6 de abril de 2006

05h12 am


autor desconhecido


À primeira gota de sangue sorriste, gulosa. Eu mascava pastilha elástica numa paciência desinteressada, com as pálpebras pesando a delicadeza do sono. Tomaste um gole de água, sorrindo, e chupaste a ponta do indicador direito. Eu permaneci indiferente, mesmo com o zunir do telemóvel desesperado de atenção.

Não atendes, perguntaste, e não se moveu qualquer resposta dos meu lábios. Também não foste capaz de o fazer. A tua face, encalhada no mesmo sorriso pateta, empalidecia, como que formando um espectro fluorescente no meio da sombra que avançava. E continuavas irrequieta, apesar de eu não perceber o ritmo dos teus movimentos.

A morte entrou encharcada de lágrimas por verter, eram - talvez - umas cinco horas e doze minutos da nascente manhã.

29 de março de 2006

poeta alado (um ano após a partida de JAG)



ao poeta José António Gonçalves (1954-2005)

Continua chovendo.

Que dirias tu da água que verte passado um ano depois de voares? Nos teus dedos também nasciam horizontes, como diria Eugénio, tinhas nas mãos essa vocação de jazigo, de fonte, de coral. Qualquer dom de partitura nas palavras alinhadas, cada uma seguindo o teu ritmo de poeta alado, rompendo o mundo das convenções, alargando as longitudes do olhar, quebrando imposições. E eras tão volúvel na ternura e nos afectos, grego e troiano dos sentimentos, das relações que querias simples. De tudo fizeste um poema, e mesmo voando para lá do nosso entendendimento terreno, era do verso derradeiro que teceste à vida com as cores de todos os crepúsculos que nos deste a beber para nos embriagarmos de música e humanidade. Que dirias tu hoje da água? Que dirias tu hoje das chuvas, e dos prados amadurecendo? Que dirias tu a nós, poeta alado - recitar-nos-ias a tua ode ao deus enfim encontrado?...

Aqui continua chovendo.

12 de março de 2006

isto que sinto

Isto que sinto não foi a morna tarde empurrando-me do retiro mórbido em que ostento uma fria solidão. Não para falar ao sabor de uma cerveja e de alguns cigarros lentamente queimados nos trilhos das conversas. Não foi essa fugaz paz interior, dessas que de tempos a tempos nos é permitido aproveitar. E não foi o teu corpo escandalosamente aberto sobre o trigo ainda verde.

Não foi nada disso: isto que sinto foi apenas o hábito de um mundo fora de mim que eu me esquecera, já há algum tempo, de ver despertar.

É chegado o momento de ser eu novamente, em voo livre.

8 de março de 2006

confirmação


fotografia de Daniel Camacho em 1000 imagens


- Vens a quê?
- Ver-te.
- Porquê?
- Para saber-te.
- De…?
- De tudo o que não foste.

Não me procures nas entrelinhas do que fui. Levei-me para parte incerta debulhando lágrimas imperfeitas a reprimir os insultos e a raiva. Deixei a vontade do reencontro numa página qualquer germinando dúvidas inócuas sobre o tempo perdido.

Não te levantes, não vais sair daqui. Espera que a bátega cumpra o seu objectivo principal: regar o passado para que a memória não se perca. Nem imaginas o quão doloroso é a memória perdida.

- Vens para ficar?
- Não. Serei breve.
- Se calhar não devias…
- Não digas o que devo fazer.

Podes deixar correr as lágrimas desde que a distância continue a separar-nos. Desde que não seja eu a colhê-las entre as minhas mãos já estéreis. Isolei o desejo dos teus beijos numa sombra de parede onde nem sol nem luar. Deslocando o olhar vagaroso, estendido para lá do horizonte.

Vá, suspira agora – isso. É por pouco tempo, e tudo ficará bem, depois o nada de qualquer coisa. Deixa-me apenas ler-te.

- E não dizes nada.
- Apenas ver-te. Ler-te.

Entendo o teu rosto como uma pauta vazia. As tuas mãos atrapalhadíssimas com a chávena do café. O teu olhar imitando os dias mais tristes. E confirmo o coração empedernido.

- Então é só isto que querias?
- Larga-me a mão, por favor.
- E vais…?
- Já não volto.

