
Abro as mãos sob a chuva a tentar compreender o teu pranto saciando as tardes pardas. São chuvadas fortes, magoam-me as polpas dos dedos e sulcam nas palmas outras linhas que não me era permitido observar. Esgueiro-me dentro do carro, acudindo o meu corpo encharcado e sigo numa marcha lenta
a mesma lentidão das tardes pardas
engolindo aos poucos o brilho da luz falecida nas poças de chuva subindo na estrada. Vejo outros carros circulando mas é a cidade deserta, ainda que sob um guarda-chuva passe ligeira uma ou outra pessoa, vão de cara fechada, vão anónimos, e por isso as ruas desertas
enquanto nas polpas dos meus dedos a chuva do teu rosto
carpindo
e o meu medo de tocar no teu fundo, no fundo de tudo
as insónias da madrugada anterior.
Quando houve a manhã com promessas de sol pensei que um sonho, um pesadelo, mas eras tu que crescias dentro do dia acinzentando-se. Houve o almoço e o apetite em luxos de cerimónia
- Não quero mais, estou bem servido.
e nada disso. Apenas a vontade de fugir
eu com medo do fundo para onde me arrastavas, eu basta e tu sempre insistindo
com a água cercando-me o equilíbrio das emoções. Não compreendo a tua chuva, apesar da mesma lentidão e das mesmas sombras pardas. Quiseste-me em ti, dentro de ti
sustive-me nas esquinas dos teus lábios, mas arrependido sacudi-te, porque o sal
como quem avança no mar e se esquece do fundo
o sal um amargo de vida a que não queria retornar; liberta-me, esquece-me.
Para quê o mar violento e salgado como a morte, se esta chuva, se estas tardes pardas? Sabes, perdi a vocação para a tortura. E para os abismos.
a mesma lentidão das tardes pardas
engolindo aos poucos o brilho da luz falecida nas poças de chuva subindo na estrada. Vejo outros carros circulando mas é a cidade deserta, ainda que sob um guarda-chuva passe ligeira uma ou outra pessoa, vão de cara fechada, vão anónimos, e por isso as ruas desertas
enquanto nas polpas dos meus dedos a chuva do teu rosto
carpindo
e o meu medo de tocar no teu fundo, no fundo de tudo
as insónias da madrugada anterior.
Quando houve a manhã com promessas de sol pensei que um sonho, um pesadelo, mas eras tu que crescias dentro do dia acinzentando-se. Houve o almoço e o apetite em luxos de cerimónia
- Não quero mais, estou bem servido.
e nada disso. Apenas a vontade de fugir
eu com medo do fundo para onde me arrastavas, eu basta e tu sempre insistindo
com a água cercando-me o equilíbrio das emoções. Não compreendo a tua chuva, apesar da mesma lentidão e das mesmas sombras pardas. Quiseste-me em ti, dentro de ti
sustive-me nas esquinas dos teus lábios, mas arrependido sacudi-te, porque o sal
como quem avança no mar e se esquece do fundo
o sal um amargo de vida a que não queria retornar; liberta-me, esquece-me.
Para quê o mar violento e salgado como a morte, se esta chuva, se estas tardes pardas? Sabes, perdi a vocação para a tortura. E para os abismos.



