2 de fevereiro de 2006

a condição

Cedo à paisagem e ao frio a minha perspectiva do futuro. Sabemos todos que nada será como dantes e quem assim não pensar seguirá enganado. Mas os rostos que passam parecem-me os mesmos rostos de outrora, e a terra germina agora as mesmas sementes de antes. Um aperto de mãos, um afago, um beijo que poisa aqui e ali nos afectos, vozes que falam e vozes que se calam, braços que lutam e braços que baixam os seus esforços. A mesma sede, a mesma fome, a mesma fartura para quem não bebe ou come. As mesmas janelas. Sobretudo as mesmas janelas apontando aqueles horizontes. E eu cedo toda a minha perspectiva do futuro à mesma condição de sempre: onde é a saída desta anciã caverna? E porquê as mesmas sombras, sinónimas de todas as palavras e actos que urdem a nossa história?

21 de janeiro de 2006

descendência

Nasceu-lhe um filho nas mãos para carpir o suor dos séculos. Diz que é filho do futuro e não traz boca para chamar os nomes. Nem um vagido. Nada. Apenas o rosto firmando com o olhar a categoria humana dos oprimidos. Nasceu-lhe um filho cego de palavras, porém com aptidão para as cores das bandeiras como farrapos ao vento. E sensibilidade para os prantos das viúvas de cada país. Nasceu-lhe um filho das mãos para sentir a impureza dos seus poros. Para saber o quanto envelheceu.

A liberdade não se deitou com um homem. Fez-lhe o filho um mundo inteiro que, de decrépito, já não se erguerá do abismo para ensinar a sua descendência.

6 de janeiro de 2006

só assim

Quero estar sozinha porque só assim posso. Esconder a alma de palhaço e o pão duro de tanto tempo ignorado. Esconder o frigorífico abandonado e os cinzeiros com essa estranha vocação de ilhas vulcânicas. Quero estar sozinha e tentar o meu melhor: povoar o terreno lá atrás de preciosas flores que apanham o orvalho das manhãs que não conheço, pintar as cascas das paredes com as mãos se não encontro qualquer ferramenta, lavar – talvez lavar – a pilha que se amontoa aos meses e que justifica a sombra vazia dos armários e das gavetas. Quero estar sozinha e saber que de nada sou capaz, nem das teias varrer com a velha vassoura com metade da sua cabeleira.Vassoura velha. Paredes velhas. Janelas velhas. Móveis velhos. Roupa velha. Terra velha. Filão senil numa casa velha. E o meu olhar, envelhecendo pelos objectos o sentido de tudo isto que digo e escrevo. Mas vou continuar sozinha, porque só assim posso. Só assim posso vociferar Merda!, e abandonar o tampo da mesa que me tortura.

5 de janeiro de 2006

últimas palavras


(daqui)


A chuva cai com argumentos tristes. Cai com a vocação das lágrimas. Cai para a efemeridade.

Estendo as mãos e nelas vejo o vazio das tuas. Estendo o olhar para parte alguma e nenhum lugar é onde já foi. Estendo o meu corpo na latitude onde já não te encontras. Toda a terra se abate, com a aflição das águas. E a chuva cai porque tudo em mim para ti caiu.

E nós sem argumentos tristes, sem a vocação das lágrimas. Mas a chuva cai nessa condição porque outras águas não o fariam melhor para ilustrar a partida de ambos.

As últimas palavras, dirão.

2 de janeiro de 2006

asas

Fui buscar-te ao fundo sombrio do papel negro onde escondias a raiva acossada por fantasmas e labaredas. Balbuciavas convicto de um grito surdo e com os pés remexias as cinzas espalhadas numa procura desesperada e vã. Resgatar-te a meio do suplício era uma missão inadequada e melindrosa e soube reter-te entre a baba da raiva e o ranho da exasperação. Arreavam as asas que sofriam e ela estava lá, tu sabias que ela estava lá e as tuas mãos empedernidas de alcatrão e destroços aguentaram-se quedos apesar de toda a força da tua voz. As asas de Londres, essas, ardiam como um dirigível alemão.

31 de dezembro de 2005

partida


por Luís Ventura em 1000 imagens


Vai cair a chuva sobre mim e não vou ceder um milímetro que seja do meu espaço. Caia a água vagarosa inundando a ferrugem dos carris, que eu fico aqui, nesta espera contínua. É o vento que lavra a terra batida e fustiga a erva dura, escura. O ar entristece-se com a partida, é um bocejo frio que se enrola num cigarro. Há-de chegar o comboio, e eu sei esperar. Quando o relógio for mais velho no mundo, ou um vagido reclamar a recontagem do tempo, estarei por aí. Ao abrir das garrafas. Na explosão das cores e dos céus.

A chuva já cai, escorrem pequenos ribeiros da minha cabeça para dentro do meu corpo, como se as veias se virassem do avesso, bombeadas pelo acaso, e o sangue vítreo da cor do nada. Da cor da partida.