Não me acenes, não estou a olhar.

21 de fevereiro de 2006

redondamente

E agora persegue-me o chão redondamente multiplicado nas vozes que murmuram as manhãs cobertas de chuva. Chapinham os passos, anseiam correr, eu não sei que movimentos são, não sei o andamento, não sei dessas estranhas melodias sopradas constantemente, dia após noite, noite após dia, aos meus ouvidos como harpas que nascem já fecundas de novos horizontes.

19 de fevereiro de 2006

máscaras



Sinto-me entorpecido apesar das melodias conciliadoras que tanges. Apático e aflito porque não cumpriste com as promessas que nos fizeste. Havíamos pois de partilhar a solidão nascida no teu colo. Nada será jamais tão puro quanto esta solidão. Pouco fará sentido, e parece-me apreender-te pelo fundo desfocado de uma lente. Se mais alguém aqui entrar, quedar-me-ei sentado ouvindo o murmúrio dos horizontes. Noutra circunstância não chamaria a isto solidão, e talvez reconheças as máscaras hediondas com que fecho o rosto, brutalmente estulto, embotado, e acredita que sempre o evitei, sabes? - sempre o evitei.

Lembro que quando éramos crianças sabíamos onde e como parar, mas acontece que os bons rapazes cresceram a destruir a ingenuidade. Ninguém acabou por ganhar ou cumprir o que fosse. Mesmo nada, mesmo ninguém. Só a solidão, e estas máscaras com que fecho o rosto.

Abres-me o horizonte?


[tradução livre da letra da canção Comforting Sounds dos Mew, com as necessárias adaptações.]


12 de fevereiro de 2006

crepúsculo




A tarde acalma-se nos tons do crepúsculo. Com o odor da erva calcada nos parques. As portas dos automóveis batem uma melodia de regresso. Sacode-se o pó dos sapatos, acomodam-se os quadros das bicicletas nas bagageiras com promessas de uma e mais outras vezes. O formigueiro da tarde decompõe-se, breve os patos e os gansos e os cisnes poderão respirar de descanso, como aquelas pequenas aves nos ramos mais altos chilreando a conquista do galho onde dormitar as plumas. E enquanto o mar se enche espumoso das cores do sol, os automóveis circulam com gente dentro até as ruas da cidade murmurarem um silêncio de alcatrão ferido. Aponto o horizonte na fronte da minha caminhada e pergunto, ao som de Metheny:

- Are you going with me?

10 de fevereiro de 2006

noites gémeas


autor desconhecido


Segues a inevitabilidade das minhas mãos recorrendo às cores húmidas do desejo. Sacudo o orvalho dos ombros depois da madrugada congestionada nas emoções. Etérea pelo estender dos hálitos. Abriram-se-te os poros de perfume e cantas a voz na tonalidade de um murmúrio. Os teus orgasmos são como noites gémeas variando nos segredos das latitudes. E quando estremeces, atiras num súbito soluço o mundo pelo universo adentro.

Convida-me, abre-te. Explora a minha língua. Exala. Transpira na dança. Enleva-te neste prazer puro e primário. Vim para beber do teu sumo, essa frescura do teu corpo amadurecido pela maciez de vénus da tua pele quente. Dás-me o suco e a saliva. Dou-te o meu sémen. Quero que dances embriagada com a cor do vinho. E te percas. Extasiada em mim e por mim entranhada. Eu só quero explorar-te violentamente ao ritmo do que ouvimos, na distância paralela dos sentidos. É o ritmo da nossa cópula ébria e desenfreada.

Toca-me delicada. Abre os pulmões para gritares o clímax do teu corpo. Na flor que hasteaste brotarão as leitosas pétalas que te cobrirão de uma espumosa e morna candura. Arde tudo. Mesmo que na janela a chuva murmure a sua ladainha de sono.

Mergulha então comigo, quero sorver o sabor dos morangos no teu sexo aflito, ferida aberta pelo prazer. Leva as minhas mãos aos lugares mais íntimos e sê tu a agarrares a haste dessa flor a que tomas o aroma com os teus lábios, a tua língua. Mergulha comigo no frenesim escarlate, o orvalho da sede caído sobre nossos corpos que se apelam, se rejeitam e se apelam novamente. Mergulha-me, mergulha-te. Não há noite nem dia, apenas um tempo traçado na verticalidade de mim, sujeito a explodir contigo um turbilhão de gemidos.

