23 de maio de 2006

regresso




Ainda aqui estou, encalhado para o teu regresso. Sempre de braços abertos com a luz parda inteirando-se de mim a perguntar

- Que faz este aqui?

e eu encolhendo os ombros à presença da nuvem negra que vai e vem, verificando se as minhas alegrias estão sendo reprimidas, se levo o tempo com o rosto apoiado nas mãos

(caramba, dava alvíssaras a quem me dissesse quando é que eu já estive assim)

a inventar depressões por causa da morte de um caracol, ou porque o botão da camisa está por um fio, e eu sem ti para mo pregares mesmo com ela vestida, tu repetindo uma lenga-lenga antiga que a tua avó te ensinou

- Não coso vivo nem morto, coso isto que está roto.

Sim, continuo aqui, como se o tempo que entretanto passou fosse apenas a antevéspera de um capricho teu, e tento desviar-me dos maus pensamentos cuidando do jardim órfão de ti, magicando novas decorações para o quarto, para a sala de estar, comprando no hipermercado trens de cozinha sofisticados e um serviço de mesa em porcelana, tão naturalmente do mesmo modo como compro toda a espécie de mercearia, alimentos e vinho para as nossas refeições. E só de vez em quando (juro que é só de vez em quando) deixo-me escurecer com a tarde, concedo a presença da luz parda indagando

- Que faz este aqui?

aparentemente em pânico se verificar que afinal o jardim cresce em escombros, e que as cores das cortinas não dão nada bem com a colcha que escolhi, e que o outro dia numa fúria desenfreada destruí aquele serviço vista alegre presente do nosso casamento. Aparentemente em pânico quando me dou conta que as caçarolas vão acumulando ferrugem (ou será gordura?), semanas a fio esquecidas na pia como qualquer escultura abstracta, e que são as baratas e outros bichos

(outros que não o caracol)

que se alimentam dos restos depositados nos armários, o frigorífico morto de bocarra escancarada… Aparentemente em pânico se me dou conta que não és tu que vens pregar os botões por um fio, a repetir a lenga-lenga da tua avó

- Não coso vivo nem morto, coso isto que está roto

e as minhas camisas desalinhadas no roupeiro, botão sim botão não, que figura ridícula ando eu a fazer na rua, no trabalho? E por isso dou comigo a inventar depressões, seguidas de prantos e fúrias, procurando o caracol como a única companhia nesta casa cheia de fantasmas de ti, só espero que não morto.

Contudo, sei resistir a tudo isso, como me ensinaste no dia da tua partida, e por isso repito, cheio daquele optimismo que dizias ser a minha grande qualidade: eu ainda aqui estou, encalhado para o teu regresso.

4 de maio de 2006

da tua iniciativa


Anjo, de Miguel Oliveira em 1000 imagens


Sentas-te e as palavras não estão contigo. Abres os dedos afagando o regaço e a tua mão tropeça num soluço inaudível. E servir-te-ia chorar para esquecer, para afogares as mágoas em auto-comiseração. Eu aguardo no mesmo silêncio feito de culpas e sustenho a voz para não te atrapalhar a equação dos pensamentos. Sempre foste tu que decidiste o que fazer. Quero pois que sejas tu a tomar a iniciativa, como se nos encontrássemos numa encruzilhada sem direcções, e me guies, como sempre o fizeste, pelo caminho que achas o melhor para concretizarmos o nosso destino. No teu corpo sinto que reside uma impaciência, parece-me que te vais mover, mas nem o olhar manifesta qualquer intenção de movimento. Eu sigo silenciosamente, remexendo devagar as minhas algibeiras, levantando e poisando os livros em cuidado, receando que a movimentação do ar te altere o alinhamento da solução para tudo isto.

Foram longos minutos, porque não fui capaz de saber se horas; sei que estamos nisto há muito tempo, desde que te sentaste. Agora que a minha boca, rendida ao cansaço, se solta em um ou dois bocejos, e depois de tanta paciência, esperando que da tua condição de estátua surgisse o epílogo da nossa presença diante do outro, as tuas mãos erguem-se seguindo a explosão indignada da tua boca que me acusa de não fazer qualquer esforço para superar esta ridícula situação.

