12 de fevereiro de 2006

crepúsculo




A tarde acalma-se nos tons do crepúsculo. Com o odor da erva calcada nos parques. As portas dos automóveis batem uma melodia de regresso. Sacode-se o pó dos sapatos, acomodam-se os quadros das bicicletas nas bagageiras com promessas de uma e mais outras vezes. O formigueiro da tarde decompõe-se, breve os patos e os gansos e os cisnes poderão respirar de descanso, como aquelas pequenas aves nos ramos mais altos chilreando a conquista do galho onde dormitar as plumas. E enquanto o mar se enche espumoso das cores do sol, os automóveis circulam com gente dentro até as ruas da cidade murmurarem um silêncio de alcatrão ferido. Aponto o horizonte na fronte da minha caminhada e pergunto, ao som de Metheny:

- Are you going with me?

10 de fevereiro de 2006

noites gémeas


autor desconhecido


Segues a inevitabilidade das minhas mãos recorrendo às cores húmidas do desejo. Sacudo o orvalho dos ombros depois da madrugada congestionada nas emoções. Etérea pelo estender dos hálitos. Abriram-se-te os poros de perfume e cantas a voz na tonalidade de um murmúrio. Os teus orgasmos são como noites gémeas variando nos segredos das latitudes. E quando estremeces, atiras num súbito soluço o mundo pelo universo adentro.

Convida-me, abre-te. Explora a minha língua. Exala. Transpira na dança. Enleva-te neste prazer puro e primário. Vim para beber do teu sumo, essa frescura do teu corpo amadurecido pela maciez de vénus da tua pele quente. Dás-me o suco e a saliva. Dou-te o meu sémen. Quero que dances embriagada com a cor do vinho. E te percas. Extasiada em mim e por mim entranhada. Eu só quero explorar-te violentamente ao ritmo do que ouvimos, na distância paralela dos sentidos. É o ritmo da nossa cópula ébria e desenfreada.

Toca-me delicada. Abre os pulmões para gritares o clímax do teu corpo. Na flor que hasteaste brotarão as leitosas pétalas que te cobrirão de uma espumosa e morna candura. Arde tudo. Mesmo que na janela a chuva murmure a sua ladainha de sono.

Mergulha então comigo, quero sorver o sabor dos morangos no teu sexo aflito, ferida aberta pelo prazer. Leva as minhas mãos aos lugares mais íntimos e sê tu a agarrares a haste dessa flor a que tomas o aroma com os teus lábios, a tua língua. Mergulha comigo no frenesim escarlate, o orvalho da sede caído sobre nossos corpos que se apelam, se rejeitam e se apelam novamente. Mergulha-me, mergulha-te. Não há noite nem dia, apenas um tempo traçado na verticalidade de mim, sujeito a explodir contigo um turbilhão de gemidos.

8 de fevereiro de 2006

nado-morto

Vamos apascentar a fadiga e devolver o sangue derramado à terra. A tua confissão é um novelo de pó com o sol e a chuva e toda a miséria emigrada do teu corpo - um país sem fronteiras, mas um condomínio perfeito. Diz-se morte mas não acreditamos, são todas as cicatrizes e a raiva e os prantos, todos os gritos emparelhados como bois que abrem a terra. O aconchego do teu colo exalando o livre odor acre. Acredita-me. Não são madrugadas recicladas ao espelho. Tão pouco a aceitação do destino. Será sempre o vigor crescido dentro da nossa saliva, com os restantes humores à mistura. De terrenas náuseas.

2 de fevereiro de 2006

a condição

Cedo à paisagem e ao frio a minha perspectiva do futuro. Sabemos todos que nada será como dantes e quem assim não pensar seguirá enganado. Mas os rostos que passam parecem-me os mesmos rostos de outrora, e a terra germina agora as mesmas sementes de antes. Um aperto de mãos, um afago, um beijo que poisa aqui e ali nos afectos, vozes que falam e vozes que se calam, braços que lutam e braços que baixam os seus esforços. A mesma sede, a mesma fome, a mesma fartura para quem não bebe ou come. As mesmas janelas. Sobretudo as mesmas janelas apontando aqueles horizontes. E eu cedo toda a minha perspectiva do futuro à mesma condição de sempre: onde é a saída desta anciã caverna? E porquê as mesmas sombras, sinónimas de todas as palavras e actos que urdem a nossa história?

21 de janeiro de 2006

descendência

Nasceu-lhe um filho nas mãos para carpir o suor dos séculos. Diz que é filho do futuro e não traz boca para chamar os nomes. Nem um vagido. Nada. Apenas o rosto firmando com o olhar a categoria humana dos oprimidos. Nasceu-lhe um filho cego de palavras, porém com aptidão para as cores das bandeiras como farrapos ao vento. E sensibilidade para os prantos das viúvas de cada país. Nasceu-lhe um filho das mãos para sentir a impureza dos seus poros. Para saber o quanto envelheceu.