8 de fevereiro de 2006

nado-morto

Vamos apascentar a fadiga e devolver o sangue derramado à terra. A tua confissão é um novelo de pó com o sol e a chuva e toda a miséria emigrada do teu corpo - um país sem fronteiras, mas um condomínio perfeito. Diz-se morte mas não acreditamos, são todas as cicatrizes e a raiva e os prantos, todos os gritos emparelhados como bois que abrem a terra. O aconchego do teu colo exalando o livre odor acre. Acredita-me. Não são madrugadas recicladas ao espelho. Tão pouco a aceitação do destino. Será sempre o vigor crescido dentro da nossa saliva, com os restantes humores à mistura. De terrenas náuseas.

2 de fevereiro de 2006

a condição

Cedo à paisagem e ao frio a minha perspectiva do futuro. Sabemos todos que nada será como dantes e quem assim não pensar seguirá enganado. Mas os rostos que passam parecem-me os mesmos rostos de outrora, e a terra germina agora as mesmas sementes de antes. Um aperto de mãos, um afago, um beijo que poisa aqui e ali nos afectos, vozes que falam e vozes que se calam, braços que lutam e braços que baixam os seus esforços. A mesma sede, a mesma fome, a mesma fartura para quem não bebe ou come. As mesmas janelas. Sobretudo as mesmas janelas apontando aqueles horizontes. E eu cedo toda a minha perspectiva do futuro à mesma condição de sempre: onde é a saída desta anciã caverna? E porquê as mesmas sombras, sinónimas de todas as palavras e actos que urdem a nossa história?

21 de janeiro de 2006

descendência

Nasceu-lhe um filho nas mãos para carpir o suor dos séculos. Diz que é filho do futuro e não traz boca para chamar os nomes. Nem um vagido. Nada. Apenas o rosto firmando com o olhar a categoria humana dos oprimidos. Nasceu-lhe um filho cego de palavras, porém com aptidão para as cores das bandeiras como farrapos ao vento. E sensibilidade para os prantos das viúvas de cada país. Nasceu-lhe um filho das mãos para sentir a impureza dos seus poros. Para saber o quanto envelheceu.

A liberdade não se deitou com um homem. Fez-lhe o filho um mundo inteiro que, de decrépito, já não se erguerá do abismo para ensinar a sua descendência.

6 de janeiro de 2006

só assim

Quero estar sozinha porque só assim posso. Esconder a alma de palhaço e o pão duro de tanto tempo ignorado. Esconder o frigorífico abandonado e os cinzeiros com essa estranha vocação de ilhas vulcânicas. Quero estar sozinha e tentar o meu melhor: povoar o terreno lá atrás de preciosas flores que apanham o orvalho das manhãs que não conheço, pintar as cascas das paredes com as mãos se não encontro qualquer ferramenta, lavar – talvez lavar – a pilha que se amontoa aos meses e que justifica a sombra vazia dos armários e das gavetas. Quero estar sozinha e saber que de nada sou capaz, nem das teias varrer com a velha vassoura com metade da sua cabeleira.Vassoura velha. Paredes velhas. Janelas velhas. Móveis velhos. Roupa velha. Terra velha. Filão senil numa casa velha. E o meu olhar, envelhecendo pelos objectos o sentido de tudo isto que digo e escrevo. Mas vou continuar sozinha, porque só assim posso. Só assim posso vociferar Merda!, e abandonar o tampo da mesa que me tortura.

5 de janeiro de 2006

últimas palavras


(daqui)


A chuva cai com argumentos tristes. Cai com a vocação das lágrimas. Cai para a efemeridade.

Estendo as mãos e nelas vejo o vazio das tuas. Estendo o olhar para parte alguma e nenhum lugar é onde já foi. Estendo o meu corpo na latitude onde já não te encontras. Toda a terra se abate, com a aflição das águas. E a chuva cai porque tudo em mim para ti caiu.

E nós sem argumentos tristes, sem a vocação das lágrimas. Mas a chuva cai nessa condição porque outras águas não o fariam melhor para ilustrar a partida de ambos.

As últimas palavras, dirão.