29 de abril de 2006

ocaso

Olá. Vim espreitar o ocaso da tua razão plantada sob a colcha tecida por antigas paixões e sorrateiras solidões. Têm estado uns dias óptimos, não tens reparado? Já não me lembrava de uma primavera assim, tem sido sempre a água o retrato cinzento das janelas… Mas agora vêm-se as pessoas de roupas leves, as esplanadas povoadas de cerveja, o rio espelhando o azul do céu… Banalidades, dirás tu, para quem apenas lhe resta uma colcha e longas horas de sono. O teu corpo parece cristalizado entre as sombras da humidade que a velhice das paredes deixa a descoberto. E por mais que afaste as cortinas, a luz que vem da janela não vence a lugubridade do quarto. Os teus movimentos respiratórios são um acorde monótono que não lembra a vida. Estou de saída, e pouco te importa, não é? Queres mesmo saborear a despedida transformado no bolor por onde ruirá o sentido da tua existência. E a destas paredes. Não vale a pena a mão que te estendo, já não sabes dos afectos. E assim te deixo, no remoer das vagas memórias que ainda terás. Mesmo que a última seja a cor desbotada da colcha onde deitaste a vida a morrer. Até amanhã, se o dia para ti voltar a nascer.

22 de abril de 2006

espaços


despede-te de mim quando partires, de Armindo Dias em 1000 imagens


Fico a madrugar os espaços entre as lentas folhas de papel impressas, numa melancolia abstracta. Recordo o teu rosto com o olhar bebendo as palavras num acto de fé, como se esperasses descobrir uma relíquia. Não era a mim que lias, mas a ti que procuravas nas sombras das palavras. Qualquer entrelinha descuidada, como os lábios descaídos sob o tom do teu nome, sussurrado a meio de uma confissão patética de amores exacerbados. E depois um nada multiplicando uma distância inventada, dois acenos breves de acalentada esperança, a noite de surpresa caindo como um fardo sobre a insonte partida. Nenhum de nós se voltou a procurar gestos ainda mais vagos, foi tudo muito simples, diria perfeitamente natural.

Não sei reconstituir o que houve entre a tua procura neste amontoado de papel impresso com palavras que já se recusam a reconhecer-me, e a estação de metro onde nos despedimos. Recordo o teu rosto – sempre sereno –, a avidez do olhar seguindo o traçado da escrita, depois tão só essa distância que nos separou em parte incerta. E porque assim entendo, são os espaços que contarão agora o silêncio daquilo que não quero recordar ou, simplesmente – como qualquer entrelinha descuidada –, o que já não quero dizer, como quem investe a sua sobrevivência após uma derrocada.

18 de abril de 2006

alvorada


Etéreo Paraíso, por Victor Melo em 1000 imagens


Porque tens frio? Se a Primavera pisou o seu primeiro passo na alvorada dos nossos sentidos - acolá as árvores florescem, e no céu a Lua repousa pálida, enquanto Vénus se vislumbra com brilho; entre a fragrância da giesta e dos malmequeres uma borboleta branca dança, em espiral; e o Sol, erguido ali entre o colo dos montes, ilumina a púrpura manhã, acordada de sonhos.

Diz-me onde ouves as aves, no seu chilreio de plumas e orvalho, para que te possa encontrar; e com os meus lábios, tal rosa aberta, te venha a aquecer num beijo que te acaricia:

- Bom Dia!

Porque tens frio? Abre o teu peito cor do dia que se inicia e com a tua pele cheirando a feno acena ao meu desejo; torna-te rainha coroada de heras e pétalas coloridas, e vem, vem despertar o meu corpo pleno das tardes em que o crepúsculo te embalará numa toada de mar.

Estava talvez sonhando? Fecha então a janela, enquanto a manhã, e as águas cristalinas de Abril, harmonizam com o som da guitarra que dedilhas delicadamente, e me beijas, num sopro de luz, ao responder-me

- Bom Dia!