A liberdade não se deitou com um homem. Fez-lhe o filho um mundo inteiro que, de decrépito, já não se erguerá do abismo para ensinar a sua descendência.

6 de janeiro de 2006

só assim

Quero estar sozinha porque só assim posso. Esconder a alma de palhaço e o pão duro de tanto tempo ignorado. Esconder o frigorífico abandonado e os cinzeiros com essa estranha vocação de ilhas vulcânicas. Quero estar sozinha e tentar o meu melhor: povoar o terreno lá atrás de preciosas flores que apanham o orvalho das manhãs que não conheço, pintar as cascas das paredes com as mãos se não encontro qualquer ferramenta, lavar – talvez lavar – a pilha que se amontoa aos meses e que justifica a sombra vazia dos armários e das gavetas. Quero estar sozinha e saber que de nada sou capaz, nem das teias varrer com a velha vassoura com metade da sua cabeleira.Vassoura velha. Paredes velhas. Janelas velhas. Móveis velhos. Roupa velha. Terra velha. Filão senil numa casa velha. E o meu olhar, envelhecendo pelos objectos o sentido de tudo isto que digo e escrevo. Mas vou continuar sozinha, porque só assim posso. Só assim posso vociferar Merda!, e abandonar o tampo da mesa que me tortura.

5 de janeiro de 2006

últimas palavras


(daqui)


A chuva cai com argumentos tristes. Cai com a vocação das lágrimas. Cai para a efemeridade.

Estendo as mãos e nelas vejo o vazio das tuas. Estendo o olhar para parte alguma e nenhum lugar é onde já foi. Estendo o meu corpo na latitude onde já não te encontras. Toda a terra se abate, com a aflição das águas. E a chuva cai porque tudo em mim para ti caiu.

E nós sem argumentos tristes, sem a vocação das lágrimas. Mas a chuva cai nessa condição porque outras águas não o fariam melhor para ilustrar a partida de ambos.

As últimas palavras, dirão.

2 de janeiro de 2006

asas

Fui buscar-te ao fundo sombrio do papel negro onde escondias a raiva acossada por fantasmas e labaredas. Balbuciavas convicto de um grito surdo e com os pés remexias as cinzas espalhadas numa procura desesperada e vã. Resgatar-te a meio do suplício era uma missão inadequada e melindrosa e soube reter-te entre a baba da raiva e o ranho da exasperação. Arreavam as asas que sofriam e ela estava lá, tu sabias que ela estava lá e as tuas mãos empedernidas de alcatrão e destroços aguentaram-se quedos apesar de toda a força da tua voz. As asas de Londres, essas, ardiam como um dirigível alemão.

31 de dezembro de 2005

partida


por Luís Ventura em 1000 imagens


Vai cair a chuva sobre mim e não vou ceder um milímetro que seja do meu espaço. Caia a água vagarosa inundando a ferrugem dos carris, que eu fico aqui, nesta espera contínua. É o vento que lavra a terra batida e fustiga a erva dura, escura. O ar entristece-se com a partida, é um bocejo frio que se enrola num cigarro. Há-de chegar o comboio, e eu sei esperar. Quando o relógio for mais velho no mundo, ou um vagido reclamar a recontagem do tempo, estarei por aí. Ao abrir das garrafas. Na explosão das cores e dos céus.

A chuva já cai, escorrem pequenos ribeiros da minha cabeça para dentro do meu corpo, como se as veias se virassem do avesso, bombeadas pelo acaso, e o sangue vítreo da cor do nada. Da cor da partida.

E assim parece-me que o fim tem na sua cauda a semente de um princípio de tudo, para lá de tudo, para lá de mim agora aqui encharcado, sem ceder um milímetro do meu espaço. Se cedesse, deixaria que o pavor tomasse conta de mim, arrumando-me a um canto de pardas solidões. Talvez para sempre. Mas deixo-me estar firme como a pedra, que nem é dura sob a água que nem é mole. Não perderei a minha carruagem, e levo na bagagem alguns segredos.

Guarda-te para mim. Se ouvires as badaladas, não te enganes: serão os meus passos de sempre, antecedendo a envergadura da sombra do meu capote inundado.

30 de dezembro de 2005

telegrama


foto de Marco Ricca em 1000 imagens


Eu venho escutar-te a limpidez dos lábios. A tua boca que diz silêncio ao meu lado prostrada, encarando o acaso com um sorriso nos olhos. Observo o teu pescoço e sinto o sangue que te aquece. Não me indicas qualquer caminho, deixas-me à mercê das mãos que são como esquilos assustados pelas sombras. E a melodia prossegue, mesmo não ouvindo a tua voz. Mesmo sem que digas o que gostaria tanto de ouvir e porém com medo. Tenho medo que me percas algures, por isso talvez o silêncio seja a melhor estratégia. O amor proibido tem assim estas crisálidas, não se sabe nunca no que vai transformar-se. Fosse como a metamorfose das palavras, abrir-se-iam infinitos caminhos. Não é. O amor proibido também não existe, afinal. O que existe somos nós e a tua boca que não encontra a minha. E é só isso.

