teu fundo, no fundo de tudo

as insónias da madrugada anterior.

Quando houve a manhã com promessas de sol pensei que um sonho, um pesadelo, mas eras tu que crescias dentro do dia acinzentando-se. Houve o almoço e o apetite em luxos de cerimónia

- Não quero mais, estou bem servido.

e nada disso. Apenas a vontade de fugir

eu com medo do fundo para onde me arrastavas, eu basta e tu sempre insistindo

com a água cercando-me o equilíbrio das emoções. Não compreendo a tua chuva, apesar da mesma lentidão e das mesmas sombras pardas. Quiseste-me em ti, dentro de ti

sustive-me nas esquinas dos teus lábios, mas arrependido sacudi-te, porque o sal

como quem avança no mar e se esquece do fundo

o sal um amargo de vida a que não queria retornar; liberta-me, esquece-me.

Para quê o mar violento e salgado como a morte, se esta chuva, se estas tardes pardas? Sabes, perdi a vocação para a tortura. E para os abismos.

13 de setembro de 2006

agulhas

Vieram trepidando com as agulhas da chuva algumas sombras sobre o parque em frente. Os automóveis como canteiros escuros e estéreis. A água espelhando o céu em completa indiferença. Espelhos turvos, como que mortos. A água escorrendo pelas vértebras do chão, apanhando o pó das árvores precipitadas com as suas folhas esperando o momento certo de colorir as bermas. As latitudes do sol mudam, os luzeiros da noite tremelicam como se frio. E as janelas cerradas, acariciadas de conforto pelo lado de dentro. Fico de pé escutando o recolher dos melros. A tarde hoje quase não se distingue da noite. Quando me voltar para dentro as sombras cobrirão já todo o parque aqui em frente. E só se ouvirão agulhas fustigando o chão e os telhados.

1 de setembro de 2006

daphne


No azul dos teus olhos..., de Filipe Vieira em 1000 imagens


Só em sonhos posso recordar a maciez dos teus cabelos da cor do feno. Cansaram-se os anos dentro de nós, afastaram-se os olhares, as vontades, os interesses em comum. Podia dizer-te morta e a mim viúvo, mas nem isso restou. Apenas os sonhos onde posso dar largas ao desejo de te ter com os cabelos abertos sobre a minha almofada. O sabor de amoras na tua língua. O perfume de rosas no peito. E a pele muito jovem, sedosa, como as pétalas da manhã. Amei-te, foste minha. Foste como um membro que perdi numa qualquer guerra de amores

(não sei, já não me recordo bem).

Como seria um reencontro? Rosário de rugas e maleitas? Saber que outras mãos nos afagam os corpos? Verificar o tempo ignorado ao exclamar "como estás diferente!"?

Prefiro o sonho, onde retornas a plantar o verão fecundo na minha cama. Murmurando, viril, num andamento eterno,

(porque eu acredito que os sonhos podem eternizar-se),

o teu nome: Daphne.

25 de julho de 2006

muralha

para António Lobo Antunes

Deixo o dia abater-se contra o muro: mil pedaços se formam no horizonte futuro, antevendo amanhãs desmoronados. E dos escombros se abrirá caminho, lentamente, até onde o chão poderá verdejar, e as feridas dos meus pés fecharão. Sílaba a sílaba és tu quem constrói o novo caminho e por vezes fico sem palavras perante o alinhamento perfeito do destino das tuas frases. É no teu trabalho sobre a pedra que as palavras te exigem, sob o cansaço dos dias te espremendo em hesitações, alegrias e angústias, que reergues a muralha onde nos pouparemos abrigados dos ataques verborreicos dessas gentes em falsos pedestais teimando

(como se qualquer um fosse capaz de construir um muro, uma casa, rasgar ruas e avenidas, alargar aldeias e cidades)

teimando em afirmar que escrevem livros.