13 de abril de 2006

bicho urbano

Porque nos procuras ainda, Cristo, nas paredes sólidas do pecado? A nossa carne é um bicho urbano, de olhos reduzidos às sombras dos becos, sujo e fedorento como as ratazanas abundando nos esgotos. Céu azul é um sonho, Cristo, céu azul e amor são contos antigos que já não sabemos de cor, e perdemos há muito o livro em que foram escritos.

Não mostres, Cristo, essas chagas. Que nos interessa, se a alma com que abrimos o nosso destino é ela mesma uma ferida borolenta, gangrenando todas as aspirações humanas?

Não venhas, Cristo, sai-te do nosso caminho, poupa-te à delicadeza dos espinhosos cardos, nossa enxerga de todas as noites.

E ao subires ao céu leva contigo quem ainda duvida que o que te dizemos é a clara verdade.

9 de abril de 2006

descartáveis

Somos descartáveis, peneirados com insistência até ao sal da nossa pele. Marcados, cambiados, clamados, vendidos ou emprestados. Na tua voz colocam um selo de garantia que não podes quebrar - estás ao abrigo de um procedimento interno, de um contrato.

Até que a terra te engula, sabias? E certo dia tudo terá acabado, assim como se esvai a cor dos jardins à medida que a tarde avança como pluma sobre a vida e os relógios. É o gesto de um cigarro, ou o folhear de um livro. E tu repeles a ideia como se acreditasses que alguém fica para semente

- Que parvoíce estás tu aí a dizer?

e ninguém é semente, porque ninguém amadurece completamente para a deixar, para o ser. Ficam sempre resquícios de algo que não se fez, um sonho qualquer que fica sempre para trás, adiado constantemente

- Agora não pode ser, talvez mais tarde,

de modo que, quer queiras ou não, um dia tudo terá acabado, e como ficarão os objectos, as roupas, os sítios

- Onde está fulano?

para todo o sempre órfãos ou muito mal adoptados por quem fica.

Então falam-te da obra deixada, da memória que deve ser respeitada, e coisas assim, tão circunstanciais como a própria partida, que é somente um simples momento e nada mais.

6 de abril de 2006

05h12 am


autor desconhecido


À primeira gota de sangue sorriste, gulosa. Eu mascava pastilha elástica numa paciência desinteressada, com as pálpebras pesando a delicadeza do sono. Tomaste um gole de água, sorrindo, e chupaste a ponta do indicador direito. Eu permaneci indiferente, mesmo com o zunir do telemóvel desesperado de atenção.

Não atendes, perguntaste, e não se moveu qualquer resposta dos meu lábios. Também não foste capaz de o fazer. A tua face, encalhada no mesmo sorriso pateta, empalidecia, como que formando um espectro fluorescente no meio da sombra que avançava. E continuavas irrequieta, apesar de eu não perceber o ritmo dos teus movimentos.

A morte entrou encharcada de lágrimas por verter, eram - talvez - umas cinco horas e doze minutos da nascente manhã.

29 de março de 2006

poeta alado (um ano após a partida de JAG)



ao poeta José António Gonçalves (1954-2005)

Continua chovendo.

Que dirias tu da água que verte passado um ano depois de voares? Nos teus dedos também nasciam horizontes, como diria Eugénio, tinhas nas mãos essa vocação de jazigo, de fonte, de coral. Qualquer dom de partitura nas palavras alinhadas, cada uma seguindo o teu ritmo de poeta alado, rompendo o mundo das convenções, alargando as longitudes do olhar, quebrando imposições. E eras tão volúvel na ternura e nos afectos, grego e troiano dos sentimentos, das relações que querias simples. De tudo fizeste um poema, e mesmo voando para lá do nosso entendendimento terreno, era do verso derradeiro que teceste à vida com as cores de todos os crepúsculos que nos deste a beber para nos embriagarmos de música e humanidade. Que dirias tu hoje da água? Que dirias tu hoje das chuvas, e dos prados amadurecendo? Que dirias tu a nós, poeta alado - recitar-nos-ias a tua ode ao deus enfim encontrado?...