27 de dezembro de 2005

milímetro


O Canto dos Anjos, por Armando Dias em 1000 imagens


É difícil escolher-te agora as palavras. Dizer-te gosto de ti seria tão banal como indicar-te que tens uma nódoa na camisola. Ou uma unha quebrada. Ou uma pestana morta sobre o teu rosto. Tudo tem passado incólume à exactidão dos sentimentos: vejo-te, toco-te, ouço-te e nada me parece ter qualquer significado. Nem mesmo o teu olhar apontando lá fora a chuva que cai aos poucos, numa preguiça diagonal. Nem mesmo a tua mão que surge de surpresa como quem vem à socapa resgatar uma carícia. Sabes, se o mundo pudesse ser um milímetro que fosse mais além ou mais aquém, talvez as palavras tivessem já desencadeado a força necessária para o amor, mas no mundo nada se mexe – nem para cá nem para lá. E parece-me que, a ser assim, poderás ter sempre uma nódoa na camisola para limpar, uma unha para limar, uma pestana que exija a paciência minuciosa para a remover sem que te magoe o rosto. Mas gostar de ti, e dizê-lo, seria tão improvável quanto entrasses agora pela porta e afirmasses, com uma certeza de eternidade, que afinal gostarmos um do outro sempre fez parte do mundo tal qual ele é, sem milímetros a mais ou a menos.

30 de novembro de 2005

nem sempre são as palavras


Julie, de Filipe Oliveira em 1000 imagens

- Nem sempre são as palavras que dizem.
- Que dizem o quê?
- Tudo. Nem sempre são as palavras.
- Queres dizer também o olhar?
- E o rosto, principalmente o rosto.

Lágrima
O Rosto é Lágrima.
Frio Orvalho.
Sentimento, Criação.
Espírito.
Tarde
O Rosto é a Tarde
Desejo que Arde.


É a brisa que traz até mim o perfume dos teus cabelos, o perfume que nunca senti, que não conheço. É a memória do teu rosto o fogo ateado no meu peito que vem consumindo as tardes. É a noite em que te busco cego sem sair deste lugar onde escrevo sem lua sem estrelas, sabendo que não vou encontrar-te. É um bocejo, um quadro sobre a ponte, o rio, cidade onde tudo é nada, mas principalmente um beijo que dos teus olhos chega até mim como flor que perde as suas pétalas, em forma de dúvida, a questão de saber o que queremos. Sei já que sabes que mesmo no nada sabemos um do outro. Sabemos desta fresca manhã que desperta no cruzar fugaz dos olhares. Sabes já, tanto quanto eu, que a tua mão permanecerá fria. Que o calor do meu peito não te aconchegará. Que de ambos o afago não tocará nem de leve nossos corpos...

26 de novembro de 2005

pela humidade dos lábios


Anjo, de Paulo Almeida em 1000 imagens

para a Marta Nogueira


Fumo sobre um copo de whisky que tem a humidade dos meus lábios. Tinha a quase certeza que aceitarias o meu convite, mas a cidade era um aglomerado deserto de gente sem a tua presença. Não sei se pelo sol tímido, se pelas nuvens plúmbeas que ameaçavam o encanto breve da praça, se pelo frio que obrigava os passos das pessoas naquele ritmo ligeiro sem olhar o rosto dos outros – era uma cidade sem carne, sem sangue. As tuas mãos não estavam lá, para me proteger, para me encaminhar.

E desencaminhado retrocedi toda a marcha da tarde, acabando neste cubículo onde enfim me incenso. O whisky convidou-me numa solenidade aristocrática para que, de resto, não apagasse a luz da tarde só. O tampo da mesa teria poesia para te recitar, talvez dois ou três versos me saíssem das mãos a agradecer-te a presença. E o meu rosto teria uma ternura de criança, emocionada com o tom da tua voz, como se essa criança quisesse o embalo do teu colo.

Não estiveste, não vieste. Voaram os pássaros, recolhidos numa pluma de sono quando a tarde caiu. Fiquei com a memória vaga de ti, e numa atitude digna

(porque o whisky quis que me rendesse à sua condição aristocrática)

acendi o cigarro sem convulsões, sem qualquer lágrima, apenas a postura lamechas de ir fumando sobre o copo que tem a humidade dos meus lábios. Sem os teus, sem os teus... Uma humidade salgada, pois que talvez os lábios também chorem. Quando te encontrar, nada te direi – estarei enrolado numa pluma de pássaro para que sejas tu a tomar a iniciativa de entrar no meu sono. Se vieres então

(sem whiskies, sem cigarros, sem poesia – e sem qualquer inclinação lamechas)

tomarei o teu corpo debaixo do meu para respirar brisas de uma primavera ainda longe dos calendários.