E assim parece-me que o fim tem na sua cauda a semente de um princípio de tudo, para lá de tudo, para lá de mim agora aqui encharcado, sem ceder um milímetro do meu espaço. Se cedesse, deixaria que o pavor tomasse conta de mim, arrumando-me a um canto de pardas solidões. Talvez para sempre. Mas deixo-me estar firme como a pedra, que nem é dura sob a água que nem é mole. Não perderei a minha carruagem, e levo na bagagem alguns segredos.

Guarda-te para mim. Se ouvires as badaladas, não te enganes: serão os meus passos de sempre, antecedendo a envergadura da sombra do meu capote inundado.

30 de dezembro de 2005

telegrama


foto de Marco Ricca em 1000 imagens


Eu venho escutar-te a limpidez dos lábios. A tua boca que diz silêncio ao meu lado prostrada, encarando o acaso com um sorriso nos olhos. Observo o teu pescoço e sinto o sangue que te aquece. Não me indicas qualquer caminho, deixas-me à mercê das mãos que são como esquilos assustados pelas sombras. E a melodia prossegue, mesmo não ouvindo a tua voz. Mesmo sem que digas o que gostaria tanto de ouvir e porém com medo. Tenho medo que me percas algures, por isso talvez o silêncio seja a melhor estratégia. O amor proibido tem assim estas crisálidas, não se sabe nunca no que vai transformar-se. Fosse como a metamorfose das palavras, abrir-se-iam infinitos caminhos. Não é. O amor proibido também não existe, afinal. O que existe somos nós e a tua boca que não encontra a minha. E é só isso.

27 de dezembro de 2005

milímetro


O Canto dos Anjos, por Armando Dias em 1000 imagens


É difícil escolher-te agora as palavras. Dizer-te gosto de ti seria tão banal como indicar-te que tens uma nódoa na camisola. Ou uma unha quebrada. Ou uma pestana morta sobre o teu rosto. Tudo tem passado incólume à exactidão dos sentimentos: vejo-te, toco-te, ouço-te e nada me parece ter qualquer significado. Nem mesmo o teu olhar apontando lá fora a chuva que cai aos poucos, numa preguiça diagonal. Nem mesmo a tua mão que surge de surpresa como quem vem à socapa resgatar uma carícia. Sabes, se o mundo pudesse ser um milímetro que fosse mais além ou mais aquém, talvez as palavras tivessem já desencadeado a força necessária para o amor, mas no mundo nada se mexe – nem para cá nem para lá. E parece-me que, a ser assim, poderás ter sempre uma nódoa na camisola para limpar, uma unha para limar, uma pestana que exija a paciência minuciosa para a remover sem que te magoe o rosto. Mas gostar de ti, e dizê-lo, seria tão improvável quanto entrasses agora pela porta e afirmasses, com uma certeza de eternidade, que afinal gostarmos um do outro sempre fez parte do mundo tal qual ele é, sem milímetros a mais ou a menos.

30 de novembro de 2005

nem sempre são as palavras


Julie, de Filipe Oliveira em 1000 imagens

- Nem sempre são as palavras que dizem.
- Que dizem o quê?
- Tudo. Nem sempre são as palavras.
- Queres dizer também o olhar?
- E o rosto, principalmente o rosto.

Lágrima
O Rosto é Lágrima.
Frio Orvalho.
Sentimento, Criação.
Espírito.
Tarde
O Rosto é a Tarde
Desejo que Arde.


É a brisa que traz até mim o perfume dos teus cabelos, o perfume que nunca senti, que não conheço. É a memória do teu rosto o fogo ateado no meu peito que vem consumindo as tardes. É a noite em que te busco cego sem sair deste lugar onde escrevo sem lua sem estrelas, sabendo que não vou encontrar-te. É um bocejo, um quadro sobre a ponte, o rio, cidade onde tudo é nada, mas principalmente um beijo que dos teus olhos chega até mim como flor que perde as suas pétalas, em forma de dúvida, a questão de saber o que queremos. Sei já que sabes que mesmo no nada sabemos um do outro. Sabemos desta fresca manhã que desperta no cruzar fugaz dos olhares. Sabes já, tanto quanto eu, que a tua mão permanecerá fria. Que o calor do meu peito não te aconchegará. Que de ambos o afago não tocará nem de leve nossos corpos...

26 de novembro de 2005

pela humidade dos lábios


Anjo, de Paulo Almeida em 1000 imagens

para a Marta Nogueira


Fumo sobre um copo de whisky que tem a humidade dos meus lábios. Tinha a quase certeza que aceitarias o meu convite, mas a cidade era um aglomerado deserto de gente sem a tua presença. Não sei se pelo sol tímido, se pelas nuvens plúmbeas que ameaçavam o encanto breve da praça, se pelo frio que obrigava os passos das pessoas naquele ritmo ligeiro sem olhar o rosto dos outros – era uma cidade sem carne, sem sangue. As tuas mãos não estavam lá, para me proteger, para me encaminhar.