12 de julho de 2006

fadiga

Quando implodir a tua fadiga lembra-te do mar. As vagas sucessivas mesmo que o mundo ao teu redor pare. É entrando mar dentro que te reencontras, no princípio e no fim, ao útero enfim regressando. Segredam-te as gaivotas num espanto de voo tão realizado de silêncios. A areia vai engolindo os teus pés, enquanto os olhos procuram sedentos pelo fim do horizonte. E quando só a tua cabeça e as ondas que assombram divagando os contornos do teu corpo, então mergulhas, por inteiro. Assim como no princípio o fim. Já não escutarás o segredo das gaivotas. Nem o que te diz o silêncio. Agora tudo é água, caldo de fauna e flora, sal que aos poucos te dissolverá na boca. Já sem fadigas. Já sem ti. E o mundo que desapareceu ao teu redor. Quando fores rocha ou fóssil, e a corrente te trouxer sob o voo sereno das gaivotas, chorarão as areias que te largaram os pés. E o seu luto será o céu plúmbeo na entrada do próximo Inverno.

5 de julho de 2006

deserto

Ver passar os dias e tudo sem acontecer, cá dentro. As ruas trazem rugidos de feras motoras, fumos, cheiros, e também coros de vozes que não se entende o que vão dizendo. O vento é como uma criança, soprando incauto contra os ramos das árvores estátuas, dilacerando-se na altura dos prédios, o sol erguendo-se todas as manhãs num mesmo brilho multi-milenar, sempre sem cansaço. Tudo tão naturalmente eterno, estendido entre o antes e o depois de mim, e eu assim aqui, assistindo passivamente sem nada acontecendo cá dentro.

Não é bem verdade: envelheço. Como as cortinas frágeis amarelecendo na janela que com os dias e os anos vai parecendo sempre e cada vez mais cinzenta, mais sombra que luz. Envelheço como os edifícios vão esboroando, ou como as ruas perdendo-se no solo sem nunca recuperar o fôlego. Há imenso tempo que nada ao meu redor é deserto. E, no entanto, é um deserto que sinto espalhar-se cá dentro em que os ruídos, os movimentos e a luz serão fantasias, miragens. Naufraguei imergindo em mim mesmo. Envelhecendo, porque os dias não ficam sem passar. Mas só isso: envelhecendo. Onde foi que me perdi?

19 de junho de 2006

estilhaços




Não pares na corda bamba. Segue construindo o teu destino, ainda que todos os desequilíbrios te pareçam fatais e derradeiros. Somos todos assim, seguimos o caminho e não podemos contar com a mão por baixo a amparar, sob o arame. E se cairmos mais nada acontecerá que um estilhaço do espelho onde nos olhamos vendados pela lógica e pelas consequências.

Sentes o peito como se fosse explodindo, e a cabeça rodopiando desesperada no espaço confinado pela angústia da existência, não é? Angustia-te existires, com medo que o círculo não se cumpra, sempre com o medo de não te encontrares no fim da linha. O medo de não haver reencontro, a incerteza do retorno. E surge aquele momento, pequenino, um bichinho que te molesta os sonhos, mais tarde sobressaltando-te o despertar para depois um monstro já, uma permanente obsessão que nem adormecer te deixa. De que a morte talvez. O conforto de não haver vertigem, o espelho de uma vez por todas estilhaçado, o não retorno definitivo. Sem o cansaço de todos os dias a ameaça dos desequilíbrios.

Não. Não faz sentido, sabes? Pelo menos tenta manter-te aqui. Não prometo que seja a mão por baixo que tanto procuras, mas estarei presente, quando necessário reunir quaisquer que sejam os estilhaços.

12 de junho de 2006

retórica


Gritos de Silêncio, por Ramarago em 1000 imagens

Quantas vezes escarneceste do brilho da noite, refugiada no teu casulo que a solidão ensombra com a envergadura das suas asas negras; quantas vezes contaste os copos vazios poisados delicadamente sobre o veludo dos teus desejos anunciando as ausências observadas pelo teu olhar quebrantado; quantas vezes quiseste rasgar o linho dos lençóis e encher o nada com as plumas da consternação; quantas noites ficaste ouvindo as distâncias que te lembram a incerteza dos afectos?