Aqui continua chovendo.

12 de março de 2006

isto que sinto

Isto que sinto não foi a morna tarde empurrando-me do retiro mórbido em que ostento uma fria solidão. Não para falar ao sabor de uma cerveja e de alguns cigarros lentamente queimados nos trilhos das conversas. Não foi essa fugaz paz interior, dessas que de tempos a tempos nos é permitido aproveitar. E não foi o teu corpo escandalosamente aberto sobre o trigo ainda verde.

Não foi nada disso: isto que sinto foi apenas o hábito de um mundo fora de mim que eu me esquecera, já há algum tempo, de ver despertar.

É chegado o momento de ser eu novamente, em voo livre.

8 de março de 2006

confirmação


fotografia de Daniel Camacho em 1000 imagens


- Vens a quê?
- Ver-te.
- Porquê?
- Para saber-te.
- De…?
- De tudo o que não foste.

Não me procures nas entrelinhas do que fui. Levei-me para parte incerta debulhando lágrimas imperfeitas a reprimir os insultos e a raiva. Deixei a vontade do reencontro numa página qualquer germinando dúvidas inócuas sobre o tempo perdido.

Não te levantes, não vais sair daqui. Espera que a bátega cumpra o seu objectivo principal: regar o passado para que a memória não se perca. Nem imaginas o quão doloroso é a memória perdida.

- Vens para ficar?
- Não. Serei breve.
- Se calhar não devias…
- Não digas o que devo fazer.

Podes deixar correr as lágrimas desde que a distância continue a separar-nos. Desde que não seja eu a colhê-las entre as minhas mãos já estéreis. Isolei o desejo dos teus beijos numa sombra de parede onde nem sol nem luar. Deslocando o olhar vagaroso, estendido para lá do horizonte.

Vá, suspira agora – isso. É por pouco tempo, e tudo ficará bem, depois o nada de qualquer coisa. Deixa-me apenas ler-te.

- E não dizes nada.
- Apenas ver-te. Ler-te.

Entendo o teu rosto como uma pauta vazia. As tuas mãos atrapalhadíssimas com a chávena do café. O teu olhar imitando os dias mais tristes. E confirmo o coração empedernido.

- Então é só isto que querias?
- Larga-me a mão, por favor.
- E vais…?
- Já não volto.

Não me acenes, não estou a olhar.

21 de fevereiro de 2006

redondamente

E agora persegue-me o chão redondamente multiplicado nas vozes que murmuram as manhãs cobertas de chuva. Chapinham os passos, anseiam correr, eu não sei que movimentos são, não sei o andamento, não sei dessas estranhas melodias sopradas constantemente, dia após noite, noite após dia, aos meus ouvidos como harpas que nascem já fecundas de novos horizontes.

19 de fevereiro de 2006

máscaras



Sinto-me entorpecido apesar das melodias conciliadoras que tanges. Apático e aflito porque não cumpriste com as promessas que nos fizeste. Havíamos pois de partilhar a solidão nascida no teu colo. Nada será jamais tão puro quanto esta solidão. Pouco fará sentido, e parece-me apreender-te pelo fundo desfocado de uma lente. Se mais alguém aqui entrar, quedar-me-ei sentado ouvindo o murmúrio dos horizontes. Noutra circunstância não chamaria a isto solidão, e talvez reconheças as máscaras hediondas com que fecho o rosto, brutalmente estulto, embotado, e acredita que sempre o evitei, sabes? - sempre o evitei.

Lembro que quando éramos crianças sabíamos onde e como parar, mas acontece que os bons rapazes cresceram a destruir a ingenuidade. Ninguém acabou por ganhar ou cumprir o que fosse. Mesmo nada, mesmo ninguém. Só a solidão, e estas máscaras com que fecho o rosto.

Abres-me o horizonte?


[tradução livre da letra da canção Comforting Sounds dos Mew, com as necessárias adaptações.]