E desencaminhado retrocedi toda a marcha da tarde, acabando neste cubículo onde enfim me incenso. O whisky convidou-me numa solenidade aristocrática para que, de resto, não apagasse a luz da tarde só. O tampo da mesa teria poesia para te recitar, talvez dois ou três versos me saíssem das mãos a agradecer-te a presença. E o meu rosto teria uma ternura de criança, emocionada com o tom da tua voz, como se essa criança quisesse o embalo do teu colo.

Não estiveste, não vieste. Voaram os pássaros, recolhidos numa pluma de sono quando a tarde caiu. Fiquei com a memória vaga de ti, e numa atitude digna

(porque o whisky quis que me rendesse à sua condição aristocrática)

acendi o cigarro sem convulsões, sem qualquer lágrima, apenas a postura lamechas de ir fumando sobre o copo que tem a humidade dos meus lábios. Sem os teus, sem os teus... Uma humidade salgada, pois que talvez os lábios também chorem. Quando te encontrar, nada te direi – estarei enrolado numa pluma de pássaro para que sejas tu a tomar a iniciativa de entrar no meu sono. Se vieres então

(sem whiskies, sem cigarros, sem poesia – e sem qualquer inclinação lamechas)

tomarei o teu corpo debaixo do meu para respirar brisas de uma primavera ainda longe dos calendários.

21 de novembro de 2005

diferente sempre


(autor desconhecido)

É diferente sempre o que pensas de mim. Arrumo-te a um canto da boca a soletrar patetices como quem desfolha o malmequer na esperança que a conta lhe abra portas esotéricas para um amor de todo impossível. A música rompe num lamurio de lágrimas contidas, como se a raiva fosse possível neste espaço. Olha que não é… Rasgas o papel numa incontinência de frustrações e nada te devolve o sossego. E assim se conhece um pateta: o olhar esbugalha-se perante o que não conheces, o que pensavas não ser possível. Estás na exacta posição de rato de cobaia, serves-me na experiência de que o ser humano é um bicho amedrontado pela solidão. E a solidão nada mais é que uma simples sombra. E debitadas a frustrações, não te lembras que onde há uma sombra há uma luz por onde poderias sempre fugir. Porém nunca saberias como fugir de ti mesmo, não é verdade? Como seria? Um grito? Uma carta de suicídio? Penso que talvez a cobardia, como qualquer ser humano…

15 de novembro de 2005

de pé

Aguenta-te como as árvores. Dizem que morrem de pé, escancarando a boca dos ramos num esgar de perene agonia. E sem mudar de figura secam até ao esqueleto, depois de levadas a enterrar no húmus do tempo. Se as esquecem, serão ingratos. Por isso deves aguentar-te firme, assim como uma árvore. Ignorando intempéries, catástrofes de maior calibre. Cada dedo teu o ramo que deixará, ano após ano, de ver nascer as folhas dos teus gestos. Secarás até ao esqueleto, e se o tempo também te recolherá, terás ainda o perfume da terra que te plantará na língua toda a eternidade.

Por isso, em vez de pensares em tudo o que te digo e te lembrarei consoante o embalo do vento, faz com que floresça o que és, e te amadureça no peito o melhor do fruto. Se te esquecerem, morrerão de fome, deitados como qualquer folha velha varrida na sarjeta. Porque as árvores, pois que são nobres se nos dão a sombra e o fruto, morrem de pé. Não tenhas medo da tua boca escancarando o mundo.

Latirão os cães o dobrar dos finados. Deles não se esquecerão nunca.

2 de novembro de 2005

passarão os dias


foto de Jorge Marçoa em 1000 imagens


E passarão os dias e a voz quieta. O sono será talvez mais profundo, e a memória não quererá guardar o resquício dos sonhos desbaratinados. Virão outros dias, e de braços mais vigorosos, com a voz limpa e cristalina a debitar os mesmos delírios que me ouvias ontem divagar prostrada na tua paciência inclinada para a efemeridade.

Como se dissesses Cala-te!, e o meu ar amedrontado te desse a força que precisas para impor a tua presença neste meu mundo que te ignora constantemente.

Passarão os dias e verás que o que fizeres será em vão. Este é apenas um estado de crisálida que inventei, uma série de nuvens negras que deixo abater-se sobre o meu corpo, e que por sua vez procura o abrigo do teu – tão calmo, tão tenro, materno até.

Quando acordar não será necessário que me faças calar, a minha voz tomará as asas a que um dia lhe tiraste o vigor do voo, e nessa altura, estarei pois de voz limpa e cristalina para calar definitivamente, dentro de ti, os fantasmas e as sombras com que me sacodes diariamente.