Diz-me: quantas vezes te quiseste morta enquanto a vida te perseguia com a dor trespassada nas horas e nos gestos mordendo selvagem o teu corpo fechado e apertado; quantas foram as vezes que ao espelho cuspiste as chuvas e te acomodaste como a tartaruga hibernando até ao eclodir febril da primavera; diz-me quantas vezes foste além sem dar qualquer passo, ou com que esforço quiseste empalar a solidão para veres o sorriso de um beijo que te saudasse

- bom dia!,

quantas vezes?

Quantas vezes não foste tu e colocaste a terra no firmamento sentindo-lhe o peso eterno? Diz-me quantas vezes escreveste a sangue a palavra amor e somaste as cinzas da tua esperança? Muitas, poucas?

Diz-me: porque que te doem essas lágrimas?

11 de junho de 2006

esquina

O passo dobra a esquina saindo de encontro a outras sombras que o ruído produz e oculta, naquele declive onde o olhar não penetra senão pardo. O vulto avança e desvia quaisquer arestas de hesitação arfando abafado pela distância, e resoluto de toda a sombra que alimenta. Abandonado num tempo abstracto de uma solidão réptil, há um cão rosnando e, subindo na negridão, uma coruja assobiando, ambos num abraço com a ténue luz que brilha tosca e taciturna, informe. Únicas vozes que testemunham, como água que arde evaporada na atmosfera quente de tudo que se levanta sem poeira. Dobrada a esquina, o passo prossegue suave sem ruído. É invisível e some por uma incógnita, como desde sempre e nunca.

8 de junho de 2006

insurge: és

Não sei quantos anos ainda ou se as varandas se cobrirão de pó e humidade e insectos com as horas esbatendo-se sobre a claridade dos dias e a sombra das noites, enquanto as flores deixam de suspirar sobre as bocas indiferentes. Sei de um ranger de dentes e um punho fechado. E tudo quanto te aflige enquanto a fome for ainda e só um homem de cócoras e de braços cruzados sobre a vida que já não o espera. Ressequidas vão as flores ignorando o pretérito perfeito do esquecimento. Não uses advérbios de modo, que não te inquiete a rotação e os ciclos, abrir e fechar, nascer e morrer. Virá o dia em que os segredos de deus germinarão sob o suor do teu corpo e saberás agraciar a criação do mundo como se raízes trazidas nas polpas dos teus dedos.

Insurge: és.

23 de maio de 2006

regresso




Ainda aqui estou, encalhado para o teu regresso. Sempre de braços abertos com a luz parda inteirando-se de mim a perguntar

- Que faz este aqui?

e eu encolhendo os ombros à presença da nuvem negra que vai e vem, verificando se as minhas alegrias estão sendo reprimidas, se levo o tempo com o rosto apoiado nas mãos

(caramba, dava alvíssaras a quem me dissesse quando é que eu já estive assim)

a inventar depressões por causa da morte de um caracol, ou porque o botão da camisa está por um fio, e eu sem ti para mo pregares mesmo com ela vestida, tu repetindo uma lenga-lenga antiga que a tua avó te ensinou

- Não coso vivo nem morto, coso isto que está roto.

Sim, continuo aqui, como se o tempo que entretanto passou fosse apenas a antevéspera de um capricho teu, e tento desviar-me dos maus pensamentos cuidando do jardim órfão de ti, magicando novas decorações para o quarto, para a sala de estar, comprando no hipermercado trens de cozinha sofisticados e um serviço de mesa em porcelana, tão naturalmente do mesmo modo como compro toda a espécie de mercearia, alimentos e vinho para as nossas refeições. E só de vez em quando (juro que é só de vez em quando) deixo-me escurecer com a tarde, concedo a presença da luz parda indagando

- Que faz este aqui?

aparentemente em pânico se verificar que afinal o jardim cresce em escombros, e que as cores das cortinas não dão nada bem com a colcha que escolhi, e que o outro dia numa fúria desenfreada destruí aquele serviço vista alegre presente do nosso casamento. Aparentemente em pânico quando me dou conta que as caçarolas vão acumulando ferrugem (ou será gordura?), semanas a fio esquecidas na pia como qualquer escultura abstracta, e que são as baratas e outros bichos

(outros que não o caracol)

que se alimentam dos restos depositados nos armários, o frigorífico morto de bocarra escancarada… Aparentemente em pânico se me dou conta que não és tu que vens pregar os botões por um fio, a repetir a lenga-lenga da tua avó

- Não coso vivo nem morto, coso isto que está roto

e as minhas camisas desalinhadas no roupeiro, botão sim botão não, que figura ridícula ando eu a fazer na rua, no trabalho? E por isso dou comigo a inventar depressões, seguidas de prantos e fúrias, procurando o caracol como a única companhia nesta casa cheia de fantasmas de ti, só espero que não morto.

Contudo, sei resistir a tudo isso, como me ensinaste no dia da tua partida, e por isso repito, cheio daquele optimismo que dizias ser a minha grande qualidade: eu ainda aqui estou, encalhado para o teu regresso.

4 de maio de 2006

da tua iniciativa


Anjo, de Miguel Oliveira em 1000 imagens


Sentas-te e as palavras não estão contigo. Abres os dedos afagando o regaço e a tua mão tropeça num soluço inaudível. E servir-te-ia chorar para esquecer, para afogares as mágoas em auto-comiseração. Eu aguardo no mesmo silêncio feito de culpas e sustenho a voz para não te atrapalhar a equação dos pensamentos. Sempre foste tu que decidiste o que fazer. Quero pois que sejas tu a tomar a iniciativa, como se nos encontrássemos numa encruzilhada sem direcções, e me guies, como sempre o fizeste, pelo caminho que achas o melhor para concretizarmos o nosso destino. No teu corpo sinto que reside uma impaciência, parece-me que te vais mover, mas nem o olhar manifesta qualquer intenção de movimento. Eu sigo silenciosamente, remexendo devagar as minhas algibeiras, levantando e poisando os livros em cuidado, receando que a movimentação do ar te altere o alinhamento da solução para tudo isto.

Foram longos minutos, porque não fui capaz de saber se horas; sei que estamos nisto há muito tempo, desde que te sentaste. Agora que a minha boca, rendida ao cansaço, se solta em um ou dois bocejos, e depois de tanta paciência, esperando que da tua condição de estátua surgisse o epílogo da nossa presença diante do outro, as tuas mãos erguem-se seguindo a explosão indignada da tua boca que me acusa de não fazer qualquer esforço para superar esta ridícula situação.

29 de abril de 2006

ocaso

Olá. Vim espreitar o ocaso da tua razão plantada sob a colcha tecida por antigas paixões e sorrateiras solidões. Têm estado uns dias óptimos, não tens reparado? Já não me lembrava de uma primavera assim, tem sido sempre a água o retrato cinzento das janelas… Mas agora vêm-se as pessoas de roupas leves, as esplanadas povoadas de cerveja, o rio espelhando o azul do céu… Banalidades, dirás tu, para quem apenas lhe resta uma colcha e longas horas de sono. O teu corpo parece cristalizado entre as sombras da humidade que a velhice das paredes deixa a descoberto. E por mais que afaste as cortinas, a luz que vem da janela não vence a lugubridade do quarto. Os teus movimentos respiratórios são um acorde monótono que não lembra a vida. Estou de saída, e pouco te importa, não é? Queres mesmo saborear a despedida transformado no bolor por onde ruirá o sentido da tua existência. E a destas paredes. Não vale a pena a mão que te estendo, já não sabes dos afectos. E assim te deixo, no remoer das vagas memórias que ainda terás. Mesmo que a última seja a cor desbotada da colcha onde deitaste a vida a morrer. Até amanhã, se o dia para ti voltar a nascer.